PRINCÍPIOS BÁSICOS DO DIREITO PENAL
Princípio da legalidade Art. 5.º, XXXIX, da CF e art. 1.º do CP. nullum crimen, nulla poena sine lege: ninguém pode ser punido se não existir uma lei que considere o fato praticado como crime.
Origem histórica: Charta Magna Libertarum documento que os nobres ingleses impuseram ao Rei João Sem Terra (João I da Inglaterra filho de Henrique II), em 1215. No Brasil: Constituição de 1824 (art. 179, II); Código Criminal do Império de 1830; Código Penal da República de 1890; Código Penal de 1940 (Parte Geral de 1984) e Constituição Federal de 1988.
DESDOBRAMENTO EM 4 SUBPRINCÍPIOS: 1)Lege praevia Anterioridade. 2)Lege scripta Reserva legal. 3)Lege stricta Proibição de analogia. 4)Lege certa Taxatividade (ou mandato de certeza).
Reserva Legal: Art. 22, I, da CF União. Art. 59 da CF espécies normativas. Somente lei ordinária e lei complementar. Lei delegada vedação do art. 68, 1º, 3ª figura, CF direitos individuais.
Medida provisória sobre matéria penal vedação - art. 62, 1º, I, b, CF. Med. Prov. Benéficas em matéria penal: STF - RE 254818/PR DJ 19.12.2002 RTJ 184/301
O Princípio da Legalidade também se aplica às contravenções penais e às medidas de segurança. Segundo o STF e parte da doutrina pátria, ao referir-se a crime, a CF quis dizer infração penal crime e contravenção e, ao referir-se a pena, a CF quis dizer sanção penal.
Princípio da aplicação da lei mais favorável Esse princípio tem como essência outros dois princípios penais que o compõem: o princípio da irretroatividade da lei mais severa e o princípio da retroatividade da lei mais benéfica.
Princípio da taxatividade (lege stricta) Decorre do princípio da legalidade, exigindo que a lei seja certa, acessível a todos, devendo o legislador, quando redige a norma, esclarecer de maneira precisa, taxativamente, o que é penalmente admitido.
Devem ser evitados, portanto, os tipos penais abertos, que são aqueles cujas condutas proibidas somente são identificadas em função de elementos exteriores ao tipo penal. Ex.: art. 150 do Código Penal ( contra a vontade expressa ou tácita de quem de direito ); art. 164 do Código Penal ( sem o consentimento de quem de direito ). Obs.: os tipos culposos são tipos penais abertos
Princípio da ofensividade (princípio do fato ou princípio da exclusiva proteção do bem jurídico) Segundo esse princípio, não há crime quando a conduta não tiver oferecido, ao menos, um perigo concreto, efetivo, comprovado, ao bem jurídico. Nulum crimen sine injuria
Princípio da alteridade (princípio da transcendentalidade) De acordo com esse princípio, não devem ser criminalizadas atitudes meramente internas do agente, incapazes de atingir o direito de outro (altero), faltando, nesse caso, a lesividade que pode legitimar a intervenção penal. Posse de drogas para consumo pessoal
Com base nesse princípio, não se deve punir a autolesão ou o suicídio frustrado, uma vez que não se justifica a intervenção penal repressiva a quem está fazendo mal a si mesmo.
Princípio da adequação social Desconsidera crime o comportamento que não afronta o sentimento social de justiça, de modo que condutas aceitas socialmente não podem ser consideradas crime, não obstante sua eventual tipificação. Ex.: jogo do bicho, pirataria, lenocínio, escrito ou objeto obsceno (art. 234, CP) etc
Princípio da intervenção mínima (Direito Penal mínimo Prega que não se justifica a intervenção penal quando o ilícito puder ser eficazmente combatido por outros ramos do Direito (Civil, Administrativo, Trabalhista etc.). Sustenta esse princípio a necessidade de ser o Direito Penal subsidiário, somente atuando quando os demais ramos do Direito falharem (ultima ratio).
Princípio da fragmentariedade Do princípio da intervenção mínima deriva o princípio da fragmentariedade, segundo o qual deve o Direito Penal proteger apenas os bens jurídicos de maior relevância para a sociedade, não devendo ele servir para a tutela de todos os bens jurídicos. Daí o seu caráter fragmentário, ocupando-se somente de parte dos bens jurídicos protegidos pela ordem jurídica.
Princípio da insignificância (bagatela) Esse princípio deita suas raízes no Direito Romano, onde se aplicava a máxima civilista de minimis non curat praetor, sustentando a desnecessidade de se tutelar lesões insignificantes aos bens jurídicos (integridade corporal, patrimônio, honra, administração pública, meio ambiente etc).
Acolhido o princípio da insignificância, está excluída a própria tipicidade, desde que satisfeitos quatro requisitos: a)mínima ofensividade da conduta do agente; b)ausência de total periculosidade social da ação; c)ínfimo grau de reprovabilidade do comportamento; d)inexpressividade da lesão jurídica ocasionada. Requisitos do STF
O princípio da insignificância vem tendo larga aplicação nas cortes superiores (STJ e STF), sendo tomado como instrumento de interpretação restritiva do Direito Penal, que não deve ser considerado apenas em seu aspecto formal (tipicidade formal subsunção da conduta à norma penal), mas também e fundamentalmente em seu aspecto material (tipicidade material adequação da conduta à lesividade causada ao bem jurídico protegido).
Princípio da proporcionalidade da pena De cunho eminentemente constitucional, o princípio em análise preconiza a observância, no sistema penal, de proporcionalidade entre o crime e a sanção.
Princípio da individualização da pena De raízes constitucionais (art. 5.º, XLVI), se assenta na premissa de que o ilícito penal é fruto da conduta humana, individualmente considerada, devendo a sanção penal recair apenas sobre quem seja o autor do crime, na medida de suas características particulares, físicas e psíquicas.
Princípio da humanidade O princípio da humanidade é decorrência lógica dos princípios da proporcionalidade e da individualização da pena. Segundo ele, a pena e seu cumprimento devem se revestir de caráter humanitário, em respeito e proteção à pessoa do preso.
No Brasil, este princípio vem consagrado na Constituição Federal (art. 5.º, III), que veda a tortura e o tratamento desumano ou degradante a qualquer pessoa, e também na vedação de determinadas penas, como a de morte, de prisão perpétua, de trabalhos forçados, de banimento e outras penas cruéis (art. 5.º, XLVII).
LEI PENAL NO TEMPO
Conflito de leis penais no tempo solução princípio da irretroatividade da lei mais severa: a lei penal mais severa nunca retroage para prejudicar o réu; princípio da retroatividade da lei mais benigna: a lei penal mais benigna sempre retroage para beneficiar o réu.
a) abolitio criminis, que ocorre quando a nova lei suprime normas incriminadoras anteriormente existentes, ou seja, o fato deixa de ser considerado crime; b) novatio legis incriminadora, que ocorre quando a nova lei incrimina fatos antes considerados lícitos, ou seja, o fato passa a ser considerado crime; HIPÓTESES DE CONFLITO
c) novatio legis in pejus, que ocorre quando a lei nova modifica o regime penal anterior, agravando a situação do sujeito; d) novatio legis in mellius, que ocorre quando a lei nova modifica o regime anterior, beneficiando o sujeito. ATENÇÃO: Súmula 611 do STF e art. 66, I, da LEP Súmula 711 do STF
Ultra-atividade É a aplicação de uma lei mais benéfica que tem eficácia mesmo depois de cessada a sua vigência. Ocorre quando a lei nova, que revoga a anterior, passa a reger o fato de forma mais severa.
A ultra-atividade e a retroatividade são qualidades que a lei mais benigna possui, qualidades estas que são denominadas extra-atividade.
Eficácia das leis penais temporárias e excepcionais Art. 3.º A lei excepcional ou temporária, embora decorrido o período de sua duração ou cessadas as circunstâncias que a determinaram, aplica-se ao fato praticado durante sua vigência.
Leis penais temporárias são aquelas que possuem vigência previamente fixada pelo legislador. Este determina que a lei terá vigência até certa data. Leis penais excepcionais são aquelas promulgadas em casos de calamidade pública, guerras, revoluções, cataclismos, epidemias etc. Vigem enquanto durar a situação de anormalidade.
Tempo do crime Qual a lei a ser aplicada ao criminoso: a do tempo da atividade ou aquela em vigor por ocasião da produção do resultado? O nosso Código Penal adotou a teoria da atividade no art. 4.º, que diz: Art. 4.º Considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda que outro seja o momento do resultado.
LEI PENAL NO ESPAÇO
EFICÁCIA DA LEI PENAL NO ESPAÇO Art. 5.º Aplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções, tratados e regras de direito internacional, ao crime cometido no território nacional.
Atenção: Não se deve confundir eficácia da lei penal no espaço com competência territorial. Esta última, considerando o crime praticado no território nacional, tem seu regramento estabelecido por normas processuais, nos termos dos arts. 69 e seguintes do CPP.
Princípios relativos à lei penal no espaço a) princípio da territorialidade, segundo o qual se aplica a lei nacional ao fato praticado no território do próprio país;
b) princípio da nacionalidade, também chamado de princípio da personalidade, segundo o qual a lei penal de um país é aplicável ao seu cidadão, independentemente de onde se encontre;
c) princípio da defesa, também chamado de princípio real ou princípio da proteção, segundo o qual a lei do país é aplicada em razão do bem jurídico lesado, independentemente do local ou da nacionalidade do agente;
d) princípio da justiça universal, segundo o qual o agente deve ser punido onde se encontre, segundo a lei do país onde esteja, independentemente de sua nacionalidade, do local ou da nacionalidade do bem jurídico lesado;
e) princípio da representação, segundo o qual o crime praticado no estrangeiro deve ser punido por determinado país, quando cometido em embarcações e aeronaves privadas de sua nacionalidade, desde que não tenha sido punido no país onde se encontrava.
Princípios adotados pelo Brasil O Brasil adotou o princípio da territorialidade como regra e os demais princípios como exceção. Vide art. 7º do CP - Extraterritorialidade
Assim sendo, o princípio adotado pelo Brasil denomina-se princípio da territorialidade temperada, uma vez que a regra da territorialidade prevista no art. 5.º do Código Penal não é absoluta, comportando exceções nos casos previstos em lei e em convenções, tratados e regras de direito internacional.
TERRITORIALIDADE E CONTRAVENÇÃO PENAL: Art. 2º da LCP: A lei brasileira só é aplicável à contravenção praticada no território nacional.
Lugar do crime O Brasil adotou a teoria mista ou da ubiquidade, conforme o disposto no art. 6.º do Código Penal: Art. 6.º Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado.