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Transcrição:

filosofia clássica indiana 2011-2012 1ºSemestre Carlos João Correia

nāsadīya 1. No começo, não havia nem a não-existência nem a existência 2. No começo, não havia nem morte nem não-morte. (...) O uno respirava, sem agitação e sustinha-se a si próprio. 3. Tudo isto era uma onda indistinta. (...) O que estava envolto no vazio surgiu finalmente através do poder do calor. 4. No começo, o desejo surgiu; foi a primeira semente nascida da mente. 5. [Sábios/poetas] estenderam a sua corda através do vazio e souberam o que estava em cima e o que estava em baixo. 6. Mas, afinal, quem sabe? Quem pode assegurar donde é que tudo veio? 7. Aquele que a contempla do mais elevado céu só ele sabe ou talvez ele próprio não saiba.

No começo, este mundo era apenas [existente] ser (sat) sem dualidade [segundo]. Ora, sobre este ponto, alguns dizem: No começo - afirmam - este mundo era não-ser (asat) [não-existente] sem dualidade [segundo] e que o Ser [existente] saiu do não-ser [nãoexistente]. Mas, filho, como é que isso seria possível? Ele continuou. Como é que o existente poderia brotar do não-existente? Pelo contrário, no começo, este mundo deve ter sido existente puro - apenas um, sem dualidade [segundo]. E esse um pensou para si mesmo: Que eu seja muitos. Que eu me multiplique. Emitiu calor. O que é quente, contudo, provoca transpiração; e assim do calor água é produzida. E a água pensou para si mesma: Que eu seja muita. Que eu me multiplique. E emitiu alimento, pois quando chove, o alimento torna-se abundante. Chāndogya Upaniṣad 6.2.1-3

Shakespeare King Lear Paul Falconer Poole Nothing will come of nothing 1.1.92

Bṛhadāraṇyaka ( Grande texto da floresta ) Chāndogya ( de quem canta as estrofes ) Taittirīya Aitareya Kauṣītaki Kena ( por quem? ) Śvetāśvatara ( homem com uma mula branca ) Kaṭha ( «parábola» ) Īśā ( Deus ) Muṇḍaka ( barbeado ) Praśna ( questão ) Māṇḍūkya

upaniṣad Ṛg Sāma Yajur/1 Yajur/2 Atharva [preto] [branco] Kauṣītaki Chāndogya Taittirīya Bṛhadāraṇyaka Muṇḍaka Aitareya Kena Śvetāśvatara Īśa Praśna Kaṭha Māṇḍukya

kena upaniṣad Quem impele e impulsiona a mente? Quem promove a primeira respiração? Quem nos impele a proferir estas palavras? Quem é o divino que une a visão ao ouvir? Quem é o ouvir no acto de ouvir? Quem é o pensar no acto de pensar? Quem é a fala no acto de falar? Quem é o ver no acto de ver? Livres, os que são sábios, tornam-se imortais ao abandonarem este mundo. A visão não chega aí, nem o conhecimento e as palavras; não sabemos, não conhecemos como aqui se pode ensinar. (...) O que não pode ser expresso pelas palavras mas através das quais as palavras são expressas, aprende que apenas é brahman e não o que se venera. 1.1-5

"(Para Hume) quando reflectimos sobre o conteúdo da nossa própria mente, descobrimos recordações individuais, pensamentos, paixões, experiências, mas nenhum Self. Hume pensava que, se não encontrássemos (e não pudéssemos encontrar) qualquer coisa na experiência, então não tínhamos o direito de falar disso. A nossa mente não podia abarcar ou mesmo tocar tal coisa. Assim, de forma consistente, defendeu que o Self não é mais do que um agregado das suas percepções ou experiências, juntamente com quaisquer ligações que existam entre elas. Há conteúdo, mas nada para o conter. A isto chama se por vezes uma teoria da não propriedade do Self ou teoria do Self como feixe. [ ] O problema desta ideia é exigir que tornemos compreensível a ideia de uma experiência sem proprietário. Mas objecta se que isto é incoerente. Esta ideia trata as experiências como objectos ou coisas autónomas: o tipo de coisas que poderiam flutuar por aí, sem dono, à espera de serem unidas num feixe com outras, como ramos caídos numa floresta. Mas, prossegue a objecção, isto é um erro, porque as experiências são parasitárias ou adjectivas das pessoas que as têm. O que quer isto dizer? Pensemos numa amolgadela de um carro. Podemos falar de amolgadelas: esta é pior do que aquela ou a sua reparação será mais cara do que a da amolgadela que sofremos o ano passado. Mas é logicamente impossível que pudesse existir uma amolgadela sem proprietário, uma amolgadela sem uma superfície que é amolgada. As amolgadelas correspondem, por assim dizer, aos adjectivos. ( ) Analogamente, um sorriso resulta de um rosto que sorri, que é a piada por detrás do gato de Cheshire de Lewis Carroll, que desapareceu deixando apenas o seu sorriso." Simon Blackburn. Think. Oxford/New York: Oxford University Press. 1999, 135-136 [trad.port., Lisboa: Gradiva. 2001, 143-144].

O leitor está a olhar para esta página, a ler este texto e a elaborar o significado das minhas palavras à medida que vai avançando na leitura. Porém, o que se passa na sua mente não se limita de forma alguma ao que diz respeito ao texto e ao seu significado. Paralelamente à representação das palavras impressas e à evocação de conceitos necessária para compreender aquilo que escrevi, a sua mente revela também uma outra coisa, algo que é suficiente para indicar, a cada instante, que é o leitor e não outra pessoa quem está a ler e a compreender o texto. As imagens que correspondem às suas percepções externas e às percepções daquilo que recorda ocupam quase toda a extensão da sua mente, mas não ocupam a sua totalidade. Para além destas imagens, existe igualmente uma outra presença que o significa a si ( ) Se esta presença não existisse, como poderia saber que os seus pensamentos lhe pertencem? Quem poderia afirmá-lo? Esta presença é calma e subtil e por vezes é pouco mais do que uma alusão meio aludida e um dom meio compreendido António Damásio, The Feeling of What Happens (London:Vintage, 2000, 10). Primeira edição de 1999 (ed.port., 29).

Traz-me o fruto de uma figueira. Aqui está. Corta-o. Cortei-o. O que vês no seu interior? Estas pequenas sementes. Agora pega numa delas e corta-a. O que é que tu vês? Nada. Então o pai disse-lhe: Esta essência subtil que tu nem consegues ver - vê como desta essência surge esta enorme figueira que aqui está. Acredita-me. Esta essência subtil é o ātman de tudo isto. Esta é a verdade; isto é o ātman. E isso és tu. ā ā Ensina-me mais. tat tvam asi Chāndogya Upaniṣad 6.12.1-3 * Madhva: sa ātmā [isto é o ātman] atat tvam asi [não isso/não-brahman] és tu