Transitional Metaplasia in Cervical Smears: a Case Report

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Transcrição:

Transitional Metaplasia in Cervical Smears: a Case Report Ferreira F 1 * Ɨ, Ferreira M 1 Ɨ, Fialho C 2, Amaro T 2 1 School of Allied Health Technologies - Polytechnic Institute of Porto (ESTSP-IPP), Portugal 2 Pathology Department of Pedro Hispano Hospital, Local Health Unit of Matosinhos, Portugal Ɨ These authors have contributed equally to this work Received: March 2016/ Published: April 2016 *Corresponding author: Filipa Ferreira filipaferreira95@outlook.pt ABSTRACT The transitional metaplasia of the cervix is a benign condition that is associated with atrophy and occurs in peri and postmenopausal women. This case reports a conventional cervical cytology stained by Papanicolaou method from of a 57 years old woman, whose diagnosis was Atypical Squamous Cells not excluding High Grade Intraepithelial Lesion (ASC-H). Subsequent histological examination revealed transitional metaplasia of the epithelium. The transitional metaplasia has features that can be mistaken for squamous cell atypia, making cytological interpretation difficult. The most crucial features for identification and distinction from lesions are the absence of cytological atypia and the presence of longitudinal folds in the nuclei, although these are not specific for this condition. Key-words: cervical cytology, conventional smear, transitional metaplasia, pitfall 19

Metaplasia Transicional em Citologia Cérvico-vaginal: um Estudo de Caso Ferreira F 1 Ɨ, Ferreira M 1 Ɨ, Fialho C 2, Amaro T 2 1 Escola Superior de Tecnologia da Saúde - Instituto Politécnico do Porto (ESTSP-IPP), Portugal 2 Serviço de Anatomia Patológica, Unidade Local de Saúde de Matosinhos EPE, Portugal Ɨ Estes autores contribuíram de igual modo na realização do trabalho Recebido: março 2016/ Publicado: abril 2016 *Autor correspondente: Filipa Ferreira filipaferreira95@outlook.pt RESUMO A metaplasia transicional cérvico-vaginal é uma condição benigna que está associada com atrofia e ocorre em mulheres na peri e pós-menopausa. O caso em análise reporta uma citologia cérvico-vaginal convencional corada pelo método de Papanicolaou de uma mulher de 57 anos de idade, cujo diagnóstico foi Células Pavimentosas Atípicas não excluindo Lesão Intraepitelial de Alto Grau (ASC-H). Posteriormente, o exame histológico revelou metaplasia transicional. A metaplasia transicional apresenta características citológicas que podem ser confundidas com atipia de células pavimentosas, dificultando a sua interpretação citológica. As caraterísticas mais determinantes para a sua identificação e distinção de situações de lesão são a ausência de atipia citológica e a presença de fendas longitudinais, apesar de estas não serem específicas desta condição. Palavras-chave: citologia cérvico-vaginal, esfregaço convencional, metaplasia transicional, pitfall 20

HISTÓRIA CLÍNICA O caso em análise corresponde a uma mulher de 57 anos de idade, em menopausa desde os 53 anos, com citologias negativas para lesão intraepitelial ou malignidade (NILM) até 2009. Em fevereiro de 2011 fez uma citologia cérvico-vaginal convencional com diagnóstico de ASC-H. Em junho de 2011 foi submetida a conização com alterações de cervicite crónica. Em dezembro de 2011 fez histerectomia total cujo diagnóstico final foi metaplasia transicional. Achados Citológicos Fig. 2 - Grupo celular em sincício com aumento da relação núcleo-citoplasma, hipercromasia nuclear e desorganização celular (esfregaço convencional, coloração de Papanicolaou, 40x). Na citologia cérvico-vaginal corada por Papanicolaou, observa-se um padrão atrófico num fundo hemático e no qual estão presentes grupos de células em folhetos coesos (Fig.1). Fig. 3 - Grupo celular que apresenta polimorfismo e aumento da relação núcleo/citoplasma (esfregaço convencional, coloração de Papanicolaou, 40x). Fig. 1 - Padrão atrófico geral do esfregaço (esfregaço convencional, coloração de Papanicolaou, 10x). Em grande ampliação, observam-se grupos de células em formação sincicial com relação núcleo/citoplasma aumentada cerca de três vezes, com hipercromasia, padrão de cromatina irregular e desorganização celular (Fig.2). Existem grupos de células com pleomorfismo e hipercromasia nuclear (Fig.3) e ainda aspetos sugestivos de fendas longitudinais (Fig.4). As caraterísticas citológicas descritas foram interpretadas como células pavimentosas atípicas não excluindo lesão intraepitelial de alto grau (ASC-H). Fig. 4 - Grupo celular em sincício com aumento da relação núcleo-citoplasmática, nos quais são visíveis fendas longitudinais (seta) (esfregaço convencional, coloração de Papanicolaou, 40x). 21

Achados Histológicos Na conização, o exame histológico evidenciou cervicite crónica, com alterações citopáticas sugestivas de infeção por HPV, sem displasia. Na peça de histerectomia, observou-se colo uterino com epitélio pavimentoso espessado, alguma desorganização celular com células de núcleos ovóides, com fendas longitudinais e com baixo índice proliferativo pelo Ki67, características de epitélio atrófico com metaplasia transicional (Fig.5). Fig. 5 - Colo uterino com metaplasia transicional. Epitélio pavimentoso, espessado e com alguma desorganização. Alguns núcleos com fenda longitudinal (seta) (H&E, 40x). ANÁLISE E DISCUSSÃO DO CASO A metaplasia transicional cérvico-vaginal é uma condição benigna subvalorizada que ocorre no colo uterino, geralmente em mulheres na peri ou pós-menopausa, associada ou não a atrofia. Este processo fisiológico atinge normalmente o exocolo, podendo envolver a zona de transformação e em casos mais raros, a vagina. A metaplasia transicional em citologias cérvico-vaginais é rara, sendo principalmente descrita em amostras histológicas. Esta entidade citológica pode ser confundida com achados não benignos e simular lesão intraepitelial de alto grau (HSIL) ou ASC-H 1-3. A metaplasia transicional pode ser resultado da influência de estímulos externos irritantes crónicos, químicos, inflamação/infeção, alterações endócrinas e reparativas. A metaplasia pode resultar da hiperplasia de células basais de reserva na junção escamo-colunar com transformação em epitélio pavimentoso estratificado metaplásico maturo ou imaturo 2,3. As características citológicas da metaplasia transicional incluem grupos de células basais e parabasais em folhetos coesos com arranjo sincicial, com núcleos que podem ser ovais ou fusiformes, normalmente com cromatina fina e fendas longitudinais, e por vezes com presença de halos perinucleares. Esta entidade pode ser confundida com achados não benignos devido principalmente ao arranjo sincicial dos grupos celulares 1. Na metaplasia transicional normalmente estão ausentes critérios lesionais, tais como contornos nucleares irregulares, cromatina grosseiramente distribuída, atipia citológica ou atividade mitótica 1-4. O caso descrito reflete a dificuldade de identificação de metaplasia transicional em amostras citológicas ginecológicas, representando assim um pitfall da citologia ginecológica. Isto leva a uma abordagem terapêutica mais agressiva do que seria necessário, pois como consequência da interpretação citológica de ASC-H é recomendada a realização de colposcopia e eventual biópsia 5, o que não é necessário nos casos de metaplasia transicional por se tratar de uma condição benigna. O reconhecimento deste tipo de metaplasia, das suas características citomorfológicas e a informação clínica adequada são fundamentais para o diagnóstico correto em citologia cérvico-vaginal. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Weir MM, Bell DA. Transitional cell metaplasia of the cervix: a newly described entity in 22

cervicovaginal smears. Diagn Cytopathol. 1998 Mar; 18(3):222 6. 2. Kurman R, Ronnett B, Sherman M, Wilkinson E. Tumors of the Cervix, Vagina and Vulva. Série 4. Washington, DC, ARP PRESS, 2010 3. McKee GT. Cytopathology. London: Mosby- Wolfe; 1997. 4. Duggan MA. Cytologic and Histologic Diagnosis and Significance of Controversial Squamous Lesions of the Uterine Cervix. Mod Pathol. 2000 Mar; 13(3):252 60. 5. Wright TC, Massad LS, Dunton CJ, Spitzer M, Wilkinson EJ, Solomon D. 2006 Consensus Guidelines for the Management of Women With Abnormal Cervical Screening Tests. Journal of Lower Genital Tract Disease. 2007;11(4):201-222. 23