COBRANÇA DE CHEQUES PRESCRITOS Armindo de Castro Júnior INTRODUÇÃO O objetivo do presente artigo é tentar esclarecer quais são as medidas judiciais para cobrança de cheques prescritos, abordando o prazo de prescrição dessas ações, bem como os requisitos para sua propositura. PRESCRIÇÃO DO CHEQUE O cheque prescreve em seis meses, a contar do término do prazo de apresentação, da data de emissão, que é de 30 ou 60 dias, sendo o título respectivamente emitido na praça de pagamento ou fora dela, conforme prescreve a Lei do cheque (Lei nº 7.357/85): Art. 33 - O cheque deve ser apresentado para pagamento, a contar do dia da emissão, no prazo de 30 (trinta) dias, quando emitido no lugar onde houver de ser pago e de 60 (sessenta) dias, quando emitido em outro lugar do País ou no exterior. [...] Art. 59 - Prescreve em 6 (seis) meses, contados da expiração do prazo de apresentação, a ação que o art. 47 desta Lei assegura ao portador. Para informações mais detalhadas sobre o tema, remetemos o leitor para nosso artigo, intitulado Prescrição do cheque. Análise da interpretação doutrinária e jurisprudencial. 1 * Advogado em Cuiabá-MT, professor universitário, mestre em Ciências Jurídico-Empresariais pela Universidade de Coimbra (Portugal). 1 CASTRO JÚNIOR, Armindo de. Prescrição do cheque. Análise da interpretação doutrinária e jurisprudencial. Jus Navigandi, Teresina, ano 11, n. 1542, 21 set. 2007. Disponível em: <http:// jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=10438>. Acesso em: 14 jan. 2009.
34 Cobrança de Cheques Prescritos PROTESTO DE CHEQUE PRESCRITO PROTESTO COMO CAUSA DE INTERRUPÇÃO DA PRESCRIÇÃO Enquanto não estiver prescrito, é lícito o protesto do cheque, até como meio de interromper a prescrição cambiária, conforme dispõe nosso Código Civil: Art. 202 - A interrupção da prescrição, que somente poderá ocorrer uma vez, dar-se-á: [...] III - por protesto cambial; O Código Civil de 1916 não trazia, no rol do artigo 172, o protesto cartorário como uma das causas de interrupção da prescrição. Em 1963, interpretando tal dispositivo legal, o Supremo Tribunal Federal firmou o entendimento de que: Simples protesto cambiário não interrompe a prescrição, através da edição da Súmula nº 153 2. Com a entrada em vigor do novo Código Civil, tal entendimento encontra-se devidamente superado. ILEGALIDADE DO PROTESTO DE TÍTULO PRESCRITO Questão controvertida é a de se é lícito levar cheque prescrito a protesto. A polêmica está na interpretação do final do caput do artigo 9º da Lei de Protestos (Lei nº 9.492/97): Art. 9º - Todos os títulos e documentos de dívida protocolizados serão examinados em seus caracteres formais e terão curso se não apresentarem vícios, não cabendo ao Tabelião de Protesto investigar a ocorrência de prescrição ou caducidade. Sem a pretensão de esgotar o assunto, que merece estudo mais aprofundado, entendemos que a impossibilidade de o tabelião conhecer 2 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Órgão Julgador: Pleno. Súmula nº 153: Simples protesto cambiário não interrompe a prescrição. Data do julgamento: 13 dez. 1963. Publicação: Súmula da Jurisprudência Predominante do Supremo Tribunal Federal Anexo ao Regimento Interno. Edição: Imprensa Nacional, 1964, p. 85. Jurisprudência disponível em <www.stf.jus.br>. Acesso em 22 mar. 2009.
Armindo de Castro Júnior 35 da prescrição ou caducidade, não autoriza o credor a levar a protesto cheque prescrito pelos seguintes motivos: IMPOSSIBILIDADE DE O JUIZ CONHECER DE OFÍCIO DA PRESCRIÇÃO Até 2006, não era possível ao juiz conhecer, de ofício, da prescrição, conforme dispunha o artigo 166 3, do Código Civil de 1916, bem como o artigo 194 do Código atual 4. Seria no mínimo incoerente autorizar ao tabelião conhecer de algo vedado ao magistrado. 5 PROTESTO NÃO É MEIO DE COBRANÇA O protesto não é uma forma extrajudicial de cobrança e, sim, um meio de prova que visa à conservação e à ressalva de direitos. Nesse sentido, pode ser utilizado para: a) Provar a mora do devedor de um título de crédito, com o objetivo de conservar o direito de regresso contra os coobrigados indiretos. 6 b) Requerer a falência de empresário, fundada em impontualidade injustificada. Para tal, o título de crédito não pode estar prescrito (Lei nº 11.101/2005, artigos 94, inciso I e 96, inciso II). c) Execução de duplicata sem aceite (Lei nº 5.474/68, artigo 15, inciso II). d) Interromper a prescrição do título, como já exposto (Código Civil, artigo 202, inciso III). Em qualquer das hipóteses aventadas, o protesto de título prescrito 3 Art. 166. O juiz não pode conhecer da prescrição de direitos patrimoniais, se não foi invocada pelas partes. 4 Art. 194. O juiz não pode suprir, de ofício, a alegação de prescrição, salvo se favorecer a absolutamente incapaz. 5 O artigo 194 do Código Civil foi revogado pela Lei nº 11.280/2006. Atualmente, o artigo 219 do CPC dispõe, in verbis: 5º - O juiz pronunciará, de ofício, a prescrição. 6 O prazo de protesto para conservação do direito de regresso é bastante exíguo. Para a nota promissória e a letra de câmbio, de acordo com a interpretação doutrinária adotada, o prazo é, ou o dia seguinte ao do vencimento (Decreto nº 2.044/1908, artigo 28) ou de dois dias (artigo 44, do Anexo I, da Lei Uniforme de Genebra (Decreto nº 57.633/66). O protesto da duplicata deve ser tirado em 30 dias, a contar do vencimento (Lei nº 5.474/68, artigo 13, 4º). No caso do cheque, para conservação do direito de regresso é necessário que o cheque tenha sido apresentado dentro do prazo de 30 ou 60 dias e que a recusa de pagamento seja provada pelo protesto ou por carimbo comprovando o não pagamento do título, aposto pelo banco sacado ou pela câmara de compensação (Lei do Cheque, artigos 33 e 47, inciso II). Observe-se que a Lei de Protestos exige, em seu artigo 6º, que para se levar a cabo o protesto do cheque, é necessário que se prove a apresentação do título ao banco sacado.
36 Cobrança de Cheques Prescritos demonstra-se ineficaz como meio de conservação de direitos, configurando-se, portanto, conduta abusiva do credor, passível de reparação civil. Sobre o tema, assim se pronunciou o Superior Tribunal de Justiça: Indenização. Protesto de cheque prescrito e sem a devida notificação. Dano moral caracterizado. 1. O simples fato de enviar a protesto cheque prescrito e sem que feita a devida notificação, como reconhecido nas instâncias ordinárias, acarreta o dever de indenizar. 2. Recurso especial conhecido e provido. (STJ. Órgão Julgador: Terceira Turma. Recurso Especial nº 602.136/PB. Relator: Min. Carlos Alberto Menezes Direito. Data do julgamento: 07 dez. 2004. Publicação: Diário de Justiça, 11 abr. 2005, p. 291). 7 COBRANÇA JUDICIAL DE CHEQUES PRESCRITOS Existem, basicamente, três medidas judiciais para recebimento de cheques prescritos; duas delas estão previstas, respectivamente, nos artigos 61 e 62 da Lei do Cheque: as ações de enriquecimento ilícito e causal. A terceira trata-se da ação monitória e está prevista nos artigos 1.102-A a 1.102-C do Código de Processo Civil. CARACTERÍSTICAS COMUNS As ações para cobrança de cheques prescritos têm, em comum, as seguintes características: NÃO-CABIMENTO DE JUROS MORATÓRIOS Não é cabível a cobrança de juros moratórios a partir da apresentação do cheque ao banco sacado (Lei do Cheque, artigo 52, inciso II). 8 7 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Jurisprudência disponível em <www.stj.jus.br>. Acesso em 22 mar. 2009. 8 Art. 52 - O portador pode exigir do demandado: I - a importância do cheque não pago; II - os juros legais desde o dia da apresentação; III - as despesas que fez; IV - a compensação pela perda do valor aquisitivo da moeda, até o embolso das importâncias mencionadas nos itens antecedentes.
Armindo de Castro Júnior 37 Como o cheque está prescrito, os juros somente são devidos a partir da citação (Código Civil, artigo 397, parágrafo único). Nesse sentido está o entendimento do STJ: AÇÃO MONITÓRIA. CHEQUE PRESCRITO. JUROS MORATÓRIOS. TER- MO INICIAL. Os juros moratórios, na ação monitória, contam-se a partir da citação. Recurso especial não conhecido. (STJ. Órgão Julgador: Quarta Turma. Recurso Especial nº 554.694/RS. Relator: Min. Barros Monteiro. Data do julgamento: 06 set. 2005. Publicação: Diário de Justiça, 24 out. 2005, p. 329). 9 Sobre o tema, interessante consultar o inteiro teor do Agravo Regimental no Agravo de Instrumento nº 666.617/RS STJ. INCIDÊNCIA DE CORREÇÃO MONETÁRIA A correção monetária (Lei do Cheque, artigo 52, inciso IV) é devida desde a data de emissão do cheque, segundo jurisprudência mais recente do STJ: COMERCIAL - PROCESSUAL CIVIL AGRAVO DE INSTRUMENTO - AGRAVO REGIMENTAL - AÇÃO MONITÓRIA CHEQUE PRESCRITO ATÉ PARA AÇÃO DE LOCUPLETAMENTO CAUSA DA DÍVIDA - COR- REÇÃO MONETÁRIA - TERMO INICIAL. O cheque prescrito serve como instrumento de ação monitória, mesmo vencido o prazo de dois anos para a ação de enriquecimento (Lei do Cheque, Art. 61), pois o Art. 1.102a. do CPC exige apenas prova escrita sem eficácia de título executivo. Dispensa-se a indicação da causa de emissão do cheque prescrito que instrui ação monitória. Na ação monitória para cobrança de cheque prescrito, a correção monetária corre a partir da data do respectivo vencimento. (STJ. Órgão Julgador: Terceira Turma. Agravo Regimental no Agravo de 9 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Op. cit.
38 Cobrança de Cheques Prescritos Instrumento nº 666.617/RS. Relator: Min. Humberto Gomes de Barros. Data do julgamento: 01 mar. 2007. Publicação: Diário de Justiça, 19 mar. 2007, p. 322). 10 No mesmo sentido, consultar os Recursos Especiais nº 55.932 e 365.061, ambos de Minas Gerais. IMPOSSIBILIDADE DE COBRANÇA DE AVALISTAS Uma vez prescrito o título, desaparecem as relações puramente cambiárias, como o aval. Assim, o avalista não poderá ser acionado, salvo se ficar provado que houve enriquecimento sem causa. Nesse sentido, Fran Martins é bastante claro, ao ensinar que: [...] o portador que não exerceu a competente ação executiva contra sacador ou endossantes, no prazo legal, tem o direito de agir, já não mais cambiariamente mas em ação comum, contra o sacador ou endossantes que hajam feito lucros ilegítimos à sua custa. Não poderá agir, contudo, contra os avalistas porque esses são sempre obrigados cambiários e, prescrito o cheque, o documento perde a sua natureza cambiária para transformar-se em um quirógrafo comum. Daí não ser devida a ação de locupletamento contra os avalistas, sejam eles do emitente ou dos endossantes, pois o aval, instituto cambiário, perece com a descaracterização do cheque como título cambiariforme, segundo acima se explicou. 11 No mesmo sentido está o entendimento do Superior Tribunal de Justiça: DIREITO COMERCIAL. RECURSO ESPECIAL. EMBARGOS À AÇÃO MO- NITÓRIA. CHEQUE PRESCRITO. PROPOSITURA DE AÇÃO CONTRA O AVALISTA. NECESSIDADE DE SE DEMONSTRAR O LOCUPLETAMEN- TO. PRECEDENTE. - Prescrita a ação cambial, desaparece a abstração das relações jurídicas cambiais firmadas, devendo o beneficiário do título demonstrar, como 10 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Op. cit. 11 MARTINS, Fran. Títulos de crédito: cheques, duplicatas, títulos de financiamento, títulos representativos e legislação. 11. ed. v. 2. Rio de Janeiro: Forense, 1998, p. 124.
Armindo de Castro Júnior 39 causa de pedir na ação própria, o locupletamento ilícito, seja do emitente ou endossante, seja do avalista. Recurso especial a que não se conhece. (STJ. Órgão Julgador: Terceira Turma. Recurso Especial nº 457.556/SP. Relatora: Min. Nancy Andrighi. Data do julgamento: 11 nov. 2002. Publicação: Diário de Justiça, 16 dez. 2002, p. 331). 12 AÇÃO DE ENRIQUECIMENTO ILÍCITO FUNDAMENTO LEGAL Também conhecida como ação de locupletamento injusto, esta ação tem como fundamento a Lei do Cheque, que dispõe, in verbis: Art. 61 - A ação de enriquecimento contra o emitente ou outros obrigados, que se locupletaram injustamente com o não-pagamento do cheque, prescreve em 2 (dois) anos, contados do dia em que se consumar a prescrição prevista no art. 59 e seu parágrafo desta Lei. CARACTERÍSTICAS As principais características desta ação são as seguintes: AÇÃO CAMBIAL A ação de enriquecimento ilícito é cambial, por estar prevista na Lei do Cheque e, para sua propositura, dispensa a prova da existência da relação causal, bastando a simples exibição do cheque prescrito. RITO Sendo uma ação de conhecimento, o rito da ação de locupletamento é de livre escolha do credor: na justiça comum, pode ser manejada pelo rito ordinário ou sumário se o valor da ação for de até 60 salários mínimos (Código de Processo Civil, artigo 275, inciso I). Nos juizados especiais, os requisitos são dois: o autor deve ser pessoa física (Lei nº 9.099/95, artigo 12 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Op. cit.
40 Cobrança de Cheques Prescritos 8º, 1º), microempresa ou empresa de pequeno porte (Lei Complementar nº 123/2006, artigo 74; e o valor da causa deve ser de até 40 salários mínimos (Lei nº 9.099/95, artigo 3º, inciso I). PRESCRIÇÃO O prazo para se propor a ação é de dois anos, a contar da prescrição da execução. APLICABILIDADE DOS PRINCÍPIOS DE DIREITO CAMBIÁRIO Questão que causa controvérsia na doutrina é a aplicabilidade dos princípios da autonomia, abstração e da inoponibilidade de exceções a terceiro de boa-fé, este último consagrado pelo artigo 25 13 da Lei do Cheque. Fábio Ulhoa Coelho entende que tais princípios são aplicáveis: Como a ação de enriquecimento indevido é cambial, se o demandante é o endossatário do cheque e o demandado é o emitente, não poderá esse último, na contestação, suscitar matérias pertinentes ao negócio originária do título, matérias que, perante terceiros de boa-fé, não são oponíveis no regime cambiário. Frise-se, entretanto, que se a demanda é promovida pelo tomador contra o emitente, será lícito ao réu contestar o pleito discutindo a relação jurídica originária do título. Exemplo: se Antonio tomou dinheiro emprestado de Benedito agiota que cobra juros usurários, e procedeu ao pagamento do devido por cheques, que foram regularmente endossados a Carlos, terceiro de boa-fé, na ação de enriquecimento indevido que o último promover contra aquele não será cabível contestar a pretensão, discutindo a limitação legal dos juros. Mas se o cheque não circulou, na ação de enriquecimento indevido que Benedito aforar contra Antonio, será perfeitamente discutível o excesso de juros. 14 Em sentido diametralmente oposto, está Gladston Mamede, entendendo que os princípios de Direito Cambiário não são aplicáveis a esta ação: 13 Art. 25 - Quem for demandado por obrigação resultante de cheque não pode opor ao portador exceções fundadas em relações pessoais com o emitente, ou com os portadores anteriores, salvo se o portador o adquiriu conscientemente em detrimento do devedor. 14 COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito comercial: Direito de empresa: empresa e estabelecimento; títulos de crédito. 12 ed. v. 1. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 452-453.
Armindo de Castro Júnior 41 Trata-se de ação ordinária, de processo de conhecimento: prescrito o cheque, não há mais falar em declaração unilateral de vontade, nem nas garantias cambiais da autonomia, da independência e da abstração. A pretensão se funda no negócio subjacente, impedindo que uma parte se locuplete à custa da outra, ou seja, que se enriqueça indevidamente, causando correlato empobrecimento indevido no patrimônio do portador do cheque. Diante desse quadro, não é mais o cheque, por si, a razão de ser do procedimento judicial, mas o fato jurídico no qual foi emitido. 15 A melhor solução, contudo, parece a dada por Fran Martins. Após discorrer sobre as matérias de defesa na ação de execução, abordando o artigo 25 da Lei do Cheque, o professor adotou o seguinte entendimento: Nas ações de enriquecimento indevido não são aplicáveis estritamente as normas acima enumeradas, já que tais ações fogem ao direito cambiário, integrando-se no direito comum. Assim, as exceções apontadas podem ser opostas pelo réu ao autor, mas a defesa daquele não se restringe apenas a tais exceções. Outros meios de prova poderão ser arguidos e naturalmente, contestados pelo autor. Na ação de enriquecimento as provas são as mais amplas para ambas as partes, cabendo ao juiz afinal sentenciar a respeito, reconhecendo o direito do autor ou do réu, de acordo com as provas apresentadas, o seu convencimento e as regras de direito. 16 AÇÃO CAUSAL FUNDAMENTO LEGAL A ação causal, tal qual a de enriquecimento ilícito, é uma ação de conhecimento, estando prevista na Lei do Cheque: Art. 62 - Salvo prova de novação, a emissão ou a transferência do cheque não exclui a ação fundada na relação causal, feita a prova do nãopagamento. 15 MAMEDE, Gladston. Direito empresarial brasileiro: títulos de crédito. 4. ed. v. 3. São Paulo: Atlas, 2008, p. 299. 16 MARTINS, Fran. Op. cit., p. 125.
42 Cobrança de Cheques Prescritos CARACTERÍSTICAS A ação causal tem as seguintes características: DEMONSTRAÇÃO DA CAUSA DEBENDI Diferentemente da ação de locupletamento, para a propositura da ação causal, é necessária a demonstração da relação fundamental, ou seja, do negócio que deu origem ao cheque. O título, neste caso, serve apenas como prova da inadimplência da relação fundamental. OPÇÕES DO CREDOR Sendo ação baseada na relação causal, existem duas opções para o credor: manejar ação de cobrança, baseada na inadimplência do devedor ou promover a ação causal propriamente dita, para discussão do negócio fundamental. A ação causal propriamente dita pode ser promovida a qualquer tempo, inclusive enquanto o cheque ainda tiver força executiva. Os requisitos são os mesmos da ação de cobrança; os objetivos, contudo, são outros: discutir a relação fundamental, promovendo seu desfazimento, por exemplo. Explica-se: o cheque, como qualquer título de crédito, é emitido em caráter pro-solvendo, ou seja, não quita desde logo a obrigação fundamental; a obrigação somente se dará por satisfeita com a efetiva quitação do título pelo banco sacado. Exemplificando: Caio emite cheque a favor de Décio, para pagamento da compra de um computador. O título resta devolvido por falta de provisão de fundos. Décio, enquanto o cheque não estiver prescrito, pode executá-lo ou promover uma ação para desfazimento do negócio, retomando o computador. Com a ocorrência da prescrição, Décio poderá manejar ação de enriquecimento ilícito, ação de cobrança, monitória, ou, ainda, a ação para desfazer a relação fundamental. O mesmo se dá em cheque emitido para pagamento de aluguéis: o locador terá as mesmas opções de cobrança ou, a qualquer momento, poderá ingressar com ação de despejo contra o locatário.
Armindo de Castro Júnior 43 RITO A ação de cobrança pode seguir qualquer dos ritos descritos na ação de locupletamento. PRESCRIÇÃO O prazo prescricional da ação causal é o mesmo da obrigação que deu origem ao título, devendo o prazo ser contado a partir de quando a obrigação é exigível e, não, da prescrição do cheque. Não havendo prazo inferior previsto por lei, a prescrição da ação causal dar-se-á em 10 anos (Código Civil, artigo 205). Inúmeras são as hipóteses previstas no artigo 206 de nosso estatuto civil que preveem prazos menores de prescrição. Por exemplo, se o cheque foi dado em pagamento de: refeição consumida em restaurante, o prazo é de um ano ( 1º, inciso I); prestação alimentar, dois anos ( 2º); aluguel ou reparação civil, três anos ( 3º, incisos I e V); contrato, honorários advocatícios ou custas processuais, cinco anos ( 5º, inciso I, II e III). A prescrição de título de crédito, prevista no 3º, tem pouca aplicação prática, na medida em que as leis especiais, em geral, dispõem sobre a prescrição dos títulos de crédito. CONTRA QUEM PODE SER PROPOSTA Regra geral, o portador do cheque poderá ingressar com a ação causal somente contra o coobrigado com quem teve relação direta. Assim, o tomador poderá ingressar contra o emitente, fazendo prova de sua relação negocial com ele; o endossatário, contudo, somente poderá acionar o endossante, pessoa com quem teve relação imediata, não podendo ingressar contra o emitente, salvo se fizer prova da relação entre este e o endossante. AÇÃO MONITÓRIA FUNDAMENTO LEGAL A ação monitória está prevista nos artigos 1102-A a 1102-C do Código de Processo Civil.
44 Cobrança de Cheques Prescritos CARACTERÍSTICAS As principais características da ação monitória são as seguintes: FUNÇÃO A ação monitória tem como função principal, segundo Mandrioli 17, eliminar a complexidade do juízo ordinário de conhecimento derivada das exigências do contraditório. Assim, na lição de Humberto Theodoro Júnior: [...] o procedimento se desdobra em duas fases: na primeira fase, o juiz, sem contraditório e de maneira rapidíssima, verifica o conteúdo do pedido e a prova do autor, deferindo, se for o caso, a expedição do mandado de pagamento, inaudita altera parte. Na segunda fase, fica assegurada ao réu a iniciativa de abrir o pleno contraditório sobre a pretensão do autor, eliminando, dessa forma, todo e qualquer risco de prejuízo que possa ter-lhe provocado a sumariedade de cognição operada na primeira fase. 18 DESNECESSIDADE DE DEMONSTRAR A CAUSA DEBENDI Ao contrário do que ocorre com a ação causal, não é necessária, quando da propositura da ação, a demonstração da relação fundamental (causa debendi). Um cheque prescrito enquadra-se no conceito de prova escrita sem eficácia de título executivo, previsto no artigo 1.102-A do CPC. Nesse sentido, está a Súmula 299 do Superior Tribunal de Justiça. 19 17 MANDRIOLI, Crisanto. Corso de Diritto Processuale Civile. 8.ed. Torino: Giapichelli Editore, 1991, v. 3, apud THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil. 17. ed. v. 3. Rio de Janeiro: Forense, 1996, p. 381. 18 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil. 17.ed. v. 3. Rio de Janeiro: Forense, 1996, p. 381. 19 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Órgão Julgador: Segunda Seção. Súmula nº 299: É admissível a ação monitória fundada em cheque prescrito. Data do julgamento: 18 out. 2004. Publicação: Diário de Justiça, 22 nov. 2004, p. 425. Jurisprudência disponível em <www.stj.jus. br>. Acesso em 22 mar. 2009.
Armindo de Castro Júnior 45 CITAÇÃO E PAGAMENTO O réu é citado para que pague a quantia determinada, no prazo de 15 dias (CPC, artigo 1.102-B). Caso cumpra o mandado, de acordo com o disposto no artigo 1.102-C, 1º, ficará isento de custas e honorários advocatícios. EMBARGOS MONITÓRIOS No mesmo prazo de 15 dias, o réu poderá interpor embargos monitórios, hipótese em que deflagrará o contraditório, seguindo o processo obrigatoriamente pelo rito ordinário (CPC, artigo 1.102-C, 2º). Os embargos monitórios têm natureza de verdadeira contestação, devendo o réu trazer aos autos prova de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor (CPC, art. 333, II). Sobre o tema, bastante precisa é a lição de Gladston Mamede: Dessa forma, o título prescrito implicará presunção relativa (iuris tantum) da existência do crédito, sem que se exija do autor digressão e prova sobre o negócio fundamental. A inserção desta relação jurídica de base na discussão deverá ser feita pelo réu, por meio de impugnação, apontando defeitos e vícios, podendo alegar questões como a prescrição. 20 REVELIA Se ocorrer a revelia, constituir-se-á, de pleno direito, o título executivo judicial, convertendo-se o mandado inicial em mandado executivo (CPC, artigo 1.102-C, caput). RITO Conforme exposto, uma vez embargada, a monitória deve seguir pelo rito ordinário. Esta ação é efetivamente vantajosa para créditos superiores a 60 salários mínimos, na medida em que não é possível a propositura de ação de cobrança pelo procedimento sumário ou sumaríssimo, dos juizados especiais. 20 MAMEDE, Gladston. Op. cit., p. 180.
46 Cobrança de Cheques Prescritos A ação monitória não deve ser proposta nos juizados especiais, por incompatibilidade de ritos; uma vez interposta, contudo, o juiz deverá, ante os princípios informadores dos juizados especiais (simplicidade, informalidade, celeridade e economia processual), recebê-la como uma mera reclamação, seguindo o próprio dos juizados (o réu será citado para comparecer à audiência de conciliação e, não, para pagar). Note-se que se o cheque estiver prescrito há menos de dois anos, apto, portanto, para a ação de enriquecimento ilícito (Lei do cheque, artigo 61), o título será prova suficiente para a propositura da ação; caso a prescrição tenha alcançado até a ação de locupletamento injusto, o autor deverá fazer prova da relação fundamental (causa debendi), sob pena de inépcia da inicial. PRESCRIÇÃO Não existe jurisprudência firmada sobre a prescrição da ação monitória, alguns entendendo que o prazo seria de dez anos (Código Civil, artigo 205); outros entendem que a ação prescreveria em cinco anos (Código Civil, artigo 206, 5º, I) ou, ainda, em três anos (Código Civil, artigo 206, 3º, IV ou VIII). Analisemos caso a caso: a) 10 anos (Código Civil, artigo 205 21 ) o próprio dispositivo legal estabelece que a prescrição decenária somente será aplicada quando a lei não fixar prazo menor. Conforme veremos a seguir, o artigo 206 estabelece diversas hipóteses de prescrição passíveis de enquadramento, o que afasta a incidência do artigo 205. b) 3 anos (Código Civil, artigo 206, 3º, IV 22 ) o fundamento da ação monitória seria o enriquecimento sem causa (Código Civil, artigo 884) do emitente ou do endossante. Entendemos que o dispositivo legal não pode ser aplicado porque a Lei do Cheque já estabelece o prazo de dois anos para a ação de enriquecimento ilícito, conforme já visto, além de o artigo 886 do Código Civil claramente dispor: Não caberá a restituição por enriquecimento, se a lei conferir ao lesado outros meios para se ressarcir do prejuízo sofrido. 21 Art. 205. A prescrição ocorre em dez anos, quando a lei não lhe haja fixado prazo menor. 22 Art. 206. Prescreve: 3º - Em três anos: IV - a pretensão de ressarcimento de enriquecimento sem causa;
Armindo de Castro Júnior 47 c) 3 anos (Código Civil, artigo 206, 3º, VIII 23 ) o dispositivo legal cuida apenas da prescrição executiva dos títulos de crédito em que a lei especial não estipulou prazo prescricional, não podendo ser aplicado à ação monitória. Ademais, com a ocorrência da prescrição, o cheque não mais pode ser considerado como título de crédito, sendo mero início de prova. d) 5 anos (Código Civil, artigo 206, 5º, I 24 ) para propositura da ação monitória, cheque prescrito equivaleria a prova escrita sem eficácia de título executivo (CPC, artigo 1102-A). A indagação está em saber se igualmente está enquadrado no conceito de dívida líquida constante de instrumento particular, previsto no artigo em comento. Não há dúvida de que o cheque, mesmo prescrito, contém a expressão de uma dívida líquida, além de ser documento particular. Resta saber se tal documento seria um instrumento. Othon Sidou define cheque como sendo instrumento de exação 25. Segundo Houaiss, instrumento é qualquer título, auto, documento escrito, que serve para fazer constar fato ou convênio de que derivam consequências jurídicas 26. Não restam dúvidas, portanto, de que a propositura de ação monitória fundada em cheque sem força executiva prescreve em cinco anos, a contar da data da emissão do título. Se, porém, o réu, em embargos monitórios, carrear ao processo a prova da relação fundamental, a prescrição da ação monitória dar-se-á no mesmo prazo dessa relação. CONCLUSÕES O cheque é título executivo extrajudicial e como tal deve ser utilizado. Inúmeras são as vantagens em não deixá-lo prescrever: maior rapidez e eficácia do processo de execução, cabimento de juros moratórios e legalidade de protestar o título. 23 Art. 206. Prescreve: 3º - Em três anos: VIII - a pretensão para haver o pagamento de título de crédito, a contar do vencimento, ressalvadas as disposições de lei especial. 24 Art. 206. Prescreve: 5º - Em cinco anos: I - a pretensão de cobrança de dívidas líquidas constantes de instrumento público ou particular. 25 SIDOU, J. M. Othon. Do cheque. 3 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1986, p. 28. 26 HOUAISS, Antonio, VILLAR, M. S.. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Disponível em <http://houaiss.uol.com.br/busca.jhtm>. Acesso em 25 fev. 2009.
48 Cobrança de Cheques Prescritos Ocorrendo, porém, a prescrição, existe a possibilidade de o credor receber seu crédito através de ação de enriquecimento ilícito, ação causal ou, ainda, ação monitória. A opção por cada uma dessas ações deve levar em conta o valor do título, a prova da relação fundamental, a qualidade do credor e o rito processual. BIBLIOGRAFIA BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Jurisprudência disponível em <www.stj.jus. br>. Acesso em 22 mar. 2009. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Jurisprudência disponível em <www.stf.jus.br>. Acesso em 22 mar. 2009. CASTRO JÚNIOR, Armindo de. Prescrição do cheque. Análise da interpretação doutrinária e jurisprudencial. Jus Navigandi, Teresina, ano 11, n. 1542, 21 set. 2007. Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=10438>. Acesso em: 14 jan. 2009. COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito comercial: Direito de empresa: empresa e estabelecimento; títulos de crédito. 12. ed. v. 1. São Paulo: Saraiva, 2008. HOUAISS, Antonio; VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Disponível em <http://houaiss.uol.com.br/busca.jhtm>. Acesso em 25 fev. 2009. MAMEDE, Gladston. Direito empresarial brasileiro: títulos de crédito. 4. ed. v. 3. São Paulo: Atlas, 2008. MANDRIOLI, Crisanto. Corso de Diritto Processuale Civile. 8. ed. Torino: Giapichelli Editore, 1991, v. 3, apud THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil. 17. ed. v. 3. Rio de Janeiro: Forense, 1996. MARTINS, Fran. Títulos de crédito: cheques, duplicatas, títulos de financiamento, títulos representativos e legislação. 11. ed. v. 2. Rio de Janeiro: Forense, 1998. SIDOU, J. M. Othon. Do cheque. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1986. THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil. 17. ed. v. 3. Rio de Janeiro: Forense, 1996.