RECURSOS TRABALHISTAS



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O que é porte de remessa e retorno dos autos e quando é devido? Quando há isenção do pagamento do porte de remessa e retorno dos autos?

Transcrição:

\\ Leia a lei: CAPÍTULO 10 RECURSOS TRABALHISTAS ͳ ͳ CLT, arts. 893 a 901 e Leis 5.584/70 e 7.701/88 1. INTRODUÇÃO 1.1. Classificação dos provimentos jurisdicionais Os provimentos jurisdicionais podem ser assim classificados, segundo diversos doutrinadores: Definitivas Órgãos singulares Decisões / Sentenças (CPC, 162, 1º) Finais Terminativas ATOS JURISDICIONAIS Interlocutórias (CPC, 162,, 2º) Despachos (CPC, 162, 3º) Finais Órgãos colegiados Acórdãos (CPC, 163) Interlocutórios 149

gáudio r. de paula e daniel de matos sampaio chagas 1.2. Classificação das medidas de impugnação De acordo com a terminologia adotada por parte da doutrina, as medidas de impugnação podem ser assim classificadas: Os recursos, por sua vez, podem ser agrupados do seguinte modo: AUTORIDADE PRESSUPOSTOS EXTENSÃO Próprios Órgão superior Ordinários Extrínsecos Totais Todo conteúdo impugnável Impróprios Mesmo órgão Extraordinários Extrínsecos + Intrínsecos Parciais Parte do conteúdo impugnável 150

FORMA Principais Insurgência autônoma Adesivos Insurgência condicional FIM Reforma Anulação Integração FUNDAMENTAÇÃO Livre Vinculada 2. PRINCÍPIOS Entre os princípios processuais aplicáveis aos recursos, podem ser destacados os seguintes: 2.1. Duplo grau de jurisdição O princípio do duplo grau de jurisdição é, por assim dizer, a própria razão de ser dos recursos, uma vez que propõe a necessidade de que as decisões judiciais sejam passíveis de reexame por órgão jurisdicional hierarquicamente superior ao prolator da decisão. 151

gáudio r. de paula e daniel de matos sampaio chagas Assegura, pois, à parte o direito de obter a revisão de provimento jurisdicional decisório desfavorável ou contrário aos seus interesses. Cumpre ter presente aqui a distinção entre: DUPLO GRAU Em que a análise do recurso dá-se por órgão jurisdicional diverso do "a quo" e hierarquicamente superior. V.g.: Processo Civil - apelação. Processo do Trabalho - recurso ordinário e agravo de petição. DUPLO EXAME Em que a análise do recurso dá-se pelo mesmo órgão jurisdicional prolator da decisão recorrida. V.g. Processo Civil - sistema recursal dos Juizados Especiais Cíveis Estaduais Processo do Trablaho - embargos infringentes contra decisão não unanime na SDC, julgados pelo mesmo órgão prolator. De acordo com a posição doutrinária predominante, o princípio não tem foro constitucional, isto é, sua sede normativa não seria constitucional, ao contrário do que poderia sugerir uma leitura mais literal do art. 5º, LV, da CF. Sua fonte formal mais próxima seria o Decreto 678/92 (que ratificou o Pacto de São José da Costa Rica), em seu art. 8º, 2, h, que assegura o direito de recorrer da sentença para juiz ou tribunal superior. Nesse contexto, a legislação infraconstitucional pode impor limitações ao princípio. 2.1.1. Alçada No âmbito da Justiça do Trabalho, pode ser recordada como situação emblemática de restrição ao duplo grau a contida no art. 2º da Lei 5.584/70 quanto aos processos submetidos ao rito sumário, no qual salvo se versarem sobre matéria constitucional, nenhum recurso caberá das sentenças proferidas nos dissídios da alçada a que se refere o parágrafo anterior, considerado, para esse fim, o valor do salário mínimo à data do ajuizamento da ação. 152

Observe-se que o TST entende que o preceito foi recepcionado pelo Texto Constitucional, nos termos da Orientação Jurisprudencial 11 da SBDI-1. 2.1.2. Remessa de ofício De outro lado, vale notar que há algumas hipóteses em que o duplo grau não só é assegurado, como resulta indispensável ao trânsito em julgado da decisão. Trata-se do instituto do recurso ou remessa de ofício, disciplinado pelo Decreto-Lei 779/69, que dispõe sobre a aplicação de normas processuais trabalhistas à Administração Pública e, em seu art. 1º, V, assegura a prerrogativa de submissão ao duplo grau necessário como condição indispensável para o trânsito em julgado de decisão contrária à Fazenda Pública. Quanto ao alcance subjetivo da regra, pode-se sintetizar os limites nos seguintes termos: INCLUÍDOS Entes da Administração Pública Direta Autárquica e Fundacional União Federal, aos Estados, Municípios, Distrito Federal e Autarquias ou Fundações de direito público que não explorem atividade econômica Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT - OJ 247 da SbDI-1) NÃO INCLUÍDOS Sociedades de economia mista Empresas públicas (salvo ECT) \\ POSIÇÃO DO TST: A respeito da matéria, o TST editou, entre outros verbetes, a Súmula 303, cujo teor é o seguinte: FAZENDA PÚBLICA. DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO. I - Em dissídio individual, está sujeita ao duplo grau de jurisdição, mesmo na vigência da CF/1988, decisão contrária à Fazenda Pública, salvo: a) quando a condenação não ultrapassar o valor correspondente a 60 (sessenta) salários mínimos; b) quando a decisão estiver em consonância com decisão plenária do Supremo Tribunal Federal ou com súmula ou orientação jurisprudencial do Tribunal Superior do Trabalho. 153

gáudio r. de paula e daniel de matos sampaio chagas II - Em ação rescisória, a decisão proferida pelo juízo de primeiro grau está sujeita ao duplo grau de jurisdição obrigatório quando desfavorável ao ente público, exceto nas hipóteses das alíneas a e b do inciso anterior. É de se ressaltar que, se for desrespeitada a regra da remessa necessária e já tiver se exaurido o prazo recursal, não cabe ação rescisória contra a decisão desfavorável ao ente público, diante da não ocorrência do transito em julgado, pressuposto para a propositura da rescisória (CPC, art. 485 e CLT, art. 836). A medida apropriada seria a avocação pelo órgão jurisdicional de segundo grau para submeter a decisão ao duplo grau, à luz da OJ 21 DA SBDI-2. Outro aspecto a ser observado diz respeito às hipóteses em que o ente público sucumbente não lança mão de recurso voluntário contra a sentença (decisão de primeiro grau) desfavorável e o Tribunal Regional do Trabalho a mantém, ao analisar o recurso de ofício. Nesse caso, não seria cabível recurso de revista, segundo o entendimento contido na OJ 334 da SbDI-1 do TST. 2.2. Taxatividade De acordo com o princípio da taxatividade, apenas seriam admitidas as medidas de impugnação previstas pela lei. No caso dos recursos, a relação estaria nos arts. 496 do CPC e 893 da CLT. Eis a relação dos recursos previstos em tais dispositivosm, a serem analisados detidamente mais adiante: Apelação Agravo RECURSOS CÍVEIS Embargos infringentes Embargos de declaração Recurso ordinário Recurso especial Recurso extraordinário Embargos de divergência em recurso especial e em recurso extraordinário. RECURSOS TRABALHISTAS Embargos Recurso ordinário Recurso de revista Agravo 154

Os agravos regimentais, embora contem com previsão apenas no regimento interno dos tribunais, também têm sido admitidos, apesar de não encontrarem sede normativa em lei, em sentido estrito. De outro lado, o STF (RE 405031) entendeu que a reclamação, destinada à preservação da competência ou autoridade das decisões proferidas pelo TST, não poderia ser admitida, por falta de amparo legal, uma vez que se encontrava prevista apenas no Regimento Interno do Tribunal. Também vale destacar que o mandado de segurança pode ser considerado instrumento residual (alguns doutrinadores qualificam como sucedâneo recursal ) para aquelas hipóteses em que não existe recurso próprio (Lei 12.106/09, art. 5º, II, a contrario sensu ). É o que o TST vem afirmando com recorrência a partir da OJ 92 da SbDI-2. 2.3. Correspondência O princípio da correspondência complementa, de certa forma, o princípio da taxatividade. Se de um lado, o segundo principio enuncia a necessidade de manejo apenas dos recursos previstos em lei, de outro, o primeiro estabelece que para cada provimento jurisdicional, há um (ou mais) recurso(s) próprio(s). Sua sede normativa seriam os já mencionados arts. 893 da CLT e 496 do CPC. 2.4. Unirrecorribilidade (singularidade) De acordo com o princípio da unirrecorribildiade, seria cabível apenas um recurso para cada decisão, não sendo cabível a interposição simultânea pela mesma parte de espécies recursais diferentes e concomitantes atacando o mesmo capítulo decisão e com o mesmo objetivo. No Processo Civil, a exceção expressamente admitida é a da interposição simultânea de recurso especial e recurso extraordinário (CPC, art. 541) contra acórdãos provenientes de tribunais de justiça ou tribunais regionais federais que contenham matéria constitucional e infraconstitucional. Já no Processo do Trabalho a única exceção que a jurisprudência do TST vem admitindo é a da interposição concomitante de 155

gáudio r. de paula e daniel de matos sampaio chagas embargos à SbDI-1 e de recurso extraordinário para o STF (E-ED- -RR - 1612/2004-036-12-00, Relator - GMHSP, DJ - 16/05/2008). Nesse caso, o exame do recurso extraordinário será sobrestado até o julgamento do recurso de embargos pela SbDI-1. Diante do princípio da unirecorribilidade, não são admitidas as seguintes possibilidades: RECURSO ADESIVO COMO SUCEDÂNEO DE RECURSO PRINCIPAL A parte que já fez uso de recurso principal não pode, no prazo para contrarrazoar o recurso da outra parte, apresentar recurso adesivo (com o objetivo de complementar o principal). EMBARGOS DECLARATÓRIOS DUPLOS A mesma parte não pode opor mais de um recurso de embargos declaratórios. EMBARGOS DECLARATÓRIOS E RECURSO PRÓPRIO A mesma parte não pode interpor, ao mesmo tempo, embargos declaratórios e recurso próprio (dirigido a órgão jurisdicional diverso do prolator da decisão recorrida) - v.g. recurso ordinário, recurso de revista, embargos para SbDI-1. COMPLEMENTAÇÃO RAZÕES RECURSAIS Uma vez interposto o recurso, não seria admitida a complementação da razões recursais já apresentadas. 2.5. Variabilidade o princípio da variabilidade encontrava previsão no CPC de 1939, em seu art. 809. Representa certa mitigação do princípio da singularidade, na medida em que permite à parte substituir o recurso já interposto por outra modalidade recursal, desde que respeitado o respectivo prazo recursal. 156

É o caso de substituir embargos declaratórios por recurso próprio (recurso ordinário, recurso de revista, etc.). Na doutrina, há controvérsia sobre a necessidade de a parte formalizar desistência do recurso já interposto, para poder lançar mão de outra espécie recursal. A posição mais razoável parece ser a dos que defendem tal formalidade, como modo de superar a objeção relativa ao desrespeito do princípio da unicorrecorrilidade. 2.6. Fungibilidade o princípio da fungibilidade atua como forma de flexibilização dos princípios da taxatividade e correspondência. Não encontra previsão legal no atual CPC, mas no de 1939, que, em seu art. 810 o contemplava expressamente. Cuida-se da possibilidade de o órgão jurisdicional receber recurso incorretamente manejado como outra espécie recursal compatível com a previsão legal correspondente. Há, essencialmente, duas principais correntes em torno das condições necessárias para que o princípio possa ser aplicado: DÚVIDA RAZOÁVEL Se houver dúvidas razoável a respeito de qual seria a espécie recursal apropropriada. A fungilbilidade não poderia ser invocada em caso de "erro grosseiro" (CPC de 1939, art. 810). A principal crítica feita à teoria é a arbitrariedade dos conceitos (de "razoável" e "grosseiro"). PRESSUPOSTOS Bastaria que fossem atendidos todos os pressupostos (comuns e específicos) do recurso que deveria ter sido interposto. O questionamento que se faz a essa posição é a de que seria sumamente restritiva, já que se aplicaria apenas aos casos de equívoco somente quanto "nomem juris" do recurso. No Tribunal Superior do Trabalho, pode-se afirmar que vem predominando a primeira teoria (da dúvida razoável / objetiva ou do erro grosseiro). Para sintetizar as principais hipóteses em que o TST vem reconhecendo ou afastando a aplicação da fungibilidade, pode ser apresentado o seguinte quadro: 157

gáudio r. de paula e daniel de matos sampaio chagas APLICÁVEL A FUNGIBILIDADE HIPÓTESE RECURSO CORRETO REFERÊNCIA Embargos Declaratórios contra decisão monocrátiva, em que se postula efeito modificativo Recurso ordinário contra decisão monocrática indeferitória de petição inicial de ação rescisória ou mandado de segurança Agravo inominado contra decisão monocrática que nega seguimento a recurso (CLT, art. 896, 5º) Agravo (inominado ou regimental) Agravo regimental Agravo regimental Súmula 421, II, do TST OJ 69 da SbDI-2 Jurisprudência TST INAPLICÁVEL A FUNGIBILIDADE HIPÓTESE RECURSO CORRETO REFERÊNCIA Embargos Declaratórios contra decisão denegatória de seguimento de recurso no primeiro juízo de admissibilidade Embargos à SbDI-1 contra decisão monocrática Agravo contra decisão colegiada Recurso de revista contra acórdão de TRT em ação rescisória ou mandado de segurança Agravo de instrumento Agravo (inominado ou regimental) Embargos declaratórios, Embargos à SbDI-1 (se o acórdão for de turma), Recurso extraordinário (se o acórdão for da SbDI-1), etc. Recurso ordinário OJ 377 da SbDI-1 OJ 378 da SbDI-1 OJ 412 da SbDI-1 OJ 152 da SbDI-2 158

2.7. Dialeticidade A dialiticidade remete à ideia segundo a qual o processo deve estabelecer um diálogo transparente e honesto entre as partes. Diante de tal premissa, uma exigência essencial é necessidade de fundamentação dos recursos, como condição para que tal diálogo seja entabulado, uma vez que sem a indicação dos fundamentos, revela-se inviável o debate. No âmbito da Justiça do Trabalho, os recursos podem ser apresentados por simples petição (CLT, art. 899). Daí decorre a conclusão extraída por alguns autores, segundo a qual os recursos trabalhistas poderiam se despir de fundamentação. No tocante aos recursos dirigidos ao Tribunal Superior do Trabalho, contudo, a Corte já pacificou o entendimento de que há necessidade de impugnação específica das razões de decidir contidas no ato jurisdicional objeto de irresignação recursal. É o que assenta a Súmula 422 do TST. Quanto aos recursos dirigidos aos Tribunais Regionais do Trabalho, há alguma polêmica, mas há inclinação jurisprudencial no sentido de se mitigar a aplicação da Súmula 422 do TST em relação a tais apelos endereçados aos TRTs (TST-RR-194-11.2011.5.02.0009, Rel. Des. Conv. José Maria Quadros de Alencar, 1ª Turma, DeJT de 29/11/2013). Cumpre ressaltar que mesmo nos casos dos recursos ordinários, se forem objeto de competência funcional do TST, vem se exigindo a fundamentação (TST-ROAR-1016100-35.2007.5.22.0000, Rel. Min. Emmanoel Pereira, SbDI-2, DeJT de 11/05/2012). 2.8. Voluntariedade O princípio da voluntariedade encerra a noção de imprescindibilidade de manifestação de vontade, isto é, de que a interposição de recurso deve decorre de ato volito da parte recorrente. Assim, impõe-se a manifestação expressa de vontade que evidencie a irresignação do recorrente, delimitando o seu conteúdo de modo a demarcar o alcance do exame realizado pelo órgão jurisdicional ad quem. Há, nesse contexto, estreita conexão com o efeito devolutivo, à luz do princípio tantum devolutum quantum appellatum. 159

gáudio r. de paula e daniel de matos sampaio chagas A voluntariedade é um dos fundamentos para não se admitir o recurso de revista de ente público que não foi precedido de recurso ordinário voluntário (OJ 334 da SbDI-1). O princípio também tem sido invocado para não conhecer do recurso que contém erro quanto ao nome parte recorrente (TST- -AIRR-237400-07.2002.5.06.0906, Rel. Min. Rosa Maria Weber Candiota da Rosa, 3ª Turma, DeJTde 30/05/2008). De outro lado, não obstante o principio da voluntariedade, a jurisprudencia do TST não tem reputado necessária a ratificação de recurso ordinário (ou de revista) razão em caso de interposição anterior de embargos declaratórios pela outra parte (TST- -RR-164400-25.2006.5.06.0003, Rel. Min. Kátia Magalhães Arruda, 5ª Turma, DEJT 19/11/2010). 2.9. Proibição da reformatio in pejus De acordo com o princípio da non reformatio in pejus, a interposição de recurso não poderia ensejar a reforma da decisão recorrida para agravar a situação da parte recorrente. Tal princípio deve ser respeito mesmo em caso de remessa necessária, segundo a Súmula 45 do STJ. Há, entretanto, exceções. Entre outras, podem ser lembradas as seguintes: EFEITO TRANSLATIVO A análise de ofício de matérias de ordem pública poderia conduzir a situação de desvantagem processual ao recorrente RECURSO ADMINISTRATIVO Diante da possibilidade de revisão dos atos administrativos RECURSO ADESIVO Cujo exame poderia levar ao agravamento da situação da parte que interpõe o recurso principal 160

2.10. Irrecorribilidade de imediato das decisões interlocutórias Um princípio específico do Processo do Trabalho é o da irrecorribilidade de imediato das decisões interlocutórias, cuja sede normativa são os arts. 799, 2º, e 893, 1º, da CLT. Seu conteúdo é a vedação quanto à interposição, de imediato, de recurso contra decisões que tenham por objeto questão incidental (v.g. acolhimento de exceção, indeferimento de prova, etc.), devendo-se aguardar a decisão final (definitiva ou terminativa) para que a matéria possa ser impugnada. As principais exceções a serem destacadas quanto ao princípio da irrecorribilidade de imediato das decisões interlocutórias são as seguintes: Contrariedade a súmula ou OJ Quando a decisão interlocutória contrariar súmula ou orientação jurisprudencial do TST. Recurso para o mesmo tribunal Em caso de embargos declaratórios, agravo regimental, embargos de divergência, etc. Exceção incompetência territorial Se houver o acolhimento de tal exceção com encaminhamento dos autos a vara do trabalho vinculada a TRT distinto daquele a que se encontrava vinculado o juízo excepto. Incompetência absoluta Se o acolhimento resultar no envio dos autos à Justiça Comum. Impugnação do valor da causa Quando for possível o pedido de revisão do valor da causa (Lei 5.584/70). Decisão denegatória de seguimento recursal Será cabível agravo de instrumento (CLT, 897). 161

gáudio r. de paula e daniel de matos sampaio chagas Ressalte-se que há precedentes no TST no sentido de que, em caso de admissão excepcional do recurso contra a decisão interlocutória, a parte teria o ônus e não a faculdade de interpor o apelo, de imediato (TST-RR-1244500-03.2005.5.09.0002, Rel. Min. Guilherme Augusto Caputo Bastos, 2ª Turma, DeJT de 20/04/2012 e TST- -RR-161500-84.2005.5.04.0771, Rel. Min. Fernando Eizo Ono, 4ª Turma, DeJT de 28/06/2010). 3. EFEITOS DOS RECURSOS Os efeitos recursais podem ser classificados de acordo com o fato de decorrerem da mera interposição do recurso ou de seu julgamento: INTERPOSIÇÃO Devolutivo Translativo Suspensivo JULGAMENTO Substitutivo Extensivo 3.1. Devolutivo O efeito devolutido permite a apreciação por parte do órgão jurisdicional a que se dirige o recurso dos temas impugnados pela parte no recurso. A matéria impugnada, que foi debatida na decisão revisanda ( a quo ), é submetida a novo julgamento à instância superior ( ad quem ). É inerente a qualquer recurso. O espectro de abrangência do efeito devolutivo compreende, segundo a doutrina duas dimensões: CPC, art. 515 EXTENSÃO Devolve à apreciação do órgão jurisdicional ad quem todos os temas ( capítulos ) da decisão impugnados pela parte recorrente ( tantum devolutum quantum apellatum ) PROFUNDIDADE CPC, art. 515, 1º e 2º Devolve todas as questões (pontos controvertidos) surgidas e fundamentos da demanda, ainda que não examinados 162

\\ POSIÇÃO DO TST: A proposito de tais perspectivas, eis o teor da Súmula 393 do TST: RECURSO ORDINÁRIO. EFEITO DEVOLUTIVO EM PROFUNDIDADE. ART. 515, 1º, DO CPC. O efeito devolutivo em profundidade do recurso ordinário, que se extrai do 1º do art. 515 do CPC, transfere automaticamente ao Tribunal a apreciação de fundamento da defesa não examinado pela sentença, ainda que não renovado em contra-razões. Não se aplica, todavia, ao caso de pedido não apreciado na sentença. 3.2. Suspensivo Efeito suspensivo acarreta a paralização da eficácia da decisão revisanda até pronunciamento do órgão revisor. Impede, pois, a execução, ainda que provisória, do julgado. Em regra, os recursos trabalhistas não têm efeito suspensivo, por força de expressa previsão legal (CLT, art. 899). Não se admite, pois, a invocação das regras processuais cíveis (CPC, art. 527, II). Há, contudo, duas exceções relevantes: RECURSO EM DISSÍDIO COLETIVO Lei nº 7.701/88, arts. 7º, 6º, e 9º Em que o presidente do TST pode conceder efeito suspensivo por até 120 dias. AÇÃO CAUTELAR Súmula 414 TST Seria a medida cabível para se obter efeito suspensivo em recurso, excepcionalmente. \\ POSIÇÃO DO TST: Veja-se o que prevê a Súmula 414 do TST quanto à possibilidade de manejo da ação cautelar para se obter o efeito suspensivo: MANDADO DE SEGURANÇA. ANTECIPAÇÃO DE TUTELA (OU LIMINAR) CONCEDIDA ANTES OU NA SENTENÇA. I - A antecipação da tutela concedida na sentença não comporta impugnação pela via do mandado de segurança, por ser impugnável mediante recurso ordinário. A ação cautelar é o meio próprio para se obter efeito suspensivo a recurso. II - No caso da tutela antecipada (ou liminar) ser concedida antes da sentença, cabe a impetração do mandado de segurança, em face da inexistência de recurso próprio. III - A superveniência da sentença, nos autos originários, faz perder o objeto do mandado de segurança que impugnava a concessão da tutela antecipada (ou liminar). Note-se que a competência funcional para apreciar a ação cautelar é do órgão jurisdicional (Súmulas 634 e 635 do STF): 163

gáudio r. de paula e daniel de matos sampaio chagas "A QUO" Se não tiver sido feito o primeiro juízo de admissibilidade. "AD QUEM" Se já tiver sido feito o primeiro juízo de admissibilidade. 3.3. Regressivo Como regra, ao órgão jurisdicional prolator de decisão final é vedado voltar-se a se pronunciar sobre o feito (preclusão pro judicato ), ainda que haja interposição de recurso. É o que se extrai do art. 836 da CLT. Há, no entanto, alguns recursos que produzem o denominado efeito regressivo, o qual enseja a possibilidade de retratação ou reconsideração por parte do órgão jurisdicional a quo. Seriam exemplos de recursos que contam com efeito regressivo: AGRAVOS De instrumento e regimental CPC, 523, 2º Tanto em um caso quanto em outro o prolator da decisão agravada tem a oportunidade de se retratar. EMBARGOS DECLARATÓRIOS CPC, 538 e CLT, 897-A Diante da existência de vício na decisão embargada (omissão, obscuridade, contradição ou, sobretudo, manifesto equívoco na análise de pressuposto recursal extrínseco), admitie-se a reconsideração por parter do órgão juriscional prolator da decisão embargada. RECURSO EXTRAORDINÁRIO CPC, 543-B, 3º Quando há sobrestamento do feito, por repercussão geral, e o STF decide em sentido contrário ao da decisão recorrida, o órgão responsável pela admissibilidade do recurso extraordinário determina a devolução do processo ao relator originário para que tenha a oportunidade de se retratar, curvando-se ao entendimento do Supremo. 164

3.4. Translativo O efeito translativo acarreta a transferência à instância superior de matérias não expressamente impugnadas nas razões recursais. Há, portanto, uma espécie de flexibilização do efeito devolutivo em extensão (e do princípio do tantum devolutum quantum apellatum ). É o que ocorre com as chamadas matérias de ordem pública, as quais poderiam ser apreciadas de ofício pelo órgão jurisdicional ad quem, isto é, sem a provocação da parte recorrente. Seriam exemplos de matérias de ordem pública, entre outras, as relativas aos pressupostos processuais, positivos e negativos: 165