Pesquisas agronômicas das plantas medicinais nativas regulamentadas pela ANVISA Lin Chau Ming, Gabriela Granghelli Gonçalves, Maria Izabela Ferreira Departamento de Horticultura, Faculdade de Ciências Agronômicas UNESP Botucatu, SP. Email: linming@fca.unesp.br INTRODUÇÃO Com a divulgação da lista de espécies medicinais pela Resolução RDC Nº10, de 9 de março de 2010 que dispõe sobre o uso de drogas vegetais junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA, 2010), o uso dessas plantas passa a ter a chancela oficial do órgão governamental regulador, e em consequência disso, ter sua demanda bastante aumentada. A obtenção desses materiais vegetais adquire então uma grande importância, uma vez que haverá a necessidade de se produzir essas plantas. A própria Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos já indicava essa necessidade, com o estabelecimento de diretrizes voltadas à parte agronômica das plantas medicinais (Brasil, 2006; 2009). Assim o objetivo dessa pesquisa foi avaliar a situação das pesquisas agronômicas das espécies medicinais dos biomas brasileiro que constam na resolução. METODOLOGIA A partir da listagem das 66 plantas medicinais divulgada pela ANVISA em 2010, estas foram separadas em quatro categorias: a) plantas exóticas; b) plantas ocorrentes na Mata Atlântica; c) plantas ocorrentes no Cerrado/Caatinga; d) plantas ocorrentes na Floresta Amazônica. As categorias foram pesquisadas a partir dos nomes científicos, pelo título, no Portal de Periódicos da Capes em maio de 2014, para verificar o número total de artigos. Depois foi feita uma pesquisa na base de dados CAB Abstract também em maio de 2014, para obter o número total de publicações para as espécies dos biomas brasileiros, excluindo as exóticas, com o objetivo de verificar quantos artigos foram produzidos com essas espécies nas áreas correlatas às de cultivo. Essa base de dados é a que contém artigos científicos voltados para área de agrárias (agricultura, solos, pesticidas, horticultura, florestas, veterinária etc...).
RESULTADOS Os resultados mostram que 41 espécies são exóticas, 24 são da Mata Atlântica, 2 são do Cerrado/Caatinga e 2 pertencem ao bioma amazônico (Figura 1 e Tabela 1). Exóticas Mata atlântica Cerrado/Caatinga Floresta Amazônica Figura 1. Gráfico demostrando a quantidade de plantas de cada uma das quatro classificações (Exótica, Mata Atlântica,Cerrado/Caatinga e Floresta Amazônica). Tabela1. Número total de artigos de cada espécie pesquisada no Periódico da Capes em Maio de 2014. Plantas Exóticas Nº artigos Plantas Exóticas Nº artigos Curcuma longa 6564 Plectranthus barbatus 155 Allium sativum 6550 Justicia pectoralis 109 Eucalyptus globulus 6307 Senna alexandrina 72 Zingiber officinale 4346 Rhamnus purshiana 164 Rosmarinus officinalis 3845 Total 78496 Sambucus nigra 3766 Mata Atlântica Psidium guajava 3504 Anacardium occidentale 2131 Punica granatum 3328 Passiflora edulis 1763 Momordica charantia 3314 Bidens pilosa 1507 Taraxacum officinale 3011 Ageratum conyzoides 1130 Salvia officinalis 2663 Eugenia uniflora 618 Glycyrrhiza glabra 2610 Lippia alba 481 Citrus aurantium 2412 Casearia sylvestris 391 Plantago major 2333 Maytenus ilicifolia 373 Achillea millefolium 2314 Passiflora alata 330 Mentha piperita 2313 Baccharis trimera 238 Aesculus hippocastanum 1652 Achyrocline satureioides 236 Melissa officinalis 1532 Cordia verbenacea 191 Calendula officinalis 1493 Polygonum punctatum 186 Equisetum arvense 1394 Mikania glomerata 184 Salix alba 1358 Caesalpinia ferrea 167 Arnica montana 1267 Solanum paniculatum 98 Cymbopogon citratus 1266 Echinodorus macrophyllus 74 Cynara scolymus 1235 Vernonia condensata 53 Arctium lappa 897 Schinus terebinthifolia 52
Matricaria recutita 883 Vernonia polyanthes 49 Pimpinella anisum 824 Erythrina verna 17 Phyllanthus niruri 806 Total 10269 Mentha pulegium 691 Cerrado/Caatinga Harpagophytum procumbens 613 Lippia sidoides 313 Passiflora incarnata 584 Stryphnodendron adstringens 249 Malva sylvestris 546 Total 562 Hamamelis virginiana 510 Floresta Amazônica Peumus boldus 405 Uncaria tomentosa 742 Illicium verum 377 Paullinia cupana 470 Cinnamomum verum 314 Total 1212 Polygala senega 169 Número total de artigos 90.539 Os resultados mostram um predomínio de espécies exóticas, seguidos de espécies nativas oriundas da Mata Atlântica e em seguida espécies dos biomas cerrado/caatinga e floresta amazônica. Esses números refletem a diversidade cultural brasileira, formada principalmente por gerações de imigrantes europeus, africanos e orientais, miscigenados com populações autóctones durante séculos, intercambiando modos de vida, conhecimentos e culturas. As três espécies que mais foram pesquisadas foram Curcuma longa (6564), Allium sativum (6550) e Eucalyptus globulus (6307) e mostram claramente espécies muito utilizadas para fins alimentícios/condimentares em todo o mundo e o uso do óleo para fins medicinais. Na pesquisa realizada no Portal de Periódicos Capes o número total de artigos para cada espécie variou de 17 a 6564 (Tabela 1). As espécies que apresentaram alto número de publicações são, além de medicinais, também usadas na alimentação como condimentos e assim têm ampla tradição de cultivo. Muitas são espécies ruderais. As espécies mais estudadas foram: alho (Allium sativum), goiaba (Psidium guajava), cúrcuma (Curcuma longa), gengibre (Zingiber officinalis), caju (Anacardium occidentale), romã (Punica granatum), alecrim (Rosmarinus officinalis), laranja (Citrus aurantium), dente-de-leão (Taraxacum officinale) alcachofra (Cynara scolymus), melão-de-são-caetano (Momordica charantia) e maracujá (Passiflora edulis). O fato de o número de espécies da Mata Atlântica ser maior do que o dos outros biomas pode refletir a existência de maior número de pesquisadores envolvidos nas instituições de pesquisa e/ou universidades de regiões onde essa vegetação ocorre, em especial os das regiões sudeste e sul do Brasil. Com as espécies ocorrentes em outros biomas brasileiros, a situação é inversa. Outro fator a ser considerado é o aspecto cultural, o uso pelas populações dessas regiões, parecendo ser corriqueiro em seus
diversos usos populares, assim, a partir de levantamentos etnobotânicos, as plantas são identificadas, as partes vegetais e usos são conhecidos e divulgados para outras categorias de cientistas, que então as selecionam para objetos de pesquisa nas sub-áreas de atuação. Quanto à quantidade de artigos publicados no CAB Abstracts das espécies dos biomas brasileiros, as plantas que possuem o maior valor, são as espécies frutíferas e as ruderais (Tabela 2). Isso ocorre por que a maioria das pesquisas agronômicas dessas espécies são voltadas para a produção de frutos no caso das frutíferas e para o controle (planta daninha) no caso são ruderais, e não voltadas para o cultivo visando seu principio ativo. Tabela 2. Número total de artigos publicados no CAB Abstracts de espécies de biomas brasileiros. Nº artigo Mata Atlântica CAB Mata Atlântica Nº artigo CAB Anacardium occidentale 2671 Vernonia polyanthes 35 Bidens pilosa 1960 Polygonum punctatum 34 Passiflora edulis 1458 Vernonia condensata 29 Ageratum conyzoides 906 Echinodorus macrophyllus 19 Eugenia uniflora 330 Erythrina verna 18 Lippia alba 229 Schinus terebinthifolia 16 Passiflora alata 218 Total 8613 Maytenus ilicifolia 154 Cerrado/Caatinga Casearia sylvestris 136 Lippia sidoides 109 Baccharis trimera 136 Stryphnodendron adstringens 114 Mikania glomerata 110 Total 223 Achyrocline satureioides 104 Floresta Amazonica Caesalpinia férrea 93 Uncaria tomentosa 174 Solanum paniculatum 57 Paullinia cupana 243 Cordia verbenacea 51 Total 417 Dentre as espécies nativas que ocorrem na Mata Atlântica, encontram-se espécies ruderais como picão (Bidens pilosa) e o mesntrasto (Ageratum conyzoides) que são de ocorrência frequente e muito comum em diferentes estados brasileiros. Isso representa uma vantagem no que se refere à obtenção dessas plantas, por estarem já aclimatadas, além de serem amplamente conhecidas pelo uso tradicional. Muitas espécies ruderais são consideradas plantas invasoras, plantas daninhas, devido à grande facilidade de se propagarem em ambientes antrópicos ou agricultáveis, havendo
inúmeros trabalhos visando estudar a biologia e também o controle, fazendo com que se eleve o número de artigos dessas espécies. Apesar de serem representados por somente quatro espécies, os biomas Caatinga, Cerrado e Floresta Amazônica, possuem algumas espécies com elevado número de artigos voltados para área agronômica como Stryphnodendron adstringens (144) e Uncaria tomentosa (174), sendo que essas são espécies utilizadas exclusivamente como medicinais. O guaraná Paullinia cupana (241) também possui um bom número de artigos, porém mais voltados para a produção de frutos para consumo em refrescos. Das espécies encontradas na Mata Atlântica, as cinco espécies que apresentaram maior número de artigos publicados na base de dados direcionada para área de agronômicas (CAB Abstract) são Anacardium occidentale (2 671 artigos), Bidens pilosa (1960), Passiflora edulis (1458), Ageratum conyzoides (906) e Eugenia uniflora (330). Como já foi dito anteriormente, esses números refletem o uso frequente dessas espécies por populações da região e a priorização nas pesquisas por universidades/órgãos de pesquisas e pesquisadores. Com a regulamentação de uso de certas plantas medicinais como drogas vegetais junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA, 2010) em breve poderá ocorrer um aumento de consumo destas plantas, implicando numa maior demanda de pesquisa agronômica, tanto para espécies exóticas como para espécies nativas que possuem escassas informações agronômicas e botânicas, na busca de se garantir a qualidade e a disponibilidade destas drogas vegetais no mercado. REFERÊNCIAS AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Resolução - RDC n.10, de 9 de março de 2010. Dispõe sobre a notificação de drogas vegetais junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 mar. 2010. Seção 1, p.52-59. Disponível em:<http://www.mp.sp.gov.br/portal/page/portal/cao_ consumidor/legislacao/leg_saude/leg_sau_anvs/resol-anvisa.pdf>. Acesso em: 22 abr. 2010. [ Links ] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos.
Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos / Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Brasília, DF.: Ministério da Saúde, 2009. 136p. Disponível em: <http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/plantas_medicinais.pdf>. Acesso em: 22 abr. 2010. [ Links ] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Departamento de Assistência Farmacêutica. Política nacional de plantas medicinais e fitoterápicos / Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, Departamento de Assistência Farmacêutica. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2006. 60p. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_ nacional_fitoterapicos.pdf>. Acesso em: 22 abr. 2010. [ Links ]