PROJECTO DE RELATÓRIO



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Transcrição:

ASSEMBLEIA PARLAMENTAR PARITÁRIA ACP-UE Comissão do Desenvolvimento Económico, das Finanças e do Comércio ACP-EU/101.516/B/13 18.08.2013 PROJECTO DE RELATÓRIO sobre a cooperação Sul-Sul e a cooperação triangular: oportunidades e desafios para os países ACP Comissão do Desenvolvimento Económico, das Finanças e do Comércio Co-relatores: Elvis Mutiri wa Bashara (RDC) e Jean-Jacob Bicep PARTE B: EXPOSIÇÃO DE MOTIVOS

1. Introdução e contexto da cooperação Sul-Sul A primeira década do século XXI caracterizou-se por um rápido crescimento económico dos grandes países emergentes do Sul, que ultrapassaram o desempenho dos antigos centros industriais do norte, desafiando a tradicional divisão Norte-Sul. Estas novas economias emergentes (China, Índia, Brasil, Argentina, Indonésia, África do Sul ou Rússia) contribuem de forma decisiva para o crescimento económico mundial e afirmam-se cada vez mais como agentes incontornáveis do desenvolvimento. Em 2010 representavam, segundo as estimativas da OCDE, cerca de 50% do produto interno bruto mundial, face a 36% há dez anos. Neste contexto e tendo em conta os desafios do desenvolvimento, os países ACP participam cada vez mais em lógicas que envolvem parcerias Sul-Sul, abrangendo não apenas os fluxos financeiros mas também a partilha de experiências, a transferência de tecnologias, o acesso preferencial ao mercado, bem como lógicas comerciais mais solidárias. Estes países ACP refletiram progressivamente sobre novas formas de abordar os objetivos de erradicação da pobreza e de desenvolvimento sustentável, a uma escala mais regional e através de parcerias horizontais. De acordo como o relatório do Secretário-Geral da ONU 1, os montantes relativos à cooperação para o desenvolvimento Sul-Sul registaram um rápido aumento, atingindo 16 200 milhões de dólares em 2008, o que representa um aumento de 63% em relação a 2006. A cooperação Sul-Sul tem as suas origens na declaração de Bandung (Indonésia, 1955) sobre a promoção da paz e da cooperação, que marca a entrada em cena dos países em desenvolvimento enquanto proponentes de iniciativas a nível mundial. A inovação tecnológica contribuiu para enriquecer o conhecimento e a experiência adquirida em matéria de desenvolvimento nestes países e as possibilidades de aprendizagem mútua e de intercâmbio de conhecimentos aumentaram consideravelmente. 2. Oportunidades e desafios da cooperação Sul-Sul Esta cooperação cria novos espaços e abre novas possibilidades de cooperação, permitindo aos países emergentes do Sul oferecer aos países menos desenvolvidos a experiência dos seus êxitos e uma ajuda ao desenvolvimento. O investimento direto estrangeiro (IDE) entre países em desenvolvimento atingiu 16% do total mundial em 2010 (ou seja, cerca de 210 000 milhões de dólares) contra 187 000 milhões de dólares 2 em 2008. Os países ACP dispõem de um enorme potencial (recursos humanos, matérias-primas, vasto mercado de consumo, zonas de investimento, recursos ambientais) que atrai, logicamente, os investidores neste caso os países emergentes (China, Índia, Brasil, Turquia, Marrocos, países do Golfo Pérsico). Pouco a pouco, os países ACP encontraram-se em condições de possuir conhecimentos técnicos e específicos do seu 1 2 Relatório do Secretário-Geral ao FCD do ECOSOC E/2010/93. De acordo com o documento do Banco Mundial «Global Economic Prospects 2011: Navigating Strong Currents», janeiro de 2011, e dos dados da CNUCED.

território, graças a uma proximidade geográfica e a crescentes complementaridades regionais. Mas os desequilíbrios comerciais persistem. O exemplo da China em África é, neste sentido, preocupante. A atual estratégia chinesa baseia-se em três dimensões: a necessidade de assegurar a longo prazo o acesso às matérias-primas para garantir o crescimento da China, a necessidade de encontrar territórios para implementar uma política de exportação alargada e a procura de apoio diplomático no continente africano. Esta estratégia pode, uma vez mais, influenciar a dinâmica da economia mundial. Mas a estrutura das trocas comerciais não sofreu alterações qualitativas. Os países ACP continuam a constituir reservas de produtos de base que servem para alimentar o crescimento industrial de outros países, nomeadamente das economias emergentes. Uma tal estrutura de trocas comerciais, principalmente quando é deficitária como no caso da maioria dos países ACP, contribui para que estes países continuem numa situação de dependência dos produtos de base, expondo-os à deterioração das condições do intercâmbio e à volatilidade dos preços. A cooperação para o desenvolvimento Sul-Sul deve responder firmemente ao princípio do interesse mútuo e da igualdade, tendo em conta o desequilíbrio entre as duas partes no seio das parcerias. Tal supõe que os interesses do país mais desfavorecido sejam deliberadamente respeitados, numa preocupação de verdadeira solidariedade, mutualização e igualdade. 3. A cooperação triangular A cooperação triangular pode ser definida como um processo de cooperação Sul-Sul apoiado por um país do Norte. A diferenciação entre os simples programas de cooperação técnica e os que resultam especificamente desta cooperação permanece pouco clara. Em consequência, é essencial que cada interveniente defina a sua contribuição em função das suas próprias vantagens comparativas, assumindo assim uma parte da responsabilidade relativa aos resultados em matéria de desenvolvimento. A cooperação triangular é concretizada em numerosas áreas, principalmente mediante projetos de assistência técnica. Consequentemente, apoia-se em vários critérios: explorar as vantagens comparativas e as complementaridades entre os diferentes agentes do desenvolvimento, reagrupando-os em torno do objetivo comum de redução da pobreza à escala mundial e de promoção do desenvolvimento sustentável; incentivar o reforço das capacidades dos países ACP a longo prazo, a fim de criar e de partilhar soluções de desenvolvimento; apoiar-se nas relações bilaterais, a fim de reagrupar os recursos e conhecimentos técnicos, para constituir um todo que seja superior à soma das partes. 4. Financiamento do desenvolvimento Face à fraca mobilização de recursos internos e à diminuição do volume de ajuda ao desenvolvimento, os financiamentos provenientes da cooperação Sul-Sul representam

verdadeiros balões de oxigénio para muitos países ACP que se encontram numa situação de enormes necessidades de financiamento. Os financiamentos provenientes da cooperação Sul-Sul caracterizam-se por uma forte concentração tanto ao nível dos setores como dos países beneficiários. Enquanto as contribuições financeiras beneficiam principalmente os setores das infraestruturas, agricultura, transportes e telecomunicações, saúde e educação, os investimentos diretos Sul-Sul incidem principalmente sobre o setor dos recursos naturais. Esta nova orientação não é surpreendente, uma vez que os países emergentes têm uma enorme necessidade de matérias-primas para alimentar o seu desenvolvimento industrial e económico. Neste contexto e em termos de apropriação, as medidas destinadas a atrair o investimento são essenciais na definição da estratégia geral de desenvolvimento de um país, em conjunção com outras medidas económicas, sociais e ambientais. Em particular, é necessário trabalhar no sentido de melhorar o ambiente dos investimentos privados para garantir a segurança dos investimentos e assegurar custos competitivos. As medidas que visam atrair o investimento representam um aspeto importante da estratégia geral de desenvolvimento de um país, na busca de um futuro melhor, equilibrado e sustentável, que permita não apenas promover a diversificação e o aumento da produção, mas também e sobretudo, contribuir a médio prazo para a transformação estrutural da economia. 5. Partilha de conhecimentos e de experiências bem sucedidas em matéria de desenvolvimento A cooperação Sul-Sul e a cooperação triangular oferecem aos países em desenvolvimento o potencial necessário para transformar as suas políticas e as suas abordagens relativas à prestação de serviços, fornecendo soluções eficazes, que resultam da iniciativa local e se adaptam ao contexto de cada país. Os países ACP não se devem limitar a continuar a desempenhar um simples papel de fornecedores de matérias-primas e a permanecer mercados de consumo de produtos acabados importados. No contexto da globalização, devem mostrar-se capazes de promover novas formas de desenvolvimento, para que as relações económicas com os países emergentes lhes assegurem uma diversificação estrutural da economia. Devem igualmente ser capazes de fazer face a novos problemas, como as alterações climáticas, a energia e o ambiente. As abordagens adotadas por alguns países emergentes são atualmente objeto de críticas, relativas sobretudo à falta de eficácia na aceção da declaração de Paris (2005) sobre a eficácia da ajuda, e do seu Programa de Ação de Acra 3 (PAA, 2008), e do documento 3 Criado para reforçar e apoiar a aplicação da Declaração de Paris: documento em que a comunidade internacional reafirma o seu compromisso em realizar progressos na aplicação da Declaração de Paris e intensificar os esforços para atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM).

final de Busan (2011) 4. A pertinência destas críticas deve ser verificada mediante uma análise aprofundada da ajuda e das práticas, com base em estatísticas fiáveis e nos vossos contributos. A parceria mundial para uma cooperação eficaz ao serviço do desenvolvimento pode servir de fórum para os intervenientes que partilhem os mesmos princípios e cujos compromissos sejam corretamente definidos. Este novo espaço permitirá aos intervenientes empenhados trabalhar em conjunto para obter resultados de desenvolvimento tangíveis, explorando as complementaridades e aumentando a transparência e a responsabilidade dos intervenientes locais nos processos nacionais. No entanto, os doadores tradicionais continuam a ser os principais fornecedores de ajuda aos países ACP e aos parceiros comerciais. A União Europeia e os seus Estados-Membros reafirmaram o compromisso assumido de contribuir com 0,7% do seu produto interno bruto para acelerar o progresso para atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio em 2015 e posteriormente. Convém, em consequência, considerar a cooperação Sul-Sul e a cooperação triangular como um complemento à ajuda tradicional. Estas novas formas de cooperação, tradicionalmente apoiadas por financiamentos europeus, devem assegurar a plena transparência em relação às despesas e aos beneficiários e basear-se no princípio do acesso de todas as partes interessadas à informação. Em consequência, é necessário refletir sobre uma programação nacional e europeia da ajuda ao desenvolvimento em que as questões da pobreza ou da desigualdade social sejam abordadas a par da questão dos limites da produtividade. É necessário alterar as mentalidades e o olhar sobre os países do sul para que a ajuda ao desenvolvimento se transforme numa verdadeira parceria. A. Definição das necessidades a curto prazo e adoção imediata de medidas. A ideia consiste em reunir todos os intervenientes num debate sobre as lacunas mais graves, de acordo com uma lógica dinâmica e independente. Uma maior partilha das experiências da exploração das respetivas vantagens comparativas permitiria fomentar a partilha de conhecimentos, a aquisição de novos conhecimentos e o reforço de capacidades. B. É necessário que as parcerias se aliem em áreas e ações concretas para obter uma maior influência sobre as decisões internacionais (análise de boas práticas reconhecidas no Brasil, Índia, Cuba, Nigéria ). É necessário atribuir um lugar central à investigação e à inovação. No contexto das relações internacionais, devem ser negociados regimes favoráveis à investigação ao serviço do desenvolvimento. 4 O Acordo de Parceria de Busan é o resultado de uma colaboração entre os ministros dos países desenvolvidos e em desenvolvimento durante o Quarto Fórum de Alto Nível sobre a Eficácia da Ajuda (2011).