MODULO 2 NOÇÕES DE DIREITO PENAL RECADO AO ALUNO As matérias desta apostila foram reunidas e consolidadas para estudo dos alunos Instituto Marconi. A leitura e estudo deste conteúdo não exclui a consulta a outras fontes que possam enriquecer e oferecer maior abrangência aos tópicos solicitados em editais de concursos públicos e outras formas de seleção. 1
Tipicidade e suas excludentes. Conceito de tipicidade. Os tipos penais são modelos de conduta, descrições abstratas que reúnem os elementos essenciais para se considerar um fato humano como crime. A ilicitude penal é uma ilicitude típica, ou seja, só é relevante, para o Direito Penal, um fato que a lei previamente tenha descrito como delito, o que não impede que um fato atípico seja considerado ilícito à luz do Direito Civil ou do Direito Administrativo, por exemplo. Apenas não será considerado um ilícito penal, por ausência de tipicidade. Tipicidade é a relação de enquadramento entre o fato delituoso (concreto) e o modelo (abstrato) contido na lei penal. É preciso que todos os elementos presentes no tipo se reproduzam na situação de fato. Ex.: o tipo de furto consiste em subtrair uma coisa móvel alheia, com o intuito de apoderamento. Se a pessoa subtrai a coisa com a intenção de devolvê-la, o fato não será típico. Os elementos do fato típico são: a) conduta; b) resultado; e c) nexo de causalidade. Conduta. Dolo e culpa em sentido estrito. O tipo penal não descreve qualquer fato, mas somente condutas. Conduta é o agir humano consciente e voluntário, dirigido a uma finalidade. A conduta compreende duas formas: o agir e o omitir-se (desde que voluntários). O termo ação, em sentido amplo, as abarca, embora seja mais interessante seguir os exemplos do Código, e usar a palavra ação como sinônimo de ação positiva, e o termo omissão para designar a ação negativa. Conduta seria a palavra mais apropriada como denominador comum. O crime comissivo praticado por ação é o mais fácil de conceituar. Corresponde a um movimento corpóreo do indivíduo. Uma alteração da posição dos músculos, determinada pelo cérebro de acordo com a vontade do indivíduo. Faz-se o que não se poderia fazer. A vontade não se confunde com a intenção (finalidade), sendo esta o direcionamento ao fim almejado. A vontade é a força psicológica que determina o movimento; a intencão é o conteúdo da vontade, aquilo que se deseja. Os atos meramente reflexos não são atos voluntários, logo não se enquadram no conceito de ação. Nos atos tomados por impulso (uma reação brusca a uma agressão, por exemplo), existe ação, pois sempre há a concorrência da vontade. Os crimes omissivos, por sua vez, apresentam maior dificuldade, eis que não é a atuação do indivíduo que causa o dano. Pune-se o agente por ter deixado de agir conforme a norma penal não fez o que tinha obrigação de fazer. Logo, a omissão só é verificável confrontando-se a conduta praticada com a conduta exigível, o que implica, necessariamente, uma valoração por parte do juiz. Há duas espécies de crimes omissivos. Os omissivos próprios e os omissivos impróprios. Os omissivos próprios contém, na definição do tipo penal, um verbo que indica a falta de ação, normalmente o verbo deixar. A descrição típica alude a um não-fazer (omissão de socorro, abandono intelectual, omissão de notificação de doença etc.). Já os omissivos impróprios são crimes comissivos praticados mediante uma omissão. Um exemplo: quem deixa de alimentar uma criança, e causa-lhe a morte, pratica um homicídio por omissão. O tipo penal descreve uma ação, mas o resultado é obtido por uma inação. A diferença básica entre um e outro consiste em que, no primeiro, o resultado é produzido por conta da omissão, enquanto, no segundo, outra causa produz o resultado, mas se exigia do agente uma ação positiva no sentido de evitá-lo, rompendo o nexo de causalidade. Mas de quem poder-se-á exigir tal ação? 2
O art. 13 do Código Penal, ao tratar do nexo de causalidade, esclarece que a omissão é relevante quando o agente PODIA agir e DEVIA agir. O dever de ação incumbe a quem: por lei, tivesse a obrigação de agir, como os policiais, bombeiros, médicos etc.; por disposição contratual ou qualquer outro meio houvesse se comprometido a impedir o resultado, como o guia de excursão, o líder dos escoteiros, o nadador experiente que se compromete a ajudar seu acompanhante; ou por sua ação anterior, criou o risco de produzir o resultado, como alguém que ateia fogo a uma casa, para receber o seguro, sem atentar para a presença de uma pessoa dentro do recinto; ou quem, por brincadeira, empurra uma pessoa que não sabe nadar dentro de uma piscina; em ambos os casos, por terem ocasionado o perigo, devem impedir a ocorrência do resultado lesivo. A conduta, comissiva ou omissiva, pode ser dolosa ou culposa. Será dolosa se houver coincidência entre a finalidade desejada pelo agente e o resultado alcançado. Haverá culpa, em sentido estrito, quando o resultado, embora não desejado pelo agente, foi produzido em razão de sua imprudência, negligência ou imperícia: Imprudência: corresponde à ação positiva, que não devia ser praticada ou o é sem os cuidados necessários. Por exemplo: dirigir em alta velocidade, manusear uma arma de fogo sem descarregá-la etc. Negligência: significa desleixo, falta de cuidado. Ocorre quando o agente deixa de realizar atos necessários a impedir que o resultado lesivo ocorra. Se deixa uma arma ao alcance de crianças, se não procede à correta manuntenção do automóvel, e assim por diante. Imperícia: implica descumprimento de regra técnica, que pode vir expressa em lei, regulamento, ou simplesmente pertencer ao domínio de alguma ciência, arte ou profissão. A imperícia normalmente vem acompanhada da imprudência ou da negligência. Exemplo: o médico que, sem saber utilizar o equipamento, dele faz uso, produzindo lesões no paciente; ou o motorista profissional que não procede à manutenção de seu veículo e por isso provoca acidente. O dolo pode ser direto e indireto. Este, alternativo ou eventual. Direto: quando o agente deseja o resultado. Alternativo: quando há mais de um resultado possível e ao agente interessa qualquer deles. Eventual: quando o agente não deseja o resultado, mas assume o risco de produzi-lo. Há que se diferenciar o dolo eventual da culpa consciente. Nesta, embora haja previsão, o agente tem certeza de que o resultado não ocorrerá. Do contrário, não persistiria na conduta. Naquele, a ocorrência ou não do resultado lhe é indiferente. A assunção do risco implica assentimento ao resultado. Esboçamos a seguir um quadro onde diferenciamos, a partir dos elementos previsibilidade, previsão, assunção de risco e intenção as duas espécies de dolo e culpa mais importantes: ELEMENTO CULPA INCONSCIENTE CULPA CONSCIENTE DOLO EVENTUAL DOLO DIRETO Previsibilidade sim sim sim sim Previsão não sim sim sim Assunção do risco não não sim sim Intenção não não não sim Percebe-se que, ausente a previsibilidade, não poderá haver culpa. Afinal, sem que possa prever o resultado, o agente não o pode evitar, e, portanto, descabe qualquer punição; do contrário haveria a responsabilidade objetiva (pela simples causação do resultado). Resultado. Resultado é uma modificação no mundo exterior que se segue, como conseqüência, à primeira modificação, que é a conduta. 3
O resultado é, dentre os efeitos da prática da conduta, o que a lei penal entende como suficiente à configuração do crime. Há, no entanto, delitos sem resultado, nos quais o legislador procurou antecipar a punição, recaindo esta, unicamente, sobre a prática da conduta. Quanto ao resultado, classificam-se os delitos em: Materiais: também chamados crimes de ação e resultado, pois o tipo penal descreve tanto a conduta quanto seu efeito. Se este não ocorrer, por circunstâncias alheias à vontade do agente, haverá tentativa. Ex.: homicídio (o resultado é a morte); furto (subtração); peculato (apropriação); estupro (conjunção carnal). Formais: existe um resultado possível e desejado pelo agente, mas o tipo penal não exige sua ocorrência, punindo a simples prática da conduta. Ex.: corrupção ativa (basta prometer a vantagem, ainda que esta não seja aceita); extorsão (consuma-se somente com a prática da violência ou grave ameaça); calúnia (não é necessário comprovar que a honra foi lesionada, bastando o ato de ofender). De mera conduta: o tipo descreve apenas a conduta, sem se referir a qualquer resultado. Ex.: violação de domicílio, desobediência, porte de arma etc. Nexo de causalidade. É a relação de causa e efeito entre a conduta e o resultado. Adotou o CP a teoria da equivalência dos antecedentes, que considera causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. Para saber se determinado fato é ou não causa do resultado, utiliza-se o método hipotético de Thyrén: se não houvesse o fato, o resultado teria ocorrido? Se se concluir que não, é porque o fato foi causador do resultado. Assim, quando se procura definir se uma conduta foi ou não causa de determinado resultado pergunta-se: caso a conduta não tivesse sido praticada, o resultado teria ocorrido? Se o resultado se modificasse, é porque a conduta lhe foi causa. Boa parte dos crimes contém, em sua descrição típica, uma conduta (fazer ou não fazer humano), da qual resulta uma lesão ou perigo de lesão a algum bem juridicamente tutelado. A responsabilidade penal não se baseia unicamente no resultado, mas sobretudo na vontade e na intenção apresentadas pelo agente. Necessário, entretanto, ligar-se o agente ao resultado por meio de uma relação lógica de causa-efeito, em que a conduta seja condição sine qua non para que o resultado ocorra. É o que faz o Código, ao considerar causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. Na linha de desdobramento causal, unem-se causas e concausas (fatores concorrentes e simultâneos), e bem assim condições fatores preexistentes. Verifica-se, dessa forma, o nexo de causalidade quando, abstraindo-se a conduta da linha de desdobramento, deixa de ocorrer o resultado. Depois de se estabelecer o nexo de causalidade, atenta-se para a culpa (lato sensu) do agente. Assim, a responsabilidade penal só se dará com a presença do aspecto objetivo (nexo causal) e do aspecto subjetivo (culpa). Não há lugar, no Direito Penal, para a responsabilidade objetiva 1. Adotando a teoria da equivalência dos antecedentes, o Código não isenta de responsabilidade o agente mesmo que outros fatores tenham se somado à conduta para produzir o resultado final. Exceção para causas supervenientes que, por si só, tenham produzido o resultado. Considera-se que uma causa superveniente, relativamente independente, produziu o resultado por si só quando ela levou o fato a um desdobramento fora do que ordinariamente se poderia esperar. 1 Embora se possa afirmar que o Código, no art. 28, II, ao tratar da inimputabilidade por embriaguez, de certa forma acatou o princípio da responsabilidade objetiva. Os autores, entretanto, divergem quanto a esta posição. 4
A seguir apresentamos alguns exemplos: Causa preexistente relativamente independente: o indivíduo é ferido mas, por ser diabético, não consegue a cicatrização, e morre em virtude das complicações advindas do ferimento. Causa concomitante relativamente independente: diversas pessoas agridem, a socos e pontapés, a vítima, que morre em decorrência de todos as pancadas. Causa superveniente relativamente independente, que não causa o resultado por si só : alguém é ferido e, levado ao hospital, a ferida infecciona, produzindo sua morte. Causa superveniente relativamente independente, que por si só causa o resultado: o ferido é levado ao hospital e, no caminho, por imprudência do motorista, a ambulância abalroa um poste, causando a morte do paciente por traumatismo craniano. (Note-se que o desdobramento fugiu do que normalmente acontece). Quando a causa é absolutamente independente, não há nexo. Se alguém coloca veneno na comida de uma pessoa, e esta, durante a refeição, antes de o veneno produzir seu efeito, morre em decorrência de um desabamento, não há ligação entre a conduta e o resultado. 1 Embora se possa afirmar que o Código, no art. 28, II, ao tratar da inimputabilidade por embriaguez, de certa forma acatou o princípio da responsabilidade objetiva. Os autores, entretanto, divergem quanto a esta posição. Exclusão da Tipicidade O fato é atípico quando não há conduta, nexo de causalidade, dolo ou culpa. Não existe conduta se não há manifestação de vontade. Isso ocorre quando: o agente se encontra em estado de inconsciência (ex.: o indivíduo, dormindo, mexe-se na cama e cai por sobre uma pessoa que estava no chão, provocando-lhe lesões); a movimentação do agente resulta de atos reflexos (ex.: alguém leva um susto e, movimentando os braços, termina derrubando da escada outra pessoa, que quebra a perna na queda); o agente sofre coação física irresistível (ex.: uma pessoa leva um soco violento e cai por cima de objetos valiosos, quebrando-os) 2. Inexiste nexo de causalidade quando, sem a ação ou omissão, o resultado seria o mesmo. Rompe-se o nexo de causalidade, na hipótese do art. 13, 1º, quando uma causa superveniente relativamente independente leva o fato a um desdobramento fora do que ordinariamente ocorre, e por isso se considera que essa causa por si só produziu o resultado. O dolo está ausente quando o autor do fato não desejou nem assumiu o risco de produzir o resultado. Ou quando agiu mediante erro de tipo (vide item. 1.9.5). Não há culpa se o resultado era imprevisível, o que também ocorre na hipótese de erro de tipo escusável. Pode existir conduta sem que o agente tenha dolo ou culpa, mas, nesse caso, a conduta será atípica, pois a lei penal apenas descreve condutas dolosas ou culposas. ILICITUDE E suas excludentes Conceito de ilicitude. Ilicitude e antijuridicidade são palavras sinônimas, que expressam uma relação de contrariedade entre o fato e o ordenamento jurídico. Predomina a concepção de que a tipicidade serve como indício da antijuridicidade. Sendo típico o fato, é regra seja também ilícito. As exceções seriam os fatos acobertados por alguma excludente de antijuridicidade. O art. 23 cuida das causas de exclusão da ilicitude: 2 A coação física (em que a vontade está ausente) difere-se da coação moral (em que subsiste a vontade, embora não haja liberdade de ação). Vide item 1.9.3. 5
estado de necessidade; legítima defesa; estrito cumprimento do dever legal; exercício regular de direito. Estado de Necessidade Para o Código, em seu art. 24, age em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheiro, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se. O estado de necessidade possui os seguintes requisitos: Perigo atual não provocado pela vontade do agente. Bem jurídico do agente ou de terceiro ameaçado. Inexegibilidade de sacrifício do bem jurídico ameaçado (o bem jurídico ameaçado é de valor igual ou superior ao bem jurídico a ser sacrificado). Inexistência de dever legal de enfrentar o perigo. Conhecimento da situação de perigo (elemento subjetivo da excludente). Uma dúvida surge quanto à provocação do resultado. Enquanto Damásio de Jesus afirmar que, pelo fato de o termo vontade referir-se unicamente ao resultado produzido dolosamente, boa parte dos autores entende que o comportamento culposo, por ser tecnicamente voluntário, caso provoque o perigo, não isentaria o agente da ilicitude do seu ato. O requisito da inexegibilidade do sacrifício do bem jurídico ameaçado refere-se à ponderação entre os bens jurídicos em jogo. Não se permite o sacrifício de um bem mais valioso em favor de outro, embora se tolere, de acordo com as circunstâncias, um certo desnível. Difícil, entretanto, seria permitir o sacrifício de uma vida em benefício de um bem patriomonial. São exemplos de estado de necessidade: as lesões corporais causadas por uma pessoa em outra fugindo de um incêndio; o atropelamento de um pedestre quando o motorista está sendo perseguido por assaltantes; a atitude dos passageiros do avião que caiu nos Andes, alimentando-se dos restos mortais das vítimas do desastre; e o clássico exemplo dos dois náufragos que lutam para ficar sobre a tábua boiando. No caso último, vemos que ambas as condutas são lícitas. O ordenamento jurídico, sendo idêntico ou similar o valor atribuído a cada bem jurídico, não toma partido, e espera o fim da contenda, sem que considere criminoso o comportamento de quem salva o seu direito. Legítima Defesa Diz o art. 25 do CP: Encontra-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. São, portanto, seus requisitos: agressão injusta, que esteja em curso ou na iminência de ocorrer; a repulsa, utilizando-se os meios necessários; a moderação no uso dos meios de defesa; o conhecimento da agressão e a consciência de sua atualidade ou iminência e de seu caráter injusto (elemento subjetivo). 6
A agressão não precisa ser criminosa. O termo injusta indica contrariedade com o ordenamento jurídico. Mas terá de ser atual ou iminente. Se passada, ou remota, a atitude será considerada criminosa. Ao contrário do estado-de-necessidade, não se comparam os bens jurídicos confrontados, mas não pode haver grande desproporcionalidade. Atenta-se para os meios empregados na defesa: devem ser os estritamente necessários, e usados com moderação. O parágrafo único do art. 23 diz que o agente responderá pelo excesso, doloso ou culposo. A legítima defesa classifica-se em: Própria: quando a pessoa que se defende é o titular do bem jurídico ameaçado. De terceiro: quando o bem jurídico pertence a outrem. Real: quando não há erro sobre a situação de fato. Putativa: quando o agente pensa estar em legítima defesa, por erro de tipo (art. 20, 1º, ou erro de proibição, art. 21, todos do CP). Sucessiva: quando o agente, inicialmente agredido, exagera na repulsa; neste caso, o primeiro agressor estará em legítima defesa, se reagir contra o excesso. Subjetiva: quando o agente inicia a defesa mas, mesmo cessada a agressão, ainda a considera presente, persistindo no uso dos meios de repulsa. Haverá excesso, mas este será culposo, ou mesmo não haverá culpa, se o agente não tinha como saber que a conduta agressiva havia terminado. A provocação por parte do agredido não lhe tira o direito de defender-se, salvo quando a provocação, em si, é considerada uma agressão, ou quando ele, adredemente, planejou a situação, de modo a forjar uma situação de legítima defesa para mascarar sua ação criminosa. Estrito cumprimento do dever legal. O Código não conceitua o estrito cumprimento do dever legal, mas a doutrina o entende como a obediência à norma legal escrita, que impõe ao indivíduo uma obrigação de praticar uma conduta típica. Embora se enquadre nos elementos do tipo penal, a conduta não se confrontaria com o ordenamento jurídico, já que dele partiria a obrigação. Encontra-se em estrito cumprimento do dever legal, por exemplo, o policial que prende em flagrante o autor de um crime, ou o inferior hierárquico que obedece a uma ordem legal de seu superior. O exercício do dever há de ser estrito, ou seja, extrapolando das obrigações que lhe são cometidas, o agente responderá pelo excesso. Exercício regular de direito. O exercício regular de direito pressupõe uma faculdade de agir atribuída pelo ordenamento jurídico (lato sensu) a alguma pessoa, pelo que a prática de uma ação típica não configuraria um ilícito. Mirabete cita como exemplos de exercício regular de direito: a correção dos filhos por seus pais; prisão em flagrante por particular; penhor forçado (art. 779 do CP); no expulsar, na defesa em esbulho possessório recente. Em qualquer caso, não se pode ultrapassar os limites que a ordem jurídica impõe ao exercício do direito. Caso os pais, a pretexto de corrigir os filhos, incorram em maus-tratos, responderão pelo crime. Ofendículos: a predisposição de aparatos defensivos da propriedade (cacos de vidro no muro, cercas de arame farpado, maçanetas eletrificadas etc.), embora sejam consideradas, por parte da doutrina, como legítima defesa, são, na verdade, exercício regular de um direito, pois faltaria o elemento subjetivo da defesa à agressão. Também se consideram exercício regular de direito as lesões ocorridas na prática de esportes violentos, desde que toleráveis e dentro das regras do esporte. As intervenções médicas e cirúrgicas, havendo consentimento do paciente, seriam exercício de direito; inexistindo, poderia haver estado-de-necessidade (Mirabete). 7
CULPABILIDADE E SUAS EXCLUDENTES Conceito e elementos da culpabilidade. Culpabilidade é um juízo de reprovação dirigido ao autor do fato porque, podendo evitá-lo, não o fez. Só é culpável o autor de conduta típica e ilícita, de modo que o conceito de crime mais aceito na doutrina é o de fato típico, ilícito e praticado de forma culpável. São três os elementos da culpabilidade: Imputabilidade: capacidade de o agente compreender a ilicitude do fato ou de conduzir-se de acordo com esse entendimento. Potencial consciência da ilicitude: possibilidade de o agente, dentro das circunstâncias em que ocorre a prática da conduta, saber que ela contraria o direito. Exigibilidade de conduta diversa: sendo a culpabilidade uma reprovação por não ter o agente evitado a prática da conduta, não havendo liberdade de ação, ou seja, não podendo o agente proceder de outra maneira, não será reprovável. Causas de Exclusão da Culpabilidade Baseado nos elementos da culpabilidade, encontraremos seis excludentes: ELEMENTO Imputabilidade Potencial consciência da ilicitude Exigibilidade de conduta diversa EXCLUDENTE Inimputabilidade por doença ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado (art. 26) Inimputabilidade por menoridade (art. 27) Inimputabilidade por embriaguez completa, proveniente de caso fortuito ou força maior (art. 28, 1º) Erro de proibição (art. 21) Coação moral irresistível (art. 21, 1ª parte) Obediência hierárquica (art. 21, 2ª parte) Inimputabilidade penal. Imputabilidade Imputabilidade é a possibilidade de atribuir-se ao indivíduo a responsabilidade pela conduta praticada. Baseia-se num princípio de responsabilização moral que pressupõe o pleno exercício das faculdades mentais para que o caráter ilícito da conduta seja compreendido e a capacidade de o agente condições orientar sua conduta de acordo com tal entendimento. São três os critérios para definir a inimputabilidade: 1. Biológico: que considera as alterações fisiológicas no organismo do agente; 2. Psicológico: que se baseia na incapacidade, presente no momento da ação ou da omissão, de compreender a ilicitude do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento; 3. Bio-psicológico: que reúne os elementos dos critérios anteriores. Para o Código, art. 26, caput, são inimputáveis os agentes que não possuam, ao tempo da ação ou da omissão, condições de entender o caráter ilícito da conduta ou de determinar-se de acordo com tal entendimento. Tais pessoas não podem ter sua conduta reprovada e ficam isentos de pena. O parágrafo único do mesmo dispositivo trata de um caso de semi-imputabilidade (melhor seria semiresponsabilidade) que resulta em uma redução de pena, de um a dois terços, para os agentes que, embora imputáveis, têm reduzida sua condição de entender a ilicitude ou de conduzir-se conforme tal juízo. 8
Fica claro que em ambas as hipóteses o CP utilizou o critério bio-psicológico, pois exige a doença ou retardamento mental (biológico) e a incacidade total ou relativa no momento da ação (psicológico). Roberto Lyra utiliza-se de um quadro de requisitos bastante elucidativo: INIMPUTABILIDADE ART. 26, CAPUT Requisito causal Requisito temporal Requisito conseqüêncial Doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado Ao tempo da ação ou da omissão Ser inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento SEMI-RESPONSABILIDADE ART. 26, PARÁGRAFO ÚNICO Requisito causal Requisito temporal Requisito conseqüencial Perturbação mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado Ao tempo da ação ou da omissão Não ser inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento O art. 27 cuida da inimputabilidade por menoridade. É um caso de desenvolvimento mental incompleto que o Código tratou de maneira específica para impedir a punição, nos mesmos termos dos adultos, de quem não tenha atingido ainda a idade de 18 anos. A pessoa torna-se imputável no primeiro instante do dia de seu 18º aniversário. Em verdade utilizou-se um critério de política criminal para evitar que pessoas ainda em formação convivessem, nas mesmas unidades prisionais, e tivessem um tratamento igual aos criminosos adultos, o que terminaria contribuindo para a irrecuperabilidade do indivíduo. Repetindo o art. 228 da Constituição Federal, o CP remete a punição dos menores de 18 anos à legislação especial Lei 8.069/90, de 13.7.90 (Estatuto da Criança e do Adolescente). No caso da menoridade, o CP utilizou o critério puramente biológico, pois despreza se o menor de dezoito anos tem ou não capacidade de entender a iliticitude do fato ou de conduzir-se de acordo com esse entendimento. Utilizando o quadro de Roberto Lyra, obter-se-ia o seguinte INIMPUTABILIDADE POR MENORIDADE ART. 27 Requisito causal Requisito temporal Ter menos de 18 anos No momento da ação ou da omissão O art. 28 trata da inimputabilidade por embriaguez, mas antes faz duas ressalvas: a emoção ou a paixão não excluem a imputabilidade, o mesmo se dando com a embriaguez voluntária ou culposa. Tem-se por embriaguez o estado de intoxicação aguda e passageira, provocada pelo álcool (ou outras substâncias de semelhantes efeitos), que reduz ou priva a capacidade de entendimento (Delmanto). 9
A embriaguez comporta, segundo Damásio de Jesus, três estágios: excitação, depressão e fase de sono. A embriaguez completa corresponderia aos dois últimos estágios, enquanto o primeiro caracterizaria a embriaguez incompleta. Na embriaguez completa o indivíduo perde a capacidade de discernimento e, por vezes, chega à impossibilidade de compreensão do caráter ilícito de sua conduta ou à impossibilidade de direcionar-se de modo diverso. O Código, entretanto, só isenta de pena o agente se tal embriaguez derivar de caso fortuito ou força maior. Abaixo apresentamos um quadro com as espécies de embriaguez e suas conseqüências jurídico-penais: Espécie de embriaguez Origem Conseqüência Patológica Voluntária Culposa Fortuita ou acidental Por força maior Preordenada Doença que provoca dependência física e psíquica Intenção do indivíduo em embriagar-se, embora não tencionasse praticar crime algum Ocasionada por descuido do agente Quando o agente desconhecia os efeitos da substância ingerida no seu organismo O agente é coagido física ou moralmente a ingerir a substância O agente embriaga-se propositalmente para o cometimento do delito Inimputabilidade por equivalência à doença mental (art. 26, caput) Agente considerado imputável Idem Inimputabilidade (art. 28, 1º) Inimputabilidade (art. 28, 1º) Imputável, sendo punido com agravante (art. 61, l ) O parágrafo segundo trata de hipótese de redução de pena quando a embriaguez é incompleta e disso resulta compreensão apenas parcial do ilícito ou pouca capacidade de resistência ao impulso criminoso (redução de um a dois terços). Também na embriaguez, usou o CP o critério bio-psicológico. 10