alexandre vidal porto Cloro

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Transcrição:

alexandre vidal porto Cloro

Copyright 2018 by Alexandre Vidal Porto Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009. Capa Milena Galli Foto de capa <completar> Preparação Heloisa Jahn Revisão Renata Lopes Del Nero Márcia Moura Os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e não emitem opinião sobre eles. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) (Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil) Porto, Alexandre Vidal Cloro / Alexandre Vidal Porto. 1 a ed. São Paulo : Companhia das Letras, 2018. isbn 978-85-359-3184-6 1. Ficção brasileira i. Título. 18-20805 cdd-869.3 Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira 869.3 Iolanda Rodrigues Biode Bibliotecária crb-8/10014 [2018] Todos os direitos desta edição reservados à editora schwarcz s.a. Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32 04532-002 São Paulo sp Telefone: (11) 3707-3500 www.companhiadasletras.com.br www.blogdacompanhia.com.br facebook.com/companhiadasletras instagram.com/companhiadasletras twitter.com/cialetras

Para Simone Z., Gisela P. e Roberto D. e, sempre, Michael B.

Seu prazer proibido foi satisfeito. Levantam e se vestem rápido, em silêncio. Saem da casa separados, escondidos; e enquanto descem a rua um pouco desconcertados, sentem que algo neles denuncia o tipo de cama em que se deitaram. Mas que presente para a vida do artista: amanhã, depois ou em anos, ele dará voz aos versos fortes que ali nasceram. K. P. Kaváfis, Seu nascimento, a partir de tradução inglesa de Edmund Keeley e Philip Sherrard.

primeira parte: eu

1. O começo do fim Still I thought it was odd There was no sign of God just to usher me in. Then a voice from above Sugar coated with love, said, Let us begin Paul Simon, The Afterlife Muitos acham que fui um canalha. Talvez você, mesmo depois de ouvir meus argumentos, concorde com eles. Cometi erros e às vezes fui fraco, tenho de admitir. Mas as circunstâncias, em geral, não me ajudaram. A menos que os hinduístas estejam certos e meu espírito reencarne como humano ou animal, a coisa acabou para mim. Morri ontem de manhã. Neste momento em que falo, devo estar no limbo, em alguma espécie de inexistência eterna. Isso é o mais provável. Retive minha consciência, mas não sei exatamente o que acontecerá comigo nesta escuridão em que me encontro. Nada me foi revelado ainda. Tudo parece parado, e o 11

único movimento que sinto é o dos meus próprios pensamentos. Dizem que a primeira impressão é a que fica, mas isso não me parece correto. Para quem vê você morrer, o último momento é o que vale. É como você se despede do mundo. É como você seguirá na memória de quem fica. Não haverá mais modulação possível. Imagine que você tenha escolhido passar a vida vestindo terno azul-marinho, porque é o que mais combina com a sua maneira de ser. Um dia, contudo, alguém lhe dá de presente uma roupa nova. Não é terno, nem azul-marinho, mas mesmo assim você experimenta. É um traje mais informal, mais claro, para vestir ao ar livre, à luz do sol. E você sai com aquela roupa nova, sem entender ainda se gosta ou não do efeito dela em você. E aí, pá: você morre inesperadamente, vestido de algo que não era você. Acaba a vida fantasiado, e pode ser até que tenham dificuldades para reconhecer o seu cadáver. Só me dou conta desse risco agora. Tem gente que passa a vida fugindo de uma coisa sem compreender que não existe fuga possível, que não adianta lutar, que não adianta querer ter controle. Foi o que aconteceu comigo, e, antes que minha memória se apague, preciso entender como gastei minha vida. Quero me distanciar de mim mesmo e me analisar como se eu fosse outro como nunca fiz. Mostrarei minhas fraquezas e avaliarei os meus limites. Terei de ser capaz de fazer minha defesa, no caso de um possível Juízo Final. Meus cinquenta e um anos de vida passaram voando. Acho que todo mundo tem essa impressão quando pensa no que ficou para trás. Agora, morto, isso está claro, mas parece sonho. Devo estar próximo de tomar conhecimento do senti- 12

do da vida, de descobrir se Deus existe, de saber se vou para o céu ou para o inferno, se vou reencarnar ou não, se tudo acaba aqui, para sempre, e não entendo por que estou tão calmo. Katherine Clifton sofreu um acidente de avião com o marido no interior do Egito. O marido morreu na hora. Ela sofreu ferimentos graves, mas sobreviveu. Foi socorrida por seu amante, László Almásy. O local do acidente era remoto, e ele a abrigou em uma caverna no deserto. Saiu em busca de ajuda médica. No povoado mais próximo, tentou explicar a situação, mas não conseguiu. Desesperou-se, perdeu o controle, desacatou autoridades e acabou na prisão. Katherine morreu na caverna, enquanto esperava pela volta de László. As últimas palavras que escreveu no caderno encontrado junto a seu corpo traduziam a constatação difícil de que morreria sozinha: We die, we die, we die, foi o que escreveu. Nós morremos, três vezes, como se ela, de cara com a morte, devesse repetir seu nome a fim de conferir sua identidade. Essa cena é de um filme que vi no cinema, acho que foi no Shopping Iguatemi. Estava com minha filha, Léa. Não sei por que me vem à mente aqui. Deve haver alguma razão. Sempre me perguntei como seria ver a morte de frente, mas isso não aconteceu comigo. Quando estava morrendo, não entendi muito o que se passava. Achei que me sentia mal por causa do calor e do fuso horário, quis entrar numa ducha fria para dar uma acordada, mas quando me levantei senti uma fisgada no pescoço que desceu até a batata da perna. A última coisa de que me lembro é minha cara no chão e a água morna contra o meu rosto, entrando por minhas narinas. Morri, mas não vi a cara da morte. 13