Noções de Direito e Legislação em Informática Professor responsável: Marcelo Almeida Gonzaga Legislação aplicável a crimes cibernéticos A informática através da grande rede da internet se tornou um evento cada vez mais presente no nosso cotidiano e seu espantoso crescimento e a difusão em todo o mundo faz com que não possamos ignorar a reflexão sobre o aspecto criminal das condutas praticadas por esse meio, essa preocupação se torna ainda mais necessária quando discutimos o papel da informação jurídica como um bem social, intimamente ligado a segmentos do Poder Público que devem prezar pelo respeito ao princípio da legalidade dentre outros que regem o ordenamento jurídico. Apesar dos benefícios trazidos com o advento da internet, condutas transgressoras de princípios morais e éticos bem como crimes já tipificados e nova modalidade de crimes também acompanharam a evolução de modo que o anonimato da rede mundial de computadores e à falta de tipificação de tais crimes facilitassem o cometimento desses ilícitos, trazendo uma modalidade de crime virtual que aumenta consideravelmente principalmente no Brasil, de forma a obrigar a população e as autoridades a buscarem mecanismos de prevenção contra os crimes e sanção para os criminosos. Tal como a criminalidade tradicional, a cibercriminalidade pode assumir muitas formas e pode ocorrer quase a qualquer hora ou lugar. Os criminosos cibernéticos usam métodos diferentes segundo suas habilidades e seus objetivos. Nesse sentido e objetivando adequar o direito às mudanças tecnológicas que transformam continuamente a sociedade (ubi societas, ibi jus), foi editada a Lei nº 12.737/2012, apelidada de Lei Carolina Dieckmann, que dispõe sobre a tipificação criminal de delitos informáticos; altera o Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal; e dá outras providências, visando suprir o vácuo legislativo que anteriormente havia sobre o tema, lembrando que o crime constitui fato típico, devendo todas as suas nuances estarem previstas especificamente na norma, sob pena de atipicidade da conduta. Conceito de crime cibernético Segundo a doutrina nacional, os crimes cibernéticos (também chamados de eletrônicos ou virtuais), dividem-se em puros (ou próprios), ou impuros (ou impróprios), sendo os primeiros os praticados por computador e se realizem ou se consumem também em meio eletrônico, na qual a informática é o objeto jurídico tutelado, e os segundos aqueles em que o agente se vale do computador
como meio para produzir resultado naturalístico, que ofenda o mundo físico ou o espaço real, ameaçando ou lesando outros bens diversos da informática. Legislação aplicável Anteriormente ao ano de 2012, a falta de legislação específica tornava muito difícil a apuração dos crimes virtuais, uma vez que a legislação até então vigente havia sido direcionada aos crimes de forma geral, independentemente do meio utilizado para a sua prática. Nesse sentido, podemos citar, dentre outros, o Código Penal (CP), o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069/90) e Lei dos crimes de software (ou lei antipirataria, Lei n. 9.609/98) e a Lei de Segurança Nacional (Lei nº 7.170/83). Dessa forma, ante a não especificidade da legislação, era muito difícil a identificação dos sujeitos e a obtenção de provas para a condenação criminal quanto aos crimes virtuais, que exige certeza. Entretanto, no mês de maio de 2012, foi notícia na mídia a divulgação de imagens da intimidade da atriz Carolina Dieckmann em diversos sítios eletrônicos da rede mundial de computadores, o que causou uma grande comoção social, o que abriu campo para a edição da Lei n. 12.737, de 30/11/2012, publicada no DOU de 03/12/2012, com vacatio legis de 120 (cento e vinte) dias, apelidada de Lei Carolina Dieckmann, que, dentre outras providências, dispôs sobre a tipificação criminal dos delitos informáticos, introduzindo os artigos 154-A, 154-B, e alterando os artigos 266 e 298, todos do Código Penal. É importante destacar o art. 154-A do Código Penal, que trouxe para o ordenamento jurídico o crime novo de Invasão de Dispositivo Informático, consistente na conduta de invadir dispositivo informático alheio, conectado ou não à rede de computadores, mediante violação indevida de mecanismo de segurança e com fim de obter, adulterar ou destruir dados ou informações sem autorização expressa ou tácita do titular do dispositivo ou instalar vulnerabilidades para obter vantagem ilícita. A pena prevista para o crime simples é de detenção de 3 meses a um ano e multa, havendo, entretanto, a previsão das formas qualificada e causas de aumento de pena. Esmiuçando o art. 154-A do CP, chega-se ao bem jurídico tutelado como sendo a liberdade individual, a privacidade e a intimidade das pessoas como um todo. O crime em questão é comum, o sujeito ativo do crime cibernético pode ser qualquer pessoa (física ou jurídica, de direito público ou de direito privado), o mesmo se dizendo em relação ao sujeito passivo, que pode ser qualquer pessoa passível de sofrer dano moral ou material decorrente da violação do seu sistema de informática.
O tipo objetivo é o misto alternativo, sendo um crime de ação múltipla ou conteúdo variado, apresentando os núcleos invadir e instalar, podendo o agente praticar ambas as condutas e responder por crime único, desde que num mesmo contexto. Quanto à culpabilidade, a conduta criminosa do crime cibernético caracteriza-se somente pelo dolo, não havendo a previsão legal da conduta na forma culposa. Relativamente à consumação e tentativa, o crime do caput do art. 154-A é formal, que se consuma com a mera invasão ou instalação de vulnerabilidade, não sendo importante para a consumação a obtenção ou não da vantagem ilícita pelo agente. Já na forma qualificada (art. 154, 3º, do CP), referida abaixo, o crime é material, pois exige para a consumação a obtenção efetiva de conteúdo ou o controle remoto não autorizado do dispositivo. O art. 154-A, 1º, do CP, por seu turno, prevê a forma equiparada do crime cibernético, incriminando com a mesma pena do caput a conduta de quem produz, oferece, distribui, vende ou difunde dispositivo ou programa de computador com o intuito de permitir a prática da conduta definida no caput, sendo esse, também, um crime de ação múltipla que exige dolo específico, tal qual o caput do art. 154-A do CP. O art. 154-A, 2º, do CP prevê causa de aumento de pena de um sexto a um terço, no caso da ocorrência de prejuízo de caráter econômico/financeiro para a vítima, sendo tal causa de aumento aplicável somente para a forma simples do delito, e não para a forma qualificada, prevista no parágrafo seguinte, em razão da topografia do dispositivo em comento. O art. 154-A, 3º, do CP prevê pena e regime prisional diferenciado (seis meses a dois anos de reclusão e multa) para as seguintes hipóteses: 1) quando a invasão possibilitar a obtenção de conteúdo de comunicações eletrônicas privadas; 2) quando possibilitar a obtenção do conteúdo de segredos comerciais ou industriais; 3) quando possibilitar a obtenção do conteúdo de informações sigilosas, assim definidas em lei; e 4) quando possibilitar o controle remoto não autorizado do dispositivo invadido. Ressalte-se que as figuras qualificadas acima descritas configuram crime subsidiário, de subsidiariedade expressa, pois que em seu preceito secundário prevê a norma que ela somente será aplicada se a conduta não constitui crime mais grave. Por fim, os parágrafos 4º e 5º, I a IV, do CP, preveem causas de aumento de pena, aplicáveis somente para a forma qualificada do delito ( 3º, do art. 154-A, do CP). Quando levantamos a questão da tipificação dos crimes virtuais no ordenamento jurídico Brasileiro, pensamos logo em precariedade, mas muitos não sabem que a legislação Brasileira alcança de 90 a 95% os crimes praticados no âmbito virtual em nosso país, pois os crimes praticados por meio do computador para realização do delito mais conhecido como a modalidade de crimes próprios são normalmente já tipificados em nosso Código Penal.
Frente a essa situação alguns exemplos de crime elencados em um quadro elaborado pela DRCI -Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática que enumerou as modalidades de atos ilícitos cometidos por meio de internet e que já possuem previsão legal. TIPO PENAL DISPOSITIVO LEGAL APLICÁVEL Calúnia...Art. 138 do Código Penal ( C.P. ) Difamação... Art. 139 do C.P. Injúria...Art. 140 do C.P. Ameaça... Art. 147 do C.P. Furto... Art. 155 do C.P. Dano...Art. 163 do C.P. Apropriação indébita...art. 168 do C.P. Estelionato...A.rt. 171 do C.P. Violação ao direito autoral... Art. 184 do C.P. Pedofilia... Art. 247 da Lei 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente) Crime contra a propriedade industrial...art. 183 e segs. da Lei 9.279/96 Interceptação de comunicações de informática... Art. 10 da Lei 9.296/96 Interceptação de E-mail Comercial ou Pessoal...Art. 10 da Lei 9.296/96 Crimes contra software - Pirataria...Art. 12 da Lei 9.609/98 Esses crimes em sua maioria são cometidos por meio da internet, mas não necessariamente por esse meio, portanto a previsão legal em sua maioria não o trata como crime virtual e sim como crime penal ao qual independente do meio utilizado para sua consumação se for realizado será enquadrado na lei penal em questão. Ocorre que não basta apenas iniciativa para punição dos crimes virtuais visto que essa nova modalidade é de difícil tipificação, certo que tratando a internet não como um meio e sim como incidente de um novo tipo penal, temos crimes específicos que surgiram com o advento do computador e da internet que ainda não estão devidamente previstos em nossa legislação são os chamados crimes próprios como já demonstrados, dentre eles estão alguns exemplos além dos já
citados na classificação como a invasão de sistemas, proliferação de vírus, divulgação de conteúdos não autorizados, entre outros. A partir do que fora abordado que este é realmente um tema de grande repercussão na atualidade, qual seja: crimes cibernéticos no ordenamento jurídico brasileiro e a necessidade de legislação específica.com a Revolução Tecnológica e o surgimento de vários mecanismos que viabilizaram maior interação e comodidade para as pessoas também surgiram novas modalidades criminosas, crimes cibernéticos, fazendo com que haja latente insegurança virtual. Porém o ordenamento jurídico do Brasil ainda não se mostra eficaz para proteger as pessoas que utilizam os meios tecnológicos. Não apresentam meios para punir todas as condutas criminosas que ocorrem no cenário virtual. Portanto, o combate aos crimes de informática se faz necessário nos levando a refletir sobre quais seriam os meios de contingência que poderiam levar a sociedade a maior segurança.