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Manuel Bandeira 1886-1968

Vida Recife, 1886 rio de Janeiro, 1968 1904 adoece do pulmão e os médicos constatam que é tuberculose, tendo poucos anos como estimativa de vida 1917 publica a primeira obra A cinza das Horas, de estética parnasiana, mas estilo modernista Contribuiu com a Semana de Arte Moderna de 1922, mas não participou ativamente poema Os Sapos, uma crítica ferrenha ao alheamento dos parnasianos

A Poesia O prosaico é a essência da poesia: Modernismo Alumbramento: o cotidiano, coloquial Liberdade: linguagem não elevada Busca pela simplicidade e humildade da poesia A poesia não está no mundo da lua, mas na terra dos homens Uma poesia de CIRCUNSTÂNCIAS e DESABAFOS vida exterior + vida interior herança fortemente simbolista pelo uso da sinestesia e metáforas da natureza

A tuberculose O inatingível, o inacessível: A vida plena A estrela, vespertina, são suas imagens comuns A vida: infância e maturidade incompletas Personagens e situações da infância: memórias A fuga para mundos imaginários A prisão e a angústia pelo estado de consciência da realidade de que a vida é frágil A sensualidade e erotismo Sua atitude humilde é a marca profunda de uma ironia trágica, pois encontra força na fraqueza, mas revela sua consciência de que a vida é frágil, suspensa por um milagre.

Estrela da Vida Inteira Estrela da vida inteira. Da vida que poderia ter sido e que não foi. Poesia, Minha vida verdadeira. Reúne as dez obras poéticas do autor sob a máxima de sua produção, de sua vida, de sua alma: a vida que poderia ter sido e que não foi. Por causa da tuberculose mal diagnosticada e mal curada, resignou-se à vida pela metade, a desejar o inatingível, a perder os sonhos para a consciência da dura realidade. A fusão entre o homem e o poeta (eu-empírico e eu-lírico) que arquiteta os sentimentos, as situações, a linguagem e as angústias mais prosaicas (cotidiano) capazes de expressar sua busca eterna pela simplicidade e humildade do viver intensamente em detrimento da impossibilidade de se viver plenamente.

"Desencanto Eu faço versos como quem chora De desalento... de desencanto... Fecha o meu livro, se por agora Não tens motivo nenhum de pranto. Meu verso é sangue. Volúpia ardente... Tristeza esparsa... remorso vão... Dói-me nas veias. Amargo e quente, Cai, gota a gota, do coração. E nestes versos de angústia rouco Assim dos lábios a vida corre, Deixando um acre sabor na boca. Eu faço versos como quem morre

Imagem És como um lírio alvo e franzino, Nascido ao pôr-do-sol, à beira d água, Numa paisagem erma onde cantava um sino A de nascer inconsolável mágoa... A vida é amarga. O amor, um pobre gozo... Hás de amar e sofrer incompreendido, Triste lírio franzino, inquieto, ansioso, Frágil e dolorido...

Os sapos Enfunando os papos, Saem da penumbra, Aos pulos, os sapos. A luz os deslumbra. Em ronco que aterra, Berra o sapo-boi: "Meu pai foi à guerra!" "Não foi!" "Foi!" "Não foi!". O sapo-tanoeiro, Parnasiano aguado, Diz: "Meu cancioneiro É bem martelado. Vede como primo Em comer os hiatos! Que arte! E nunca rimo Os termos cognatos. Longe dessa grita, Lá onde mais densa A noite infinita Veste a sombra imensa; Lá, fugido ao mundo, Sem glória, sem fé, No perau profundo E solitário, é Que soluças tu, Transido de frio, Sapo-cururu Da beira do rio...

Poética Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem comportado Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor. Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo Abaixo os puristas Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador Político Raquítico Sifilítico De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo. De resto não é lirismo Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos e cartas e às diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc. Quero antes o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbedos O lirismo difícil e pungente dos bêbedos O lirismo dos clowns de Shakespeare Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Pneumotórox Meu verso é sangue. Volúpia ardente... Febre, hemoptise¹, dispnéia² e suores noturnos. A vida inteira que podia ter sido e não foi. Tosse, tosse, tosse. Mandou chamar o médico: Diga trinta e três. Trinta e três... trinta e três... trinta e três... Respire.... O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórox³? Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Aqui eu não sou feliz Lá a existência é uma aventura De tal modo inconseqüente Que Joana a Louca de Espanha Rainha e falsa demente Vem a ser contraparente Da nora que nunca tive E como farei ginástica Andarei de bicicleta Montarei em burro brabo Subirei no pau-de-sebo Tomarei banhos de mar! E quando estiver cansado Deito na beira do rio Mando chamar a mãe-d água Pra me contar as histórias Que no tempo de eu menino Rosa vinha me contar Vou-me embora pra Pasárgada Em Pasárgada tem tudo É outra civilização Tem um processo seguro De impedir a concepção Tem telefone automático Tem alcalóide à vontade Tem prostitutas bonitas Para a gente namorar E quando eu estiver mais triste Mas triste de não ter jeito Quando de noite me der Vontade de me matar Lá sou amigo do rei Terei a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada.

Profundamente Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes, cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes nem risos Apenas balões Passavam, errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o silêncio Como um túnel. Onde estavam os que há pouco Dançavam Cantavam E riam Ao pé das fogueiras acesas? Estavam todos dormindo Estavam todos deitados Dormindo Profundamente. Quando eu tinha seis anos Não pude ver o fim da festa de São João Porque adormeci Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo Minha avó Meu avô Totônio Rodrigues Tomásia Rosa Onde estão todos eles? Estão todos dormindo Estão todos deitados Dormindo Profundamente.

A morte absoluta Morrer. Morrer de corpo e de alma. Completamente. Morrer sem deixar o triste despojo da carne, A exangue máscara de cera, Cercada de flores, Que apodrecerão felizes! num dia, Banhada de lágrimas Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte. Morrer sem deixar porventura uma alma errante... A caminho do céu? Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu? Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra, A lembrança de uma sombra Em nenhum coração, em nenhum pensamento, Em nenhuma epiderme. Morrer tão completamente Que um dia ao lerem o teu nome num papel Perguntem: Quem foi?... Morrer mais completamente ainda, - Sem deixar sequer esse nome.

A estrela Vi uma estrela tão alta, Vi uma estrela tão fria! Vi uma estrela luzindo Na minha vida vazia. Era uma estrela tão alta! Era uma estrela tão fria! Era uma estrela sozinha Luzindo no fim do dia. Por que da sua distância Para a minha companhia Não baixava aquela estrela? Por que tão alta luzia? E ouvi-a na sombra funda Responder que assim fazia Para dar uma esperança Mais triste ao fim do meu dia.

Balada das três mulheres do sabonete araxá As três mulheres do sabonete Araxá me invocam, me bouleversam, me hipnotizam. Oh, as três mulheres do sabonete Araxá às 4horas da tarde! O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá! Que outros, Não eu, a pedra cortem Para brutais vos adorarem, Ó brancaranas azedas, Mulatas cor da lua vêm saindo cor de prata Ou celestes africanas: Que eu vivo e morro só pelas três mulheres do sabonete Araxá! São amigas, são irmãs, são amantes as três mulheres do sabonete Araxá? São prostitutas, são declamadoras, são acrobatas? São as três Marias?

Meu Deus, serão as três Marias? A mais nua é doirada borboleta. Se a segunda casasse, eu ficava safado da vida, dava pra beber e nunca mais telefonava. Mas se a terceira moresse...oh, então nunca mais a minha vida outrora teria sido um festim! Se me perguntassem: Queres ser estrela? Queres ser rei? Queres uma ilha no Pacífico? Um bangalô em Copacabana? Eu responderia: Não quero nada disso, tetrarca. Eu só quero as três mulheres do sabonete Araxá. O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!

Arte de amar Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma, A alma é que estraga o amor. Só em Deus ela pode encontrar satisfação. Não noutra alma. Só em Deus ou fora do mundo. As almas são incomunicáveis. Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Unidade Minh alma estava naquele instante Fora de mim longe muito longe Chegaste E desde logo foi verão O verão com as suas palmas os seus mormaços os seus ventos de sôfrega mocidade Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície O instinto de penetração já despertado Era como uma seta de fogo Foi então que minh alma veio vindo Veio vindo de muito longe Veio vindo Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo No momento fugaz da unidade.

Irene no céu Irene preta Irene boa Irene sempre de bom humor. Imagino Irene entrando no céu: Licença, meu branco! E São Pedro bonachão: Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Poema tirado de uma notícia de jornal João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da babilônia num barracão sem número. Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro. Bebeu Cantou Dançou Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

O bicho Vi ontem um bicho Na imundície do pátio Catando comida entre os detritos Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era um gato, Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem. Cidadão de Papelão, O Teatro Mágico.

ANTOLOGIA A vida Não vale a pena e a dor de ser vivida Os corpos se entendem mas as almas não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. Vou-me embora pra Pasárgada! Aqui eu não sou feliz. Quero esquecer tudo: A dor de ser homem... Este anseio infinito e vão De possuir o que me possuí. Quero descansar Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei... Na vida inteira que podia ter sido e que não foi. Quero descansar. Morrer. Morrer de corpo e de alma. Completamente. (Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.) Quando a Indesejada das gentes chegar Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, A mesa posta, Cada coisa em seu lugar.

(UFRGS 2009)

(UFRGS 2010)