8. Restos humanos O material

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Transcrição:

8. Restos humanos DAVID GONÇALVES 8.1. O material As intervenções arqueológicas realizadas em 1995, 1997 e 1998 num depósito de concheiro em Toledo (Vimeiro/Lourinhã) resultaram na recolha de um reduzido conjunto de ossos humanos (Figs. 8.1 a 8.4). Distribuídos de forma relativamente dispersa pelo espectro de escavação, os ossos não apresentavam qualquer tipo de conexão anatómica ou clara associação entre si. Esta disposição está relacionada com os processos de alteração do contexto arqueológico (ver Capítulo 3). Os elementos recolhidos resumem -se a um dente segundo molar inferior esquerdo (MIE2) e a três ossos pós -cranianos um fémur e duas falanges proximais do pé (Tabela 8.I). Todos foram recolhidos após crivagem dos sedimentos com excepção da diáfise de fémur, que foi por isso tridimensionalmente coordenada. O dente foi incluído numa amostra de restos humanos provenientes de sítios com ocupação mesolítica ou neolítica, e alvo de um estudo de ADN mitocondrial. Os resultados desse estudo indicam que o genoma das comunidades humanas desses períodos não teve contributo de populações vindas do Próximo Oriente (Chandler & alii, 2005). Outros dois dentes são presentemente alvo de um segundo estudo de ADN antigo, não estando ainda disponíveis os resultados. Um conjunto de restos humanos composto por oito dentes permanentes marcados com a designação PAN seguida de um número sequencial provavelmente atribuído durante o inventário integra a exposição permanente do Museu Municipal de Torres Vedras (Fig. 8.5). A sua proveniência espacial e estratigráfica é desconhecida, mas foram muito provavelmente recolhidos em Toledo durante a inter- FIG. 8.1 Toledo: segundo molar inferior esquerdo (Tol.1) recolhido no Concheiro de Toledo em 1995; de cima para baixo: vista oclusal e vista vestibular. 147

FIG. 8.3 Toledo: falange proximal de pé (Tol.3) recolhida no Concheiro de Toledo em 1998; da esquerda para a direita: vista plantar e vista lateral. FIG. 8.2 Toledo: diáfise de fémur (Tol.2) recolhida no Concheiro de Toledo em 1997. FIG. 8.4 Toledo: falange proximal de pé (Tol.4) recolhida no Concheiro de Toledo em 1997; da esquerda para a direita: vista dorsal e vista lateral. venção de 1986 (Zilhão & Lubell, 1987; ver Capítulo 1). Refira -se, a este propósito, que a jazida era já conhecida através do corte existente no Talude da Estrada que liga as povoações de Toledo e do Vimeiro. Nenhum estudo destes dentes foi alvo de publicação, pelo que se apresentam aqui os resultados da análise agora efectuada (Tabela 8.II). O CONCHEIRO DE TOLEDO NO CONTEXTO DO MESOLÍTICO INICIAL DO LITORAL DA ESTREMADURA 148

TABELA 8.I Toledo: inventariação e respectiva proveniência espacial e estratigráfica dos restos humanos recolhidos no Concheiro de Toledo entre 1995 e 1998. N. 0 Osso Área Quadrado Camada Nível Campanha 2. 0 molar inferior esq. A J11 B 11 1995 Tol.20 Fémur Talude SB B 150/155 1997 Falange proximal pé Talude C 1998 Tol.26 Falange proximal pé Talude SD C 125/130 1997 FIG. 8.5 Toledo: conjunto de oito dentes (Pan/1 a Pan/8) do Museu Municipal de Torres Vedras; em cima da esquerda para a direita: 1. 0 pré-molar superior direito (Pan/1) e 1. 0 pré-molar superior esquerdo (Pan/3) em vista mesial e vista oclusal; canino superior esquerdo (Pan/4), provável 2. 0 molar superior direito (Pan/6) e 3. 0 molar superior direito (Pan/5) em vista distal e vista oclusal; em baixo da esquerda para a direita: canino inferior esquerdo (Pan/2) e 3. 0 molar inferior direito (Pan/7) em vista oclusal e vista mesial); 1. 0 molar inferior esquerdo (Pan/8) em vista oclusal e vista lingual). 149

8.2. A análise osteológica 8.2.1. Os restos humanos recolhidos entre 1995 e 1998 As falanges do pé apresentam preservação quase completa, o dente exibe integridade a 50%, enquanto que o mesmo parâmetro não chega aos 25% no fémur. Todos os elementos com excepção do dente ostentam concreção carbonatada na sua superfície e algumas fracturas post mortem recentes, provavelmente relacionadas com perturbações do depósito arqueológico provocadas pelas actividades agrícolas. A ausência de concreção carbonatada no dente analisado poderá estar relacionada com a sua limpeza durante o processo de extracção de ADN de que foi alvo. O conjunto não apresenta repetição de peças, indicando um número mínimo de um indivíduo. Porém, é igualmente possível a presença de mais que um sujeito, visto não existir conexão anatómica entre os diversos elementos, para além do padrão de distribuição aleatório já referido. As estimativas de idade à morte proporcionadas pelos elementos recolhidos não contribuem, adicionalmente, para a resolução desta questão. O MIE2 apresenta faceta de contacto com o 3. 0 molar, indicando a presença de um indivíduo adulto. Esta informação é corroborada pelo desgaste observado grau 4 (Smith, 1984) compatível com o de um adulto jovem (Tabela 8.II) segundo o método de estimativa a partir dos molares desenvolvido por Brothwell (1989). As propriedades abrasivas dos alimentos são o principal factor que determina o grau de desgaste dentário, facto que resulta potencialmente na reduzida fiabilidade dos métodos de estimativa de idade à morte nele fundamentadas, dadas as diferenças populacionais ao nível da dieta alimentar (Mays, 2002). No entanto, Oliveira & alii (2006) testaram o método de Brothwell (1989) em duas populações pré -históricas brasileiras recolectoras de marisco, obtendo resultados positivos. Optou -se por esta técnica, porque os restos humanos foram encontrados em contexto de concheiro (sambaqui no original), apresentando por isso algumas semelhanças com o caso de Toledo ao nível da exploração dos recursos alimentares. Por seu lado, as falanges proximais apresentam plena maturidade indicando idade superior aos 13 anos (Scheuer & Black, 2000). O fragmento de fémur não permite uma classificação etária, mas aparenta tratar -se de um osso maturo. As estimativas de idade realizadas não apresentam incompatibilidade entre si, não colaborando por isso para o cálculo do número mínimo de indivíduos. Nenhum osso permitiu efectuar a determinação do sexo e a estimativa de estatura. Ao nível paleopatológico não se observaram lesões ósseas. O MIE2 não apresenta tártaro, nem cáries ou hipoplasias, sugerindo boa saúde oral e ausência de episódios de stress relacionados com o status nutricional. Porém, a saúde oral de um indivíduo não pode ser determinada a partir de uma única peça dentária, devendo o resultado ser considerado sob reserva. 8.2.2. Os restos humanos do Museu Municipal de Torres Vedras No conjunto dos materiais do Museu Municipal de Torres Vedras assinala -se a ausência da concreção carbonatada observada nos ossos recolhidos a partir de 1995, sendo contudo muito provável que a mesma tenha sido removida durante a limpeza do material com vista à sua inclusão na exposição permanente. Todos os dentes apresentam preservação superior a 75% e fracturas post mortem recentes. Não se encontrou repetição de peças dentárias e todas apresentam desenvolvimento e desgaste coerente com a presença de um único indivíduo. O CONCHEIRO DE TOLEDO NO CONTEXTO DO MESOLÍTICO INICIAL DO LITORAL DA ESTREMADURA 150

FIG. 8.6 Toledo: hipoplasias presentes no esmalte dentário de: 1. 0 pré-molar superior direito (Pan/1); canino inferior esquerdo (Pan/2); canino superior esquerdo (Pan/4); e provável 2. 0 molar superior direito (Pan/6). FIG. 8.7 Toledo: cárie localizada na superfície distal da junção entre o esmalte e o cementum de um provável 2. 0 molar superior direito (Pan/6). 151

A estimativa de idade a partir do desgaste dentário indica que o indivíduo representado era provavelmente um adulto de média idade. Este sofreu pelo menos um episódio de stress durante o crescimento, testemunhado pela presença de hipoplasias no esmalte em quatro dos dentes observados (Fig. 8.6). Com efeito, estes indicadores estão presentes em dois caninos (PAN/2 e PAN/4), um pré -molar (PAN/1) e um molar (PAN/6) e têm origem em perturbações fisiológicas ocorridas durante o processo de formação do esmalte (Goodman & Rose, 1990). A ausência de hipoplasias nos PAN/3 e PAN/8 explica -se pelo elevado desgaste das coroas que impossibilitou a observação deste atributo. Por outro lado, no caso dos terceiros molares, essa ausência estará relacionada com o desenvolvimento tardio na arcada dentária, provavelmente já posterior ao episódio de stress. Ao nível da patologia oral regista -se a presença de uma cárie de grau 2 (Lukacs, 1989) localizada na superfície distal da junção entre o esmalte e o cementum do PAN/6 provavelmente um segundo molar superior direito (Fig. 8.7). Assinala -se ainda a presença de tártaro nos PAN/2, PAN/5, PAN/7 e PAN/8. A sua classificação foi feita a partir de Martin & Saller (1956) e é apresentada na Tabela II. Observaram- -se casos de tártaro tanto supra como sub -gengival, sendo que o último constitui um possível indício de doença periodontal. No entanto, pode dever -se somente à contínua erupção dos dentes provocada pelo desgaste, que assim expôs a raiz aos processos de deposição de placa bacteriana. TABELA 8.II Toledo: inventário e observações efectuadas sobre os dentes de Toledo (Tol) incluindo a colecção do Museu Municipal de Torres Novas (Pan). As cáries, o tártaro e o desgaste dentário são classificados em termos de grau a partir das metodologias referidas na tabela. Cárie Hipoplasia Tártaro Desgaste Idade à morte N. 0 Inv. Dente Lucaks, 1989 Martin e Saller, 1956 Smith, 1984 Brothwell, 1981 Tol.1 2. 0 Molar inferior esq. Ausente 0 4 17/25 anos Pan/1 1. 0 Pré-molar superior dto. Presente 0 6 Pan/2 Canino inferior esq. Presente 2 5 Pan/3 1. 0 Pré-molar superior esq. Ausente 0 6 Pan/4 Canino superior esq. Presente 0 6 Pan/5 3. 0 Molar superior dto. Ausente 2 5 35/45 anos Pan/6 2. 0 Molar superior dto.(?) 2 Presente 0 5 25/35 anos Pan/7 3. 0 Molar inferior dto. Ausente 2 5 35/45 anos Pan/8 1. 0 Molar inferior esq. Ausente 4 5 35/45 anos O CONCHEIRO DE TOLEDO NO CONTEXTO DO MESOLÍTICO INICIAL DO LITORAL DA ESTREMADURA 152

8.3. Comentários finais O conjunto osteológico proporcionou um limitado número de informações osteobiográficas que por si só não permitem efectuar uma caracterização geral da população representada. No conjunto recolhido a partir de 1995 é certa a presença de pelo menos um adulto, não sendo de excluir, contudo, a possibilidade de se tratar de dois indivíduos de sexo indeterminado. A presença de restos humanos em Toledo remete para a possibilidade de enterramentos no local. A área intervencionada não apresenta elementos suficientes que permitam interpretar a utilização funerária do espaço dada a escassez de ossos e de dentes humanos exumados. Porém, a circunscrição relativa de três dos elementos humanos recuperados no Talude da Estrada (Tabela 8.I) sugere a presença de um enterramento no local, posteriormente destruído pela construção da via. Apesar dos ossos terem sido recolhidos em camadas diferentes o fémur na Camada B e as falanges na Camada C é provável que todos tenham sido acumulados durante a ocupação do concheiro (Camada B) e que a sua dispersão tenha resultado das alterações observadas no contexto arqueológico. Por seu lado, o dente analisado foi recuperado num outro sector, podendo constituir um enterramento diferente ou ser resultado de perda dentária. Todavia, a ausência de condições patológicas no MIE2 eventualmente associadas à perda de dentes em vida dá suporte à primeira hipótese. O material do Museu Municipal de Torres Vedras poderá vir em defesa da hipótese da existência de enterramentos no local, dado que os dentes correspondem possivelmente a uma inumação individual da qual não se recolheu qualquer outro elemento do esqueleto. 153