TRADUÇÃO DO FORAL DO CONDE D. HENRIQUE



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Transcrição:

Foral de Guimarães Tradução Aires Augusto do Nascimento Revista de Guimarães, n.º 106, 1996, pp. 35-41 TRADUÇÃO DO FORAL DO CONDE D. HENRIQUE Observação preliminar: A tradução do foral de Guimarães pretende colocar nas mãos do público de hoje uma versão de leitura imediatamente acessível. Ultrapassaram-se, por isso, formalismos de discurso diplomático que se justificariam em circunstâncias que não fossem a de esta versão acompanhar o texto original. Reconhecendo o valor dos cânones diplomáticos, eles podem ser avaliados pelo texto de base e não pela sua tradução. Esta é um apoio e não um substituto, pelo que se sugere a leitura do próprio original, para que seja realmente ele a ressaltar do manejo de uma peça que agora é posta à disposição em fac-símile. 1

(1095-1096) Os Condes Portucalenses, D. Henrique e D. Teresa, concedem foral, com muitas prerrogativas aos povoadores de Guimarães. A.N.T.T., Gavetas, nº 15, m. 8, n. 20. B Perg. De 420 mm x 357 mm ; original da confirmação de D. Afonso II. Publ.: Documentos Medievais Portugueses. Documentos Régios. I. Documentos dos Condes Portucalenses e de D. Afonso Henriques. A. D. 1095-1185, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1958, pp. 1-3. Em nome de Deus. A mim, Conde Dom Henrique, e a minha esposa, Infanta Dona Teresa, aprouve-nos por boa paz e por boa vontade, fazermos carta de bons foros a vós, homens que viestes povoar em Guimarães e àqueles que aí quiserem habitar para sempre. Primeiramente, pelas vossas casas, pagareis 1, por ano, XII dinheiros 2, desde uma festa de Santo André até outra festa de Santo André. Da venda de cavalo e de égua [pagareis] XII dinheiros. Da venda de asno VI dinheiros. De carga de cavalo ou de égua XII dinheiros. De carga de asno 3 VI dinheiros. De [carga] de peão 4 III dinheiros. De pele de coelho III dinheiros. De manto II dinheiros. De capa II dinheiros. De saia I dinheiro. De boi ou vaca II dinheiros. De cabra ou de ovelha I dinheiro. De porco ou de porca I dinheiro. De bragal I dinheiro. De coiro de boi ou de vaca I dinheiro. E de tudo o que se vender por menos de XII dinheiros não paguem portagem. E quem bater com punho cerrado pague XII dinheiros. De mão aberta cinco soldos. Por efusão de sangue VII soldos e meio. De puxar por arma em rixa fora de casa LX soldos. Por ferimento que cause queda VII soldos e meio. Ninguém prenda de má fé e sem julgamento o vosso gado que for pastar fora (do concelho). Nenhum homem de Guimarães seja penhorado em toda a nossa terra, a não ser por dívidas ou se for fideicomissário; e quem o penhorar pagar-nos-á quinhentos soldos e dará o bem em dobro ao seu dono. E quem vender ou comprar alguma coisa em Guimarães 1 Esta forma verbal ou outra equivalente subentende-se nas frases seguintes. 2 O dinheiro valia duas mealhas. 3 Nos forais manuelinos é, geralmente, esta a expressão que aparece. 4 Nos forais manuelinos, esta carga de peão é designada pela palavra costal ou carga que é transportada às costas de uma pessoa. 2

perante o seu concelho tenha-a livremente e ninguém ouse, depois, de má fé, requisitar-lha, mas pague a sua portagem, como está escrito. E nenhum cavaleiro tenha casa em Guimarães, a não ser por amor do seu senhor. E nenhum saião ouse entrar em casa de burguês por mal, mas, se aí tiver algum direito, peça fiador que lhe faça direito por cinco soldos. E o burguês sujeito a coima apresente fiador junto do saião por V soldos, o qual faça direito junto do juiz que estiver estabelecido pelo concelho e o juiz pronunciará sentença justa entre o saião e o burguês sujeito àquela coima. E se o saião entrar em casa de burguês por mal, sobrepondo-se a esta disposição, e aí for morto, não pague aquela coima e se for morto noutras circunstâncias pague CCC soldos. E os homens de Guimarães, no apelido, vão só até onde possam ir e regressar no mesmo dia. E se dois ou mais tiverem entre eles alguma rixa e se agredirem a murro ou à bofetada ou à paulada ou arrancarem os cabelos, o saião não tenha aí coima, ou seja, se atacarem algum deles e se não houver clamor, o saião não tenha aí qualquer coima. E aqueles que infringirem estes foros sejam amaldiçoados por Deus e excomungados e com Judas traidor e com o diabo e seus anjos sejam condenados ao inferno pelos séculos dos séculos. Amen. Eu, Conde D. Henrique e minha mulher, Infanta Dona Teresa, validamos esta carta pelas nossas mãos. Mendo, presbítero, foi o «notário». CONFIRMAÇÃO DE D. AFONSO HENRIQUES 1128, Abril, 27 O Infante D. Afonso Henriques confirma aos moradores de Guimarães o foral concedido por seus pais, os Condes D. Henrique e D. Teresa, outorgando-lhe, também, novas prerrogativas e privilégios susceptíveis de atrairem novos povoadores A.N.T.T., Gavetas, g. 15, m. 8, n. 20. Publ.: O. c., p. 2. Em nome de Deus. A mim, Infante Dom Henrique, aprouve-me por boa paz e por boa vontade fazer-vos a vós, homens de Guimarães, tal como vós me fizestes honra e parte, pois me fizestes bom e leal serviço. E querendo fazer honra e parte a vós, aos vossos filhos e a toda a vossa descendência, confirmo-vos o foro que vos deram meu pai e minha mãe, e, além disso, concedo-vos que não pagueis portagem, em todo o meu território. E o cavaleiro ou vassalo de 3

infanção ou qualquer outro homem livre que vier morar a Guimarães e aí fizer casa não pague fossadeira e a sua propriedade e os seus bens sejam livres e salvos. E o servo que aí vier habitar seja livre e salvo com os seus bens, e se quiser ter herdade sua, sirva por ela o senhor da terra em que está. E o homicida e o rausador que vierem habitar em Guimarães não paguem nada por esses crimes, mas não se atrevam a praticar rauso nessa vila. E os que vierem morar em Guimarães gozem sempre destes foros, tal como os primeiros povoadores. E das herdades dos burgueses que suportaram comigo males e penas em Guimarães nunca paguem fossadeiras; e os seus bens, onde quer que estejam,sejam livres e quem os tomar por mal pague-me LX soldos, e,além disso, pague esses bens em dobro ao seu dono. E aquele que infringir esta decisão e este foro que eu dei aos homens de Guimarães, seja amaldiçoado por Deus e excomungado e tenha sobre si a mesma maldição que lhe lançou meu pai. Esta carta foi feita a V das calendas de Maio, reinando D. Afonso em Leão. Eu, Afonso Henriques, validei esta carta pela minha mão. Era de M C LX VI. CONFIRMAÇÃO DE D. AFONSO II [1217, Agosto-Outubro] D. Afonso II, em data não especificada, confirmou aos moradores de Guimarães os foros e privilégios concedidos por seus avós, D. Henrique e D. Teresa, e por seu pai, D. Afonso Heriques. Eu, Afonso, por graça de Deus, rei de Portugal, juntamente com a minha esposa, a rainha Dona Urraca, e com os meus filhos, os infantes Dom Sancho, Dom Afonso e Dona Leonor, concedo e confirmo a vós, moradores de Guimarães, as cartas e os foros que vos deram os meus avós, o Conde Dom Henrique e o rei D. Afonso. E para que isto seja absolutamente válido mandei fazer esta minha carta, munida do meu selo de chumbo. Nós, acima nomeados, que mandámos fazer esta carta, confirmámo-la perante os subscritos e nela fizemos estes sinais + + + + +. Estiveram presentes: Dom Martinho Eanes, alferes do senhor rei, confirmo Dom Pedro Eanes, mordomo da Cúria, confirmo Dom Lourenço Soares confirmo Dom Gomes Soares confirmo Dom Estêvão, arcebispo de Braga, confirmo Dom Martinho, bispo do Porto, confirmo Dom Pedro, bispo de Coimbra, confirmo Dom Soeiro, bispo de Lisboa 4

Dom Gil Vasques confirmo Dom Fernando Fernandes confirmo Dom João Fernandes confirmo Dom Rodrigo Mendes confirmo Dom Pôncio Afonso confirmo Dom Lopo Afonso confirmo Vicente Mendes Martinho Peres Pedro Peres testemunhas. Dom Soeiro, bispo de Évora, confirmam D. Paio, bispo de Lamego Dom Bartolomeu, bispo de Viseu Dom Martinho, bispo da Guarda Mestre Paio, chantre do Porto Pedro Garcias João Pais, testemunhas. no rodado: Rei Dom Afonso Rainha Dona Urraca Infante Dom Sancho Infante Dom Afonso Infanta Dona Leonor. GONÇALO MENDES CHANCELER DA CÚRIA Fernando Soares escreveu. 5