PROCESSO Nº : 2.567-4/2016 ASSUNTO



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Transcrição:

PROCESSO Nº : 2.567-4/2016 ASSUNTO : CONSULTA INTERESSADO : FUNDO MUNICIPAL DE PREVIDÊNCIA SOCIAL DOS SERVIDORES DE FELIZ NATAL GESTOR : DANIELA DICÉLIA SCARIOT RELATOR : CONSELHEIRO-SUBSTITUTO JOÃO BATISTA CAMARGO (AUTOS DIGITAIS) PARECER Nº 821/2016 EMENTA: Consulta. Aposentadoria Especial. Caso Concreto. Relevante Interesse Público. Conhecimento. Aprovação da minuta de resolução de consulta nos termos propostos pela Consultoria Técnica desta Corte de Contas. 1 - RELATÓRIO Trata-se de consulta formulada pela Sra. Daniela Dicélia Scariot, Diretora Executiva do Fundo Municipal de Previdência Social dos Servidores de Feliz Natal MT, por meio da qual solicita manifestação desta Corte de Contas sobre a possibilidade de concessão de aposentadoria especial a servidor municipal que desempenhe atividade que prejudique a saúde ou integridade física, a despeito de não existir no âmbito do Município norma própria regulamentadora. Veja-se: 1

Um servidor municipal da área da saúde, ocupando cargo efetivo de Técnico de Enfermagem apresentou ao Fundo Municipal de Previdência Social dos Servidores de Feliz Natal pedido de aposentadoria especial, tendo em vista que já completou mais de 25 anos de trabalho na área da saúde, considerando vínculos empregatícios da iniciativa privada e junto a órgãos governamentais. Apresentou documentos que comprovam o referido tempo de serviço nas funções de auxiliar de enfermagem e técnico de enfermagem, bem como LTCAT de todo o período, comprovando que a atividade exercida sempre foi em condições insalubres e sob risco de contaminação. Fundamentou o pleito, alegando que os enfermeiros e demais servidores da saúde (cargos efetivos) submetidos aos Regimes Próprios de Previdência dos Municípios, podem utilizar-se da Súmula Vinculante 33, que garante o direito à Aposentadoria Especial nas mesmas condições dos trabalhadores vinculados ao INSS, mediante a apresentação do LTCAT. Contudo, a Lei Municipal nº 391/2012, que dispõe sobre o Regime Próprio de Previdência Social do Município de Feliz Natal é omissa a respeito de aposentadoria especial dos servidores públicos municipais. No entanto, por se tratar de uma questão nunca antes analisada pelo Fundo Municipal de Previdência e, tampouco pela Assessoria Jurídica do Município, faz-se necessário realizar consulta junto ao Tribunal de Contas do Estado, a fim de obter o entendimento desta Egrégia Corte sobre a admissibilidade ou não do referido pleito. Desse modo, questiona-se: O Fundo Municipal de Previdência dos Servidores do Município de Feliz Natal tem autonomia para conceder a aposentadoria especial mediante os critérios acima expostos, ou em razão da ausência de norma regulamentadora própria, cabe somente ao Poder Judiciário reconhecer a omissão e a possibilidade de outra norma aplicável à espécie? O consulente não juntou outros documentos aos autos. 2

Instada a se manifestar, a Consultoria Técnica opinou pela inadmissibilidade desta Consulta, tendo em vista o fato de ter sido formulada em concreto. Alternativamente, manifestou pelo conhecimento, caso o e. Relator entendesse que a Consulta proposta atenderia a relevante interesse público. Resolução de Consulta: No mérito, manifestou pela aprovação da seguinte minuta de Resolução de Consulta nº /2016. Previdência. Benefício. RPPS. Aposentadoria Especial. Súmula Vinculante STF nº 33. Nos termos da Súmula Vinculante STF nº 33, até que sobrevenha a edição de lei complementar específica regulamentando a concessão de aposentadoria especial de que trata o art. 40, 4º III, da Constituição Federal, a Administração Pública deverá aplicar, no que couber, os requisitos e critérios constantes no art. 57 da Lei Federal 8.213/91. Além da aplicação desta Lei, devem ser observados os procedimentos contidos na Nota Técnica Nº 02/2014/CGNAL/DRPSP/SPPS/MPS, sem prejuízo de outros com ela relacionados. Vieram os autos para manifestação Ministerial. É o breve relatório. 2 - FUNDAMENTAÇÃO 2.1 - PRELIMINAR A consulta consiste no mecanismo (decorrente da função consultiva das Cortes de Contas) posto à disposição dos jurisdicionados legalmente legitimados, por meio do qual o respectivo Tribunal de Contas responde à dúvidas 3

quanto à interpretação e aplicação de dispositivos legais e regulamentares, concernentes à matéria de sua competência. Ressalte-se, por oportuno, que a resposta à consulta é sempre em tese, em situação abstrata, não podendo versar sobre caso concreto, exceto na hipótese do 2º, do art. 232, do Regimento Interno do E. TCE. No vertente caso, apesar de ter sido formulada por autoridade legítima 1 (dirigente de entidade da Administração Indireta), com apresentação objetiva dos quesitos e indicação precisa da dúvida 2, além de versar sobre matéria de competência desta Corte de Contas (atos de aposentadoria 3 ), trata-se Consulta sobre caso concreto, o que, a princípio, não autorizaria o seu conhecimento. Com efeito, para fins de conhecimento de consultas, as dúvidas devem ser suscitadas em tese (abstratamente consideradas) e não em concreto, afinal, esta Corte de Contas não se presta ao assessoramento de seus jurisdicionados. 1 - Regimento Interno do TCE/MT: Art. 233. Estão legitimados a formular consulta: ( ) II no âmbito municipal: ( ) c) Os dirigentes de autarquias, sociedades de economia mista, empresas públicas, fundações instituídas e mantidas pelo Município, consórcios municipais e conselhos legais ( ) 2 - Regimento Interno TCE/MT: Art. 232. A consulta formulada ao Tribunal de Contas, conforme o disposto no art. 48 e seguintes da Lei Complementar 269/07, deverá atender, cumulativamente, aos seguintes requisitos: I. Ser formulada por autoridade legítima; II. Ser formulada em tese; III. Conter a apresentação objetiva dos quesitos, com indicação precisa da dúvida quanto à interpretação e aplicação de dispositivos legais e regulamentares; IV. Versar sobre matéria de competência do Tribunal de Contas. 3 - Constituição do Estado de Mato Grosso: Art. 47. O controle externo, a cargo da Assembleia Legislativa, é exercido com o auxílio do Tribunal de Contas do Estado, ao qual compete: ( ) III - apreciar, para fins de registro, a legalidade dos atos de admissão de pessoal, a qualquer título, na Administração Pública direta e indireta, do Poder Público Estadual ou Municipal, excetuadas as nomeações para cargo de provimento em comissão, bem como a das concessões de aposentadorias, reformas e pensões, ressalvadas as melhorias posteriores que não alterem o fundamento legal do ato concessório (...); grifou-se 4

Compulsando os autos, verifica-se que a dúvida surgiu de um caso concreto, no qual um servidor formulara requerimento de Aposentaria Especial perante o Fundo Municipal de Previdência Social dos Servidores de Feliz Natal. Veja-se 4 : Um servidor municipal da área da saúde, ocupando cargo efetivo de Técnico de Enfermagem apresentou ao Fundo Municipal de Previdência Social dos Servidores de Feliz Natal pedido de aposentadoria especial, tendo em vista que já completou mais de 25 anos de trabalho na área da saúde, considerando vínculos empregatícios da iniciativa privada e junto a órgãos governamentais. Apresentou documentos que comprovam o referido tempo de serviço nas funções de auxiliar de enfermagem e técnico de enfermagem, bem como LTCAT de todo o período, comprovando que a atividade exercida sempre foi em condições insalubres e sob risco de contaminação. Fundamentou o pleito, alegando que os enfermeiros e demais servidores da saúde (cargos efetivos) submetidos aos Regimes Próprios de Previdência dos Municípios, podem utilizar-se da Súmula Vinculante 33, que garante o direito à Aposentadoria Especial nas mesmas condições dos trabalhadores vinculados ao INSS, mediante a apresentação do LTCAT. Contudo, a Lei Municipal nº 391/2012, que dispõe sobre o Regime Próprio de Previdência Social do Município de Feliz Natal é omissa a respeito de aposentadoria especial dos servidores públicos municipais. grifou-se Por outro lado, a dúvida suscitada não se limita aos interesses das partes desta relação jurídico administrativa, antes está relacionada com as normas constitucionais de Aposentadoria Especiais, cujos critérios concessivos ainda não 4 - Documento 16781/2016, fls. 2 e ss. 5

foram regulamentados por meio lei complementar nacional 5, podendo-se, portanto, repercutir em toda a Administração Pública do Estado de Mato Grosso. Ademais, o enfrentamento desta dúvida inibirá o acesso indevido e custoso ao Poder Judiciário, como decorrência natural de atos que neguem Aposentadoria Especiais por parte da Administração Pública, que tenham por fundamento a inexistência de lei complementar ou mesmo o desrespeito à Súmula Vinculante n. 33 6, do Supremo Tribunal Federal STF, que autorizou a aplicação das regras de aposentadoria especial do regime geral ao servidores do regime próprio, enquanto não edita a lei complementar específica. Verifica-se, portanto, relevante interesse público que autoriza o conhecimento 7 desta Consulta, a despeito de ter sido formulada num caso concreto. É o que se requer. 2.2 - MÉRITO 5 - Art. 40. (...) 4º É vedada a adoção de requisitos e critérios diferenciados para a concessão de aposentadoria aos abrangidos pelo regime de que trata este artigo, ressalvados, nos termos definidos em leis complementares, os casos de servidores: (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 47, de 2005) ( ) I portadores de deficiência; II que exerçam atividade de risco; III cujas atividades sejam exercidas sob condições especiais que prejudiquem a saúde ou integridade física. grifou- 6 - CF/88: Art. 103-A: (...) 3º Do ato administrativo ou decisão judicial que contrariar a súmula aplicável ou que indevidamente a aplicar, caberá reclamação ao Supremo Tribunal Federal que, julgando-a procedente, anulará o ato administrativo ou cassará a decisão judicial reclamada, e determinará que outra seja proferida com ou sem a aplicação da súmula, conforme o caso. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004) 7 - Regimento Interno TCE/MT: Art. 232 ( 1º. Havendo relevante interesse público, devidamente fundamentado, a consulta que versar sobre caso concreto poderá ser conhecida, a critério do Relator, caso em que será respondida com a observação de que a deliberação não constitui prejulgado do fato ou caso concreto. (Nova redação do 1º, do artigo 232 dada pela Resolução Normativa nº 32/2012) grifou-se 6

No mérito, assiste razão à Consultoria Técnica. Com efeito, depois de muitos anos, o STF reconheceu a mora legislativa do Congresso Nacional 8, consistente em disciplinar os critérios concessivos para as Aposentadorias Especiais, notadamente das que dizem respeito ao inciso III do art. 40 da CF/88, a saber: 4º É vedada a adoção de requisitos e critérios diferenciados para a concessão de aposentadoria aos abrangidos pelo regime de que trata este artigo, ressalvados, nos termos definidos em leis complementares, os casos de servidores: I portadores de deficiência; II que exerçam atividades de risco; III cujas atividades sejam exercidas sob condições especiais que prejudiquem a saúde ou a integridade física. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 47, de 2005) Não bastasse, aprovou a Súmula Vinculante n. 33 (SV n. 33), com a finalidade de preencher a lacuna legislativa do Congresso Nacional, dando-se efetividade e concretude às aposentadorias a serem concedidas sob condições especiais que prejudiquem a saúde ou integridade física, senão veja-se: Aplicam-se ao servidor público, no que couber, as regras do regime geral da previdência social sobre aposentadoria especial de que trata o artigo 40, 4º, inciso III da Constituição Federal, até a edição de lei complementar específica. 8 - STF: Mandados de Injunção sob os números: 4158; 3215; 1596; 1785 etc. 7

Segundo a SV n. 33, aplica-se aos servidores do regime próprio as normas do regime geral sobre aposentadoria especial, no que couber, enquanto não editada a lei complementar de que trata a CF/88, vinculando-se todos os órgãos e entidades da Administração Pública nacional 9. Pelo exposto, em consonância com a opinião da Consultoria Técnica, manifesta-se pela aprovação da seguinte minuta de resolução: Resolução de Consulta nº /2016. Previdência. Benefício. RPPS. Aposentadoria Especial. Súmula Vinculante STF nº 33. Nos termos da Súmula Vinculante STF nº 33, até que sobrevenha a edição de lei complementar específica regulamentando a concessão de aposentadoria especial de que trata o art. 40, 4º III, da Constituição Federal, a Administração Pública deverá aplicar, no que couber, os requisitos e critérios constantes no art. 57 da Lei Federal 8.213/91. Além da aplicação desta Lei, devem ser observados os procedimentos contidos na Nota Técnica Nº 02/2014/CGNAL/DRPSP/SPPS/MPS, sem prejuízo de outros com ela relacionados. A aprovação desta minuta de resolução contribuirá, ainda, com a segurança jurídica nas relações que envolvem aposentadorias especiais, tendo em vista que internalizará, no Estado de Mato Grosso, o entendimento consolidado pelo STF por meio da SV n. 33, de 2014. 9 - CF/88: Art. 103-A. O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, mediante decisão de dois terços dos seus membros, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, aprovar súmula que, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma estabelecida em lei. grifou-se 8

3 - CONCLUSÃO Pelo exposto, o Ministério Público de Contas, no uso de suas atribuições institucionais, manifesta-se: a) pelo conhecimento da Consulta ante o interesse público relevante (Art. 232, 1, do Regimento Interno TCE/MT); b) no mérito, pela aprovação da minuta de Resolução de Consulta nos termos propostos pela Consultoria Técnica (Art. 81, IV, do Regimento Interno TCE/MT). É o parecer. Ministério Público de contas, Cuiabá/MT, 07 de fevereiro de 2016. (assinatura digital 10 ) ALISSON CARVALHO DE ALENCAR Procurador de Contas 10 - Documento assinado por assinatura digital baseada em certificado digital emitido por autoridade certificadora credenciada, nos termos da Lei Federal nº 11419/2006. 9