HESÍODO E DANIEL. Dionísio Oliveira Soares
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- Maria Vitória Andrade Antas
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1 ORACULA 5.9 (2009) ISSN: HESÍODO E DANIEL As relações entre o mito das cinco raças e o sonho da estátua de Nabucodonosor Dionísio Oliveira Soares Resumo A análise da correspondência entre Hesíodo e Daniel revelou-se, surpreendentemente, profícua, especialmente no que diz respeito ao mito das cinco raças, em Os Trabalhos e os dias, do primeiro, e ao sonho da estátua compósita, no livro que leva o nome do segundo. A analogia revela que, guardadas as devidas proporções em termos de marco social, língua e cultura de uma forma geral, os pontos de contato se dão a partir das fontes comuns, repercutidas na estrutura e no gênero literário. O objetivo deste ensaio é revelar em que medida Hesíodo teria influenciado o livro de Daniel, tendo em vista ser o poeta grego cerca de seis séculos anterior ao livro do redator judeu em sua forma final. Além da estrutura comum, a aproximação entre os textos é feita pelas características do gênero que os aproxima, o apocalíptico. Palavras-chave: crítica literária; gênero apocalíptico; Hesíodo; Daniel. Abstract The analysis of the correspondence between Hesiod and Daniel turned out to be, surprisingly, proficient, especially with regard to the myth of ages, in the Works and days, belonging to the first, and the dream of compound statue, in the book that has the name of the second. The analogy shows that, retaining the proportions due to each one in terms of Bacharel e Licenciado em Letras Clássicas pela UFRJ, mestre e doutorando em Teologia pela PUC-RJ. Docente da Faculdade Batista do Rio de Janeiro (FABAT-STBSB). Endereço eletrônico: [email protected].
2 setting, language and culture on the whole, the contact points occur from the common sources, having repercussions on the framework and literary gender. The aim of this essay is to verify in which measure Hesiod would have influenced the book of Daniel, having in mind that Greek poet lived at about six centuries before the Jewish editor s book. Besides the common structure, the proximity between the texts is made by the features of the gender that bring them close to each other: the apocalyptic one. Keywords: literary criticism; apocalyptic gender; Hesiod; Daniel. Hesíodo e o mito das cinco raças 1 Hesíodo é o nome de um dos dois grandes poetas da literatura grega arcaica, período chamado também de pré-clássico ou jônico (devido à influência desse dialeto). Esse período abrange desde as origens, com as primeiras criações literárias do mundo ocidental (a Ilíada e a Odisséia, de Homero), em fins do século IX ou início do VIII a.c., até o fim das guerras medo-persas, em 448 a.c. Junto com Homero, Hesíodo constituiu os fundamentos sobre os quais se originou a cultura helênica. 2 A obra de Hesíodo mais antiga é a Teogonia. Nela, o poeta relata uma história tempestiva acerca do surgimento e da luta dos deuses da mitologia pré-homérica. No início existiam o Caos, a Terra e Eros. Da Terra (ou Gaia) nasce Urano, o primeiro rei entre os deuses, o qual se casa com sua mãe. Dentre os doze filhos desse casal está o Titã Cronos, o mais jovem, que se rebela contra seu pai Urano e, depois de castrá-lo, toma o seu lugar no governo do universo. Entretanto, Cronos, por sua vez, foi destronado por seu filho Zeus, e é este deus que funda o panteão helênico clássico. De enfoque bem diferente é a obra Os trabalhos e os dias (os Erga); nela, Hesíodo trata de temas mais terrenos: a questão da necessidade do trabalho e da justiça (filha predileta de Zeus e única esperança dos homens), normas para a agricultura e para a educação dos filhos, além de informações acerca das estações do ano. É dessa obra que advém a maior parte das informações da vida do próprio poeta. 1 Este texto foi apresentado na comunicação científica de mesmo título apresentada por ocasião do VIII Seminário de Estudos de Apocalíptica (Imagens e Sonhos em Transformação: O Messias e o Milênio na História da Recepção) em 29 de novembro de 2007, na Universidade Metodista de São Paulo. 2 Para uma visão geral da literatura grega antiga, cf. STARLING, Maria A. P. de Aguiar. Um panorama da literatura grega antiga. In: Calíope, presença clássica 8 (1984):
3 Em relação ao seu nascimento, acredita-se que a data de seu nascimento não pode ser determinada com exatidão, mas deve ser considerado improvável que ela seja anterior a 750 ou posterior a Paul Mazon, professor da Universidade de Paris, acredita que o nascimento de Hesíodo se deu antes do terço final do VII século a.c.. 4 Já Sinclair, erudito britânico, afirma que ele viveu provavelmente no início do VIII século a.c. 5 Após a morte do pai, Hesíodo teve que repartir com Perses a pequena herança, o que gerou grande controvérsia. Hesíodo apelou aos juízes de Téspis, a cidade vizinha, provavelmente a capital de um estado mais ou menos independente ao qual Ascra pertencia. Mas os juízes favoreceram o seu irmão, pois, segundo Hesíodo, Perses os havia subornado com presentes. Percebe-se na obra de Hesíodo sua revolta com o ocorrido, o que revela uma época em que o homem já não se resignava mais ao destino, época na qual ele percebe a possibilidade de mudar algo na ordem das coisas e contestar um julgamento considerado por ele injusto. É uma época, portanto, de transição. É nesse contexto que surge o mito das cinco raças (v ). Trata-se da história das diversas raças de homens que apareceram e desapareceram sucessivamente, numa ordem aparente de decadência progressiva e regular. Elas são nomeadas por metais e assemelhadas a eles, do mais precioso ao de menor valor, do superior ao inferior: primeiro o ouro, depois a prata, o bronze e, por último, o ferro. Esta última é a raça da época em que vive o poeta e seus contemporâneos. Quebrando essa seqüência metálica, entre a Raça de Bronze e a de Ferro, Hesíodo insere a Raça dos Heróis. Nesse mito, Hesíodo evoca um tema que já havia tratado no poema: o tema da dúplice Éris, ensinado pelo poeta na narrativa das duas Lutas (Érides, v ). 6 Nessa narrativa, o poeta revela que existem dois instintos que agem nos seres humanos, duas Érides, uma Éris boa e outra má: a boa gera a incitação ao trabalho; é, portanto, positiva, 3 WEST, M. L. Hesiod, Works and Days. Oxford: Clarendon Press, 1978, p MAZON, Paul. Hésiode: théogonie, les travaux et les jours, le bouclier. 15ª tirage. Paris: Les Belles Lettres, 1996, p. XIV. 5 SINCLAIR, T. A. A history of classical Greek literature. London: George Routledg & Sons, 1934, p Segundo Anatole Bailly, a palavra éris significa querela à mão armada, luta, combate, discórdia, contestação, rivalidade (cf. BAILLY, Anatole. Dictionnaire grec-français. 48 ed. Paris: Hachette, 1996, p. 805). No texto hesiódico, ela aparece personificada, Éris (Erga, 11, 16, 17 passim), a qual pode ser traduzida por Discórdia : trata-se da Filha da Noite (Nýx) da Teogonia, 225. Entretanto, nos Erga aparece uma novidade: ao lado dessa Éris má, existe a boa Éris, irmã mais velha, que deve ser louvada (Erga, 12), pois é proveitosa ao homem. Assim, a tradução por Luta em português comporta ambas as conotações, negativa e positiva, ambas presentes nos Erga, além de guardar o sentido genérico de disputa. O substantivo em português é próprio, seguindo a personificação do texto grego. 23
4 despertando inclusive o indolente e ocioso ao trabalho (Erga, 20) e aos benefícios que dele advém; já a outra, a Éris má, provoca disputas funestas, sendo negativa e destrutiva (Erga, 14-15). Hesíodo exorta o irmão a perseguir a boa e se afastar da má. Já no mito das cinco raças, na Idade do Ouro os homens não precisam do trabalho para se alimentar: não têm necessidade da boa Éris; já na última Raça, a do Ferro, ele estará entregue à má Éris. A situação na Raça de Ouro evoca o mito do primitivo estado paradisíaco da humanidade. No entanto, nesta última narrativa Hesíodo desloca o dualismo da dúplice Éris para outro par de opostos: Díkê e Hýbris. 7 É justamente a temática da justiça que aparece como objetivo central desse relato, sendo mais elaborado pelo seu contrário (o Excesso, ou seja, a Hýbris) do que pelo seu aspecto positivo (Díkê), o qual aparecerá mais elaborado na fábula seguinte, a fábula do falcão e o rouxinol. É de notório saber que havia uma grande difusão de mitos no Oriente Próximo e na Grécia. Eles poderiam ter chegado a Hesíodo ou em forma de tradições, ou em textos orientais. O fato é que todo o poema (Erga) tem elementos precedentes fora da Grécia, os quais são encontrados nela também posteriormente. 8 Muitos trabalhos de estudiosos do século XX mostram a influência dessa literatura oriental, com tradições semelhantes (às vezes idênticas) às referidas por Hesíodo. Certamente, os aedos ou cantores difundiram poemas teogônicos, genealógicos e didáticos semelhantes aos orientais. É difícil estabelecer em que medida esses poemas utilizaram material de antigas tradições relacionadas com as culturas agrárias do Neolítico e em que medida esse material tenha entrado secundariamente na Grécia em época micênica 9 ou posterior. O certo é que Cime, cidade natal do pai de Hesíodo, situada na Ásia, devia ser facilmente alcançada pela tradição oriental que, com adaptação grega, teria sido trazida pelo 7 A tradição consagrou o significado desta palavra em português como sendo desmedida, violência. De fato, ela pode significar violência libertina, suscitada pelo orgulho da força ou pela paixão ; insolência ; ultraje ; homem arrogante, autoritário, violento ; lascívia, concupiscência, neste último caso em oposição à sôphrosýnê, que é a temperança, a prudência (cf. LIDDELL, H. G.; SCOTT, R. A Greek-English Lexicon. 9 rev. ad. ed. New York: Oxford Clarendon Press, 1996, pp e 1841). Assim, em uma definição mais abrangente, hýbris designa a ultrapassagem de um limite. Entretanto, tal limite varia de acordo com os valores em que se está inserido: em Hesíodo, o limite á a própria díkê ( justiça ), a qual aparece associada ao ideal de justa medida. Desmedida ou Violência, como consagrou a tradição, parecem refletir apenas parcialmente o sentido original da hýbris em Hesíodo. Assim sendo, Excesso traduz melhor a noção em português (optamos pelo substantivo próprio porque o conceito aparece personificado no texto grego, o mesmo ocorrendo com Justiça ). 8 LÓPEZ FÉREZ, J. A. (Ed.). Historia de la literatura griega. Madrid: Cátedra, 1988, p A chamada civilização micênica abrangeu, a partir da cidade de Micenas, todo o Peloponeso, a Ática e a Beócia de cerca de 1900 a 1100 a.c. 24
5 poeta à Beócia. Portanto, a obra de Hesíodo se encontra numa linha de tradição bem mais antiga, na qual se incluem textos babilônicos e sumérios. Sua influência posterior não será pequena, sendo percebida, por exemplo, entre os judeus da época helenística, no livro de Daniel. Daniel e o sonho da estátua de Nabucodonosor O livro de Daniel é considerado uma obra do período helenístico (chamado, na Teologia, de intertestamentário). Foi o último a entrar para as Escrituras Hebraicas, quando estas já estavam bastante estabelecidas, na parte dos Hagiógrafos. É provável que sua entrada se deu por pertencer à tradição do ciclo de Daniel, personagem antigo louvado por sua justiça e sabedoria. Diferentemente das Escrituras Hebraicas, a Septuaginta (tradução grega dessas Escrituras) relacionou o livro entre os profetas, tradição que foi seguida pelas Bíblias cristãs. O fato é que, como um todo, o livro se encaixa no florescimento da literatura apocalíptica judaica (século II a.c.), o que é defendido pela maioria dos estudiosos ( a.c.). O contexto do livro de Daniel (em sua forma final) está situado, portanto, no período macabaico, remontando, num contexto mais amplo, à morte de Alexandre, o Grande (323 a.c.) e à divisão de seu império entre Ptolomeus (Egito) e Selêucidas (Síria e Palestina) 10, contexto das guerras lágidas (entre esses dois grupos), as quais marcaram todo esse período. No segundo capítulo do livro, encontra-se a narrativa do sonho da estátua compósita do Rei Nabucodonosor, interpretado por Daniel, jovem hebreu presente na corte babilônica (Daniel 2, 31-45). O rei sonha com uma estátua cuja cabeça é de ouro, o peito e os braços são de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro e os pés de uma mistura de ferro e argila; segundo Daniel, as várias partes representam cinco reinados mundiais sucessivos, progressivamente inferiores, sendo o primeiro o do Rei Nabucodonosor. Após o quinto reinado, o Deus de Israel estabelecerá um novo reinado, o qual suplantará todos 10 Para uma informação detalhada e muito bem documentada desse período, cf. DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos. São Leopoldo/Petrópolis: Sinodal/Vozes, 1997, pp
6 os outros e será eterno. Na descrição do sonho, a estátua representa o curso da história através da passagem dos reinos, representados por metais. 11 O uso de metais preciosos no simbolismo com semelhantes estátuas era comum no Antigo Oriente. 12 Ela possui os elementos arranjados numa hierarquia de valor, do ouro à argila, em paralelismo com a hierarquia dos membros do corpo, da cabeça (sede da inteligência e dignidade) aos pés. A cena final do drama é o colapso da estátua no verso 34, quando é atingida por uma pedra sem intervenção humana. A interpretação do sonho, de uma forma geral, segue o formato conhecido no Antigo Oriente Próximo: primeiramente, todo o sonho é contado por completo; em seguida, os itens pertinentes são identificados. 13 Paralelos desse molde são atestados em vários outros lugares, inclusive na própria Bíblia, em Gênesis 40 e 41 (no relato do Gênesis, por exemplo, as sete vacas são sete anos ; no caso da estátua, por exemplo, tu és a cabeça de ouro, 38d). Esse formato era comum no Egito e também na Mesopotâmia. As relações entre Hesíodo e Daniel 14 Numa análise mais acurada, são evidentes, explícita ou implicitamente, os pontos de contato entre o mito das cinco raças e o sonho da estátua de Nabucodonosor. A aproximação entre eles se dá, primeiramente, em termos das fontes de que se serviram. Muito anteriores a Hesíodo, elas brotaram na Antiga Mesopotâmia, berço da civilização humana. Os motivos e as características literárias estão presentes nesses paralelos orientais mais antigos. As tradições orientais teriam chegado à Jônia antiga vindas diretamente com as tradições indo-européias ou através do contato com o Oriente Próximo na Era Micênica. 15 O tema da justiça, tratado nas obras de sabedoria orientais, foi retomado por Hesíodo 11 COLLINS, J. J. Daniel: a commentary on the Book of Daniel. Minneapolis: Augsburg Fortress Press, 1993, p DELCOR, Mathias. Le livre de Daniel. Paris: Gabalda, 1971, p COLLINS, J. J. Daniel: a commentary on the Book of Daniel, p O que vem a seguir é um resumo das conclusões de SOARES, Dionísio Oliveira. Hesíodo e Daniel: as relações entre o mito das cinco raças e o sonho da estátua de Nabucodonosor. Rio de Janeiro: Faculdade de Teologia da PUC, 2006 (Dissertação de Mestrado), pp WEST, M. L. Hesiod, Works and days, p
7 para reflexão e exortação a partir de uma situação existencial do próprio poeta, conforme vimos. Para o caso do mito das cinco raças, então, a evidência de que sua fonte original tenha sido o Oriente é maior ainda. Sua concepção de história não pertence à tradição grega; ele adapta um esquema que continha uma concepção mais antiga. A idéia de que a Era de Ouro, na qual situa Zeus, é o ponto de partida para um declínio crescente até chegar à sua época, a da Raça de Ferro, vai de encontro ao mito da sucessão presente em sua Teogonia. Com isso, podemos asseverar que alguns mitos, como o das raças, chegaram a Hesíodo através de outros canais, além da tradição épico-jônica e da Teogonia. Outro dado que corrobora para isso é o fato de os heróis gregos quebrarem a seqüência lógica. Os heróis quebram a seqüência por serem mais justos que a raça anterior (Erga, ), bem como pelo seu destino post mortem (quebra a diminuição progressiva das vidas gloriosas depois da morte). É bastante provável, por isso, que os heróis foram inseridos em um mito original sobre quatro raças metálicas, o que, na concepção de uma filosofia da história, pode ter sido feito até mesmo por um predecessor de Hesíodo. O fato é que Hesíodo adaptou esse mito com o intuito de servir ao seu propósito: a exortação contra a injustiça. Para tanto, acomodou muitos personagens da Teogonia, como uma nova concepção acerca da Éris. Ele recorre ainda às tradições dos ciclos épicos, o de Tebas e o de Tróia, quando insere a Raça dos Heróis no esquema. Martin West acredita que esse e outros mitos se originaram na Mesopotâmia, e de lá se espalharam entre os persas, hindus, gregos, judeus e romanos, não necessariamente nessa ordem. Hesíodo teria sido a fonte única para os outros gregos e romanos, e talvez para os judeus. A definição da rota seguida pelos mitos e pelo esquema da sucessão é impossível de ser traçada com precisão. O certo é que todas as manifestações (inclusive em Daniel 2) têm uma fonte comum: o Oriente Antigo. No caso de Daniel, o antigo esquema de fases sucessivas também está presente, com uma filosofia da história, combinado com o esquema dos quatro reinos seguidos por um quinto que não tem fim (a filosofia da história está presente também no capítulo 7). O redator, a exemplo de Hesíodo, também o adaptou com fins específicos. É provável que um dos seus objetivos 27
8 fosse a propaganda política contra o império dominante, prática comum no período helenístico. O fato é que, por estar em situação de conflito (ou, no caso dos relatos da corte capítulos 1-6, de exílio), seu objetivo mais evidente foi a exortação e encorajamento à fidelidade ao Deus de Israel. Há três hipóteses para explicar a chegada do esquema ao editor macabeu: o contato se deu durante o cativeiro, quando, por intermédio dos babilônicos, os judeus tiveram acesso à cosmogonia antiga e a mitos e motivos orientais de uma forma geral; o contato teria se dado já na época do Império Persa (com o Zoroastrismo), império esse receptor da cultura e das tradições caldéias; ou o contato se deu já na época helenística, quando o esquema da sucessão foi largamente usado entre os romanos. Nesta última época, a profusão da cultura helenista através das conquistas de Alexandre levou o mundo a uma unidade cultural jamais vista. É aqui, com maior possibilidade, que a influência de Hesíodo pode ter se dado. Como asseveramos acima, ele foi a fonte para outros gregos e para os romanos, como, por exemplo, Ovídio nas Metamorfoses. Tendo em vista que o relato do sonho da estátua compósita é o de datação mais tardia dentre os relatos da corte, é bastante plausível que o redator macabeu tenha tido acesso ao esquema das fases sucessivas da história através de Hesíodo e ao esquema dos quatro reinos seguidos de um quinto sem fim através dos romanos. Este último esquema também é muito anterior a Daniel, e não surgiu em solo israelita. No entanto, a exemplo de Hesíodo, o editor de Daniel também buscou em suas tradições motivos para a adaptação dos dois esquemas que utiliza: o reino messiânico (no motivo simbolizado pela pedra ) e a idéia de que todos os reinos estão, em última instância, à mercê do Deus de Israel (muito comum, por exemplo, no Dêutero-Isaías). Assim, tanto Hesíodo quanto Daniel 2 possuem uma filosofia da história, como acontece no Hinduísmo e no Zoroastrismo. Além disso, tanto Hesíodo quanto Daniel deixam transparecer também o primitivo e comum mito do paraíso primevo: em Hesíodo, na Raça de Ouro, onde os homens viviam regalados por Zeus, e em Daniel na época de Nabucodonosor, a cabeça de ouro da estátua compósita, o qual dominou até sobre as aves do céu e os animais do campo, domínio esse que, justamente por sua grandeza e superioridade, fez com que reinasse a paz. 28
9 Em relação a essa tradição comum, porém, Daniel se afasta de Hesíodo: ao passo que o editor-redator macabeu espera o retorno ao estado primevo com a vinda futura e escatológica do reino messiânico, Hesíodo, pelo menos no mito das cinco raças, não possui uma escatologia apocalíptica otimista: ele não revela esperanças de mudança para a humanidade; ao contrário, ele prevê um futuro aterrador para a Raça de Ferro; ele prevê, inclusive, a presença de Zelo e a retirada de Aidós e Némesis dentre os homens, estas duas as últimas divindades que garantiam a vida comunitária da humanidade, asseverando no último verso do mito que contra o mal não haverá defesa (v. 201). Mesmo se afastando neste ponto, tanto Hesíodo quanto o redator de Daniel vivem em situações que desejariam, de certa forma, não viver; ambos almejam, no fundo, uma existência num mundo melhor: o primeiro clama por justiça 16, e o segundo pela concretização de um reino há muito prometido pelo profetismo e não cumprido, reino esse que, certamente, seria mais justo e melhor, pois reflete o reinado messiânico. A situação particular de Hesíodo acaba levando-o a refletir sobre a Díkê e a Hýbris de forma muito mais ampla que seu problema familiar; o mesmo ocorre com o redator de Daniel: seu marco social é muito mais amplo que os judeus em Jerusalém sob a perseguição de Antíoco IV, estendendo-se aos judeus de toda a diáspora oriental. Pela validar a mensagem, tanto Hesíodo quanto o redator macabeu apelam para o aspecto mítico-lendário: o primeiro se diz inspirado pelas Musas da Piéria para transmitir toda a verdade (etétyma) que vem, em última instância, do próprio Zeus, autor da justiça, pois as Musas são porta-vozes deste (Erga, 1-10); o segundo apela para uma figura lendária do passado, reconhecidamente notória pela sua justiça e retidão, podendo ser portadora, então, de revelações secretas vindas de YHWH, bem ao estilo apocalíptico. A partir das fontes comuns, é nesse gênero que se dão as semelhanças literárias entre Hesíodo e Daniel, apesar dos idiomas distintos. Podemos afirmar, inclusive, que ambos os relatos pertencem ao mesmo gênero: o apocalíptico. Podemos definir o gênero do sonho da estátua compósita como sendo um apocalipse histórico (quando é feita uma inspeção da história que conduz a uma crise escatológica, sem referência a viagem a outro mundo), seu meio de revelação é a visão de um sonho simbólico e o 16 A díkê representa todo o ideal de Hesíodo (AUBRETON, Robert. Introdução a Hesíodo. São Paulo: USP, 1956, p. 19). 29
10 conteúdo dessa revelação é a profecia ex-eventu do tipo periodização da história. 17 A apocalíptica quanto mentalidade abarca uma série de formas de expressão (chamadas por alguns autores de subgêneros ), por vezes transformando gêneros tradicionais em formas híbridas. Podemos incluir, entre essas formas de expressão, o mito. Assim, o gênero literário deve levar em conta também a forma do texto (estrutura, elementos formais), além de seu conteúdo. Só assim o nível de abstração na classificação será menor. Em todo caso, ainda assim diferentes níveis podem ser abstraídos de um texto individual. Já o mito das cinco raças pode ser classificado como um mito existencial clássico (existencial por enfatizar a vida terrestre, e clássico por ser racionalizado), 18 mas pode ser classificado também, a exemplo do sonho da estátua compósita, como um apocalipse histórico, tendo como meio de revelação o mito; seu conteúdo é a periodização da história (apesar de não ter a profecia ex-eventu presente na definição de Collins) e, no caso da última raça, as predições escatológicas em forma de presságios e agouros. As raízes da apocalíptica remontam a período muito anterior ao livro de Daniel, em solo judaico; o fenômeno apocalíptico, numa perspectiva da religião comparada, insere a apocalíptica judaica num contexto muito mais amplo, como o da apocalíptica iraniana, entre outros. As influências estrangeiras na apocalíptica judaica (babilônicas, persas), tanto em termos de moldura quanto em termos de idéias e motivos, assinalam que o gênero era já conhecido no Oriente Antigo, sendo ponto pacífico que Hesíodo sofreu tais influências. Mesmo que a origem da apocalíptica tenha se dado na sabedoria 19, esta também era praticada no Oriente bem antes de Hesíodo e dos sábios de Israel. De fato, em relação a este último ponto de contato, não deixa de haver também, tanto em Hesíodo quanto em Daniel 2, o aspecto sapiencial: Hesíodo dirige sua mensagem, no todo do poema, com o intuito de exortar e admoestar ao irmão e aos juízes (mesmo atestando sua descrença expressa na escatologia pessimista em relação à Raça de Ferro); Daniel 2 remonta ao sábio José, do Gênesis, sendo o próprio personagem figura lendária da 17 Seguimos aqui a definição e a classificação proposta por John J. Collins em: COLLINS, J. J. (ed.). Towards the morphology of a genre. In: Apocalyptic: the morphology of a genre. Semeia 14 (1979): 9; Daniel, with an introduction to apocalyptic literature. Michigan: Eerdmans, 1984, pp. 6-19; The apocalyptic imagination. 2 ed. Michigan: Eerdmans, 1998, p Seguimos aqui a definição e a classificação de mito proposta por PIAZZA, Waldomiro. Introdução à fenomenologia religiosa. 2 ed. rev. Petrópolis: Vozes, 1983, pp , o qual se baseia, dentre outros, em Mircea Eliade. 19 Como postula, dentre outros, Gerhard von Rad em sua Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: ASTE/Targumim, 2006, pp
11 sabedoria antiga. De qualquer forma, a apocalíptica possui o elemento sapiencial. Várias características apocalípticas aproximam Daniel 2 do mito de Hesíodo. Ambos possuem o dualismo: Hesíodo contrapõe Díkê e Hýbris, especialmente na última raça, quando elas estarão lado a lado ( bem (e) desgraças estarão misturados, v. 179); já Daniel 2 contrapõe o último reino, o reino sem fim (expressando seu caráter escatológico), aos reinos anteriores, terrestres, que aquele destruirá. Ambos possuem também uma filosofia da história própria, com determinismo apocalíptico imposto a ela. Tanto o mito de Hesíodo quanto Daniel 2 possuem a escatologia apocalíptica, com sua ênfase mais na consumação da história do que no curso dela. No poeta grego isso se dá especialmente na Raça de Ferro, época em que Hesíodo se coloca como contemporâneo. Esse final, como sempre, inclui catástrofes e desmandos, o reinado da pura Hýbris 20 em Hesíodo, e a destruição cataclísmica da estátua (que simboliza os reinos terrestres) em Daniel 2. Ambos se mostram pessimistas em relação à intervenção humana para mudança do curso da história e no estado de coisas presente. A diferença é que, como assinalamos acima, Daniel 2 é otimista em relação ao reino que será implantado escatologicamente; provavelmente isso se deve pela adaptação do outro esquema, o dos quatro reinos sucessivos seguidos por um quinto que não tem fim, o qual foi utilizado por ser propício ao motivo do reino messiânico que os judeus tinham em mente, cuja esperança bem servia aos propósitos do redator macabeu. Em relação ao mito de Hesíodo, sabe-se que o tema do colapso nos laços familiares e nos costumes que aparece na descrição da Raça de Ferro (v ) é característico das profecias orientais acerca do fim dos tempos. 21 Essa última raça é marcada por muitas aflições também no Bahman Yasht persa e no Mahabárata indiano. Hesíodo a descreve como pertencente a uma época de ingratidão, desprezo pelos juramentos e pela justiça, opressão dos maus sobre os bons, com a retirada, por fim, de Aidós e Némesis de entre os homens (Erga, ). A imagem das crianças nascendo já com cabelos brancos (geinómenoi 20 Expressão cunhada por Jean-Pierre Vernant em Mito e pensamento entre os gregos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p A Profecia de Neferti (cerca de 2000 a.c.) relata: Eu revelo a você o filho como um adversário, o irmão como um inimigo, e um homem matando o seu próprio pai (cf. PRITCHARD, J. B. (ed.). ANET. 3 ad. ed. New Jersey: Princeton University Press, 1969, p. 445). Da mesma forma, várias profecias do Antigo e do Novo Testamento, bem como do período intertestamentário, como Is 3,5; Mq 7,2-6; Mc 13,12 e 4Esd 6,24 (neste último, cf. a expressão geinómenoi poliokrótaphoi teléthôsin, nascendo já em sua plenitude, com fontes encanecidas, presente nos Erga, 181). 31
12 poliokrótaphoi, v. 181) aponta para o fato de que a morte já estará bem próxima do nascimento; esta raça é a que tem a duração de vida mais curta. 22 Uma outra diferença apocalíptica entre Hesíodo e Daniel 2 é que a profecia ex-eventu, presente neste, não se dá no caso de Hesíodo. De uma forma geral, o tema da justiça está presente em Daniel 2 (o último reino é o reinado justo de YHWH, prometido pelos profetas) e também em Hesíodo: daí podermos afirmar a intertextualidade temática de Daniel em Hesíodo. Entretanto, deve-se ressaltar que Hesíodo tem seu foco voltado primeiramente para trás, para a história passada, ao passo que em Daniel a Era de Ouro é colocada na época do personagem, o Império Babilônico (profecia ex-eventu, ausente, como já mencionamos, em Hesíodo), constituindo-se esse presente como ponto de partida para o futuro. A série de fases sucessivas em Daniel começa com o exílio dos judeus e conduz ao reino de YHWH; ele não usa o esquema, como Hesíodo, para a história universal, mas a partir de um ponto de partida particular. Além disso, no poeta grego, os períodos são, em última análise, sucessivas condições lendárias da humanidade; em Daniel (2 e 7), o narrador quer destacar períodos históricos de dominação imperialista. Enfim, os pontos de contato são em muito maior quantidade do que as diferenças, o que, certamente, não deve ser fruto do mero acaso. Eles se dão em termos de fontes, estrutura, marco social e gênero literário. Se o contato com o esquema comum se deu no período helenístico, é bastante plausível afirmarmos que o redator de Daniel teve contato com esse esquema a partir da obra de Hesíodo, como ocorreu com os romanos. Assim sendo, Hesíodo teria, de fato, influenciado Daniel 2. Referências bibliográficas AUBRETON, Robert. Introdução a Hesíodo. São Paulo: USP, BAILLY, Anatole. Dictionnaire grec-français. 48 ed. Paris: Hachette, CALÍOPE: presença clássica. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras da UFRJ, 1984 (Semestral). 22 Tal assertiva lembra a profecia de Cristo em Mt 24,22: E se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma vida se salvaria. Mas, por causa dos eleitos, aqueles dias serão abreviados (tradução da Bíblia de Jerusalém, 2002). 32
13 COLLINS, J. J. The Apocalyptic imagination: an introduction to Jewish apocalyptic literature. 2 ed. Michigan: Eerdmans, 1998 (The Biblical Resource Series).. Daniel: a commentary on the Book of Daniel. Minneapolis: Augsburg Fortress Press, 1993 (Hermeneia: a Critical and Historical Commentary on the Bible).. Daniel, with an introduction to apocalyptic literature. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1984 (The Forms of the Old Testament Literature, 20).. (ed.). Apocalypse: the morphology of a genre. Atlanta: Society of Biblical Literature (Semeia, 14). DELCOR, Mathias. Le livre de Daniel. Paris: Gabalda, DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos. Vol. 2. Tradução de Cláudio Molz e Hans Trein. São Leopoldo/Petrópolis: Sinodal/Vozes, HESIOD. Works and days. Edited with prolegomena and commentary by M. L. WEST. Oxford: Clarendon Press, HÉSIODE. Hésiode: théogonie, les travaux et les jours, le bouclier. Teste établi et traduit par Paul MAZON. 15ª tirage. Paris: Les Belles Lettres, LIDDELL, Henry George; SCOTT, Robert. A Greek-English Lexicon. 9 rev. ad. ed. New York: Oxford Clarendon Press, LÓPES FÉREZ, J. A. (ed.). Hesíodo. In: Historia de la literatura griega. Madrid: Cátedra, pp PIAZZA, Waldomiro. Introdução à fenomenologia religiosa. 2 ed. rev. Petrópolis: Vozes, PRITCHARD, James B. (ed.). Ancient Near Eastern texts relating to the Old Testament. Third Edition with Supplement. New Jersey: Princeton University Press, SINCLAIR, T. A. Hesiod. In: A history of classical Greek literature: from Homer to Aristotle. London: George Routledg & Sons, p SOARES, Dionísio Oliveira. Hesíodo e Daniel: as relações entre o mito das cinco raças e o sonho da estátua de Nabucodonosor. Rio de Janeiro: Faculdade de Teologia da PUC, 2006 (Dissertação de Mestrado, 201 f). 33
14 VERNANT, Jean Pierre. Estruturas do mito. In: Mito e pensamento entre os gregos. Tradução de Haiganuch Sarian. Rio de Janeiro: Paz e Terra, pp VON RAD, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. Vol. II. 2 ed. rev. Tradução de Francisco Catão, Carlos A. Dreher e Cláudio Molz. São Paulo: ASTE/Targumim,
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