Jón Kalman Stefánsson

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Transcrição:

O Coração do Homem

Jón Kalman Stefánsson O Coração do Homem romance Tradução do islandês João Reis

Esta obra recebeu o apoio financeiro de Título original: Hjarta mannsins 2011, Jón Kalman Stefánsson Published by agreement with Copenhagen Literary Agency ApS, Copenhagen Cavalo de Ferro, 2016, para a presente edição Revisão: Tiago Marques Paginação: Finepaper, Lda. ISBN: 978-989-623-221-4 1.ª edição, Setembro de 2016 Todos os direitos para a publicação em língua portuguesa (Portugal) reservados por: Cavalo de Ferro, marca propriedade de Theoria, Lda. Rua das Amoreiras, 72 A 1250-024 Lisboa Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida sob qualquer forma ou por qualquer processo sem a prévia autorização e por escrito do editor, com excepção de excertos breves usados para apresentação e crítica. Quando não encontrar algum livro da Cavalo de Ferro nas livrarias, sugerimos que visite o nosso site www.cavalodeferro.com

A trilogia composta por Paraíso e Inferno, A Tristeza dos Anjos e O Coração do Homem é dedicada às irmãs Bergljóta K. Þráinsdóttir (1938-1969) e Jóhanna Þráinsdóttir (1940- -2005). E a María Karen Sigurðardóttir.

São estas as histórias que devemos contar

A morte não é luz nem escuridão, mas apenas outra coisa que não vida. Por vezes, encontramo-nos ao lado de moribundos e vemos, aos poucos, as suas vidas desvanecerem-se. Cada vida é um universo e é doloroso vê-la desaparecer: é doloroso constatar como tudo se transforma, num simples instante, num mero nada. Todas as vidas são, claro, diferentes; para alguns, não passam de uma monotonia, para outros, aventuras; porém, cada consciência é um mundo que se estende da terra ao céu, e como pode algo tão vasto desaparecer com tamanha facilidade, transformar-se em nada, e não deixar para trás sequer um pouco de espuma, como as ondas do mar, nem mesmo um único eco? No entanto, faz já muito tempo que ninguém se une ao nosso grupo, somos sombras exangues, somos menos do que sombras, nem a isso chegamos, e é mau estar-se morto e, todavia, não se poder morrer, e tal situação nada de bom traz, seja a quem for. No nosso tempo, alguns de nós recorreram a vários métodos, de forma a tentar escapar atirámo-nos para a frente de carros em movimento, enfiámos a cabeça na boca de cães malvados, mas os nossos gritos foram silenciosos, e os dentes dos cães furaram-nos como se fôssemos ar. Como é possível ser menos do que nada e, não obstante, recordar tudo, estar morto e sentir a vida com mais intensidade do que antes? Agora, é certo encontrarem-nos, à noitinha, agachados no cemitério, atrás da igreja que para ali está há anos, conquanto nem sempre fosse o mesmo edifício. A nossa igreja, onde o reverendo Þorvaldur tentou, sem infelizmente grandes resultados, encontrar o perdão para as suas fraquezas, e há que notar como a força de uma pessoa é medida somente a partir das suas fraquezas, pelo modo como as enfrenta, bem, essa igreja de madeira com uma porta de metal há muito desapareceu e 11

no seu lugar encontra-se outro edifício de pedra, o material que compõe as montanhas, o que, em certa medida, é o adequado, pois em tais locais a igreja deveria ter como modelo as montanhas ou o céu. Apenas aqui, no cemitério, encontramos vestígios de paz. Aqui, acreditamos discernir os murmúrios dos mortos que jazem debaixo de terra, um ténue sinal, por de mais distante, das suas conversas animadas. Assim nos engana o desespero. Contudo, estes momentos de tranquilidade multiplicaram-se lentamente, e parecem inclusive ter-se prolongado, e de fracções de segundo passaram a segundos. Não nos sentimos bem, verdade seja dita, todavia, estas palavras acalentam-nos, são a nossa esperança, e onde há palavras há vida. Acolham-nas e existimos. Acolham-nas e há esperança. São estas as histórias que devemos contar. Não nos abandonem. 12

Um velho texto médico em árabe diz que o coração humano está dividido em duas partes: uma chama-se felicidade; a outra, desespero. Em qual devemos acreditar?

I Onde terminam os sonhos, onde começa a realidade? Os sonhos provêm de dentro, surgem do mundo que todos nós guardamos no interior. São porventura sonhos distorcidos mas o que não é distorcido, o que não é pervertido se te amo hoje e te odeio amanhã? Não, quem nunca muda o que pensa ou quem é mente, na verdade, a todo o mundo. O rapaz permanece deitado por um longo período de olhos fechados. Sem saber se é dia ou noite, se está acordado ou se dorme. Ele e Jens aterraram em cima de alguma coisa dura. Ao início, perderam Hjalti, o ajudante agrícola que os acompanhou a partir de Nes, e os três tinham transportado o caixão com Ásta sobre as montanhas e as charnecas. Depois, o rapaz e Jens aterraram em cima de alguma coisa dura. Quanto tempo decorreu desde então? E onde é que ele está? Abre os olhos com hesitação: nem sempre é certo o que nos aguarda após o sono, há mundos inteiros que mudam da noite para o dia, vidas que findam, o espaço entre as estrelas aumenta e a escuridão aprofunda-se, sim, ele abre os olhos com hesitação, não sem um certo nervoso miudinho, e vê-se deitado numa divisão iluminada pelo luar, está deitado sob um luar branco de morte, e o rosto de Hjalti apresenta-se com uma palidez desconfortável ao, sentado numa cadeira, fitar o rapaz, e Ásta está de pé junto à cama, de onde emana um ar frio. Consegues sempre escapar, diz lentamente Hjalti. Sim, há sempre quem o ajude a levantar-se, diz Jens, sentado numa cama próximo dele, e o luar coseu-lhe à cara uma máscara de morte. Porém, ninguém te pode ajudar agora, diz Ásta. Não, 15

Jón Kalman Stefánsson diz Jens, e ele não vale o incómodo. De qualquer maneira, que tem ele para oferecer, que direito tem de viver?, pergunta Hjalti. O rapaz abre a boca para lhes responder, proferir palavras, contudo, sente um peso no peito, tão pesado que se lhe torna quase impossível falar e, em seguida, eles começam a, aos poucos, desvanecer, são eliminados aos poucos, e o luar transforma-se numa neve interminável, e o quarto, numa charneca gelada que enche o mundo. O céu é uma espessa camada de gelo que tudo recobre. 16

II É seguro abrir os olhos? Porventura não teria adormecido, talvez seja necessário muito tempo para se morrer. Ele não ouve o vento, nem como este assobia sobre a neve, e não sente o frio. Terei adormecido na neve, e este é o sono que se transforma numa morte suave, reconfortante. Por outro lado, já não a consigo rechaçar, pensa o rapaz, e ninguém me pode ajudar agora, a Ásta tem razão, e porquê lutar quando o melhor da vida faz parte do passado? No entanto, poderei aprender, terei direito à minha educação, uma vez que o Gísli, o director, me deverá ensinar tudo, e morrer não é uma traição, não devo confrontá-la? E ele não está, por acaso, estendido numa cama? Sente-se numa cama, de facto, numa cama fofa e macia, e é estranho. Quiçá se encontre apenas no seu quarto, em casa de Geirþrúður, e tudo aquilo não passe de um sonho, inclusive a viagem com Jens por entre tempestades e nevões, mas será possível sonhar com tanta neve, tanto vento, com tantas vidas e mortes, são os sonhos grandes o suficiente para abarcar tudo o que viu? Ele não consegue abrir os olhos, é tão simples quanto isto, e as suas pálpebras são lajes pesadas. Tacteia em seu redor, envia as mãos numa missão de reconhecimento, mas estas provam-se tão inúteis quanto os olhos, e nem sequer as sente, talvez estejam mortas, o gelo dilacerou-lhe as mãos e elas estão para ali, como meras aparas de madeira espalhadas sobre a neve. Onde estás, Jens?, pensa ele, ou murmura, antes de, uma vez mais, se afundar no sono, se se trata, de verdade, de sono, se não é a morte, e afunda-se no repouso, afunda-se num pesadelo. 17

III Decidiste se viverás ou morrerás?, pergunta ela, a mulher ou rapariga. Tem o cabelo ruivo, os mortos são ruivos. Não sei, diz ele, não tenho a certeza de saber qual a diferença, nem de que seja assim tão significativa. Beijar-te-ei, diz ela, e sentirás a diferença, estás, sem dúvida, morto quando não sentes um beijo. Ela aproxima-se e curva-se sobre ele, o seu cabelo tão ruivo que é quase uma impossibilidade, e os seus lábios são quentes, macios. Onde se encontra a vida se não num beijo? 18