UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E DE TECNOLOGIA DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA CIVIL

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Transcrição:

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E DE TECNOLOGIA DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA CIVIL ESTUDO DAS CONDIÇÕES DE APROVEITAMENTO DE ÁGUA PLUVIAL E REÚSO DE ÁGUA SERVIDA EM PRÉDIOS DE APARTAMENTOS Júlia Safady Lopes Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal de São Carlos como parte dos requisitos para a conclusão da graduação em Engenharia Civil Orientador: Prof. Douglas Barreto São Carlos 2011

"A água, essencial à vida, é algo a ser preservado, e deve estar disponível a todas as pessoas e à natureza." (Robin Clarke)

DEDICATÓRIA Dedico esta monografia a todos que enfrentam diversas dificuldades devido ao escasso ou nulo acesso à água

AGRADECIMENTOS Meus sinceros agradecimentos a todas as pessoas que colaboraram para a realização deste trabalho, em especial: À minha mãe, pelo apoio, carinho e por tornar possível a minha formação. Ao professor Douglas Barreto, pela atenção e boa orientação. Aos meus familiares e amigos, que sempre estiveram disponíveis nos momentos difíceis. À Universidade Federal de São Carlos, pelo conhecimento e aprendizado transmitido, especialmente pelos professores do DECiv. À Deus, pela vida.

RESUMO Em consideração à situação de escassez de água existente em diversas partes do mundo, este trabalho apresenta um estudo das condições de aproveitamento de água pluvial e reúso em prédios de apartamentos na cidade de São Carlos e divide-se em duas situações, uma real e outra hipotética. As situações analisadas basearam-se em um único edifício residencial de 62 unidades. Na primeira, o edifício está praticamente finalizado e não foi planejado adequadamente para utilização de água, e na segunda situação o planejamento é feito desde o início para que seja possível utilizar água pluvial e água cinza no edifício a ser construído. Para calcular os volumes dos reservatórios de água pluvial e água cinza, foram utilizados o método de Rippl e o valor de demanda respectivamente. Diversas opções de demanda foram analisadas para que se escolhesse a mais viável. A redução de água potável a ser consumida no residencial chegou a aproximadamente 42%, para a situação hipotética, e este valor é refletido no valor do condomínio viabilizando o investimento. O valor a ser investido por pessoa para a implantação do sistema é de R$ 215,24 na primeira situação e de R$ 1.639,12 na segunda, ou seja, uma pequena porcentagem do preço do imóvel. Considerando os benefícios do sistema e o tempo de retorno do investimento ser de apenas quatro anos, pode-se afirmar que é uma alternativa viável. Os resultados apontaram que, apesar do investimento necessário para aderir à segunda situação ser maior, o tempo necessário para viabilizá-la economicamente é um pouco menor do que na primeira situação, e como seu aproveitamento de água é maior, pode ser considerada como a melhor opção de sistema. Palavras-chave: reúso, água cinza, água pluvial, reutilização

ABSTRACT ABSTRACT Considering the water stress situation in several parts of the world, this paperwork is about a study of the possibilities of rainwater and grey water use in apartment buildings in São Carlos city and it is divided in two situations, a real one and a hypothetical one. Both situations were based on a residential building of 62 apartments. In the first one, the building is practically finished and it wasn t planned to sustain water reuse, and in the second situation, it is planned since the beginning to be capable of using rainwater and grey water in the building. To calculate the volumes of rainwater and grey water reservoirs, it was used the method of Rippl and demand respectively. Several options of demand were analyzed so that the most viable was selected. The reduction of potable water consumption in the residential reached around 42%, in the hypothetical situation, and this reduction is also seen in the condominium rate making the investment viable. The value to be paid per person to install the system is R$ 215,24 in the first situation and R$ 1.639,12 in the second one, which means a small part of the realty price. Considering the benefits of the system and that the payback time of the investment is only four years, it can be assured that it s a viable deal. The results showed that in spite of the investment needed in the second situation be bigger, the payback time to make it economically viable is a bit less than in the first situation, and since the reutilization volume is bigger, it can be considered as the best option for water reuse. Key-words:reuse, grey water, rain water, reutilization

LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 - Isoietas anuais de precipitação do estado de SP.... 5 Figura 2 - Fluxograma da água indicando fontes alternativas para uso doméstico.... 13 Figura 3 - Consumo de água na edificação dividido em uso potável e não potável.... 13 Figura 4 - Divisão de águas residuais no edifício.... 14 Figura 5 - Localização do objeto de estudo... 16 Figura 6 - Planta do pavimento tipo... 17 Figura 7 - Residencial Anabelle... 18 Figura 8 - Valores de C para várias superfícies, declividade e tempos de retorno... 22 Figura 9 - Primeira situação de aproveitamento e reúso... 25 Figura 10 - Segunda situação de aproveitamento e reúso... 26 Figura 11 - Localização do reservatório na situação real... 30 Figura 12 - Fluxograma do processo de tratamento de águas pluviais.... 31 Figura 13 - Sistema para tratamento da água pluvial.... 32 Figura 14 - Localização dos reservatórios na situação hipotética... 33 Figura 15 - Fluxograma do processo de tratamento de águas cinzas.... 34 Figura 16 - Tratamento disponibilizado pela empresa Sergam... 35

LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Distribuição da água no Mundo.... 1 Gráfico 2 - Distribuição dos recursos hídricos no Brasil... 2 Gráfico 3 - Projeção do total anual do consumo de água... 3 Gráfico 4 - Precipitação mensal de São Carlos em 2010.... 4

LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Consumo de água por atividade... 12 Tabela 2 - Consumo de água do Residencial Analli.... 19 Tabela 3 - Consumo médio de água nas regiões geográficas do Brasil.... 20 Tabela 4 - Porcentagens de uso por atividade do prédio por pessoa... 20 Tabela 5 - Tabela para cálculo da demanda... 23 Tabela 6 - Cálculo do volume de água pluvial necessário por mês... 23 Tabela 7 - Cálculo do reservatório da situação real pelo método de Rippl... 24 Tabela 8 - Primeiro cálculo do volume do reservatório pelo método de Rippl... 25 Tabela 9 - Segundo cálculo do volume do reservatório pelo método de Rippl... 26 Tabela 10 - Terceiro cálculo do volume do reservatório pelo método de Rippl... 27 Tabela 11 - Custo do sistema na situação atual... 36 Tabela 12 - Custo do sistema na situação real... 37 Tabela 13 - Custo do sistema na situação hipotética... 37 Tabela 14 - Tarifas para condomínio residencial com leitura remota individualizada... 38 Tabela 15 - Custo de água e esgoto no Residencial Anabelle... 38 Tabela 16 - Custo de água e esgoto no Residencial Anabelle na situação real... 38 Tabela 17 - Custo de água e esgoto no Residencial Anabelle na situação hipotética... 39

SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO... 1 1.1 Objetivos... 6 1.2 Estrutura do texto... 6 2. MÉTODOS... 8 3. APROVEITAMENTO E REÚSO DE ÁGUA... 9 3.1 Aproveitamento de águas pluviais... 9 3.2 Reúso de águas servidas... 10 3.3 Combinação dos tipos de fontes alternativas... 11 4. CONSUMO PREDIAL DE ÁGUA... 12 4.1 Consumo de água na edificação... 12 4.2 Água disponível para reúso na edificação... 14 5. ESTUDO DE CASO... 15 5.1 Situação do prédio em fase de acabamento (situação real)... 15 5.2 Situação do prédio em fase de projeto (situação hipotética)... 15 5.3 Descrição do objeto de estudo... 15 6. DIMENSIONAMENTO DOS SISTEMAS... 19 6.1 Dados de consumo de um edifício similar ao estudado... 19 6.2 Situação real... 20 6.2.1 Método de Rippl... 21 6.3 Situação hipotética... 24 6.3.1 Reservatório de armazenamento de água pluvial... 24 6.3.2 Reservatório de armazenamento de água cinza... 28 7. IMPLANTAÇÃO DOS SISTEMAS... 30 7.1 Situação real: Edifício em fase de acabamento... 30 7.2 Situação hipotética: Edifício em fase de projeto... 32 8. CUSTOS E VIABILIDADE... 36 8.1 Custo do sistema PREDIAL HIDRÁULICO... 36 8.2 Análise da viabilidade do sistema... 37 9. CONCLUSÃO... 40 10. REFERÊNCIAS... 41

1 1. INTRODUÇÃO Atualmente existe grande preocupação com o aquecimento global e seus efeitos, sendo um deles a diminuição dos recursos naturais de água, além do que o aumento da temperatura causaria maior demanda da água (IPCC, 2007). Estudos feitos pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (WHO/UNICEF, 2004), mostram que, antes, 35% da população mundial não tinham acesso a água tratada, entretanto, em adoção às metas de desenvolvimento (Millennium Development Goals MDG) os países prometeram diminuir pela metade a população do mundo sem acesso à água potável, sendo que a mesma passou para 17% neste processo de metas de melhoria. Segundo o International Hydrological Programme (UNESCO, 1999) apesar do grande volume de água existente no planeta, a maior parte desta é salgada, e está nos mares e oceanos. A água doce só representa 2,5% do total, sendo que a maior parte está nas calotas polares (Gráfico 1). Apenas 0,3% da água doce estão disponíveis e de fácil acesso, ou seja, 0,0075% da água total do planeta. Sendo que 13,8% desta água estão no Brasil e 80% dela estão concentradas na região amazônica, onde 5 % da população brasileira residem, e os outros 20% se distribuem pelo Brasil abastecendo os restantes 95% da população. Fonte: CONSUMO SUSTENTÁVEL (2005) Gráfico 1 - Distribuição da água no Mundo. O volume de água do planeta praticamente não varia, pois não há perdas no ciclo de evaporação e precipitação da água. O que caracteriza a escassez da água é a poluição, o mau uso, ou seja, o desperdício, perdas e a má distribuição da água no planeta. No Brasil,

2 por exemplo, a relação entre recursos hídricos e população varia, como pode-se notar no Gráfico 2. Fonte: CONSUMO SUSTENTÁVEL (2005) Gráfico 2 - Distribuição dos recursos hídricos no Brasil. De acordo com Clarke (2005), nos países ricos em águas, como o Brasil e o Canadá, a escassez não preocupa muito, porém, a percepção é diferente quando se muda o ponto de vista, dependendo o local a situação é preocupante. Mas em boa parte do resto do mundo muitas pessoas já estão enfrentando este problema. Por volta de 2050 estima-se que mais de 4 bilhões de pessoas, ou seja, mais que a metade da população atual, vivenciarão uma carência crônica de água. Além do que, com o crescimento da população, o consumo de água aumenta, dificultando ainda mais a situação. O Gráfico 3 mostra a projeção deste aumento para o ano de 2025.

3 km³ 6000 5000 4000 3000 2000 Aumento do uso 1382 3973 5235 1000 579 0 Fonte: Clarke (2005) 1900 1950 2000 2025 Ano Gráfico 3 - Projeção do total anual do consumo de água A menos que sejam adotadas medidas radicais para alterar a maneira que as águas são manejadas, as perspectivas são desanimadoras. Em torno de 2025, pode haver uma grave falta de água no mundo. A consequência disso será a queda na produção de alimentos, o que levará à desnutrição, às doenças e a um desastre ecológico (CLARKE, 2005). A busca de soluções para minimizar o problema de escassez da água está sendo resolvida por inúmeros cientistas que trabalham no desenvolvimento de equipamentos, sistemas e métodos que potencializem os recursos hídricos disponíveis ou reduzam o atual estágio de degradação das reservas de água doce no planeta (Da SILVA e Domingos, 2007). Dentro deste contexto, este trabalho visa estudar os recursos de aproveitamento de água pluvial e reúso águas servidas em um edifício residencial e seu aspecto econômico expondo a viabilidade do sistema em longo prazo para investidores e compradores. Não basta minimizar o problema de escassez da água fazendo o reúso, deve-se também minimizar as perdas que ocorrem, principalmente, devido a vazamentos no sistema e mau uso (FARIA, 2008). O aproveitamento da água pluvial economiza a demanda de água tratada, energia elétrica e colabora com ciclo hidrológico das cidades, favorecendo, por exemplo, a recarga das águas subterrâneas. Para cada metro cúbico de água que não precisa vir dos reservatórios, é uma tonelada a menos de água a ser bombeada, economizando energia (SICKERMANN, 2002).

4 Segundo Clarke (2005), quase um quarto da população mundial depende das águas subterrâneas e em muitos lugares o ritmo de consumo é maior do que a reposição, assim, ao se usar água pluvial, o consumo diminui e a reposição necessária dos aqüíferos é feita. Ao observar o Gráfico 4, o qual mostra a quantidade mensal de chuva de São Carlos em 2010, nota-se que o sistema de aproveitamento de água pluvial seria mais utilizado a partir da metade de setembro até o final de março. Fonte - http://bancodedados.cptec.inpe.br/ Gráfico 4 - Precipitação mensal de São Carlos em 2010. Pode-se perceber pela Figura 1 que a média de precipitação anual de São Carlos está em torno de 1500 mm podendo se concluir que a disponibilidade pluviométrica para esta localização será propícia à utilização do sistema de aproveitamento de água pluvial, pois Azevedo Neto 1 (1991), citado por Magri et al. (2007) mostra que a disponibilidade de chuva durante o ano se relaciona com o aproveitamento da seguinte forma: Baixa: menor que 1000 mm; Razoável: entre 1000 e 1500 mm; Excelente: acima de 2000 mm. 1 AZEVEDO NETO, J.M. Aproveitamento de águas de chuva para abastecimento. In: BIO Ano III, No. 2, ABES, Rio de Janeiro, p 44-48, 1991.

5 Fonte - http://www.cprm.gov.br Figura 1 - Isoietas anuais de precipitação do estado de SP. A reutilização de água cinza é vantajosa devido à sua disponibilidade constante no decorrer do ano, diferente da água pluvial que é apenas ocasional, e a sua proveniência pode ser de lavatórios, chuveiros, tanques e máquinas de lavar roupa atentando para a qualidade da água e à segurança dos usuários. O aproveitamento e reúso de água, tanto pluvial quanto servida, contribuem com uma porção de água a ser consumida no prédio, em descarga sanitária, lavagem de carros ou rega de jardim, por exemplo, e no caso de águas servidas ocorre após um tratamento da água, feito na própria edificação, ou em alguns casos o tratamento pode ser dispensado. Em média, 40% do total de água consumida em uma residência são destinados aos usos não potáveis, assim, estabelecendo um abastecimento de rede dupla de água, sendo um de água potável e um de reúso pode-se garantir a conservação da água através da redução do consumo de água potável (GONÇALVES, 2006). A partir desta escassez de água no mundo, decorrente também do crescimento populacional, pode-se identificar uma oportunidade de grande importância para a ampliação da conscientização geral sobre o uso de fontes alternativas de água pela implantação de sistemas de aproveitamento de água pluvial e água cinza nas edificações. Reforça essa importância, o fato de que algumas cidades já têm inclusive legislação referente a sistemas de reúso ou aproveitamento de água pluvial (GONÇALVES, 2006) o que no futuro provavelmente existirá no mundo inteiro.

6 Assim, justifica-se o estudo do potencial do uso de água de fontes alternativas que aproveitem ao máximo os recursos disponíveis e reduzam a extração de água na natureza para um nível desejado mostrando uma postura de construção sustentável. 1.1 OBJETIVOS O objetivo principal é identificar, analisar e avaliar as condições necessárias para a implantação do aproveitamento de água pluvial e águas servidas, em um edifício residencial de 16 pavimentos. O objetivo secundário é a caracterização dos equipamentos necessários que permitam a implantação dos sistemas propostos e a verificação do retorno econômico em relação a um sistema predial comum. 1.2 ESTRUTURA DO TEXTO O texto é constituído de nove capítulos principais, sendo eles: Introdução: apresenta as informações acerca da escassez e possibilidades do uso de fontes alternativas de água; Métodos: expõe as etapas definidas para o desenvolvimento do trabalho; Aproveitamento e reúso de água: apresenta os resultados da revisão bibliográfica no que diz respeito ao aproveitamento e reúso da água abordando questões relativas ao uso de água pluvial, reúso de água cinza e a combinação dos dois sistemas; Consumo predial de água: mostra as porcentagens de consumo por atividade, tanto como o volume necessário por atividade e o consumo médio por estado; Estudo de caso: o prédio residencial utilizado é apresentado, bem como os levantamentos de consumo para as análises dos sistemas de aproveitamento e reúso; Dimensionamento dos sistemas: o volume do reservatório de água pluvial de ambas as situações é calculado através do método de Rippl e para água cinza é a demanda que determina o volume; Implantação dos sistemas: é feita a descrição do sistema a ser implantado, itens sobre a utilização e tratamento fazem parte deste tópico;

7 Custos e viabilidade: neste capítulo é calculado o custo total da implantação dos sistemas tanto como o tempo de retorno necessário para viabilizar economicamente o investimento; Conclusões: Apresenta-se as conclusões, análises e discussões sobre a viabilidade técnica e de custos da implantação dos sistemas de aproveitamento de água pluvial e reúso de águas servidas.

8 2. MÉTODO O método adotado no presente Trabalho considerou as seguintes etapas: a) Revisão bibliográfica sobre aproveitamento de água pluvial e reúso de águas servidas: levantamento do conjunto de informações acerca do tema em fontes de consulta física (bibliotecas) e virtual (rede internet); b) Definição das possibilidades de aproveitamento e reúso: a partir do estudo das fontes pesquisadas exploram-se as possibilidades de aproveitamento e reúso da água, considerando as condições aplicáveis e viáveis para cada uma das fontes alternativas de água; c) Definição dos objetos de estudos (hipotético e real): para verificar a viabilidade e implantação dos sistemas de aproveitamento e reúso de água, foi escolhido um prédio residencial em duas situações, sendo um quase finalizado e outro ainda na fase de projeto; d) Levantamento de dados sobre os consumos: para poder avaliar a viabilidade da implantação dos sistemas, foram levantados dados reais sobre o consumo de água em um prédio da mesma construtora localizado na mesma região que o objeto de estudo, para se utilizar os valores no prédio com as duas situações; e) Dimensionamento dos sistemas de aproveitamento e reúso: com os dados reais é feita a extrapolação e os dimensionamentos para os sistemas de aproveitamento e reúso; f) Simulação da implantação dos sistemas: serviu para efeito do cômputo de equipamentos e dispositivos necessários para a implantação, bem como para o levantamento dos custos de implantação; g) Análise dos custos: foi feita para se obter os montantes envolvidos e o período de retorno de cada alternativa estudada. h) Conclusões

9 3. APROVEITAMENTO E REÚSO DE ÁGUA Das diversas possibilidades de uso de fontes alternativas de água, este trabalho trata apenas do uso de águas pluviais e reúso de águas servidas para estudo de viabilidade de implantação no residencial escolhido. 3.1 APROVEITAMENTO DE ÁGUAS PLUVIAIS A utilização da água pluvial nas edificações é uma prática antiga que perdeu força quando a implantação dos sistemas públicos de abastecimento foi iniciada. Todavia, atualmente, a sua utilização voltou a ser realidade fazendo parte da gestão moderna de grandes cidades e de países desenvolvidos. (VACCARI, et al., 2005) Segundo Kalbusch (2006) a utilização do sistema de aproveitamento de água pluvial, além de diminuir o consumo de água potável, auxilia na diminuição da carga de escoamento no sistema de drenagem urbana, pois uma parcela deixa de ser escoada no horário de pico sem sobrecarregar o sistema de drenagem pluvial. O fato de muitas aplicações domésticas, tais como limpezas de exteriores, descargas de vasos sanitários, lavagem de automóveis e rega de jardim, dispensarem água potável ou de particular qualidade favorece a implantação de sistemas simples para o aproveitamento de água pluvial (BERTOLO, 2006). Bertolo (2006) cita ainda outros possíveis usos para a água da chuva sem que haja qualquer risco para os seus utilizadores, com o tratamento devido, sendo eles lavagem de roupa, lavagem de ruas, sistemas de combate a incêndio e sistemas de ar condicionado. A qualidade da água pluvial deve ser observada para fins de reutilização, visto que, vários elementos influenciam na sua qualidade e podem reduzi-la, fatores como a qualidade do ar e as características da área de captação são algum deles, sendo que o último pode justificar o descarte das primeiras águas captadas (CARVALHO, 2009). De acordo com Gonçalves (2006) a qualidade da água pluvial também depende da sua localização geográfica, das condições meteorológicas, da vegetação presente, da estação do ano e da presença de poluição. Outras situações como a presença de indústrias

10 de construção civil ou de veículos podem ocasionar a presença de enxofre e nitrogênio na água, assim como a proximidade ao oceano pode ter como conseqüência a concentração de sódio, potássio, magnésio e cloreto. A economia de água potável em sistemas de aproveitamento de águas pluviais em prédios de apartamentos é menor do que em condomínios residenciais devido à relação entre a área de cobertura e o número de habitantes ser menor em condomínios verticais ou edifícios (SICKERMANN, 2002). 3.2 REÚSO DE ÁGUAS SERVIDAS Utilizar sistemas de reúso de águas servidas impondo alcance de qualidade equivalente ao necessário para consumo humano não é viável em questões técnicas e econômicas. Entretanto, utilizar a água do banho, por exemplo, para descarga de vasos sanitários, lavagem de roupas ou rega de jardim necessita de um sistema mais simples e econômico (DERRIEN, 2007). Gonçalves et al (2010) descreve a água cinza como toda a água servida que não possui contribuição de efluentes de bacias sanitárias. Magri et al. (2008), por outro lado, explica a segregação de águas residuais, fator importante este sobre o qual deve-se atentar. Em uma residência as águas podem ser divididas em: Água cinza: lavatório, chuveiro, tanque e máquina de lavar roupas; Água negra: pia de cozinha e vaso sanitário; Água marrom: vaso fezes; Água amarela: vaso urina. De acordo com Bazzarella (2005), a água cinza, quando estocada sem tratamento por alguns dias, tem características semelhantes à de um esgoto convencional, pois ambos possuem mau cheiro (anaeróbios) e uma grande quantidade de bactérias. Entretanto, as diferenças são muito mais importantes do que suas similaridades. Por isso é de extrema importância tratar a água cinza antes que ela atinja este estado. O reúso da água em edificações é perfeitamente possível, desde que seja projetado para esta finalidade, deve-se sempre evitar que a água reutilizada seja misturada com a água tratada e não permitir o uso da água reutilizada para consumo direto, preparação de alimentos e higiene pessoal. Porém, a qualidade necessária para atender aos usos previstos

11 deve ser rigorosamente avaliada, para a garantia da segurança sanitária, além disso, água cinza e águas negras (esgoto da bacia sanitária) não devem ser misturadas (FIORI, 2006). 3.3 COMBINAÇÃO DOS TIPOS DE FONTES ALTERNATIVAS O aproveitamento da água pluvial e reúso de águas servidas num só sistema é mais eficiente, pois em períodos de estiagem, o sistema é alimentado por águas residuais cinzentas, evitando o armazenamento de grandes volumes de água. Outra vantagem da mistura dessas duas águas é a diminuição da concentração de poluentes existentes na água cinza, pois estes se dissolvem na água pluvial (BERTOLO, 2006). O sistema ideal é aquele que deveria ser capaz de atender a demanda de água utilizando água pluvial e água cinza sem tratamento, porém é necessário expor o risco potencial no uso dessas fontes. Em se tratando de água pluvial o risco é baixo enquanto as águas servidas requerem um nível de tratamento maior (LEGGETT et al., 2001). Se o uso da água for feito de imediato, como por exemplo, lavagem de quintal, dispensa tratamento, porém, toda a água que for armazenada deve ser tratada, pois água pluvial e água cinza contêm componentes orgânicos que podem diminuir a qualidade da água. Devido a esta questão, Dos Santos (2002) ressalta a importância de observar os custos de tratamento para que a água cinza possa ser utilizada com a segurança sanitária requerida, pois quanto maior o nível exigido, maior o custo.

12 4. CONSUMO PREDIAL DE ÁGUA 4.1 CONSUMO DE ÁGUA NA EDIFICAÇÃO O consumo diário por pessoa é variado em cada ponto do mundo. Além da disponibilidade do local, o consumo médio de água está relacionado com o nível de desenvolvimento do país e com o nível de renda das pessoas. São necessários, pelo menos, 40 litros de água por pessoa por dia para beber, tomar banho, escovar os dentes, lavar as mãos, cozinhar etc., o consumo de cada atividade pode ser verificado na Tabela 1. Tabela 1 - Consumo de água por atividade Consumo médio de água por atividade Atividade Quantidade (em litros) 1 descarga no WC com válvula 10 a 16 1 minuto de chuveiro 15 1 tanque com água 150 1 lavagem de mãos 3 a 5 1 lavagem com máquina de lavar 150 1 lavagem com lava-louça 20 a 25 Escovar os dentes com água corrente 11 Lavagem do automóvel com mangueira 100 Fonte: CONSUMO SUSTENTÁVEL (2005) Conforme Clarke (2005), em alguns países em desenvolvimento, 20 litros diários de água por pessoa são considerados um luxo. Alguns habitantes de países desenvolvidos usam mais do que esta quantidade apenas para regar seus jardins. Para maior compreensão dos usos do reúso, pode-se verificar a Figura 2, que mostra um fluxograma da água indicando as atividades que demandam água potável ou que podem utilizar água de reúso.

13 Adaptado de Barreto (2007) Figura 2 - Fluxograma da água indicando fontes alternativas para uso doméstico. A Figura 3 indica a porcentagem média de cada atividade no apartamento em padrões de países industrializados, e ao analisar a figura percebe-se que um pouco mais da metade de toda a água utilizada pode ser substituída por água de reúso, então, em uma situação ideal, teríamos a conta de água no fim do mês reduzida pela metade. Fonte: CLARKE, 2005 Figura 3 - Consumo de água na edificação dividido em uso potável e não potável. Clarke (2005) explica o uso não potável como toda a água a ser reaproveitada na bacia sanitária, limpeza em geral e irrigação, quando houver uma filtragem rigorosa e um

14 processo de desinfecção a água também poderá ser usada na lavanderia. O uso potável inclui os chuveiros, lavatórios e cozinha, ou seja, tudo que houver contato humano. A bacia sanitária e o chuveiro, em alguns locais, possuem um consumo relativamente semelhante, justificando a necessidade de se investirem esforços e recursos em pesquisas sobre práticas de reúso (BAZZARELLA, 2005). 4.2 ÁGUA DISPONÍVEL PARA REÚSO NA EDIFICAÇÃO A Figura 4 reproduz a figura anterior do ponto de vista da água produzida por atividade, logo, em um apartamento teremos 60 % de água que pode ser reutilizada após passar por algum tratamento. Fonte: CLARKE, 2005 Figura 4 - Divisão de águas residuais no edifício.

15 5. ESTUDO DE CASO Para a análise da viabilidade de implantação de um sistema de aproveitamento de água pluvial e de reúso de servidas foram estudadas duas situações: uma para um prédio em fase de acabamento, denominada Situação real ; e outra para o mesmo prédio, porém considerando a fase de projeto, denominada Situação hipotética. A escolha dessas situações deve-se ao fato de que na primeira situação podem-se identificar as barreiras impeditivas de implantação dos sistemas, enquanto que na segunda pode-se interferir no projeto de modo a tornar possível e viável a implantação dos sistemas. 5.1 SITUAÇÃO DO PRÉDIO EM FASE DE ACABAMENTO (SITUAÇÃO REAL) Nesta situação, o prédio não foi planejado para receber um sistema de reúso, logo, foi decidido utilizar apenas aproveitamento de água pluvial nas áreas comuns do residencial, pois seria inviável a instalação de tubulações para reúso dentro das unidades. A água será utilizada em atividades como limpeza em geral e rega de jardim. 5.2 SITUAÇÃO DO PRÉDIO EM FASE DE PROJETO (SITUAÇÃO HIPOTÉTICA) Neste caso, como o edifício encontra-se em fase de projeto, podem ser feitas adaptações para que o prédio seja adequado à reutilização de água. Assim, a água será utilizada tanto na área comum do prédio como nas unidades residenciais. A utilização de água pluvial será feita na máquina de lavar, porém a demanda não é suprida completamente e sempre que houver necessidade, água potável adentrará no sistema. A água cinza será reutilizada na bacia sanitária em todas as unidades e em atividades de limpeza e rega na área comum. 5.3 DESCRIÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO Obra: Residencial Anabelle Local: Situado na Rua Padre Teixeira nº 1400, esquina com Rua Visconde de Inhaúma, São Carlos SP, como pode ser visto na Figura 5.

16 Figura 5 - Localização do objeto de estudo Área do terreno: 1.447,00 m² Área total da construção: 5.019,95 m² Área do pavimento tipo: 273,97 m² População estimada: 155 Área de captação de água pluvial: 980,35 m² O terreno com acesso pela Rua Padre Teixeira nº. 1400, é constituído de um bloco residencial, depósito para materiais de limpeza, sanitário para funcionário, jardins, vagas de garagem coberta e descoberta para veículos de passeio tamanho médio, caixa d água enterrada, muro e grade. O bloco residencial é constituído por 16 (dezesseis) pavimentos, sendo 1 (um) pavimento inferior, 1 (um) pavimento térreo e 14 (quatorze) pavimentos tipo. No pavimento inferior tem-se área de estacionamento coberto, hall dos elevadores, sanitário de funcionários, depósito de material de limpeza e 2 (duas) unidades residenciais; no pavimento térreo situam-se 4 (quatro) unidades residenciais, pátio de estacionamento descoberto, hall de entrada e hall dos elevadores; nos pavimentos tipo situam-se 4 (quatro) unidades residenciais e 1 (um) hall de elevadores por pavimento, totalizando 62 (sessenta e duas) unidades residenciais, 1 (um) elevador social e 1 (um) elevador de serviço, ambos com 16 (dezesseis) paradas para transporte de até 8 (oito) passageiros, caixa d agua superior, ático e barrilete.

17 Figura 6 - Planta do pavimento tipo Cada unidade residencial é constituída por 1 (um) dormitório com banheiro, tipo suíte, 1 (um) dormitório, banheiro social, sala de estar e jantar, sacada na sala de estar, cozinha e área de serviço, como mostra a Figura 6.

18 Figura 7 - Residencial Anabelle A Figura 7 mostra o empreendimento que está sendo construído e que, atualmente, encontra-se em fase de acabamento. Por este motivo, não será possível realizar uma pesquisa de consumo de água com os moradores, o que impossibilitará uma análise prática do caso, e acarretará uma análise somente teórica.

19 6. DIMENSIONAMENTO DOS SISTEMAS Para obter o custo do sistema é necessário dimensionar os reservatórios a serem utilizados para as duas situações estudadas e para tanto foi necessário fazer um levantamento sobre dados de consumo de água em um edifício similar ao estudado, visto que se localiza nas proximidades do objeto de estudo e que a população tenha os mesmo hábitos e costumes em relação ao uso da água. 6.1 DADOS DE CONSUMO DE UM EDIFÍCIO SIMILAR AO ESTUDADO Para a obtenção de dados de consumo mais próximos do real, foi escolhido um edifício residencial nas proximidades do objeto de estudo, o residencial Analli, assim os valores deste edifício serão usados como se fossem do residencial Anabelle. A Tabela 2 mostra os dados de consumo do residencial em um período de um ano, em que a população do edifício era de aproximadamente 91 pessoas. A população é subdividida em 44 pessoas no Bloco 1 e 47 no bloco 2. O bloco 1 tem 14 apartamentos com 1 morador, 12 apartamentos com 2 moradores e 2 apartamentos com 3 moradores; o bloco 2 tem 10 apartamentos com 1 morador, 14 apartamentos com 2 moradores e 3 apartamentos com 3 moradores, porém, não foi possível obter resultados mais exatos do consumo pois ele não é individualizado e só existe um medidor para as duas torres. Tabela 2 - Consumo de água do Residencial Analli. Mês/Ano Dez 2010 Jan 2011 Fev 2011 Mar 2011 Fonte: Central Condomínios Adm. e Serviços Ltda Abr 2011 Mai 2011 Jun 2011 Jul 2011 Ago 2011 Consumo mensal (m³) 299 332 221 300 285 323 320 383 289 341 Consumo médio mensal (m³) 309,30 Consumo /pessoa/mês (m³/pessoa) 3,40 Consumo /pessoa/dia (m³/pessoa) 0,1133 Consumo /pessoa/dia (L/pessoa) 113,33 Set 2011

20 Pode-se concluir que o consumo por pessoa diário do prédio é relativamente alto, sendo que o volume necessário para as atividades básicas é de 40 litros. Mas está abaixo da média consumida no sudeste do Brasil, como mostra a Tabela 3. Tabela 3 - Consumo médio de água nas regiões geográficas do Brasil. Região Consumo médio de água Por habitante (L/hab.dia) Por economia (m³/economia.mês) Norte 111,70 16,10 Nordeste 107,30 12,50 Sudeste 174,00 15,90 Sul 124,60 11,70 Centro-Oeste 133,60 13,40 Brasil 141,00 14,10 Fonte: PMSS (2004) A partir da Tabela 2 e das Figura 3 e Figura 4 obtêm-se a tabela abaixo: Tabela 4 - Porcentagens de uso por atividade do prédio por pessoa Usos Porcentagem L/mês L/Dia Bacia Sanitária 30% 1.020,00 34,00 Lavanderia 20% 680,00 22,67 Limpeza/Rega 5% 170,00 5,67 Chuveiro/ Lav 35% 1.190,00 39,67 Cozinha 10% 340,00 11,33 Total 100% 3.400,00 113,33 Considerando que nas atividades referentes à limpeza/rega, lavanderia e bacia sanitária será utilizada água não-potável, pode-se concluir a partir da Tabela 4 que a quantidade de água aproximada necessária com tratamento simplificado representa 62,34 litros diários por pessoa, ou seja, o consumo de água seria reduzido em 55% do total. 6.2 SITUAÇÃO REAL Esta situação de estudo terá somente uso de água pluvial, pois o edifício já está quase finalizado e seria muito custoso mudar tubulações, devido à quebra de paredes. Logo, o reúso de água cinza não poderá ser feito, pois o esgoto não está separado devidamente. Assim o dimensionamento do reservatório limita-se à água pluvial. O cálculo deste reservatório se baseará em ABNT (2007), que apresenta seis métodos de cálculo, neste trabalho é utilizado o método de Rippl.

21 6.2.1 MÉTODO DE RIPPL Neste método podem ser utilizadas as séries históricas mensais ou diárias. O cálculo do reservatório é feito através das equações abaixo: S (t) = D (t) Q (t) (6.2.1 1) Q (t) = C x precipitação da chuva (t) x área de captação (6.2.1 2) V = Σ S (t), somente para valores S (t) > 0 (6.2.1 3) Sendo que: Σ D (t) < Σ Q (t) Onde: S (t) é o volume de água no reservatório no tempo t; Q (t) é o volume de chuva aproveitável no tempo t; D (t) é a demanda ou consumo no tempo t; V é o volume do reservatório, em metros cúbicos; C é o coeficiente de escoamento superficial (runoff), que é a razão entre a precipitação útil, isto é aquela que dá origem ao escoamento e a precipitação efetiva, ou seja, aquela que cai no telhado. O volume de água de chuva aproveitável depende do coeficiente de escoamento superficial da cobertura bem como da eficiência do sistema de descarte do escoamento inicial, sendo calculado pela seguinte equação: V = P x A x C x η fator de captação (6.2.1 4) Onde: V é o volume anual, mensal ou diário de água de chuva aproveitável, em litros; P é a precipitação média anual, mensal ou diária, em milímetros;

22 A é a área de coleta, em metros quadrados; C é o coeficiente de escoamento superficial da cobertura, adimensional; (Figura 8) η fator de captação é a eficiência do sistema de captação, levando em conta o descarte do escoamento inicial, variando de 0,50 a 0,90. Fonte: Chow et al. (1988) Figura 8 - Valores de C para várias superfícies, declividade e tempos de retorno Como a água utilizada nesta situação será apenas para limpeza/rega da área comum do prédio, utilizou-se a Tabela 5 para o cálculo da demanda.

23 Tabela 5 - Tabela para cálculo da demanda Consumo por volume e frequência Rega de Jardim 2 L/dia/m² 4 Rega/mês Lavagem do hall com balde de 14 L 2 Balde/dia/hall 12 Lavagem/mês Lavagem da área impermeabilizada 4 L/dia/m² 1 Lavagem/mês Adaptado de Gonçalves (2006) Os dados de volume de consumo da rega de jardim e lavagem da área impermeabilizada da tabela acima foram obtidos do livro de Gonçalves (2006). A frequência foi adaptada para dados de uso do Residencial Analli, o mesmo dos dados de consumo, assim como a demanda para a limpeza do hall com balde. Tabela 6 - Cálculo do volume de água pluvial necessário por mês Uso Área ou Quantidade Demanda/Frequência Volume/mês Jardim 318 m² 2 L/m² (4 x/mês) 2.544 L Hall 17 un 28 L/un (12 x/mês) 5.712 L Estacionamento Coberto 685 m² 4 L/m² (1 x/mês) 2.740 L Total 10.996 L O Residencial Anabelle possui 16 andares, porém existe um acesso ao prédio pelo estacionamento inferior com área aproximadamente igual ao hall e escada do pavimento, por esta razão na Tabela 6 foram consideradas 17 unidades a serem limpas. O volume de demanda do mês obtido na Tabela 6 é de 11 m³, e utiliza-se este valor na Tabela 7 para obter o volume do reservatório através do método de Rippl. Os valores de precipitação são a média mensal de dez anos, ou seja, de 1997 até 2006 obtidos em Pereira (2007).

24 Tabela 7 - Cálculo do reservatório da situação real pelo método de Rippl Mês (2010) Precipi tação Demanda para Rega/ Lavagem Área de captação Volume de água pluvial Equação (6.2.1 2) Água pluvial excedente ou faltante Equação (6.2.1 1) Valores Positivos da Equação (6.2.1 1) mm m³ m² m³ m³ m³ Jan 323 11 980,35 253,16-242,16 Fev 221 11 980,35 173,16-162,16 Mar 141 11 980,35 110,89-99,89 Abr 64 11 980,35 50,53-39,53 Mai 67 11 980,35 52,48-41,48 Jun 43 11 980,35 33,45-22,45 Jul 16 11 980,35 12,56-1,56 Ago 20 11 980,35 15,57-4,57 Set 53 11 980,35 41,78-30,78 Out 109 11 980,35 85,27-74,27 Nov 153 11 980,35 119,98-108,98 Dez 220 11 980,35 172,53-161,53 Total 132 1121,36-989,36 Volume Equação (6.2.1 3) 0,00 O volume de água pluvial disponível para aproveitamento foi maior do que a demanda em todos os meses, assim, não há necessidade de armazenamento maior do que o volume a ser utilizado, logo, o tamanho do reservatório é de 11 m³. 6.3 SITUAÇÃO HIPOTÉTICA Para esta situação, primeiramente será calculado o volume do reservatório para reúso de água pluvial, pois como o tratamento desta água é mais barato, compensa utilizá-la ao máximo para reduzir o volume necessário de tratamento de águas cinzas. 6.3.1 RESERVATÓRIO DE ARMAZENAMENTO DE ÁGUA PLUVIAL Para encontrar o melhor dimensionamento do sistema, e não utilizar um reservatório extremamente grande, inviabilizando o sistema, foi feita uma planilha com situações variadas de aproveitamento utilizando o método de Rippl, e as situações são mostradas nas Figura 9 e Figura 10. Para montar o fluxograma, primeiramente foi definido que o reúso para a bacia sanitária seria feito por água cinza, devido a sua porcentagem de uso ser a maior entre todas as outras e à maior disponibilidade de água cinza do que pluvial.

25 A primeira situação, ilustrada na Figura 9, mostra uma tentativa de utilização de água pluvial na máquina de lavar roupa. A intenção é utilizar a água pluvial na lavagem de roupas, pois o tratamento necessário é menor do que para a água cinza, e quanto menor a porcentagem de água potável necessária, melhor. Figura 9 - Primeira situação de aproveitamento e reúso A partir da demanda de água mensal da lavagem de roupa, obtida anteriormente, e os dados pluviométricos médios mensais de 1997 a 2006 de São Carlos, obteve-se o volume necessário do reservatório para suprir a demanda, que pode ser visto na Tabela 8. Mês (2010) Tabela 8 - Primeiro cálculo do volume do reservatório pelo método de Rippl Precipi tação Demanda para MLR Área de captação Situação nº1 Volume de água de chuva Equação (6.2.1 2) Água de chuva excedente ou faltante Equação (6.2.1 1) Valores Positivos da Equação (6.2.1 1) mm m³ m² m³ m³ m³ Jan 323 105,40 980,35 253,16-147,76 Fev 221 105,40 980,35 173,16-67,76 Mar 141 105,40 980,35 110,89-5,49 Abr 64 105,40 980,35 50,53 54,87 54,87 Mai 67 105,40 980,35 52,48 52,92 52,92 Jun 43 105,40 980,35 33,45 71,95 71,95 Jul 16 105,40 980,35 12,56 92,84 92,84 Ago 20 105,40 980,35 15,57 89,83 89,83 Set 53 105,40 980,35 41,78 63,62 63,62 Out 109 105,40 980,35 85,27 20,13 Nov 153 105,40 980,35 119,98-14,58 Dez 220 105,40 980,35 172,53-67,13 Total 1.264.800 1121.36 143,44 Volume Equação (6.2.1 3) 446,17 Contudo, o volume obtido é extremamente grande, tornando inviável para implantação e uso no caso estudado.

26 Na segunda situação exposta, a utilização de toda a água pluvial destina-se apenas a uma parte da demanda da lavanderia, como pode ser visto na Figura 10. Figura 10 - Segunda situação de aproveitamento e reúso Será feito um aporte de água potável caso falte água pluvial para suprir a demanda. Assim, são feitas nas tabelas diversas tentativas para o cálculo do volume, até se obter um resultado satisfatório. Primeiramente, considera-se necessário um aporte de metade do consumo. Tabela 9 - Segundo cálculo do volume do reservatório pelo método de Rippl Mês (2010) Precipi tação Demanda para MLR parcial Área de captação Situação nº2 Volume de água de chuva Equação (6.2.1 2) Água de chuva excedente ou faltante Equação (6.2.1 1) Valores Positivos da Equação (6.2.1 1) mm m³ m² m³ m³ m³ Jan 323 52,70 980,35 253,16-200,46 Fev 221 52,70 980,35 173,16-120,46 Mar 141 52,70 980,35 110,89-58,19 Abr 64 52,70 980,35 50,53 2,17 2,17 Mai 67 52,70 980,35 52,48 0,22 0,22 Jun 43 52,70 980,35 33,45 19,25 19,25 Jul 16 52,70 980,35 12,56 40,14 40,14 Ago 20 52,70 980,35 15,57 37,13 37,13 Set 53 52,70 980,35 41,78 10,92 10,92 Out 109 52,70 980,35 85,27-32,57 Nov 153 52,70 980,35 119,98-67,28 Dez 220 52,70 980,35 172,53-119,83 Total 632,40 1121,36 (488,96) Volume Equação (6.2.1 3) 109,83 O volume obtido na Tabela 9 ainda é muito grande, o interesse é manter o tamanho do reservatório razoável, para não inviabilizar o sistema. O maior tamanho comercial de reservatório de fibra de vidro feito pela empresa Luxtel que se encaixa nas condições do

27 residencial é de 35m³, pois seu diâmetro é de 3 m, compatível com as dimensões existentes no local de armazenamento. Assim, são testados valores na planilha de cálculo até que o volume do reservatório seja aproximado a 35 m³ e é possível saber a porcentagem a ser suprida. É evidente que o fato de todos estes valores serem baseados em dados de consumo de outro residencial e porcentagens variar de um lugar para o outro, os valores obtidos são apenas próximos à realidade, para o estudo da viabilidade do sistema. Tabela 10 - Terceiro cálculo do volume do reservatório pelo método de Rippl Mês (2010) Precipi tação Demanda para MLR parcial Área de captação Situação nº3 Volume de água de chuva Equação (6.2.1 2) Água de chuva excedente ou faltante Equação (6.2.1 1) Valores Positivos da Equação (6.2.1 1) mm m³ m² m³ m³ m³ Jan 323 31,55 980,35 253,16-221,61 Fev 221 31,55 980,35 173,16-141,61 Mar 141 31,55 980,35 110,89-79,34 Abr 64 31,55 980,35 50,53-18,98 Mai 67 31,55 980,35 52,48-20,93 Jun 43 31,55 980,35 33,45-1,90 Jul 16 31,55 980,35 12,56 18,99 18,99 Ago 20 31,55 980,35 15,57 15,98 15,98 Set 53 31,55 980,35 41,78-10,23 Out 109 31,55 980,35 85,27-53,72 Nov 153 31,55 980,35 119,98-88,43 Dez 220 31,55 980,35 172,53-140,98 Total 378,60 1121,36 (742,755) Volume Equação (6.2.1 3) 34,97 Na Tabela 10 foi obtido o valor de 31,55 m³ de uso mensal na atividade de lavagem de roupas, que é menor do que o volume do reservatório, ou seja, 35,00 m³. Na prática, nesta situação, em períodos de chuva excedente, poderá haver um maior aproveitamento do sistema e uma maior porcentagem de atendimento ocorrerá, talvez até em 100%, porém, não é possível analisar esta situação devido à variação pluviométrica no decorrer do mês. Salienta-se que o estudo poderia ser aprimorado, fazendo-se um estudo de simulação variando o volume do reservatório para mais e para menos e verificando qual a eficiência de cada, escolhendo assim a melhor relação, conforme realizado por Pereira (2007). O total necessário por mês para esta atividade é de 105,40 m³, assim sendo, a água de chuva atende 29,93% da demanda total da máquina de lavar roupa, o restante é suprido

28 por água potável. A porcentagem de consumo desta atividade é 20%, logo, a economia no valor total do consumo é de 5,99% Será necessário um reservatório superior, para distribuir a água nas unidades, para que não seja necessário bombeamento constante sempre que houver uso da água. Este reservatório pode ter um volume menor do que o inferior, pois sempre que necessário ele recebe água bombeada do inferior, deste modo, será adotado um reservatório de 8 m³, que é de aproximadamente um quarto do volume total do reservatório. 6.3.2 RESERVATÓRIO DE ARMAZENAMENTO DE ÁGUA CINZA O cálculo do volume do reservatório será feito considerando períodos diários, pois o ciclo de suprimento é constante, logo, não é necessário armazenar grandes volumes de água para garantir que não haja falta. O sistema terá três reservatórios, um recebe a água cinza bruta, outro recebe a água tratada e recalca para o terceiro, que distribui a água para consumo, este último localizado sobre o ático e o restante no pavimento inferior. O volume disponível para armazenamento por dia de água cinza pode ser obtido na Tabela 4, na soma do volume gerado pelas atividades de limpeza, banho, lavatórios e lavanderia. Assim, haverá aproximadamente 68 L/pessoa/dia disponíveis para reúso, como a população estimada para o prédio é de 155 pessoas, a geração diária seria de 10.540 L de água cinza. A demanda de reúso para bacias sanitárias é de aproximadamente 34 L/pessoa/dia, ou seja, 5.270 L diários para 155 pessoas. As atividades de limpeza e rega da área comum também utilizariam esta água de reúso e o volume demandado já foi calculado anteriormente, porém será dividido em períodos de uso diários: Jardim: 636 L/Rega Hall: 476 L/Limpeza Estacionamento: 2.740 L/Limpeza Totalizando em um volume de 3.852 L para as atividades de irrigação e limpeza. Somando com o volume necessário para o uso em bacias sanitárias, tem-se 9.122 L de demanda de água cinza. Como garantia o reservatório inferior seria de 10m³, pois ele recebe toda a água tratada. No caso da água completar seu ciclo de geração e reutilização em um dia, como a geração é praticamente equivalente à demanda, não haverá falta de água para o reúso, pois a perda de volume de água é de apenas 1% após o tratamento.

29 O reservatório superior deve ter um volume equivalente ao uso da bacia sanitária, 5 m³ seria suficiente para suprir a demanda, pois assim que o nível da água atingir um valor determinado, a bomba é ativada e recalca mais água do reservatório inferior. Em questões de custo, o tratamento de águas pluviais é mais barato devido à sua simplicidade e menor quantidade necessária de produtos químicos para o tratamento. Assim sendo, é viável fazer uma combinação do sistema de águas pluviais e água cinza prevalecendo sempre o sistema de aproveitamento de água pluvial, para reduzir o custo. Após todos estes cálculos, chega-se à porcentagem final de reúso em relação ao consumo total, que é de 30% para o uso em bacias sanitárias, 5 % em limpeza e rega, e 5,99% para o uso em máquinas de lavar, resultando em um total de 40,99% de água reutilizável na edificação por mês.

30 7. IMPLANTAÇÃO DOS SISTEMAS 7.1 SITUAÇÃO REAL: EDIFÍCIO EM FASE DE ACABAMENTO O prédio em questão, como descrito anteriormente, não tem preparação para utilização da água dentro das unidades, logo, as instalações do sistema estão limitadas para as áreas comuns do prédio. Do mesmo modo, o reúso de águas cinza está impossibilitado neste caso, pois o esgoto não foi separado como necessário e as águas negras, cinzas e amarelas descem juntas na mesma tubulação. O uso de águas pluviais será de uso comum da população do prédio e redução no preço do condomínio, a captação será feita pela cobertura do prédio, que possui 225,00 m² e pelo pátio de veículos, situado no piso térreo, que tem 755,35 m²; a drenagem será efetuada por tubulações de PVC em pontos específicos nos locais captadores e então conduzidas ao tratamento e reservatório de armazenamento situado sobre a área verde do prédio, como mostra a Figura 11. Figura 11 - Localização do reservatório na situação real

31 A água pluvial carrega todo tipo de impurezas dissolvidas e suspensas, tais como, ácidos, microorganismos, coliformes fecais, vírus, bactérias e outros poluentes atmosféricos, e armazená-la de forma inadequada e sem tratamento a deixa suscetível ao florescimento de algas. Assim, para o armazenamento correto da água pluvial deve ser feito um tratamento prévio da água. Foram obtidos dois tipos de tratamento da água pluvial com duas empresas diferentes. Na primeira empresa, o processo de tratamento constitui-se em quatro etapas, sendo elas, sistema de filtração, desinfecção da água, armazenagem final e bombeamento (Figura 12). Fonte: Hidro Arbor Soluções Ambientais Ltda. Figura 12 - Fluxograma do processo de tratamento de águas pluviais. Etapa de filtração: Será realizada por filtro que irá reter os sólidos e as partículas em suspensão e dissolvidas carregadas com a água da chuva. Etapa de desinfecção: Será realizada por equipamento com cloro na forma de pastilhas, esta etapa é importante porque elimina a presença de bactérias e microorganismos causadores de odor na água armazenada. Armazenagem: Após o tratamento será colocado um reservatório de água de volume calculado anteriormente que armazena a água pluvial para uso posterior. Neste projeto, o uso da água pluvial será feito em: Irrigação da área verde do prédio Lavagem de pisos, calçadas e garagem do prédio Limpeza geral do prédio Estes são os usos mais potenciais, uma vez que nestes casos não é necessário alterar as tubulações do prédio, pois a água pode ser levada até estes locais com uma simples mangueira acoplada diretamente ao reservatório de aproveitamento de água. O sistema irá operar de maneira automática, a caixa de armazenagem será montada com bóia e sempre que estiver cheia o excesso de água pluvial será encaminhado automaticamente com o sistema de drenagem.

32 Na segunda empresa, o sistema de tratamento disponível para águas pluviais encontra-se na Figura 13. Ele tem capacidade de processamento de até 120.000 Litros/Dia (5.000 Litros/Hora). Fonte: Sergam Sistemas para aproveitamento da água Figura 13 - Sistema para tratamento da água pluvial. 7.2 SITUAÇÃO HIPOTÉTICA: EDIFÍCIO EM FASE DE PROJETO O planejamento do residencial objetivará o reúso de águas cinza e o aproveitamento de águas pluviais em áreas comuns do prédio e em cada unidade privativa. Toda a água provinda da área de serviço, chuveiro e lavatórios, será destinada ao esgoto por tubulações separadas das outras águas residuais. Será conduzida para o tratamento e em seguida armazenada no reservatório de água cinza tratadas. A água pluvial também será tratada e armazenada após a captação feita pela cobertura do prédio e pelo estacionamento de veículos descoberto situado no pavimento térreo. As águas disponíveis para reúso serão encaminhadas por bombeamento para o ático, pois o armazenamento será feito no piso inferior, sobre a área de vegetação do prédio (Figura 14), assim a água chega às unidades privativas sem bombeamento. As tubulações serão conduzidas pelo shaft de hidráulica e distribuídas nas unidades por tubulações diferentes das condutoras de água potável.

33 Figura 14 - Localização dos reservatórios na situação hipotética As tubulações com o reúso de água cinza serão destinadas ao abastecimento da caixa acoplada nos apartamentos. As tubulações com aproveitamento de águas pluviais serão conduzidas para o abastecimento parcial da maquina de lavar, e sempre que a água de reúso chegar ao fim, o sistema será abastecido com água potável, para que não falte água. No piso inferior será feito o reaproveitamento da água cinza para as funções de rega do gramado, lavagem de pisos, calçadas, estacionamento coberto e limpeza geral da área comum do prédio. O tratamento da água pluvial será feito conforme descrito no item anterior e o tratamento da água cinza foi consultado nas mesmas empresas. A primeira empresa oferece um sistema de tratamento composto por equalização, filtração em filtro tipo BAG, filtração em leito granular, desinfecção da água, sistema de armazenagem, sistema de bombeamento para reservatório final de distribuição, sistema automático de entrada de água do SAAE para evitar falta de água (Figura 15). Serão necessários três reservatórios para o sistema de reúso de água cinza, um recebe a água