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Transcrição:

Curso Online MEDIUNIDADE & ESPIRITUALIDADE com Maísa Intelisano Aula 02 - O que é Mediunidade Bloco 01 Maísa Intelisano

AULA 2 O QUE É MEDIUNIDADE BLOCO 1 Reflexões sobre trechos de O Livro dos Médiuns Por que estudar Allan Kardec e suas obras Contexto cultural, social e histórico de Kardec e suas obras Olá. Nesta aula, além desta reflexão, vamos definir mediunidade, a partir do conceito criado por Allan Kardec em 1861; vamos falar dos conceitos de mediunidade natural e mediunidade de tarefa, criados por Edgard Armond na década de 50; e também traçar um breve histórico dos fenômenos mediúnicos ao longo da história da humanidade. Prontos para começar nossa viagem? Allan Kardec, pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, foi o codificador do Espiritismo, a primeira pessoa na história a estudar de forma científica e sistematizada os fenômenos espirituais humanos, e a criar um conjunto organizado desses conhecimentos. Antes dele, nenhum outro estudo formal estruturado havia sido feito nessa área. E Kardec fez isso consultando, nada mais, nada menos, do que os próprios espíritos, manifestados em diferentes médiuns, em várias ocasiões. Kardec viveu na França positivista do séc. XIX; cientista e pedagogo, era aluno de Pestalozzi; e sofreu grande influência da cultura e da ciência de sua época: uma Europa vitoriana, marcada por forte presença do Cristianismo, especialmente da Igreja Católica. Foi contemporâneo de Helena Blavatsky e muito influenciado por ela. Ele já estava com 50 anos quando, pela primeira vez, ouviu falar das chamadas mesas girantes, fenômeno pelo qual mesas pesadas de madeira maciça moviam-se sozinhas pelo ambiente. As sessões das mesas girantes eram eventos sociais na época, para os quais as pessoas recebiam, inclusive, convites impressos. E, em 1855, Kardec foi convidado, pela primeira vez, para uma dessas reuniões. Os fenômenos chamaram sua atenção e, quanto mais comparecia às reuniões, mais se convencia de que, por trás dos fenômenos, havia algo mais do que simples magnetismo animal, como se acreditava na época. A partir daí, em pouco tempo, ele descobriu que, de fato, as mesas eram inteligentes e respondiam, de forma perfeitamente lógica e sensata, a perguntas que lhes eram feitas. E, logo, começou a falar com os espíritos, recebendo, inclusive, informações de cunho pessoal, das quais os médiuns não tinham como saber. Estava despertado o lado curioso, estudioso e científico de Kardec para os fenômenos espirituais. Os primeiros estudos deram origem a O Livro dos Espíritos, publicado em 1857, o primeiro livro da codificação espírita, em que ele faz um estudo minucioso da condição humana e das leis que regem nossa existência, do ponto de vista espiritual, sempre a partir de respostas que os próprios espíritos deram a perguntas que ele mesmo formulou e repetiu várias vezes. Em seguida, já em 1861, é publicado, então, O Livro dos Médiuns, o segundo da codificação. Nesse livro, Kardec faz um estudo extremamente detalhado dos fenômenos mediúnicos, descrevendo-os, classificando-os e discorrendo sobre suas peculiaridades. O texto que estudamos hoje em nossas reflexões são trechos desse livro, em que ele fala do próprio livro e sobre os médiuns. E por que ler Kardec num curso que não pretende ser ligado a nenhuma religião? Primeiro porque ele é o responsável pela criação do termo médium e sua definição mais precisa, que consta do trecho que estudamos 2

aqui e não existia antes dele, e isso nos situa, do ponto de vista histórico. E segundo porque Kardec foi a primeira pessoa a observar e estudar os fenômenos espirituais de forma científica, de acordo com a ciência que ele conhecia e se fazia naquela época. Sendo ele pedagogo e educador, suas descrições são muito didáticas. Sendo cientista, seus registros têm o cuidado, a isenção e o detalhamento da ciência da época. E tendo ele formação em Letras, sua organização textual é primorosa, facilitando muito o nosso estudo. Se observarmos com atenção os dois livros citados acima, embora fale em Deus, em nenhum deles Kardec fala em religião. Em nenhum momento, ele associa a espiritualidade a qualquer linha ou doutrina religiosa. Muito pelo contrário, ele se mantém o mais isento possível em todo o texto. Sua intenção, portanto, nunca foi criar uma religião. Muito menos criar uma religião cristã ou evangélica, como o Espiritismo que passou a ser praticado no Brasil no séc. XX e ainda hoje se pratica. Falando especificamente de O Livro dos Médiuns, em nenhum trecho ou item ele trata a mediunidade como algo religioso, nem faz qualquer associação com religião. Pelo contrário, ele fala de mediunidade como capacidade natural que todo ser humano apresenta, em maior ou menor grau. Sendo o primeiro grande trabalho sistemático e organizado de estudo da mediunidade e dos fenômenos espirituais, é material de referência importante e básico para todo aquele que pretenda saber mais sobre o intercâmbio com o mundo espiritual. Especialmente no Brasil, onde eu arriscaria dizer que é praticamente impossível estudar mediunidade sem estudar Kardec, sem considerar o estudo detalhado feito por ele e que tanto influenciou grupos mediúnicos em todo o país. Além disso, ele dá definições importantes que vão nortear muito do nosso estudo ao longo do curso. Muitos no Brasil sabem quem é Allan Kardec, mas poucos conhecem, de fato, com profundidade, o seu trabalho. O que é uma pena, na verdade. Alguns aspectos importantes sobre Kardec e seu trabalho com a espiritualidade: 1. Como dito acima, em seus dois primeiros livros, embora fale de Deus, ele jamais falou em religião. Sua intenção nunca foi associar seu trabalho a qualquer linha religiosa, nem fundar qualquer religião. O nome Espiritismo ele criou apenas para diferenciar o estudo que fazia do espiritualismo comum que abrange todas as linhas religiosas. 2. Por pressão da sociedade e da igreja da época, sendo intensamente perseguido por religiosos em vários locais da Europa, tendo inclusive livros queimados em praça pública, Kardec, para não ver seu trabalho destruído e abafado, é obrigado a fazer concessões e, em 1864, sete anos depois da publicação de O Livro dos Espíritos e três anos após a publicação de O Livro dos Médiuns, publica então O Evangelho Segundo o Espiritismo, no qual faz uma releitura, uma reinterpretação de passagens de Jesus pela ótica espírita. Portanto, somente dez anos depois de começar a estudar os fenômenos espirituais é que ele cede à pressão religiosa e, para não perder tudo o que já tinha feito até ali, escreve um livro de cunho religioso. O que demonstra claramente que seu intuito nunca foi religioso, como fazem parecer alguns de seus seguidores. Muito provavelmente, se a Europa, na época, fosse muçulmana, por exemplo, ele teria escrito O Corão Segundo o Espiritismo, e não O Evangelho Segundo o Espiritismo... 3. Embora com algumas variações de nomenclatura e diferenças na forma, os fenômenos mediúnicos estudados hoje são praticamente os mesmos estudados por ele à sua época, tornando seu trabalho um material de estudo completo e indispensável. 3

4. Sua influência no Brasil é marcante, não só pela difusão que o Espiritismo alcançou no país, mas também pela importância que tem na formação da única religião 100% brasileira: a Umbanda, uma mescla do Catolicismo português, com os rituais africanos, as práticas xamânicas indígenas e os conhecimentos espíritas. 5. Kardec nunca disse que seus estudos estavam completos ou eram definitivos. Pelo contrário, em A Gênese, ele afirma que o Espiritismo, caminhando com o progresso, não será jamais ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem que está em erro sobre um ponto, modificar-se-á sobre esse ponto; se uma nova verdade se revela, ele a aceita. Ou seja, ele reconhece que está limitado ao conhecimento e à ciência de sua época, e que novas descobertas viriam, complementando, corrigindo ou modificando o que ele pôde apresentar. E é interessante que ele tenha feito essa afirmação justamente no livro A Gênese, o qual se encontra hoje bastante ultrapassado em termos científicos, como previu. 6. Sua limitação pela época em que viveu, o conhecimento disponível de então, os preconceitos vigentes (religiosos, sociais e científicos), de modo algum anulam seu trabalho. Apenas o situam. E, para que possamos fazer um bom proveito de tudo o que eles nos deixou, é importante que tenhamos sempre em mente esse contexto social, histórico, cultural e científico em que realizou seu trabalho de apenas 15 anos, os últimos de sua vida. Há, nos meios espiritualistas, bastante preconceito contra Kardec, muito por causa da forma como alguns espíritas passaram a interpretar suas palavras. Precisamos nos lembrar de que Kardec é uma coisa e quem o segue é outra, totalmente diferente. Não podemos tomar Kardec pelo que dizem seus seguidores. É preciso estudá-lo com isenção e atenção, da mesma forma como ele mesmo estudou os fenômenos espirituais. Estas reflexões têm por objetivo, justamente, despertar seu interesse e curiosidade sobre o trabalho de Kardec, especialmente pelos dois primeiros livros da codificação. Espero que eu tenha conseguido! 4