Capítulo I INTRODUÇÃO

Documentos relacionados
Métodos para o estudo do interior da Geosfera

GEOLOGIA ESTRUTURAL Introdução e Conceitos Fundamentais

CONTRIBUTOS PARA O ESTUDO DO INTERIOR DA TERRA

CONTRIBUTOS DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA PARA O ESTUDO DA ESTRUTURA INTERNA DA TERRA

SUMÁRIO. Capítulo 6 - Vulcanismo Os vulcões como geossistemas Os depósitos vulcânicos Os estilos de erupção e as formas de relevo vulcânico

Geologia. Tecnologia de Informação e Comunicação. Escola Básica 2,3 Paulo da Gama. Amora, outobro Aluno: André Costa. Professor: Sérgio Heleno

GEOLOGIA ESTRUTURAL Introdução e Conceitos Fundamentais

ANÁLISE GLOBAL DE GEORRECURSOS LEGISLAÇÃO PORTUGUESA DL 90/90

Instituto de Geociências

Teste de Avaliação. Turma: Nº: Duração 50 minutos. 1. Observe os esquemas da figura 1 que representam tipos de actividade vulcânica.

DECIFRANDO A FORMAÇÃO DA TERRA

Ainda não compreendemos totalmente como é constituído e como funciona o interior do nosso planeta.

BIOLOGIA E GEOLOGIA Módulo 2 10º CTec ESTUDO DA ESTRUTURA E DINAMISMO DA GEOSFERA - SISMOLOGIA

SISMICIDADE E ESTRUTURA INTERNA DA TERRA

A Geologia, os geológos e os seus métodos

Ensino Secundário Recorrente por Módulos Capitalizáveis Biologia e Geologia -10ºano. EXAME DE AVALIAÇÃO Módulo 1,2,3 Duração da Prova: 135 minutos

Paulo Tumasz Junior. Geologia

Introdução à Engenharia Geotécnica

Teste de avaliação Teste de avaliação Teste de avaliação Teste de avaliação Teste de avaliação Teste de avaliação 6 50

Esta região azul mais clara é a plataforma continental brasileira. Oceano Atlântico. Belo Horizonte. Salvador. Rio de Janeiro Grande São Paulo

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAMPA UNIPAMPA CAMPUS CAÇAPAVA DO SUL GRADE CURRICULAR DO CURSO DE GEOLOGIA TURNO: DIURNO 1º SEMESTRE - 1º ANO.

A estrutura da Terra. Prof. Eder C. Molina IAGUSP.

Noções de Geologia. Prof. Msc. João Paulo Nardin Tavares

Universidade Metodista de Angola Faculdade de Engenharia Departamento de Construção Civil

Sistema de Controle Acadêmico. Grade Curricular. Curso : GEOLOGIA. CRÉDITOS Obrigatórios: 207 Optativos: 16. 1º Semestre

Geologia: Histórico, conceitos, divisão e aplicação da Geologia CCTA/UACTA/UFCG. Geologia, geomorfologia, origem do Universo e da Terra.

Grade curricular do curso de graduação em Geologia da Universidade Federal do Espírito Santo

A Terra estremece cerca de um milhão de vezes por ano

CRITÉRIOS ESPECÍFICOS DE AVALIAÇÃO (Aprovados em Conselho Pedagógico, 21 outubro de 2014) CIÊNCIAS NATURAIS 7º ano de escolaridade

Ensaio de Sísmica de Refracção

ANO: 10º NÍVEL: BIOLOGIA E GEOLOGIA ANO LECTIVO: 2008/2009 p.1/12. Total: 92

Relacionar o comportamento das ondas sísmicas com a existência de descontinuidades internas;

Teste diagnóstico de Geologia (10.º ano)

MÉTODOS DIRETOS: MÉTODOS INDIRECTOS:

PLANO DE ESTUDOS DE CIÊNCIAS NATURAIS 7.º ANO

PLANO DE ESTUDOS DE CIÊNCIAS NATURAIS - 7.º ANO

Planificação Anual 2017/2018 CIÊNCIAS NATURAIS

FICHA (IN)FORMATIVA Nº 2 Biologia e Geologia Módulo 2

Unidade Universitária: CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA SAÚDE. Etapa: Professor(es): Waldir Stefano

MÉTODOS PARA O ESTUDO DO INTERIOR DA GEOSFERA MARGARIDA BARBOSA TEIXEIRA

INSTITUTO POLITÉCNICO DE BEJA

Universidade Federal do Espírito Santo

Geografia 1ª série E.M. - Estrutura geológica da Terra, tipos de rocha e recursos minerais

Planificação da disciplina de Biologia e Geologia - 10 º Ano Componente de GEOLOGIA

PLANIFICAÇÃO CIÊNCIAS NATURAIS (7.º ANO) 2017/2018 Docentes: João Mendes e Vanda Messenário

Planificação Anual GR Disciplina Ciências Naturais 7ºAno

ACESSO AO ENSINO SUPERIOR EXAME LOCAL EXAME DE GEOLOGIA

UFRN / CCET / CURSO DE GRADUAÇÃO EM GEOLOGIA. Síntese da Estrutura do Curso Matriz Curricular 04

Planificação anual de Ciências Naturais 7º Ano de escolaridade

A CADEIA PRODUTIVA DO PETRÓLEO

GEOMORFOLOGIA I. Professor: Diego Alves de Oliveira 2017

INSTITUTO POLITÉCNICO DE BEJA

7.º ano. Planificação

A CADEIA PRODUTIVA DO PETRÓLEO

Planificação Anual. Professora: Rosa Fanico Disciplina: Ciências Naturais Ano: 7.º Turma: A Ano letivo:

A TERRA E SUA FORMAÇÃO SIMULADO DE CIÊNCIAS 6º ANO - 2º BIMESTRE

CIÊNCIAS NATURAIS 7.º ANO TERCEIRO CICLO ELISABETE SILVA SÉRGIO MONTEIRO

Petróleo Prof. Philipe Laboissière

FICHA (IN)FORMATIVA Nº 2 Biologia e Geologia Módulo 2

DOMÍNIO/SUBDOMÍNIO OBJETIVOS GERAIS DESCRITORES DE DESEMPENHO CONTEÚDOS

Apostila de Geografia 07 Noções de Geologia

Geologia Geral. Discussão I. user 02/03/05. 1 Dimensões, composição e estrutura interna da Terra. Título aqui 1

PLANIFICAÇÃO DE CIÊNCIAS NATURAIS 7º ANO

PLANIFICAÇÃO DE CIÊNCIAS NATURAIS 7º ANO

A ESTRUTURA DA TERRA Título determinada pela sismologia

Perceber o significado de escalas de tempo geológico, reconhecendo que estas representam uma sequência de divisões da história da Terra, em M.a.

Biologia e Geologia - 10º Ano Rochas e a história da Terra. Nome: N º: Turma: Data: Professor: Encarregado(a) de Educação:

ESTRUTURA INTERNA DA TERRA CROSTA

A g r u p a m e n t o d e E s c o l a s A n t ó n i o S é r g i o V. N. G a i a E S C O L A S E C U N D Á R I A A N T Ó N I O S É R G I O

20/04/2011 USO ESTRATIGRÁFICO DOS FÓSSEIS E O TEMPO GEOLÓGICO

Geologia para Ciências Biológicas

II. INVESTIGANDO O INACESSÍVEL

Oceanografia Física. Ciências Geofísicas (estudo da Terra aplicando as leis da Física) Oceanografia (estudo dos Oceanos) Meteorologia e Climatologia

GEOLOGIA E GEOMORFOLOGIA:ESTRUTURA GEOLÓGICA, TIPOS DE ROCHAS E RECURSOS MINERAIS. MÓDULO 04 GEOGRAFIA I

Ensaios geofísicos. Introdução à Geotecnia

CONTEÚDOS OBJETIVOS TEMPO AVALIAÇÃO

COMPREENDER A ESTRUTURA E A DINÂMICA DA GEOSFERA

ESCOLA SECUNDÁRIA/3 DA RAINHA SANTA ISABEL

AGRUPAMENTO de ESCOLAS de SANTIAGO do CACÉM Ano Ano Letivo 2015/2016 PLANIFICAÇÃO ANUAL

Escola Secundária com 2º e 3º ciclos Prof. Reynaldo dos Santos. Biologia e Geologia 10º Ano Turma A Teste Tema 3 Geologia P á g i n a 1

GEOLOGIA PARA ENGENHARIA CIVIL COMPOSIÇÃO E ESTRUTURA INTERNA DA TERRA PARTE I

INTRODUÇÃO Título À GEOFÍSICA

Transcrição:

1. A Física e a Geologia Capítulo I INTRODUÇÃO Geologia é o estudo da Terra como um todo, da sua origem, estrutura e composição, da sua história (incluindo o desenvolvimento da vida) e dos processos que levaram ao seu estado actual... A Geologia contém os seguintes ramos: (1) A Cristalografia, Mineralogia, Petrologia e Geoquímica que se dedicam ao estudo dos materiais e da composição da Terra; (2) A Geologia Estrutural e Geofísica que estudam a forma e a disposição das diferentes unidades que constituem a Terra; (3) A Estratigrafia e geologia histórica; (4) A Geologia Física, incluindo a Geomorfologia, que envolvem o estudo dos processos que afectam a Terra. Esta definição de Geologia que podemos encontrar num dicionário especializado (Whitten e Brooks, 1972) serve perfeitamente de ponto de partida para discutir a importância da Física para a Geologia, isto é, para a compreensão da Terra na sua forma actual e dos processos que ela sofreu. Em primeiro lugar o Geólogo acede ao seu objecto de estudo através da observação directa, o corte geológico, a carta de superfície, a fotografia aérea ou a imagem de satélite (ver figura 1). Esta observação limita-se à camada mais externa da Terra, devendo o Geólogo recorrer a modelos para inferir da origem e evolução que levaram o Globo à sua forma actual. Para penetrar mais fundo, o Geólogo socorre-se de sondagens, a mais profunda das quais atingiu a profundidade de 10 km, menos de 0.2% do raio da Terra. Estas sondagens não se distribuem uniformemente à superfície, estando concentradas nas bacias sedimentares continentais ou nas suas margens (ver figura 2). Vemos por isso que o conhecimento directo do interior da Terra é para o Geólogo muito esparso e incompleto. Para conhecer o seu objecto de estudo o geólogo deve recorrer a métodos indirectos. Esses são-lhe fornecidos pela Geofísica, ciência que se baseia na aplicação da Física ao conhecimento do interior do Globo. Com uma contribuição especial podemos aqui destacar vários dos campos da Física: o estudo da geração e propagação de ondas (base da Sismologia e Prospecção Sísmica); o Electromagnetismo (base do Geomagnetismo e Prospecção Electromagnética); a lei da atracção Universal (base da Gravimetria, Geodesia e prospecção gravítica); a Termodinâmica (base da Geotermia). Em qualquer dos casos de aplicação da Física ao estudo da Terra, as propriedades que são medidas ou inferidas são propriedades físicas dos meios materiais, propriedades elásticas, densidade, resistividade, pressão e temperatura, momento magnético, etc. Apenas os estudos laboratoriais ou observações in situ permitem relacionar as propriedades com a natureza e composição dos materiais que constituem a Terra, resultados esses que interessam ao Geólogo. É lhe no entanto de suprema importância conhecer os fundamentos físicos dos métodos aplicados resultados que depois irá usar na definição dos seus modelos geológicos. Cap.1-1

Figura 1 O Geólogo acede ao seu objecto de estudo pela observação directa. Em cima uma almofada de lava basáltica (pillow lava), em baixo uma falha. Cap.1-2

Figura 2 O interior da Terra é explorado por sondagens, usando plataformas como a que se mostra na figura em baixo. No entanto a distribuição dessas sondagens é irregular ao longo da superfície, estando directamente relacionada com a pesquisa de hidrocarbonetos em ambientes geológicos particulares (figura de cima). Cap.1-3

Um dos princípios básicos da Geologia designa-se por uniformitarismo, os processos que afectam hoje a Terra são os mesmos que a terão afectado no passado e por isso são a chave para a compreensão da sua forma actual. Ora muitos desses processos são processos físicos: a acção das marés, ondas, oceanos, rios e ventos como agentes erosivos; o movimento brusco das falhas que dá origem aos sismos (mecânica e ciência dos materiais); as erupções vulcânicas (física dos fluidos); a cristalização fraccionada do magma que obedece às leis da termodinâmica; o movimento das placas tectónicas e a convecção no manto; o escoamento superficial e subterrâneo, objecto de estudo da Hidrologia. O Geólogo necessita por isso de um conhecimento profundo dos princípios físicos que regem a evolução da Terra, conhecimento esse que só lhe pode ser dado pela Física. Num terceiro plano temos os métodos de laboratório que permitem fazer falar as rochas muito para além da sua inspecção visual. A Óptica é essencial em Cristalografia e Mineralogia, a Radioactividade é a base de muitos dos modernos métodos de datação das rochas, o Electromagnetismo e Física Nuclear são fundamentais na espectrometria de massa e análise das composições isotópicas dos materiais. Em síntese, não parece haver nenhuma área da Física Clássica, mas também da Física Moderna, que não seja usada de uma forma ou outra no estudo do objecto Terra: no conhecimento da sua estrutura e composição; dos processos que a afectam; na análise laboratorial das rochas (ver figura 3). Cap.1-4

Figura 3 Duas imagens actuais do nosso planeta, obtidas com o recurso aos métodos geofísicos. Em cima, a topografia da superfície sólida do planeta. Em baixo, a imagem do seu interior. Cap.1-5