PROCESSO 3634-0/2012 PRINCIPAL FUNDO MUNICIPAL DE PREVIDÊNCIA SOCIAL DOS SERVIDORES DE ITIQUIRA - ITIPREV DESCRIÇÃO CONTAS ANUAIS DE GESTÃO MUNICIPAL - 2011 RELATORA CONSELHEIRA SUBSTITUTA JAQUELINE JACOBSEN MARQUES RAZÕES DA PROPOSTA DE VOTO Com fundamento na informação técnica trazida aos autos pela equipe de auditoria, foi mantida 1 irregularidade, sendo de natureza grave, nas Contas Anuais do Fundo Municipal de Previdência Social dos Servidores de Itiquira, no exercício de 2011. Passo a analisá-la: A irregularidade 8.2, classificada como grave, refere-se ao não-provimento dos cargos de natureza permanente de contador e controlador interno mediante concurso público, contrariando o disposto no art. 37, II, da Constituição Federal. A defesa informou que o município de Itiquira aderiu ao Programa AMM-Previ por meio da assinatura do Termo de Vinculação ao Contrato de Prestação de Serviços Técnicos de Operacionalização dos Regimes Próprios de Previdência dos Municípios do Estado de Mato Grosso 07/2010, passando a se beneficiar dos serviços técnicos prestados pelo Consórcio PREVIMUNI, do qual faz parte a empresa Agenda Assessoria Planejamento e Informática Ltda. Assim, a empresa Agenda Assessoria se responsabilizou pela terceirização dos serviços de gerenciamento do RPPS nas áreas atuarial, contábil e jurídica. A empresa realizou serviços contábeis de elaboração de demonstrativos financeiros, disponibilização de relatórios e demonstrativos e registros contábeis. Dessa forma, o contador é funcionário da referida empresa, a qual presta serviço terceirizado ao ITIPREV. Já, em relação ao cargo de controlador interno, a defesa alegou que o servidor é efetivo da
Prefeitura Municipal no cargo de Almoxarife, incumbido de controlar os atos dos gestores da Prefeitura e também do Fundo de Previdência. Ressaltou que o Fundo de Previdência não possui patrimônio, sendo o Poder Executivo por ele responsável. Portanto, o controlador interno não tem vínculo com o ITIPREV. Ademais, informou que o servidor foi nomeado para o cargo de controlador interno em razão de ser graduado em Administração, Finanças, Auditoria e Controladoria nas organizações públicas e privadas. A equipe técnica, após análise da defesa, não acatou a justificativa, alegando que, embora não haja a obrigatoriedade de se criar uma estrutura administrativa contábil própria para o Fundo Municipal de Previdência, e, consequentemente, não é necessário um contador específico, a contabilidade do Fundo precisa ser da responsabilidade de um servidor concursado, ainda que este pertença ao Poder Executivo, conforme prescreve o artigo 37, II, da Constituição Federal. Assim, não é possível a atribuição da responsabilidade pelos serviços contábeis a prestadores de serviços contratados, conforme já disposto na Resolução de Consulta 37/2011. Ressaltou ainda que o ordenador de despesa do Fundo Municipal de Previdência deverá ser o diretor presidente que, juntamente com o contador e tesoureiro, deve assinar todas as fases das despesas, conforme disposto no Acórdão 438/2005 do TCE-MT. Já, em relação ao controlador interno, a equipe técnica alegou que não basta o servidor possuir qualificações técnicas, profissionais e formação em nível superior na área de controladoria pois, ainda assim, não terá competência legal para assumir o cargo, já que a investidura neste deve ser realizada por meio de concurso público, conforme determina a Resolução de Consulta 24/2008 do TCE-MT. O Ministério Público de Contas concordou com o entendimento da SECEX pela manutenção da irregularidade, sugerindo realização de concurso público de provimento para o cargo de controlador interno, que atenderá todos os órgãos da Prefeitura, inclusive o fundo contábil ITIPREV, sob pena de aplicação de multa no caso de descumprimento, conforme dispõe o art. 75, IV, da Lei Orgânica do TCE/MT c/c art. 6º da Resolução Normativa TCE/MT 17/10.
No presente caso, ressalto que este Tribunal já tem entendimento firmado por meio das Resoluções de Consulta 31/2010 e 37/2011 do TCE/MT quanto à necessidade de preenchimento da vaga de contador por concurso público. Transcrevo: RESOLUÇÃO DE CONSULTA Nº 37/2011. (DOE 26/05/2011). PESSOAL. ADMISSÃO. PROFISSIONAIS COM PROFISSÃO REGULAMENTADA. CONTADOR. REGRA: PROVIMENTO EM CARGO EFETIVO. IMPOSSIBILIDADE DE CARGO DE LIVRE NOMEAÇÃO E EXONERAÇÃO E DE CONTRATAÇÃO DE PRESTADOR DE SERVIÇOS. [Revoga parcialmente o Acórdão nº 898/2005]. O cargo de contador deve estar previsto nos quadros de servidores efetivos dos respectivos entes, a ser provido por meio de concurso público, conforme prescreve o art. 37, inciso II, da Constituição Federal, não sendo possível a nomeação de contador em cargo de livre nomeação e exoneração, e tampouco a atribuição da responsabilidade pelos serviços contábeis a prestadores de serviços contratados sob o regime da lei de licitações. RESOLUÇÃO DE CONSULTA Nº 31/2010 Ementa: INSTITUTO DE PREVIDÊNCIA DO SERVIDOR DE ALTA FLORESTA. CONSULTA. PESSOAL. SEGREGAÇÃO DE FUNÇÕES.ACUMULAÇÃO DAS FUNÇÕES DE ORDENADOR DE DESPESA E CONTADOR. IMPOSSIBILIDADE. A segregação de funções é um princípio básico do sistema de controle interno que consiste na separação das funções de autorização, execução, controle e contabilização das operações. Significa que nenhum agente público deve controlar todas as fases inerentes a uma operação, ou seja, cada fase deve ser executada por pessoas e setores independentes entre si, possibilitando a realização de um controle cruzado. Nesses termos, é vedado a acumulação das funções de ordenador de despesa e gestor com a de contador. PESSOAL. ADMISSÃO. PROFISSIONAIS COM PROFISSÃO REGULAMENTADA. CONTADOR. PROVIMENTO EM CARGO EFETIVO. RPPS. EXCEÇÃO. O cargo de contador do Poder Executivo Municipal deverá ser criado por lei e provido por meio de concurso público, sendo que o mesmo será responsável por todos os órgãos e unidades orçamentárias vinculados ao Poder Executivo, o que inclui o RPPS, salvo no caso de ente federativo cuja organização administrativa comporte um contador por órgão ou unidade orçamentária. (grifo nosso) Ademais, entendo que não é possível a ocupação do cargo de contador por servidor terceirizado, ainda que o Fundo seja adeso ao AMM-PREVI, pois afronta preceito constitucional e entendimento já proferido em Resolução de Consulta por este Tribunal.
A meu ver, a empresa contratada por meio do AMM-PREVI pode prestar assessoria na área contábil, porém o responsável pelas informações e demonstrativos contábeis deve obrigatoriamente ser um servidor concursado ainda que pertencente ao quadro de pessoal do Poder Executivo. Quanto ao controlador interno, já é pacífico neste Tribunal de Contas com base na Resolução de Consulta 24/2008, que, somente no período de transição, até a realização do concurso, pode ser recrutado outro servidor efetivo que possua as qualificações necessárias para o exercício dessa função. Transcrevo: RESOLUÇÃO DE CONSULTA Nº 24/2008 Ementa: PREFEITURA MUNICIPAL DE ARAGUAINHA. CONSULTA. CONTROLE INTERNO. PESSOAL. ADMISSÃO. REALIZAÇÃO DE CONCURSO PÚBLICO. PERÍODO DE TRANSIÇÃO. RECRUTAMENTO DE SERVIDOR EFETIVO.RESPONDER AO CONSULENTE QUE: 1) OS CARGOS DA UNIDADE DE CONTROLE INTERNO DEVERÃO SER PREENCHIDOS MEDIANTE CONCURSO PÚBLICO. 2) NO PERÍODO DE TRANSIÇÃO, ATÉ A NOMEAÇÃO DOS APROVADOS, O GESTOR DEVERÁ RECRUTAR SERVIDORES JÁ PERTENCENTES AO QUADRO EFETIVO DO ENTE PÚBLICO E QUE REÚNAM AS QUALIFICAÇÕES NECESSÁRIAS PARA QUE, TEMPORARIAMENTE, EXERÇAM AS FUNÇÕES DE CONTROLE INTERNO. 3) OS CASOS EXCEPCIONAIS DEVERÃO SER DIRIMIDOS POR MEDIDAS DISCRICIONÁRIAS DO GESTOR QUE ESTARÃO SUJEITAS À ANÁLISE E À APRECIAÇÃO ISOLADAMENTE. 1) os cargos da unidade de controle interno deverão ser preenchidos mediante concurso público. 2) no período de transição, até a nomeação dos aprovados, o gestor deverá recrutar servidores já pertencentes ao quadro efetivo do ente público e que reúnam as qualificações necessárias para que, temporariamente, exerçam as funções de controle interno. 3) os casos excepcionais deverão ser dirimidos por medidas discricionárias do gestor que estarão sujeitas à análise e à apreciação isoladamente. Porém, como o Fundo utiliza o Controlador Interno do Poder Executivo, o fato desse servidor ser concursado para o cargo de almoxarife não deve ser tratado nestas contas e sim nas contas da Prefeitura Municipal. Dessa forma, não há irregularidade nestas contas quanto ao controlador interno. Por fim, acolho parcialmente o entendimento do MPC, pois apenas constatei a irregularidade quanto ao preenchimento do cargo de contador, mas deixo de aplicar multa por entender que, embora este Tribunal tenha se manifestado desde 2010 quanto à necessidade do
cargo de contador ser preenchido por meio de concurso público, entendo que não houve a manifestação explicita para os casos dos RPPS que eram adesos ao Programa AMM-PREVI. Assim, entendo cabível apenas a determinação ao atual gestor a fim de que adote providências para que os serviços de contabilidade sejam exercidos por contador ocupante de cargo efetivo, podendo ser utilizado o contador da Prefeitura Municipal, a teor do que dispõe a Resolução de Consulta TCE/MT 31/2010, sob pena de aplicação de multa no caso de descumprimento, conforme dispõe o art. 75, IV, da Lei Orgânica do TCE/MT c/c art. 6º da Resolução Normativa TCE/MT 17/10. Ante o exposto, considerando que a gestão do Fundo Municipal de Previdência Social dos Servidores de Itiquira cumpriu os limites de gastos fixados legalmente, demonstrando satisfatória aplicação dos recursos recebidos, entendo que as contas ora examinadas estão aptas à aprovação por parte deste Tribunal, com as necessárias determinações, conforme o disposto no art. 193 do Regimento Interno do TCE/MT. Esses são os fundamentos que embasaram esta proposta de voto. PROPOSTA DE VOTO Diante dos fundamentos expostos, acolho parcialmente o Parecer 3.426/2012 do Ministério Público de Contas, da lavra do Procurador de Contas, Dr. Gustavo Coelho Deschamps e PROPONHO o VOTO no sentido de JULGAR REGULARES as contas do exercício de 2011 do FUNDO MUNICIPAL DE PREVIDÊNCIA SOCIAL DOS SERVIDORES DE ITIQUIRA, sob a gestão dos Srs. Ernani Velasco Sander Júnior, Solange Garcia Gimenes e Mariney Oliveira Roriz Almeida e, ainda:
1. Pela determinação ao atual gestor para que adote providências a fim de que os serviços de contabilidade sejam exercidos por contador ocupante de cargo efetivo, no prazo de 240 dias, podendo ser utilizado o contador da Prefeitura Municipal, sob pena de aplicação de multa no caso de descumprimento, conforme dispõe o art. 75, IV, da Lei Orgânica do TCE/MT c/c art. 6º da Resolução Normativa TCE/MT 17/10. É a proposta de voto que submeto à deliberação desta Segunda Câmara. Cuiabá, em 18 de setembro de 2012. Jaqueline Jacobsen Marques Conselheira Substituta Relatora