Métodos de Estudo Bíblico Ensino Teológico à Distância Escola Teológica Batista Livre (ETBL) Campinas, SP 2012 Esta apostila segue exposição feita por Walter A. Henrichsen no livro Métodos de Estudo Bíblico, Editora Mundo Cristão, com algumas adaptações.
1 1ª lição Introdução O estudo da Palavra de Deus é muito importante para o amadurecimento do cristão. Sua espiritualidade necessita de um equilíbrio saudável que inclui experiências com Deus e absorção da Palavra de Deus. É um equilíbrio entre o exercício do lado emocional do cristão e o exercício intelectual. As duas áreas precisam ser dominadas pelo Espírito Santo de Deus. Paulo ensina que devemos ser transformados pela renovação da nossa mente (Rm 12:1), substituindo a maneira mundana (humanista e egoísta) de pensar pela maneira de pensar de Deus. É quando pensamos como Deus pensa, quando reagimos como Deus reage e quando desejamos o que Deus deseja, que nos tornamos cristãos maduros, verdadeiros discípulos de Jesus Cristo. Mas como podemos saber como Deus pensa e quais são os seus desejos? É através da sua Palavra, a Bíblia Sagrada. A Bíblia é a revelação de Deus para nós. Ela nos ensina sobre a natureza (essência) de Deus (Pai, Filho e Espírito Santo), suas obras, seus desejos e vontade. É através do estudo desta Palavra que podemos conhecê-lo melhor. É verdade que precisamos também de experiências pessoais com Deus (que mantêm o equilíbrio entre o emocional e o intelectual), mas o conhecimento da Palavra é fundamental para entendermos e interpretarmos essas experiências espirituais. Senão, corremos o risco de sermos guiados meramente por emoções humanas e não pelo Espírito de Deus. Alguns resistem à noção de estudar intelectualmente a Bíblia alegando que essa não é uma atividade espiritual. Esta posição pressupõe que o Espírito Santo somente age espontaneamente através de nossas emoções e nunca através da atividade intelectual. Essa posição não tem base bíblica. Deus nos criou como seres complexos que possuem emoções, vontade própria e intelecto. Quando trabalha com o ser humano, Deus age (através do seu Espírito) em todas essas áreas. Temos muitos exemplos bíblicos, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, da atuação de Deus no intelecto humano. Deus usou pessoas com capacidade e preparo intelectual para servirem como instrumentos seus (exemplos: Moisés, Esdras e Paulo). Para melhor conhecermos essa Palavra que renova a nossa mente, vamos estudar alguns métodos de estudo bíblico. Esses métodos não são, em si, sagrados. São apenas ferramentas que abrirão as portas para um maior entendimento da Palavra de Deus. O que o estudo bíblico fará ao cristão que se dedicar a essa tarefa com sinceridade e perseverança, ajudado pelo Espírito Santo? 1. Primeiramente, o estudo nos tornará crentes mais eficazes (fortes). Quando a Palavra de Deus habita ricamente (abundantemente) no cristão (Cl 3:16ª) ela atua com eficácia (1 Ts. 2:13), ou seja, serve como instrumento para nos transformar em cristãos mais autênticos.
2 2. O apóstolo João nos informa que o objetivo da carta por ele escrita, sob a direção do Espírito Santo, é transmitir a certeza da salvação, a convicção da vida eterna (1 Jo. 5:13). A Bíblia é a única fonte de certeza. 3. Se as palavras de Deus permanecerem em nós, temos confiança e poder na oração (Jo. 15:7). 4. A Palavra de Deus operando em nós trará purificação dos nossos pecados (Jo. 15:3; 17:17). 5. Jo. 15:11 nos dará alegria. 6. Jo. 16:33 produzirá paz. 7. Sl. 119:105 nos orientará nas decisões da vida. 8. 1 Pe. 3:15-16 nos capacitará a testemunhar de nossa fé. 9. Josué 1:8 Será uma garantia de sucesso. Mau emprego da Bíblia: A Bíblia pode ser usada de maneira inadequada e errônea. Vamos examinar pelo menos cinco maneiras indevidas de se usar as escrituras. 1. Muitos usuários das Escrituras erram por desconhecer o que a Bíblia diz sobre um determinado assunto. Um exemplo disso é o uso indiscriminado que se faz no meio evangélico do termo unção, sem se conhecer o significado bíblico. Para muitos o termo significa poder ou demonstrações bizarras (como unção do leão ). Seu uso bíblico, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, é de uma separação ou consagração de pessoas ou objetos para uso dedicado a Deus ou para serem instrumentos dele. 2. Outro erro comum é tirar um versículo fora de seu contexto. Tomemos por exemplo Ec 3:19-21 onde pode parecer que tanto os seres humanos quanto os animais não possuem uma alma eterna e que, ao morrer fisicamente, a vida do ser humano simplesmente acaba e ele volta ao pó. No entanto, o contexto do livro de Eclesiastes é o do ponto de vista de um homem vivendo a sua vida longe de Deus. Este é o parecer de quem não leva Deus em consideração e a sua conclusão não condiz com a realidade. Tirado fora deste contexto, pode parecer que o autor de Eclesiastes está ensinando que não existe vida após a morte. 3. Um princípio básico do estudo da Bíblia é que é necessário interpretar o texto bíblico de acordo com a intenção do autor. Não se pode dar qualquer outro significado a um texto inspirado pelo Espírito Santo de Deus. Muitos erram gravemente ao ler uma passagem e fazê-la dizer o que ela não diz. Seria um mau emprego da Bíblia, por exemplo, interpretar Ef 3:1 como se todos os cristãos devessem se tornar prisioneiros de Jesus como Paulo era.
3 4. Também não se pode dar ênfase indevida a coisas menos importantes. Na parábola do Bom Samaritano em Lc 10:34, não se pode dizer que o óleo e o vinho usados no curativo do homem ferido representam a cura pelo Espírito Santo pelo fato de o óleo e o vinho, na Bíblia, sempre representarem o Espírito Santo. Essa é uma interpretação errônea. O objetivo da parábola era ensinar a necessidade de se fazer o bem ao próximo, qualquer que seja a circunstância ou a etnia (Jesus estava respondendo a questão sobre quem é o nosso próximo). O uso do óleo e do vinho não tem qualquer significado especial nesta estória. Eram simplesmente os remédios caseiros da época e não são o foco da parábola. 5. Outro erro grave é a prática de usar a Bíblia para tentar manipular Deus para que ele faça a nossa vontade. Um exemplo claro disso é usar Mt 21:22, onde Jesus promete que receberemos tudo que pedirmos em oração, crendo, para fazer pedidos egoístas: quero um carro novo! A Bíblia nos ensina em passagens como 1 Jo 5:14 e Tg 4:3 que existem condições para estes pedidos e que Deus não responde aos pedidos egoístas. Seis princípios básicos para o estudo Bíblico Ao iniciarmos o estudo da Bíblia devemos levar os seguintes princípios em consideração: 1. Orar para pedir direção e iluminação o estudo da Palavra de Deus não é um estudo meramente intelectual como de qualquer outro livro. É, acima de tudo, um estudo espiritual que exige a atuação do Espírito Santo nos orientando e nos iluminando. A iluminação que o Espírito Santo nos dá é uma ajuda para entendermos as coisas espirituais. Sem essa iluminação não teremos capacidade de discernir a mente de Deus e aquilo que ele quer nos mostrar (1 Co 2:10-16). 2. Investigação original aprenda a pesquisar por si mesmo. Não dependa somente de enlatados (estudos já prontos feitos por outras pessoas). Aprenda a pensar por si mesmo, a fazer perguntas ao texto e a Deus, a meditar e a buscar uma aplicação apropriada para sua vida. 3. Reprodução escrita ao fazer seu estudo bíblico, faça anotações, resumos, esboços e finalmente escreva por extenso o seu estudo. A interação por escrito com o texto ajuda na retenção (aprendizagem). Anotações e textos escritos ficam arquivados e facilitam a revisão anos mais tarde. 4. Estudo constante e sistemático precisamos criar o hábito de estudar. O estudo da Bíblia deve se tornar uma disciplina espiritual que praticamos com naturalidade. É também necessário que seja sistemático; isto é, precisamos estudar a Bíblia toda, não só as partes que gostamos (Mt 28:20 e 2 Tm 3:16-17). 5. Transferível o estudo que preparamos deve também ser transferível; isto é, aquele que o recebe deve poder transmiti-lo para outra(s) pessoa(s).
4 6. Aplicação para a vida diária o estudo da Palavra de Deus não deve ser meramente um exercício intelectual, mas prático também. Não estudamos só para acumular conhecimento, mas, estudamos para saber como devemos viver. Cada lição aprendida deve ser colocada em prática. Caixa de ferramentas do estudioso da Bíblia Atualmente temos a nosso alcance várias ferramentas para nos acessorar no estudo da Bíblia. Preparei o que chamo de caixa de ferramentas para o estudo da Bíblia que se encontra em anexo. Devemos lembrar, no entanto, que estas ferramentas não são infalíveis. Elas são concebidas por seres humanos e, apesar de contribuir muito ao nosso estudo, podem conter erros e/ou ter pontos de vista doutrinários diferentes.