A SENSITIVA E A MULHER MACACO Esquetes cômicos de Luís Alberto de Abreu
CENA ÚNICA A AÇÃO SE PASSA NO INTERIOR DE UM ÔNIBUS. ENTRA UM APRESEN- TADOR. Silêncio. Um momento de silêncio por favor. Essa é uma atração vinda diretamente do milenar e centenário oriente que tem décadas e mais décadas de existência. De lá de, um vetusto, antigo e velho mosteiro de artes mágicas desconhecidas, Xantra, a sensitiva. (APRESENTA-SE ) Capaz de decifrar os mais íntimos segredos dos homens e as mais pérfidas intenções das mulheres! Todo mundo aqui, de agora em diante é um livro aberto. Não existem segredos para essa mulher! Concentre-se, Xantra! Concentre-se! Que é que eu tenho nas mãos, Xantra! Dedos! Sim, é óbvio! Mas o que tenho nos dedos, Xantra! Concentre-se! Unhas! É claro, Xantra. No frio o cérebro dela demora a pegar! Concentre-se mais. O que tenho entre os dedos? Uma caneta. Maravilhoso, Xantra! ( PÕE A MÃO NA CABEÇA DE UM HOMEM) E agora, Xantra, o que você vê em minha mão. Uma cabeça. Que mais? Uma cabeça grande... Nunca senti uma cabeça assim! Um cabeção! O homem é bem provido de cabeça! Espere, deixe-me ter certeza! Vejo também pelos, muitos pelos encaracolados... Cabelos, Xantra, cabelos! Ah, é? É dessa cabeça que estamos falando? 2
Venha até mim, Xantra. Sinta, leia os pensamentos desse homem e nos diga. ( PÕE A MÃO SOBRE O HOMEM ) O que vê, Xantra? Vejo um homem bonito, inteligente, charmoso... Espere... a imagem está clareando... Esse homem bonito, inteligente, charmoso que você está vendo é este homem? (REFERE-SE AO QUE TEM A MÃO SOBRE A CABEÇA) Não. Que homem é este, então? Não consigo saber. Problemas de recepção... Fale-me sobre este homem. (REFERE-SE AO PASSA- GEIRO QUE TEM A MÃO SOBRE A CABEÇA) Sim, vejo. Este homem está caído... Onde? Não consigo? Um acidente, talvez? Esse nosso amigo está ferido? Se estiver morto... não diga! ( TAPA A PRÓPRIA BOCA) Está? Onde? Em que circunstâncias? Diga, Xantra, diga! Não! Diga, estou mandando! Não, não está morto, pô! Respira mas geme! Gravemente ferido? Em que estrada, Xantra? Diga para que este homem possa se precaver. Não é uma estrada. Um parque, uma praça. Foi assalto? Não. Um estádio de futebol depois de briga da Gaviões e Mancha Verde? 3
Espera! Está ficando claro. O homem! Aquele homem bonito, inteligente e charmoso está aparecendo! Diga, diga mais, Xantra! Está se aproximando deste homem. Se curva. É um médico? É a salvação que chega, graças a Deus! Ele presta os primeiro socorros? Este nosso amigo retorna à vida? Diga, Xantra! Este homem sorri agradecido! Está salvo, meu amigo. Escapou de boa. Diga mais, Xantra! Diga mais do futuro desse nosso amigo para que ele possa se precaver! As imagens estão um pouco embaçadas... O homem charmoso... O médico! Sim, Xantra, o que tem ele... Levanta-se um pouco e abaixa-se novamente... levantase e abaixa-se... Não entendo... Estão na cirurgia? Esse médico tem um crachá? Consegue ver o nome dele, o nome do hospital? Abaixa, levanta... O nosso amigo aqui, deitado, sorri. O médico faz exame? Está vestido de branco ou com uniforme verde de cirurgia. Diga, Xantra, por favor. Está nu! Tem um bisturi nas mãos? (CAI EM SI) Nu? ( E CONGELAM O MOVIMENTO. REA- GEM, TROCANDO OLHARES UM TANTO DIVERTIDOS E CONSTRANGIDOS) O que é que um médico faz nu... (CAINDO EM SI) Não era médico? Nem o nosso amigo está num leito de hospital? Quem sabe hoje falhou... (OFENDIDA) Você me ofende. Eu nunca errei em minhas previsões! (AFASTA-SE) Espera, Xantra! Não vá embora, não se desconcentre! (PERGUNTA AO HOMEM) O amigo quer saber alguma 4
coisa mais? Xantra, consegue descobrir o nome, endereço, telefone do outro? Assim você não pede tanto tempo na procura! Alguém mais quer provar o futuro? Muito o- brigado, Xantra. Muito reveladoras as suas visões de hoje! ( SAI) Quanto a você meu amigo, assuma e seja feliz! E, agora, mais uma grande atração de nosso ônibus circense. Crianças, retirem-se da sala! As mulheres grávidas saiam para parir antes de assistirem às próximas cenas. Cardíacos, pessoas impressionáveis e cabras frouxos abandonem o recinto porque, diretamente das florestas de Bornéus, que de tão longe nem imagino onde fica, ela, Monga, a mulher-macaco! (APARECE MULHER VESTIDA DE MAIÔ) Vejam, assim Monga parece uma degustável fêmea do gênero feminino da espécie humana mas não, não se aproximem, tirem a mão, não se enganem. Monga não é o que aparenta. Monga é um símio perigosíssimo da espécie dos macacos. Lá na selva, de dia Monga tem essa agradável aparência, à noite se transforma no mais terrível fêmea-gorila. Gastamos meses para capturá-la. De noite tentávamos atraí-la com cachos de bananas e de dia com garotos de programa. Tomem cuidado porque aqui, no Largo 13, Monga se transforma a qualquer hora do dia e da noite. Quem a- creditaria que uma mulher tão apreciável pudesse se transformar em algo tão terrível! Vejam, está começando! Começa a se encher de pelos. Os pelos se multiplicam no alto da cabeça e sob a parte de baixo do biquini! Vejam, agora também debaixo do braço! Não, não é a moda dos anos setenta que está de volta! Esta mulher realmente começa a se transformar em Monga, a mulher-macaco. Vejam, ela inteira vai se transformando! Vejam a fúria, vejam como se transforma em algo pior do que a patroa com TPM, em algo pior do que quando vê mancha de batom em sua camisa, e perfume diferente em seu pescoço, meu amigo! (FAZ-SE A TROCA COLOCANDO-SE A- GORA UM ATOR COM AS ROUPAS DE MONGA) Agora, num patrocínio de ladishave, o depilador da mulher moderna, da cera quente barba-azul, Monga! Veja, agora a transformação está completa. Mas fiquem tranquilos! Essas correntes que prendem seus pés são feitas de uma liga metálica de especial resistência! (MONGA TENTA SE SOLTAR) Calma, Monga! Calma, gente! Não há motivo prá pânico porque eu vou sair para chamar ajuda! (MON- 5
GA SE SOLTA, LUZES DE APAGAM. QUANDO AS LU- ZES SE ACENDEM MONGA ESTÁ SENTADA NO CO- LO DE ALGUM PASSAGEIRO. AO PASSAGEIRO) Calma, meu senhor, muita calma. Monga se lembra de seu companheiro ainda na selva de Bornéus, ela está solitária e só precisa de carinho. Faz um carinho nela, faz. Faz ou vai ser pior! Monga só quer amor, Monga só precisa de uma noite de amor! O senhor é um privilegiado porque, observe, já começa a transformação! Logo ela será gente novamente, solitária, carente e calma, pronta para uma noite de amor. Transforme-se, Monga! Transforme-se, já! (ATOR REVELA-SE) Monga só tem uma exigência: o hotel, meu amigo, é por sua conta! (MUSICA CIRCENSE) E assim meus amigos, encerra-se o nosso espetáculo de agora. Não aceitamos reclamações, não fazemos devoluções de ingressos, nem referências caluniosas às nossas progenitoras! Boa noite e até mais! FIM Qualquer utilização deste texto, parcial ou total, deve ter a autorização do autor: Luis Alberto de Abreu Telefone: (0xx11) 48287230 e-mail: luabreu@uol.com.br 6