Tribunal de Contas do Estado do Pará



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Transcrição:

RESOLUÇÃO Nº 16.769 (Processo nº. 2003/51606-1) Assunto: Consulta formulada pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO ES- TADO visando esclarecer se os valores correspondentes ao Imposto de Renda Retido na Fonte sobre a folha de pagamento de servidores estaduais devem ser considerados como despesa de pessoal. Proposta de decisão: Auditor ANTONIO ERLINDO BRAGA. Lavratura da decisão: Conselheiro ELIAS NAIF DAIBES HAMOUCHE ( 2º do art. 195 do Regimento) EMENTA: Exclui-se do cômputo das despesas com pessoal do Estado o valor correspondente ao imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza incidente e retido na fonte sobre rendimentos pagos, a qualquer título a seus servidores, produto de arrecadação este que pertence ao Estado, inteligência do art. 157, I da Constituição Federal de 1988, em face de sua natureza. Relatório do Auditor ANTONIO ERLINDO BRAGA: Processo nº. 2003/51606-1 Trata-se de consulta formulada ao Tribunal de Contas do Estado pelo Ministério Público Estadual, subscrita pelo Dr. Francisco Barbosa de Oliveira, Procurador Geral de Justiça, que se transcreve: Jurisprudência do TCE-Pará http://www.tce.pa.gov.br Pág. 1

Excelentíssimo Senhor Presidente Tenho a honra de cumprimentar Vossa Excelência e de encaminhar consulta a essa Egrégia Corte de Contas sobre matéria referente à Lei de Responsabilidade Fiscal. Considerando que a Lei de Responsabilidade Fiscal Lei Complementar nº. 101/2000 que foi criada visando ao saneamento das finanças públicas do País é recente e que sua interpretação ainda está sendo construída, alguns pontos vêm sendo levantados e submetidos à análise, consolidando, desta forma, o entendimento do referido diploma legal. Um aspecto que está sendo discutido diz respeito à inclusão do Imposto de Renda Retido nas Fontes IRRF dos servidores públicos no cálculo do limite de pessoal disposto na lei, tendo em vista que os recursos referentes ao dito imposto retornam, por dispositivo constitucional, aos cofres públicos, não se constituindo, portanto, em despesa típica de pessoal. Vale ressaltar, Senhor Presidente, que a exclusão dos valores do IRRF do cálculo do limite de gastos com pessoal interessaria ao Governo do Estado em geral, de vez que todos os Poderes seriam beneficiados pela redução dos seus limites particulares, o que ensejaria a possibilidade de se completar quadros hoje insuficientes, como é o caso dos Membros do Ministério Público do Estado. Em anexo, a sua apreciação e à do Egrégio Tribunal de Contas do Estado, encaminho cópia do Ofício nº. 607/2002, de 01.04.2002, do Procurador Geral de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, que tratou da consulta ao Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul, bem como cópia do Parecer Coletivo daquela Corte de Contas que concluiu pela exclu- Jurisprudência do TCE-Pará http://www.tce.pa.gov.br Pág. 2

são do IRRF do cálculo do limite de pessoal determinado pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Assim, diante da indagação se os valores do IRRF sobre a folha de pagamento dos servidores do Estado devem ser considerados como despesa de pessoal, ficamos no aguardo de sua superior manifestação. Na oportunidade, renovo a Vossa Excelência votos de estima e consideração. A matéria submetida a exame da Consultoria Jurídica desta Egrégia Corte de Contas destaca que a consulta está formulada em tese e em conseqüência há de ser admitida. Acrescenta que a consulta versa sobre exclusão do Imposto de Renda Retido na Fonte IRRF do cálculo das despesas com vencimentos dos servidores públicos do Estado. Esclarece que no art. 18 da Lei de Responsabilidade Fiscal o legislador listou despesas entendidas como total com pessoal, finalizando bem como encargos sociais e contribuições recolhidas pelo ente às entidades de previdência não consta, portanto, entre o elenco de despesas inseridas no art. 18 da LRF o Imposto de Renda Retido na Fonte. Assevera que se o legislador inseriu explicitamente os encargos sociais e contribuições previdenciárias como despesas com pessoal, se fosse de sua vontade, o IRRF estaria expresso no bojo do dispositivo. A Consultoria Jurídica assinala ainda que não existe controvérsia de que o IRRF sobre os vencimentos e proventos de servidores pertence aos Estados como receita tributária e conclui sua manifestação pela admissibilidade da consulta. O Presidente desta Corte de Contas acolheu o parecer da Consultoria Jurídica e admitiu o expediente como consulta. É o Relatório. Jurisprudência do TCE-Pará http://www.tce.pa.gov.br Pág. 3

PROPOSTA DE DECISÃO: Preliminarmente: É competência do Tribunal de Contas do Estado com base no art. 26, IX da Lei Complementar Nº. 12, de 09.02.1993, decidir sobre consulta que lhe seja formulada por autoridade competente, a respeito de dúvida suscitada na aplicação de dispositivos legais e regulamentares concernentes à matéria de sua competência, na forma estabelecida no Regimento Interno. O Regimento Interno do Tribunal de Contas, Ato 24 de 08.03.1994, publicado em 29.03.94 dispõe em seu art. 220: O Tribunal de Contas responderá sobre consultas, quanto à dúvida suscitada na aplicação de dispositivos legais e regimentais concernentes à matéria de sua competência, que lhe forem formuladas em tese pelos órgãos ou pessoas sob sua jurisdição. A consulta está revestida dos requisitos legais pois está formulada em tese, subscrita por autoridade competente, sob jurisdição do Tribunal de Contas e envolve matéria de sua competência. MÉRITO A matéria em exame comporta interpretação construtiva, para se extrair do art. 18 da Lei de Responsabilidade Fiscal, a compreensão da norma para se saber se está incluso em seu conceito o IRRF como despesa total com pessoal. O art. 18 da Lei Complementar nº. 101, de 04.05.2000, que estabelece normas sobre a Responsabilidade Fiscal, dispõe in verbis: Jurisprudência do TCE-Pará http://www.tce.pa.gov.br Pág. 4

Para os efeitos desta Lei Complementar, entende-se como despesa total de pessoal: o somatório dos gastos do ente da Federação com os ativos, os inativos e os pensionistas, relativos a mandatos eletivos, cargos, funções ou empregos, civis, militares e de membros de Poder, com quaisquer espécies remuneratórias, tais como vencimentos e vantagens, fixas e variáveis, subsídios, proventos da aposentadoria, reformas e pensões, inclusive adicionais, gratificações, horas extras e vantagens pessoais de qualquer natureza, bem como encargos sociais e contribuições recolhidas pelo ente às entidades de previdência. O conceito de despesa total com pessoal do permissivo do art. 18 da LRF é muito amplo compreendendo ativos, inativos e pensionistas, mandatos eletivos, cargos, funções ou empregos, civis, militares, membros dos Poderes, vencimentos e vantagens, fixas e variáveis, subsídios, proventos da aposentadoria, reformas e pensões, inclusive adicionais, gratificações, horas extras e vantagens pessoais de qualquer natureza, encargos sociais e contribuições recolhidas pelo ente às entidades de previdência. O somatório dos gastos compreendido no art. 18 da LRF, representa uma enumeração exaustiva do que se constitui despesa total com pessoal, estabelecido na norma. Não consta no art. 18 da LRF a inclusão do IRRF na conceituação de despesa total com pessoal, consequentemente, não cabe ao intérprete incluí-lo na definição de despesa total com pessoal. Há de se entender, por conseguinte, que o IRRF dos servidores, não se constitui despesa com pessoal para os efeitos da LRF, visto que não representa um gasto para o Estado. A LRF inclui de forma expressa os encargos sociais e contribuições recolhidas pelo ente às entidades de previdência na definição de despesa total com pessoal, sem aludir ao IRRF. Jurisprudência do TCE-Pará http://www.tce.pa.gov.br Pág. 5

Ademais há de se entender que o IRRF não se constitui decréscimo patrimonial para o Estado, todavia os encargos sociais e as contribuições previdenciárias representam despesas para o Estado, o que não ocorre com o IRRF que se constitui receita para o Estado, de acordo com o art. 157, I da Constituição Federal. Art. 157 Pertence aos Estados e ao Distrito Federal: I O produto da arrecadação do imposto da União sobre renda e proventos de qualquer natureza, incidente na fonte, sobre rendimentos pagos, a qualquer título, por eles, suas autarquias e pelas fundações que instituírem e mantiverem. Não resta dúvida que por mandamento constitucional o IRRF pertence aos Estados. O Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul, como solução à consulta formulada pelo Dr. Cláudio Barros Silva, Procurador Geral de Justiça que indagara se os valores do IRRF sobre a folha de pagamento dos servidores do Estado devem ser considerados como despesas com pessoal, mesmo sem importarem em efetivo gasto pelo Tesouro, ao acolher o brilhante e exaustivo Parecer Coletivo 02/2002, da lavra do Auditor Substituto de Conselheiro Cesar Santolim, decidiu que: Descabe computar como parte integrante das despesas com pessoal dos Estados e Municípios o montante correspondente ao Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza, retido na fonte, devido por seus servidores, valor este que pertence aos mesmos Estados e Municípios, por força de regra constitucional expressa Jurisprudência do TCE-Pará http://www.tce.pa.gov.br Pág. 6

Assim, respondendo à consulta formulada pelo Dr. Francisco Barbosa de Oliveira, Procurador Geral de Justiça, entendo que há de se excluir do cômputo das despesas com pessoal do Estado o valor correspondente ao imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza incidente e retido na fonte sobre rendimentos pagos, a qualquer título a seus servidores, produto de arrecadação este que pertence ao Estado, inteligência do art. 157, I da Constituição Federal de 1988. Voto do Exmº. Sr. Conselheiro ELIAS NAIF DAIBES HAMOUCHE: A- companho a proposta do relator. Voto do Exmº. Sr. Conselheiro NELSON LUIZ TEIXEIRA CHAVES: De acordo com a proposta do relator. Voto do Exmº. Sr. Conselheiro FERNANDO COUTINHO JORGE: Acompanho a proposta de decisão apresentada pelo Auditor Erlindo Braga. Voto da Exmª. Sra. Conselheira MARIA DE LOURDES LIMA DE OLI- VEIRA: Na forma do art. 189 do Regimento, peço vista dos autos. Voto da Exmª. Sra. Conselheira MARIA DE LOURDES LIMA DE OLI- VEIRA em Sessão Ordinária de 14.08.2003: Versam os autos de Consulta formulada a este Tribunal de Contas pelo Excelentíssimo Sr. Francisco Barbosa de Oliveira, na qualidade de Procurador Geral de Justiça. Questiona o consulente se os valores do Imposto de Renda Retido na Fonte sobre a folha de pagamento dos servidores devem ser considerados como despesa de pessoal. A consulta foi formulada com base no Parecer Coletivo Jurisprudência do TCE-Pará http://www.tce.pa.gov.br Pág. 7

02/2002 do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul, anexo aos presentes autos, cuja conclusão é a seguinte: a) interpretar a lei é atividade que implica adoção de adequada metodologia; b) as expressões receitas e despesas comportam um conceito contábil e um conceito financeiro; c) a LRF é diploma legal de conteúdo eminentemente financeiro, assim devendo ser entendidos os conceitos nela inseridos; d) nos conceitos de despesas com pessoal e de receita corrente líquida não devem ser considerados os valores referentes ao Imposto de Renda Retido na Fonte, concernentes aos servidores públicos estaduais e municipais, dado o caráter financeiro da lei. Admitido como consulta na forma regimental, após o parecer da Consultoria Jurídica, o presente processo foi encaminhado ao Excelentíssimo Auditor Dr. Antônio Erlindo Braga, que em Sessão Ordinária de 17 de junho do corrente, manifestou-se sobre a matéria, finalizando da seguinte forma: Assim, respondendo à consulta formulada pelo Dr. Francisco Barbosa de Oliveira, Procurador Geral de Justiça, entendo que há de se excluir do cômputo das despesas com Pessoal do Estado o valor correspondente ao imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza incidente e retido na fonte sobre rendimentos pagos, a qualquer título a seus servidores, produto de arrecadação este que pertence ao Estado, inteligência do art. 157, I da Constituição Federal de 1988. Com o objetivo de melhor conhecer a matéria, tendo em vista que o novo entendimento acarreta modificação na estrutura de cálculo do limite da Despesa com Pessoal da Lei de Responsabilidade Fiscal, esta Jurisprudência do TCE-Pará http://www.tce.pa.gov.br Pág. 8

Conselheira pediu vistas do processo na forma do art. 189 do Regimento Interno. Após ampla discussão e estudo da matéria, declaro o meu voto acompanhando a proposta de decisão do Excelentíssimo Senhor Auditor Dr. Antonio Erlindo Braga. Voto do Exmº. Sr. Conselheiro LAURO DE BELÉM SAB- BÁ - Presidente: Acompanho a proposta de decisão apresentada pelo relator. R E S O L V E M os Conselheiros do Tribunal de Contas do Estado do Pará, unanimemente, responder a presente consulta no sentido de que deve ser excluído do cômputo das despesas com pessoal do Estado o valor correspondente ao imposto de renda e proventos de qualquer natureza incidente e retido na fonte sobre rendimentos pagos, a qualquer título a seus servidores, produto de arrecadação este que pertence ao Estado, inteligência do art. 157, I da Constituição Federal de 1988, tendo em vista a natureza da referida parcela. 2003. Plenário Conselheiro Emílio Martins, em 14 de agosto de Publicada no Diário Oficial do Estado nº 30.014 de 25 de agosto de 2003 Jurisprudência do TCE-Pará http://www.tce.pa.gov.br Pág. 9