Recursos Minerais no Brasil. problemas e desafios

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Transcrição:

Recursos Minerais no Brasil problemas e desafios

Água e energia na mineração Fernando A. Freitas Lins Centro de Tecnologia Mineral CETEM RESUMO Há uma tendência de crescente dificuldade na produção mineral, com a lavra em maior profundidade, minérios com mais baixos teores (especialmente os metálicos) e mais impurezas, mineralogia mais complexa e mineração em locais remotos. Essas dificuldades, em geral, correspondem a maiores demandas de água e energia para uma mesma produção final. Daí a necessidade de avanços tecnológicos para melhorar a competitividade das empresas com sustentabilidade. Palavras-chave Água na Mineração. Energia na Mineração. Sustentabilidade na Mineração.

279 INTRODUÇÃO A água e a energia são dois temas tranversais que crescerão em importância no curto, médio e longo prazos na agenda de prioridades das empresas de mineração, no Brasil e no mundo. São tranversais porque impactam quase todos os processos das atividades de mineração, e utilizar esses recursos de forma mais sustentável passa primeiramente por conhecer o quanto e como são utilizados. É bem estabelecida a tendência de uma crescente dificuldade na produção mineral: lavra em maior profundidade, minérios com mais baixos teores (especialmente os metálicos) e mais impurezas, mineralogia mais complexa e mineração em locais remotos. Essas dificuldades, em geral, correspondem a maiores demandas de água e energia para uma mesma produção final. Daí a necessidade de avanços tecnológicos para melhorar a competitividade das empresas. A estiagem recente, o nível baixo dos reservatórios das hidrelétricas, a utilização mais frequente das termelétricas e a elevação do custo da energia apontam para um provável e necessário esforço no sentido de racionalizar seu uso, mesmo não sendo a mineração intensiva em água, como ocorre com a agricultura, e eletrointensiva, como é a metalurgia. Um ponto de partida para usar esses recursos de forma mais sustentável é saber o quanto e como é utilizado. ÁGUA NA MINERAÇÃO O Relatório de Conjuntura dos Recursos Hídricos da ANA (2010) traz informações sobre captação e consumo de água na irrigação, na indústria de transformação e em outras atividades, mas não sobre a mineração. Por outro lado, os relatórios anuais de lavra (RAL), que as empresas preenchem e enviam ao DNPM, contêm informações quantitativas, desde 2000, sobre a utilização de água. Esse acervo é uma rica fonte de dados que ainda está por ser explorada. Alguns países estão mais adiantados nesse conhecimento. Os EUA, Austrália e Canadá, por exemplo, executam levantamentos a cada cinco anos. Os EUA iniciaram essa atividade em 1950 e a mineração passou a ser contabilizada separadamente a partir de 1985. O relatório (ANA, 2010) informa que 7,4 bilhões de metros cúbicos de água, 1,4% do total do país, foram captados para a mineração, aí incluída a extração de petróleo e gás. A mineração australiana (incluindo também P&G) consumiu em 2010 cerca 0,5 bilhão de metros cúbicos, equivalendo a 3,6% do consumo de água da Austrália. No Canadá, em 2009, a mineração (stricto sensu) captou 0,5 bilhão de metros cúbicos, cerca de 1,3% de todo o país. Assim, tem sido possível acompanhar os efeitos de políticas públicas, da adoção de novas tecnologias e de iniciativas das empresas ao longo de décadas. Mas isso não significa que as mineradoras no país, ao menos uma parte delas, estejam indiferentes à questão. As informações divulgadas na mídia especializada e em eventos técnicos mostram evolução significativa, a exemplo da recirculação de água, havendo registros de elevação deste índice de 40%, vinte anos atrás, para mais de 80% na atualidade. Isso mostra um esforço na direção de uma melhor gestão dos recursos hídricos. O IBRAM também tem coordenado iniciativas nesse sentido, com troca de informações entre seus associados sobre indicadores e coeficientes técnicos de utilização da água (m 3 /t de produto mineral).

280 Recursos Minerais no Brasil: problemas e desafios No entanto, os efeitos das iniciativas para melhorar a gestão da água na mineração brasileira como um todo apenas serão percebidos com a realização de levantamentos periódicos. Se houver informações consolidadas a respeito do uso de água na mineração, a fração de água que é captada dos mananciais e aquela de origem subterrânea, o percentual de recirculação segundo o porte das empresas (pequena, média e grande) e conforme os grupos de minerais (ferrosos, não-ferrosos e não-metálicos), qualidade da água descartada, entre outras. É necessário também identificar tópicos de P&D para a formatação de uma agenda de inovação tecnológica visando o melhor aproveitamento da água nas várias etapas da mineração (lavra, processamento mineral, transporte de minérios e tratamento e descarte de efluentes). O tema barragem, que pode envolver tecnologias de desaguamento, ganhou relevo recentemente com o acidente na Samarco, em Mariana. Uma alternativa ao uso de barragens de rejeitos, para disposição de polpas minerais, é a produção de pasta mineral a qual pode ser manuseada como um rejeito sólido, contendo baixa umidade (~20%). A água pode então ser tratada e devolvida ao ambiente ou reutilizada no processo. A preferência por barragens se dá em função do baixo custo, porém com o recrudescimento das exigências legais para licenciamento e manutenção (especialmente após o acidente ambiental em Mariana, MG) de grandes barragens de rejeito, e o desenvolvimento tecnológico, a alternativa por pastas já está se tornando viável e tem sido empregada em alguns empreendimentos, inclusive com adaptação de barragens de polpa existentes para áreas de disposição de pasta. As pesquisas devem incluir todos os aspectos teóricos de produção de pastas objetivando-se avanços tecnológicos que permitam reduzir os custos operacionais de produção, bem como reduzir os custos de capital envolvidos na aquisição de equipamentos de plantas de produção de pastas minerais. A filtragem aplicada a rejeitos também deve ser objeto de mais atenção, pois possibilita descartar o material com apenas 10% de umidade. A crise de abastecimento que se configura é uma oportunidade para aprofundar o conhecimento sobre a água na mineração brasileira e aperfeiçoar as práticas de gestão nas empresas. E para a delicada comunicação com o público, o melhor instrumento ainda é a informação direta e clara sobre os resultados já obtidos, especialmente no relacionamento com as comunidades no entorno das minas e na região a jusante da rede hidrográfica. ENERGIA ELÉTRICA A produção de aço, ferro-ligas e alumínio, por exemplo, demanda, respectivamente, 500, 7.000 e 15.000 kwh/t. A fabricação de produtos não-metálicos, como o cimento e a cerâmica de revestimento, usa aproximadamente 100 kwh/t. A mineração, dependendo do tipo de minério e do grau de complexidade do beneficiamento empregado, apresenta consumo entre 3 e 30 kwh/t apenas. A produção de brita, bauxita e minério de ferro necessita, em média, de 3, 13 e 20 kwh/t, respectivamente. Os consumos específicos são relativamente baixos, mas as quantidades processadas na mineração são significativas, da ordem de dois bilhões de toneladas anuais de produção bruta (run-of-mine) no Brasil e entre 40 e 50 bilhões de toneladas ao ano em escala global. A mineração brasileira consome 2,3% da energia elétrica do país, correspondendo a 15 milhões de MWh em 2013 (SGM/MME, 2014). Esse consumo inclui a pelotização de finos de minério de ferro (40 kwh/t). Portanto, vale o esforço para otimizar as operações para reduzir o consumo, ainda tendo em conta o atual período de baixa dos preços das commodities, com menores margens de lucro. Nesse sentido, vale lembrar o lançamento da norma ISO 50001, em 2011, referente à gestão de energia. Há um grande potencial para sua disseminação, a exemplo das normas ISO 9001 e 14001. Os benefícios práticos que um sistema de gestão de energia pode trazer para uma empresa incluem a diminuição de custos pelo uso de menos energia elétrica e a redução (indireta) da emissão de gases de efeito estufa. Mas deve-se contabilizar também o ganho da percepção pública positiva pela adoção de práticas que podem ser mensuradas e auditadas. Até 2014, nove empresas brasileiras tinham obtido a certificação ISO 50001, entre elas uma siderúrgica, porém nenhuma de mineração. Em nível mundial também não é ainda comum. No Canadá, por exemplo, apenas uma empresa de mineração, produtora de ouro, obteve essa certificação até 2014. A etapa de cominuição (britagem/peneiramento e moagem/classificação) responde por metade do consumo elétrico de uma usina de tratamento de minérios. E esse consumo vai crescer devido ao aumento da produção de minérios, seja para consumo interno, seja para exportação. Certamente essa etapa deve ser um alvo prioritário nos esforços de inovação e otimização. Outras inovações poderão trazer redução de custos em energia. Enfim, são desafios que as empresas de mineração, fornecedores, consultores e instituições de ciência e tecnologia atuantes no setor mineral deverão enfrentar juntos.

Capítulo III Tecnologia Mineral 281 REFERÊNCIAS ANA - Agência Nacional de Águas. Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil - Informe 2010. 2010. Disponível em: <http://www3.snirh.gov.br/portal/ snirh/snirh-1/conjuntura-dos-recursos-hidricos/ conj2010_inf.pdf>. Acesso em 12 de maio de 2015. MME - Ministério de Minas e Energia. Sinopse da Mineração e Transformação Mineral - 2014, base 2013. Secretaria de Geologia, Mineração e Transformação Mineral (SGM). 2014. Disponível em: <http:// www.mme.gov.br/documents/1138775/1732837/ SINOPSE-2013-2014_26.02.2015.pdf/849d14cb-2eec- 4206-a89f-45325aa853e3>. Acesso em 12 de maio de 2015.