Inquérito para apuração de falta grave 1

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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DA VARA DO TRABALHO DE PARANAGUÁ PR

Transcrição:

Inquérito para apuração de falta grave 1 1. Conceito e peculiaridades Diante do art. 492 da CLT, verifica-se que o empregado que contar com mais de dez anos de serviço, na mesma empresa não poderá ser despedido, exceto por falta grave ou circunstância de força maior, as quais precisam ser devidamente comprovadas. Esta é a denominada estabilidade decenal ou estabilidade própria 2. Viveiros discorre acerca da justa causa e falta grave, afirmando que a justa causa é caracterizada pelas irregularidades cometidas por empregado que não cumpre as normas de trabalho e desobedece os preceitos expostos (...) falta grave é a justa causa cometida por empregado protegido por estabilidade 3. Para que possa ser extraída uma definição do vocábulo falta grave, ainda, é necessário analisar o art. 493 da CLT, que dispõe: Constitui falta grave a prática de qualquer dos fatos a que se refere o art. 482, quando por sua repetição ou natureza representem séria violação dos deveres e obrigações do empregado. A Constituição, em seu art. 7º, III, ao ditar o FGTS como regime único de todos os trabalhadores urbanos e rurais, acabou extinguindo o instituto da estabilidade decenal no ordenamento jurídico brasileiro. Assim, o inquérito judicial deixou de ser na prática utilizado para a estabilidade decenal ora discorrida, salvo com exceção aos trabalhadores não optantes pelo FGTS e admitidos antes de 5.10.1988 4. Todavia, o inquérito continua sendo utilizado para algumas espécies de trabalhadores, que podem ser dispensados, apenas, se comprovada a prática da falta 1 Tobias Damião Corrêa, advogado, professor de Processo do Trabalho do Curso de Graduação em Direito da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí). - Bruna Fernanda Bronzatti, aluna da Graduação em Direito da UNIJUÍ, estagiária do escritório Corrêa & Corrêa Advogados. 2 LEITE, Carlos Henrique. Manual de Processo do Trabalho. São Paulo: Atlas, 2014. 3 VIVEIROS, Luciano. CLT Comentada: Doutrina e Jurisprudência. 8 ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015. 4 LEITE, op. cit., 2014.

grave. Conforme elucida Martins 5, a comprovação da até então suposta falta grave do empregado estável é realizada através de inquérito judicial para apuração de falta grave, em que será verificada a procedência ou não da acusação (art. 494 da CLT). Salienta Martins que o inquérito para apuração de falta grave é uma ação proposta pelo empregador em face do empregado estável (art. 853 da CLT). Não é, portanto, inquérito administrativo, mas ação 6. Vale destacar, que a natureza jurídica do inquérito judicial é de ação constitutiva negativa, de natureza dúplice, através da qual o empregador solicita ao judiciário obreiro a autorização para resolver o contrato de trabalho do empregado, uma vez que esse somente poder ser validamente dispensado se cometer falta grave e for ela devidamente comprovado através de meio legítimo 7. Sob esse viés, ainda, destaca-se que a ação de inquérito é admissível somente contra o empregado estável: dirigente sindical (Lei n. 5.107/66), dirigente de cooperativa ou outros empregados beneficiados por estabilidade criada por convenção coletiva, acordo coletivo, decisão normativa ou cláusula de contrato individual de trabalho 8. Frisa-se que na hipótese de ocorrência de força maior, extinção da empresa, fechamento do estabelecimento, ou mesmo supressão necessária, é admitido que haja a dispensa dos trabalhadores estáveis, sem a incidência do inquérito, ou seja, sem autorização judicial, cujo entendimento é extraído dos arts. 497 e 498 da CLT 9. Na ação do inquérito é facultado, ao empregador, suspender o empregado, para que devidamente se apure os fatos que norteiam a ação. Na hipótese de suspensão, o prazo para interposição de trinta dias, começa a correr a partir do primeiro dia de 5 MARTINS, Sergio Pinto. Direito Processual do Trabalho. 34 ed. São Paulo: Atlas, 2013 6 Idem, p. 507. 7 LEITE, op. cit., 2014. 8 GIGLIO, Wagner D. CORRÊA, Claudia Giglio Veltri. Direito Processual do Trabalho. 16 ed. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 293. 9 Idem.

suspensão (art. 853 da CLT). É notório, que na práxis, na maioria da vezes, o empregado é suspenso. 2. Cabimento Em virtude da abolição da estabilidade decenal prevista no art. 494 da CLT, é cabível a ação de inquérito judicial em face de alguns empregados, que possuem situação regulada em lei ou mesmo no contrato individual, convenção ou acordo coletivo, que necessitam de comprovação de falta grave para que seja válida aresolução do contrato de trabalho, dentre eles podem ser citados: a) Os dirigentes sindicais (art. 8ª, VIII da CF e Súmula 197 do TST; b) Os representantes dos trabalhadores no Conselho Curador do FGTS; c) Os dirigentes de Cooperativa de Empregados (Lei n. 5.764/1971, no seu art. 55); d) Os representantes dos trabalhadores no Conselho Nacional de Previdência Social (Lei n. 8.213/1991, art. 3º, 7º); os representantes dos trabalhadores nas Comissões de Conciliação Prévia (art. 625-B, 1º). Além disso, acerca do servidor celetista, investido em emprego público da administração direta, autárquica ou fundacional através de concurso público, o sumulado do TST (Súmula n. 390, I), tem entendimento de que esse trabalhador adquire estabilidade depois de três anos de efetivo exercício, isso quer dizer que, é detentor da estabilidade prevista no art. 41 da Constituição 10. Diante disso, é visível que a sua dispensa será válida se realizdo o inquérito para a apuração da falta grave, interpretando-se analogicamente o art. 853 da CLT c/c os arts. 494 a 499 da CLT. Sob outra perspectiva, existem os servidores públicos celetistas da administração direta, autárquica ou fundacional que não são concursados, que, no entanto, de acordo com o art. 19 da ADCT, são tidos como estáveis no serviço público. Destarte, há doutrinadores que entendem ser plausível a ação de inquérito judicial para apuração da falta grave, enquanto outros, divergem nesse ponto. 10 LEITE, op. cit., 2014.

No que concerne aos servidores concursados de empresa pública ou sociedade de economia mista, a OJ n. 247 da SBDI-1 do TST cristaliza o entendimento, dispondo no item I que: despedida de empregados de empresa pública e de sociedade de economia mista, mesmo admitidos por concurso público, independe de ato motivado para sua validade. Assim, não é permitido que se utilize do inquérito, pois podem ser dispensados por qualquer motivação. Todavia, evidencia-se que é incabível o inquérito (art. 853 da CLT), quando figurar no polo passivo desta demanda especial 11 : a) empregado acidentado (disciplinado na Lei n. 8.213/1993, art. 118); b) empregada gestante (art. 10, II, b, ADCT); c) empregado membro da CIPA ou cipeiro (art. 10, II, a, ADCT); d) qualquer outro empregado com garantia de emprego (art. 7º, I, da CF; OIT, Convenção nº 158; Convenção ou Acordo Coletivo, dentre outros). Isso é evidente na jurisprudência do Superior Tribunal do Trabalho, no caso, por exemplo, de empregado acidentado: ESTABILIDADE ACIDENTÁRIA A condição de cipeira e empregada acidentada não implica necessidade de instauração de inquérito judicial para apuração da falta grave como condição para a dispensa motivada. Não se trata de renúncia à estabilidade provisória o cometimento de falta grave. A justa causa autoriza a demissão do empregado estável, por representar motivo para a dispensa. (TST - RR - 62800-65.2009.5.12.0042. Desembargador Convocado: João Pedro Silvestrin, 8ª Turma, Data de Publicação: DEJT 15/08/2014). Assim, nota-se que a doutrina e jurisprudência entendem que, para os casos mencionados, diante da inexistência de dispositivo legal para tanto, não se faz necessário o inquérito, isto é, de autorização judicial para resolver o contrato de trabalho. 11 Idem.

3. Prazo para ajuizamento O prazo para que seja proposto o inquérito é de 30 dias, na hipótese de ter suspendido o obreiro, contados da sua suspensão (art. 853 da CLT). De acordo com o art. 494 da CLT, é facultado ao empregador efetuar a suspensão ou não. Suspenso o trabalhador, transcorridos os trinta dias, e não proposto o inquérito, poderá o obreiro requerer a reintegração. Assim, a jurisprudência orientou-se no sentido de que o prazo para a propositura do inquérito, quando haja suspensão do trabalhador, é de decadência 12. Também a Súmula n. 403 deixa claro que: é de decadência o prazo de 30 dias para a instauração do inquérito a contar da suspensão, por falta grave, de empregador estável. Se não houver suspensão do trabalhador e o prazo de trinta dias que o obreiro poderia ser suspenso escoou, pode-se entender que houve o perdão tácito do empregador referente à falta praticada. Outro motivo que pode justificar o perdão tácito é o contrato de trabalho ser mantido, pressupondo que não houve tamanha relevância na falta pratica pelo trabalhador 13. 4. Procedimento O procedimento dessa ação está regulado nos arts. 853 14 a 855, além dos arts. 494 a 499, todos da CLT. Como já discorrido, poderá o empregado acusado poderá ser suspenso de suas funções, todavia, efetivamente a despedida se dará após o inquérito e reste comprovada a falta grave. Conforme Leite 15 o obreiro ficará suspenso até a decisão final do processo. Nascimento 16 discorre que uma das características dessa ação é que o procedimento é instaurado pelo empregador e não pelo empregado, através de uma petição inicial, que deve conter os requisitos exigidos nas demais iniciais trabalhistas. 12 MARTINS, op. cit., 2013, p. 508. 13 Idem. 14 Art. 853 - Para a instauração do inquérito para apuração de falta grave contra empregado garantido com estabilidade, o empregador apresentará reclamação por escrito à Junta ou Juízo de Direito, dentro de 30 (trinta) dias, contados da data da suspensão do empregado 15 LEITE, op. cit., 2014. 16 NASCIMENTO, op. cit. 2012.

Frisa Martins 17, que a petição deverá ser escrita, não cabendo reclamação verbal, devendo, ainda, a inicial deverá ser endereçada ao Juiz Titular da Vara Laboral. Se o inquérito judicial não for proposto no prazo de trinta dias, ocorrerá a extinção do processo com resolução de mérito, logo, o juiz, provocado ou de ofício, deve se manifestar acerca da decadência, como determina a Súmula n. 62 do TST 18. No que concerne às custas do inquérito judicial, como infere o 1º, do art. 789, sem qualquer exceção: as custas serão pagas pelo pelo vencido após o transito em julgado da decisão. Quanto à audiência, devem ambas as partes, outrossim, podem elas se fazerem representar, conforme as mesmas formas de representação consolidadas para o processo ordinário dos dissídios individuais 19. Por conseguinte, a ausência do reclamante importa o arquivamento do processo, enquanto que a do reclamado reclamado revelia e a confissão em relação à matéria de fato. Acrescenta Leite, que o procedimento de inquérito judicial no que concerne à dinâmica de audiência, propostas conciliatórias, apresentação de resposta, instruções e razões finais é o mesmo do procedimento dos dissídios individuais, salvo quanto ao número de testemunhas 20. É o que aduz o art. 821 da legislação laboral: Cada uma das partes não pode indicar mais de 3 (três) testemunhas, salvo quando se tratar de inquérito, caso em que esse número poderá ser elevado a 6 (seis). 5. Os efeitos da sentença Pelo fato de ser uma ação de natureza dúplice, no caso de improcedência não provada a prática da falta grave, deverá o empregador (autor) efetuar a reintegração do emprego do obreiro, bem como realizar o pagamento de salários e vantagens que 17 MARTINS, op. cit., 2013. 18 Súmula n. 62 - O prazo de decadência do direito do empregador de ajuizar inquérito em face do empregado que incorre em abandono de emprego é contado a partir do momento em que o empregado pretendeu seu retorno ao serviço. 19 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de Direito Processual do Trabalho. 27 ed. São Paulo: Saraiva, 2012. 20 LEITE, op. cit., 2014, p. 424.

teria auferido no interím de afastamento 21. Assim, diante da natureza dúplice não necessidade de se ajuizar outra ação para que haja a reintegração. Não sendo aconselhável a reintegração do empregado, em virtude da incompatibilidade, gerada pelo dissídio, o magistrado laboral poderá converter a obrigação de fazer em obrigação de indenizar (art. 496 da CLT 22 ). Essa indenização terá valor correspondente ao dobro daqueles que seriam devidos ao obreiro caso fosse despedido sem justa causa nos contratos de prazo indeterminado (art. 497 da CLT). Por fim, se procedente a sentença do inquérito, a data relativa a dispensa será a do dia que o empregador protocolou a petição inicial. 21 LEITE, op. cit., 2015. 22 Art. 496 - Quando a reintegração do empregado estável for desaconselhável, dado o grau de incompatibilidade resultante do dissídio, especialmente quando for o empregador pessoa física, o tribunal do trabalho poderá converter aquela obrigação em indenização devida nos termos do artigo seguinte.

REFERÊNCIAS GIGLIO, Wagner D. CORRÊA, Claudia Giglio Veltri. Direito Processual do Trabalho. 16 ed. São Paulo: Saraiva, 2007. LEITE, Carlos Henrique. Manual de Processo do Trabalho. São Paulo: Atlas, 2014.. Curso de Direito Processual do Trabalho. 13 ed. São Paulo: Saraiva, 2015. MARTINS, Sergio Pinto. Direito Processual do Trabalho. 34 ed. São Paulo: Atlas, 2013. NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de Direito Processual do Trabalho. 27 ed. São Paulo: Saraiva, 2012. VIVEIROS, Luciano. CLT Comentada: Doutrina e Jurisprudência. 8 ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.