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Transcrição:

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO UNIFRA Profa. Ms. Rosane Barcellos Terra 02/10/2012 1

V i g ê n c i a e V a l i d a d e d a s N o r m a s J u r í d i c a s : A validade da norma jurídica pode ser reconhecida pela expressão ela é válida e se pertencer ao sistema. Dois são os aspectos que devem ser observados para que seja reconhecida como pertencendo ao sistema: 1. Estar adequada aos processos legais estabelecidos para a criação da proposição jurídica (não se exige o respeito a esse processo se a norma já estiver prevista anteriormente na CF e ela estiver apenas sendo recepcionada)e 2. ter sido elaborada pelo órgão criador que tenha competência conferida pela CF. 2

A validade não se confunde com a vigência, uma vez que pode haver uma norma jurídica válida sem que esteja vigente, isto é, ainda não se implementou o período da vacatio legis ou, ainda, quando o dispositivo legal é revogado. Já a vigência representa a obrigatoriedade da observância de uma determinada norma, ou seja, é uma qualidade da norma que permite a sua incidência no meio social e, além disso, ela deve já ter cumprido seu lapso temporal que a tornou válida e apta a produzir efeitos jurídicos. 3

Para Miguel Reale, é possível dizer: Que a validade seria um complexo de aspectos de vigência, eficácia e fundamento (expressão essa não utilizada de forma uniforme por todos os doutrinadores). E, são, justamente, esses três aspectos, que constituem os requisitos para a legitimidade da obrigatoriedade da norma jurídica. 4

A validade, portanto, consiste: 1. Na possibilidade de a norma produzir efeitos de imediato; 2. Verificar se a norma prescreve comportamentos e em que medida esses comportamentos serão cobrados. Já para o doutrinador Tércio Sampaio Ferraz Jr., a eficácia é uma qualidade de norma que se refere à sua adequação levando-se em consideração a produção concreta de efeitos, pois a norma somente será eficaz se tiver condições fáticas de aplicação. 02/10/2012 5

Na verdade, a questão da eficácia diz respeito à averiguação se os destinatários ajustam-se ou não aos seus preceitos, já que, não raras vezes, existem normas que não são eficazes, apesar de sua vigência. Portanto, vigência e eficácia não se confundem. 6

As leis, assim como as pessoas, também, têm um ciclo vital: nascem, vivem = aplicam-se e morrem = revogação. Mas o que é VIGÊNCIA? Na verdade, é uma qualidade temporal da norma de Direito, o prazo que delimita o seu período de validade. Em sentido estrito, podemos ainda dizer que a vigência designa a existência específica de norma em determinada época, podendo ser invocada para produzir, concretamente, efeitos, ou seja, para que tenha eficácia. 7

Sabe-se que a lei necessita passar por três fases para tornar-se obrigatória: elaboração, promulgação e publicação. Ela somente inicia sua vigência com a referida PUBLICAÇÃO, no Diário Oficial, tornando-se obrigatória, pois ninguém pode escusar-se de cumpri-la alegando que não a conhece. Todavia, a sua obrigatoriedade inicia-se, ao mesmo tempo, em todo o país, somente após o transcurso do período chamado de vacatio legis (que será de 45 dias entre a data de publicação e a sua entrada em vigor, quando não houver disposição de prazo diverso art. 1º da LINDB), o que não significa dizer que, nesse período, ela não seja válida, ao revés, ela adquire validade desde o término do processo de elaboração. 02/10/2012 8

Portanto, a obrigatoriedade da lei não se inicia no dia da publicação, salvo se ela própria assim o designar, podendo, desse modo, entrar em vigor na data de sua publicação ou em outra mais remota, conforme constar expressamente no texto. Se nada constar a esse respeito, aplica-se a regra do prazo único, constante no art. 1º mencionado anteriormente vacatio legis. 02/10/2012 9

Na anterior Lei de Introdução, havia o critério do prazo progressivo devido à dificuldade de comunicação existente entre os Estados. 02/10/2012 10

ATENÇÃO: Quando a lei brasileira é admitida no exterior (em geral, quando cuida de atribuições de ministros, embaixadores, cônsules, etc.) a sua obrigatoriedade inicia-se três meses depois de sua publicação oficial. 11

Adverte-se que se, durante o período da vacatio legis, ocorrer nova publicação de seu texto, para possíveis correções de erros materiais ou ortográficos, o prazo da obrigatoriedade começará a correr da nova publicação. Aliás, o novo prazo para entrar em vigor só ocorre para a parte corrigida, isto é, apenas aqueles artigos modificados terão o prazo de vigência, contados da nova publicação. 02/10/2012 12

A contagem do prazo para entrada em vigor das leis que estabeleçam período de vacância far-se-á com a inclusão da data da publicação e do último dia do prazo, entrando em vigor no dia subsequente à sua consumação integral. Exemplo do CC de 2002: a lei foi publicada no dia 10 de janeiro de 2002. Assim, o primeiro dia do prazo foi 10 de janeiro de 2002 e o último, 10 de janeiro do ano seguinte, e, dessa forma, o novo código entrou em vigor em 11 de janeiro de 2003 porque houve determinação expressa nesse sentido. 02/10/2012 13

Em regra, as leis são feitas para durarem por tempo indeterminado, mas existem casos de leis de vigência temporária, que cessará com o advento do termo fixado para sua duração (disposições transitórias e leis orçamentárias), pelo implemento de condição resolutiva e/ ou pela consecução de seus fins. Nesses casos, ocorre a caducidade da lei, pura e simplesmente (ela não tem mais capacidade de produzir efeitos jurídicos), pela superveniência de uma dessas causas, que devem ser previstas em seu próprio texto, sem necessidade de norma revogadora. 02/10/2012 14

Por outro lado, existem leis de vigência permanente (o que é a regra), sem prazo de duração, que perduram até a que ocorra a chamada revogação, que nada mais é do que a supressão da eficácia da lei, realizada por outra lei posterior a primeira, que necessita de mesma hierarquia ou de hierarquia superior para poder revogá-la. Exemplo: portaria não revoga lei ordinária, pois essa última tem valor hierárquico superior à primeira. 02/10/2012 15

Revogar, portanto, é tornar sem efeito uma norma, retirando a sua obrigatoriedade. Subdivide-se a revogação em espécies: abrogação (eliminação total da norma anterior) e derrogação (eliminação parcial da norma anterior). A revogação pode ser expressa (quando a própria lei nova faz devida menção) ou tácita (quando há incompatibilidade entre a lei velha e a nova, LINDB, art. 2º, 1º). [DINIZ, ibidem, p. 398]. 02/10/2012 16

Ademais, além dos critérios hierárquico e cronológico destinados a solucionar antinomias aparentes ou conflitos normativos (que serão estudados adiante), desponta, na ordem jurídica, o critério da especialidade, pelo qual a norma especial revoga a geral quando disciplinar, de forma diversa, o mesmo assunto. Além disso, o nosso Direito não admite, como regra, a repristinação, embora ela exista. Assim, a repristinação é a restauração da lei revogada pelo fato da lei revogadora ter perdido a sua vigência. Lei A revogada pela lei B, sendo esta revogada pela lei C = não representa o renascimento da lei A primeiramente revogada. 02/10/2012 17

Critérios à solução de conflitos de lei no tempo: Conforme já foi expresso, as leis são criadas para vigorarem, via de regra, por prazo indeterminado. Mas quando uma lei sofre alterações por outra posterior e a primeira já tinha gerado os seus efeitos nas relações jurídicas, pode-se instaurar o conflito de leis no tempo. Ou seja, resta a dúvida da sua aplicação, ou não, às situações anteriores. 02/10/2012 18

Para tanto, são eleitos dois critérios: das disposições transitórias (elaboradas pelo legislador no próprio texto normativo, destinadas a evitar e a solucionar conflitos que poderão emergir do confronto da nova lei com a antiga, tendo vigência temporária e essas disposições são as que irão determinar qual a lei que será aplicada), e o da retroatividade (é retroativa a lei que atinge efeitos de atos jurídicos praticados sob a égide da lei revogada, respeitando o ato jurídico perfeito, a coisa julgada e o direito adquirido, LINDB, art. 6º, 1º e 2º. 02/10/2012 19

A primeira atinge o direito adquirido e afeta os negócios jurídicos perfeitos, a segunda (retroatividade) faz com que a lei nova alcance fatos pendentes, os direitos já existentes, mas ainda não integrados no patrimônio do titular, e a terceira, não citada anteriormente, mas que denomina-se irretroatividade das leis (é a regra, significa que a lei não se aplica às situações constituídas anteriormente). 02/10/2012 20

Esses três institutos devem ser sempre observados e preservados porque interferirão no resultado da aplicação da lei. Quais sejam: Ato jurídico perfeito é o já consumado segundo a lei vigente ao tempo em que se efetuou. Direito adquirido é o que já se incorporou definitivamente ao patrimônio e à personalidade de seu titular, não podendo lei nem fato posterior retirar-lhe a sua capacidade de ter sido adquirido e ter se tornado válido. Coisa julgada é a imutabilidade (não pode ser alterada) dos efeitos da sentença, não mais sujeita a recursos. 02/10/2012 21

Portanto, pode-se resumidamente dizer que o sistema jurídico brasileiro contém as seguintes regras sobre essa matéria: A) os princípios da irretroatividade da lei nova e do respeito ao direito adquirido são de ordem constitucional; B) esses dois institutos obrigam legislador e juiz a cumpri-los; C) a regra, no silêncio da lei, é pela aplicação do princípio da irretroatividade; D) contudo, pode haver retroatividade expressa, desde que não atinja o direito adquirido; E) e por fim, a lei nova tem efeito imediato, não devendo ser aplicada a fatos anteriores. 02/10/2012 22

Critérios à solução de conflitos de lei no espaço: devido à existência da soberania estatal, a norma possui aplicabilidade dentro do território delimitado pelo Estado (princípio da territorialidade), estendendo-se tal aplicação às embaixadas, consulados, navios de guerra, dentre outros. Porém, esse critério não é considerado absoluto, há, ainda, o sistema da extraterritorialidade, devido às relações existentes entre nacionais e estrangeiros. Dessa forma, nosso país permite que lei estrangeira tenha eficácia em nosso território, sem, no entanto, afetar a nossa soberania de forma excepcional, ou seja, esta não é a regra. Vide arts 7º e seguintes da LINDB). 02/10/2012 23

Dessa forma, pelo princípio da territorialidade, a norma jurídica aplica-se no território do Estado, estendendo-se: 1. às embaixadas e consulados; 2. navios de guerra onde quer que se encontrem; 3. navios mercantes em águas territoriais ou em alto-mar; 4. navios estrangeiros (menos os de guerra em águas territoriais); aeronaves no espaço aéreo do Estado e barcos de guerra onde quer que se encontrem. Por via de consequência, pode-se dizer que o Brasil segue o sistema da territorialidade moderada. 02/10/2012 24

Pelo princípio da extraterritorialidade, a norma é aplicada em território de outro Estado, segundo princípios e convenções internacionais. Estabelece-se um privilégio pelo qual certas pessoas escapam à jurisdição do Estado em cujo território se achem, submetendo-se apenas à jurisdição do seu país. A norma estrangeira passa a integrar momentaneamente o direito nacional, para solucionar determinado caso submetido à apreciação. Este último comentário fora extraído dos ensinamentos do doutrinador clássico Carlos Roberto Gonçalves, 2010, p. 63. 02/10/2012 25