LUND José Roberto de Amorim
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- Débora Fontes Caetano
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1 LUND José Roberto de Amorim 1
2 José Roberto de Amorim Lund a Quintal dos Poetas Oficina Literária 2
3 Copyright 2011 by José Roberto de Amorim Dados de Catalogação na Publicação (CIP) A524l Amorim, José Roberto de LUND / José Roberto de Amorim Lagoa Santa: Quintal dos Poetas - Oficina Literária, 2011 ISBN Lund, Peter Wilhelm. 2. Biografia. 3. Paleontologia. 4. Cavernas. 5. Minas Gerais 6. Lagoa Santa. I. Título. CDD: 925 Versão digital da edição impressa produzida sob responsabilidade editorial do autor Quintal dos Poetas Oficina Literária Lagoa Santa [email protected] 3
4 José Roberto de Amorim Lund 4
5 Sumário Lund...pag.07 I Um bom lugar para se viver: A prodigiosa lagoa...pag.08 O solitário de Lagoa Santa e os destroços da sua memória...pag.15 Colaboradores, amigos e aproveitadores...pag.17 II Rumo às cavernas de ossos: Formigas vorazes e passarinhos sem papo... pag.22 O interregno europeu... pag. 23 Nasce o paleontólogo...pag.25 Mãos, enxadas e pás... pag.30 Paus, pedras e ossos no caminho...pag.32 Maquiné: obra artística da natureza...pag.35 III A vitória de Deus: Uma natureza profana...pag.38 O inventário incompleto da Arca de Noé...pag.40 A enxada do diabo e a harpa de Deus...pag.41 O ponto final...pag.47 Cronologia básica...pag.52 Referências bibliográficas...pag.56 5
6 É diante desta descoberta que eu encaro os fatos, contra os quais resisto em nome do ser humano (...) Peter Wilhelm Lund (Escrito em 1843, quando o paleontólogo dinamarquês se convenceu amargamente de que não havia linha divisória no tempo, separando as espécies extintas das espécies ainda vivas) 6
7 Lund Quem foi Peter Wilhelm Lund? Nunca saberemos. Aliás, nunca saberemos quem foi quem quer que seja, pois o ser humano, além de complexo é instável, temperamental e refratário. Ainda mais quando tratamos de personalidades e vultos históricos, aos quais chegamos retardatariamente, através de documentos parciais, muitas vezes insinceros, ou através da opinião e paixão de terceiros. Mas, inegavelmente, Lund faz parte de um grupo de pessoas incomuns que levaram vidas singulares e interessantes, fugindo do padrão com que a maioria enfrenta o cotidiano e encerra os seus dias. Era rico mas viveu recluso e de forma modesta bem no meio do fim do mundo. Como o próprio Charles Darwin comentou, ele era um excelente observador. Mas, usando argumentos absolutamente anticientíficos, se recusou a aceitar a contundência que a realidade se lhe expunha com todos os contornos e o peso de fatos incontestes. Surpreendentemente encerrou sua carreira exatamente no momento em que ela estava ficando mais interessante, prometendo-lhe desafios fascinantes se quisesse agitar as quietudes da mente. Qual teria sido o traço mais marcante da personalidade do chamado sábio de Lagoa Santa? Certamente o recato. Principalmente o recato intelectual. Carregava um coração respeitoso, guiado por uma mente excessivamente piedosa. Embora dotado de um cérebro ativo e vibrante e tivesse suas vaidades intelectuais, Peter Wilhelm Lund era espiritualmente acanhado e submisso. Seu isolamento e sua hipocondria podem ser uma manifestação da fragilidade embutida numa timidez visceral. Misantropo e misógino, escondia-se dos outros e de si mesmo. É claro que seu distanciamento dos centros científicos europeus contribuiu para sua opção por um retiro espiritual sem retorno nos cerrados de Lagoa Santa. Mas ele era Lund e Lund tinha uma enorme compulsão para a introspecção e o lado sereno do espírito. Ele teve a donzela mais deslumbrante do baile à sua disposição e não teve coragem de tirá-la para dançar. Apesar dos flertes, quedou-se na cadeira e deixou a festa acabar. Se não tivesse sido assim talvez ele tivesse sido um dos maiores cientistas do seu tempo, pois tinha competência para isso e havia um campo fértil se abrindo à sua frente. Mas se tivesse sido assim, certamente eu não teria me interessado por ele. 7
8 I - Um bom lugar para se viver A prodigiosa lagoa Quando Peter Brandt, velho companheiro e colaborador de Lund morreu em 1862, o sábio escreveu uma carta ao seu mentor Reinhardt na Dinamarca pedindo que enviasse alguém para lhe prestar assistência e servir de companhia, pois, aos sessenta anos e sempre temeroso de seu estado de saúde, não queria ficar inteiramente esquecido e isolado naquele fundo de sertão mineiro. Ali já vivia há mais de um quarto de século sem mostrar qualquer vontade de voltar às luzes europeias, curtindo uma doce beata ruris otia 1 auto justificada pelo medo de que seus pulmões, aquecidos há tanto tempo pelo sol tropical, não se acostumassem mais às frialdades escandinavas. Desde 1853 ele já havia se convencido disso e, de fato, manteve esse convencimento até a morte, cumprindo um longo exílio voluntário, encerrado no serrado, carrasquento e enfezado, mas tépido e acolhedor. A escolha do seu assistente recaiu sobre Eugenius Warming. Não foi difícil para o jovem botânico convencer de que era o candidato com maior talento para preencher a vaga, especialmente porque estava muito interessado em definir assunto para sua tese acadêmica e via em um estágio temporário nos campos das plagas centrais do Brasil, uma alternativa muito interessante para suprir essa necessidade imperiosa. Estava pleno de motivação, tinha talento e empenho e tudo somou a favor. De sorte que em julho de 1863 o jovem e promissor cientista desembarcava em Lagoa Santa onde ficaria durante três anos, trocando ideias botânicas com Lund e fazendo incursões nas cercanias, buscando entender a harmonia árida das folhas instáveis e paus enrugados da vegetação circundante. Ia ser uma temporada extremamente produtiva pois o velho tinha escrito um tratado sobre a formação dos campos e florestas do Brasil antes de começar a se dedicar inteiramente aos fósseis das cavernas e podia ser muito útil orientando o estágio e ajudando a encurtar o caminho do pupilo. Aliás, esse antigo tratado de Lund acabou sendo o único fruto original da sua aventura de mais de um ano pelo sertão em companhia do botânico alemão Ludwig Riedel. A jornada tinha começado em outubro de 1833 no Rio de Janeiro e iria terminar, um tanto melancolicamente, em Ouro Preto em fevereiro de Mas não só de botânica falavam os dois dinamarqueses nos intervalos dos seus respectivos afazeres; quer dizer, o jovem suando no lombo de um burro serviçal e o velho ocupado em responder cartas atrasadas que se empilhavam em sua escrivaninha rotineiramente, 1 Expressão latina usada pelo sábio dinamarquês em uma de suas correspondências para justificar sua predileção pela pacata vidinha lagoassantense e que significa, mais ou menos, bendita preguiça interiorana. 8
9 pois naquele tempo sua vida já se conformara ao ritmo que lhe convinha, ou seja, ia lenta, preguiçosa e descompromissada. Era então que Warming tinha que segurar o sono bendito, reclamado pela vitalidade dos seus vinte e poucos anos, depois de uma jornada estafante. Contudo gostava de ouvir as recordações - as eruditas e as sentimentais de Lund e ele, nessas horas, se mostrava meio falastrão, pois acabava ficando ansioso por uma conversa inteligente depois de ter passado todo o dia recolhido na sua alcova com as janelas cerradas e as guilhotinas das vidraças descidas com medo de que um vento traiçoeiro lhe viesse lamber o peito doentio acordando velhas feridas de infância, adormecidas no recôndito dos pulmões. E foi num desses momentos intimistas, em que cada um recordava coisas da mesma pátria distante, que Lund teria confessado a Warming que da primeira vez que viu Lagoa Santa não pôde conter a admiração diante daquela paisagem única e exclamou suspirando de emoção: - Aqui sim, aqui é um bom lugar para se viver! Warming até achava aquela paisagem meio melancólica, mas admirava a exuberância minimalista da sua diversidade botânica com toda aquela exagerada profusão de flores miúdas, modestas mas mantendo o cerrado numa eterna primavera. Ademais, entendia exatamente o que o velho queria dizer, entrelaçando-se à sua fina sensibilidade. Na verdade, quando o ilustre sábio dinamarquês escolheu viver em Lagoa Santa, o lugar não passava de um povoado estagnado, cochilando nos baixios do Sabarabuçu. A região, contudo, já tinha quase dois séculos de história. Embora o arraial só tivesse começado a consolidar uma concentração de moradores em meados do século XVIII, foi nas suas imediações que a bandeira de Fernão Dias estacionou em Portanto, aquelas plagas faziam parte do núcleo onde a História de Minas começou, tendo o leito do rio das Velhas como uma das principais rotas de penetração rumo às minas e os pastos do São Francisco. O grande bandeirante paulista assentou a sua quinta nas proximidades, mais precisamente do lado da lagoa do Sumidouro que faz divisa com o poente do sítio de Lagoa Santa, a pouco mais de uma légua. Ali ficou quatro anos se preparando para a conquista das esmeraldas, enfrentando penúria e maledicências. Seu rumo derradeiro era a região de Itacambira, seguindo a lendária trilha de Marcos de Azevedo em busca da Lagoa do Vupabuçu, onde se teve notícia, pela primeira vez, da existência de abundantes e preciosas esmeraldas. O Sumidouro, nos dias de hoje, é distrito do município de Pedro Leopoldo. O nome primitivo da lagoa era Anhonhecanhuva, que quer dizer na língua geral dos nativos brasílicos, água que some. Por volta da virada do século XVIII para o século XIX, a região do Sumidouro compunha o distrito de Quinta, daí ser muito comum encontrarmos ainda hoje a denominação Quinta do Sumidouro, usada para designar a região do atual distrito 9
10 lagoassantense de Fidalgo. Segundo o historiador Waldemar de Almeida Barbosa o primeiro arraial fundado por Borba Gato ficava ao norte de Lagoa Santa, talvez nas proximidades do rio das Velhas, às margens do caminho para a Bahia. Era ali que ele morava por ocasião da morte de d. Rodrigo Castel Branco que vem a ser exatamente o Fidalgo que deu nome ao lugar. Conta a lenda que Borba Gato armou uma tocaia para d. Rodrigo, apelando para uma medida verdadeiramente radical para impedir que ele usurpasse de Fernão Dias o título de Governador das Esmeraldas. Com a morte do suposto intruso, Borba teve que fugir. Firmou parceria com os nativos do vale do Rio Doce onde permaneceu, vivendo em certa tranquilidade por cerca de quinze anos. Depois, compelido pelas agitações próprias do seu espírito industrioso, voltou à, digamos, civilização e acabou indultado pelo governador. Com as contas ajustadas assim, o inquieto Borba foi se estabelecer novamente às margens do rio das Velhas, fundando o arraial de Santo Antônio do Bom Retiro da Roça Grande, na margem esquerda do rio, próximo a Sabará. Ele, provavelmente, era proprietário da quinta que tinha pertencido a Fernão Dias. Sim, pois era marido da filha do velho bandeirante Maria Leite que bem poderia ter herdado a propriedade do pai incorporando-a aos bens do casal. Em sendo assim, Borba Gato devia transitar habitualmente entre Sabará e a casa da Quinta do Sumidouro. O mais provável é que ele fizesse o percurso descendo de canoa pelo rio das Velhas e depois voltando a pé para evitar o esforço de ter que remar rio acima. Então devia cortar a Fazenda do Fidalgo, passar por dentro de Lagoa Santa, contornando a lagoa Central pela esquerda em direitura à barra do Sabará Pequeno. Era mais ou menos o trajeto de parte da atual rua Conde Dolabela que, muito provavelmente, teve o seu traçado tortuoso herdado da antiga estrada que ligava o Sumidouro a Sabará. Lund, contudo, não deve ter trilhado habitualmente o caminho de Sabará já que esse não é o caminho das grutas. Elas ficam do lado oposto. Tempos diferentes, ambições diferentes, rumos diferentes: Borba Gato atrás de ouro e Lund atrás de ossos. Diferenças de sábios e de bandeirantes. Os ossos acabaram mas o ouro continua abundante nos recônditos das galerias do subsolo, como acontece ser com a rica Mina de Cuiabá e seus veios correndo nas entranhas profundas da mística serra da Piedade, pertinho da maravilhosa lagoa. De qualquer ponto mais alto de Lagoa Santa se avista a lendária serra do Sabarabuçu, exatamente a dita cuja serra da Piedade. É fácil observar que a serra está quase sempre envolvida por uma nuvem densa e persistente. Daí talvez a origem do nome Sabarabuçu que, para o poeta inconfidente Cláudio Manuel da Costa significava grande coisa felpuda. 2 2 Fundamento histórico do poema Vila Rica. 10
11 Lendas dos primeiros tempos de Lagoa Santa dão conta de muitas curas milagrosas das águas da lagoa e foi isso que induziu o princípio do povoamento da região. Parece que em 1713 Felipe Rodrigues já tinha descoberto o poder curativo da lagoa e estava habitando suas margens, com um engenho erguido próximo ao sangradouro natural por onde o excesso de água da lagoa vazava até o rio das Velhas. Rodrigues fazia parte da turma de Antônio Soares Ferreira e Antônio Rodrigues Arzão 3 que no alvorecer do século XVIII adentraram os campos do Guaicuí e foram semeando arraiais pelo norte de Minas, de Santa Luzia até a Comarca do Serro Frio. Naquele tempo a lagoa chamava lagoa Feia ou lagoa Grande. 4 Mas à medida que as notícias de curas foram se multiplicando o nome primitivo foi sendo santificado. Antes de 1747 não havia propriamente um povoado, mas nessa época a fama curativa da água já havia se espalhado e atraído muita gente interessada em habitar o lugar. Tudo começou quando Felipe Rodrigues contou ao padre Antônio de Miranda, residente em Sabará, que tinha obtido cura para umas ulcerações antigas que lhe afetavam as pernas, simplesmente tomando banho na lagoa. O padre resolveu tentar também e não deu outra: conseguiu cura para uns flatos melancólicos 5 que, volta e meia, o faziam dar vexame. Contou seu sucesso para o dr. Simão Pedro de Castro que, por sua vez, conseguiu se curar de um formigamento nas nádegas. Foi a partir daí que o dr. Ciali médico italiano também residente em Sabará e depois seu colega Giovanni Guido - este residente em Vila Rica - comprovaram as propriedades medicinais da água da lagoa chancelando sua toponímia beatificada para todo o sempre. A fama acabou ganhando o ultramar e em 1749 publicava-se em Lisboa uma notícia sobre as virtudes das águas daquela lagoa do sertão mineiro, o que causou grande repercussão e acabou dando lugar ao primeiro empreendimento exportador da região. É que as águas milagrosas criaram tamanha fama em Portugal que logo se instalou uma indústria destinada a colocar porções da mesma no mercado português, acendendo esperança de cura aos achacados lusos em geral. O negócio prosperou tanto que a Coroa se assustou e proibiu sua continuidade, temerosa de que os vidrinhos milagrosos de água de Lagoa Santa prejudicassem as atividades balneárias baseadas nas propriedades curativas das águas das termas reais de Caldas da Rainha. Com certeza o temor infundido em d. João V tinha fundamento pois a concorrência da lagoa estava escorada em nada menos do que 3 milhões de metros cúbicos de água milagrosa bebível, imersível e friccionável, 3 Este Arzão provavelmente era filho do descobridor do ouro da região da Casa da Casca, o primeiro de que se deu notícia à Coroa Portuguesa. 4 Muitos autores informam que o nome primitivo era Lagoa das Congonhas do Sabará pois a região primitivamente era chamada Congonhas das Minas do Sabará. Isso soa estranho pois Congonhas do Sabará é o antigo nome de Nova Lima, ou seja, a região das congonhas ficava do outro lado da serra do Curral. 5 Augusto de Lima jr. Notícias Históricas. (Vide bibliografia) 11
12 capaz de curar desde úlceras e perebas de pele até espasmos neuróticos no recôndito das entranhas. Em Caldas da Rainha não havia mais de que umas fontezinhas modestas a suprir o palácio termal a que só os nobres e bem nascidos tinham acesso. Daí a intervenção saneadora do rei. Nada demais à luz da política colonialista em geral onde sufocar os empreendedores de ultramar era uma medida sempre justa e salutar. Em abril de 1749 o ouvidor de Sabará cuidava das primeiras providências para que o arraial da santa lagoa pudesse ser assentado com uma certa ordem, investindo o cel. Faustino Pereira da Silva, então seu mais importante morador, de poderes para tal. Foi aí que se assentou o arruamento e se demarcou o lugar da primeira capela em honra a N. S. dos Remédios. O primeiro templo era uma tapera de pau e folhas de coqueiro e foi no meio dessa penúria pioneira que o padre Antônio de Miranda, já livre daqueles flatos traiçoeiros, pôde rezar a primeira missa com toda a dignidade. Mas logo no ano seguinte se deu início à construção de templo mais decente, construção essa que, no seu conceito básico, durou até o final do século XVIII. Em 1837 o brigadeiro Raimundo José da Cunha Matos 6 registrou que os insetos e os pássaros fugiam da lagoa, mas em suas águas podiam ser pescadas piabas, bicudos, traíras, lambaris e perumbebas. Conta ainda Cunha Matos que quatro olhos d água borbotavam do seu centro e que se constituíam nas fontes que conservavam seu volume de água. De fato a lagoa, ao contrário da grande parte das lagoas da região, mantém o nível da água relativamente estável durante todo o ano, mesmo no pico dos períodos mais secos. Estes olhos d água não são visíveis mas, provavelmente, no piso da lagoa devem existir canais de contato com as correntes subterrâneas que abundam na região 7. Álvaro da Silveira, em depoimento publicado em 1906, conta que os moradores acreditavam que havia uma grande nascente próxima a uma das margens cujo jorro era capaz de empurrar uma canoa até o meio da lagoa. Ele, contudo, não conseguiu testemunhar isso pessoalmente. 8 Eugenius Warming afirma, em seu livro sobre a flora dos campos circundantes, que não encontrou nenhuma fonte visível de alimentação da lagoa e atribuiu a origem da água apenas à retenção do escoamento pluvial, o que parece improvável. 6 Corografia Histórica da Província de Minas Gerais (1837). 7 Parece que explorações de mergulhadores, feitas na década de setenta com o objetivo de localizar esses olhos d água, resultaram infrutíferas. 8 Álvaro da Silveira Lagoa Santa. 12
13 O padre Casal 9 conta que quando a lagoa ficava totalmente parada, vale dizer sem ondulações, era possível se perceber uma nata prateada em sua superfície e que quando as pessoas bebiam dessa água ficavam com os lábios brilhantes. Há uma lenda do final do século XIX contando que no auge de seus poderes milagrosos, por volta do meio dia, no meio da lagoa emergia um cruzeiro prateado, como que abençoando a santidade das águas. Arremata a lenda que depois que o povo começou a se banhar na lagoa por pura diversão e sem nenhum respeito o cruzeiro parou de aparecer. Voltando à Lagoa do Sumidouro - onde Lund fez as suas mais importantes e desconcertantes descobertas - é interessante lembrar que Borba Gato também andou fazendo pesquisas por lá. É que ele quis testar as propriedades sorvedouras da lagoa e mandou afundar umas toras de madeira que de fato, em lugar de voltarem à tona, simplesmente sumiram. O mais fantástico é que depois elas teriam sido encontradas boiando no rio das Velhas, a uma meia légua da lagoa. 10 Para o historiador mineiro Diogo de Vasconcelos, o mais provável é que a referência ao desaparecimento das águas da lagoa, que tanto intrigava os índios no tempo dos bandeirantes, fosse fruto das enchentes periódicas do rio que, naquele tempo em que os rios eram fortes e limpos, inundavam a região e se confundiam com a própria lagoa. Ao baixar a enchente, a água voltava ao leito do Guaicuí e... sumia. O velho historiador estava certo em parte. De fato é mais ou menos essa a explicação para o sumiço das águas. Em 1843 Lund já havia registrado a causa do fenômeno numa de suas memórias. É que essa região forma o Carst de Lagoa Santa. Isso quer dizer que a formação geológica do terreno apresenta características especiais, com vários canais subterrâneos que se comunicam entre si e que permitem a passagem de água, interligando depósitos subterrâneos ou de superfície. Assim, é sabido que a lagoa do Sumidouro, depois de atingir um determinado nível no período das chuvas, perde água com certa rapidez por canais existentes nos paredões rochosos que margeiam um dos lados da lagoa. Comprovadamente esses canais existem e seus vestíbulos são exatamente as cavernas que fazem parte do complexo dos vasos comunicantes da formação cárstica do subsolo. Quando Peter Lund chegou a Lagoa Santa em 1835 encontrou um povoado mergulhado num marasmo centenário, bem à margem da rota comercial que ligava Sabará à comarca do Serro do Frio, mas ignorada pelos tropeiros que trilhavam essas direituras. O único marco de evolução no longo período tinha sido a criação da paróquia de Nossa Senhora da Saúde, o que só se deu em 1823, sendo a freguesia desmembrada da jurisdição da matriz de Santo Antônio do Bom Retiro da Roça Grande. Seu primeiro vigário encomendado foi o padre João Batista 9 Corografia Brasílica. 10 O próprio Lund acreditava que a Lapa do Sumidouro tinha ligação com o rio das Velhas, o que sugere que a história do Borba pode não ser apenas uma lenda. 13
14 Correa. 11 A matriz foi instalada na igreja que já existia desde Tinha ela sido erguida sob uma frondosa gameleira na borda da passagem do caminho de Sabará. A gameleira foi derrubada ali por volta de 1900 pois o vigário achou que seus galhos centenários estavam ameaçando o telhado da igreja. 12 A própria matriz seria demolida em meados do século XX para dar lugar a atual matriz de Nossa Senhora da Saúde, erguida no mesmo lugar do primitivo templo oitocentista. A primeira capela de alvenaria, no entanto, foi aquela cuja construção foi iniciada em O local era o mesmo onde mais tarde se ergueria a atual capela do Rosário, tendo como orago N. S. dos Remédios, contando, à frente da santa iniciativa, com o empenho de Felipe Rodrigues de Macedo e Manoel Pereira Barreto e com apoio financeiro de João Batista Furtado Leite. O bispo d. Frei Manuel da Cruz, que tinha acabado de assumir o recém criado bispado de Mariana, considerou o novo templo suficientemente decente e autorizou sua consagração ao serviço do Senhor. Em 1938 Lagoa Santa passaria a categoria de cidade, livrando-se da condição de distrito de Santa Luzia. Compõe assim o grupo dos municípios mineiros do século XX, apesar das suas origens remontarem às raízes do próprio Estado de Minas Gerais, como vimos. Causa surpresa que Lagoa Santa seja hoje uma cidade tão pacata e típica do interior mineiro não obstante sua proximidade de Belo Horizonte. Acontece que até recentemente o arraial e depois a cidade, sempre estiveram mais ou menos fora das rotas de comércio. No princípio do século XX o acesso, desde a capital, era feito através da Estrada de Ferro Central do Brasil, com conexão na estação de Vespasiano onde o viajante tinha que vestir o seu impecável guarda-pó branco, atrelar as esporas na botina lustrada, montar um velho sendero, atravessar o ribeirão da Mata e trotar durante uma hora até alcançar a lagoa e seu entorno urbano esparso. A partir de 1914 já seria possível alcançar Belo Horizonte por uma dita estrada de automóvel. Os automóveis, porém, eram raríssimos e predominavam ainda as bestas e carroças e o guarda-pó ou a capa de vaqueiro ainda eram vestimentas indispensáveis aos valentes viajantes. Embora hoje um ramal da chamada Estrada Real passe dentro de Lagoa Santa, esse não era o roteiro efetivamente usado nos séculos XVIII e XIX para ligar Vila Rica ou Sabará ao Serro e ao distrito diamantífero do Tijuco. Segundo o dr. José Viera Couto, 13 havia dois caminhos ligando essas regiões. Um era o chamado Caminho do Mato e o outro era o Caminho do Campo. O primeiro era o preferido para quem vinha de Vila Rica e Mariana. Seguia pelo lado de Cocais, Caeté e Morro do Pilar, evitando a serra do Cipó. O segundo 11 Cônego Raimundo Trindade Archediocese de Marianna. 12 Álvaro da Silveira op. citi. 13 Memória Sobre as Minas da Capitania de Minas Gerais. 14
15 passava por Santa Luzia e Macaúbas e cruzava a serra margeando o rio Cipó, evitando Conceição do Serro e buscando o rumo de Congonhas do Norte. Quem usava o rio das Velhas para alcançar o vale do São Francisco por via fluvial, preferia usar o porto de Santa Luzia para pernoitar e fazer biscates. Assim, até meados do século XX, a região permaneceu relativamente adormecida preservando seu jeito tranquilo de hoje. É provável que com as facilidades de acesso e a revitalização do Aeroporto de Confins a cidade venha a ter uma grande expansão urbana. Mas a força da cultura legitimamente mineira do povo deve assegurar que Lagoa Santa continue sendo um bom lugar para se viver, tal qual Lund já tinha prenunciado para levar o seu beata ruris otia. O solitário de Lagoa Santa e os destroços da sua memória A decisão do sábio dinamarquês em passar a viver no então arraial da lagoa milagrosa não foi repentina. Embora tivesse chegado na região em 1835, só quatro anos depois do início das suas pesquisas iria adquirir uma casa em Lagoa Santa e assim mesmo porque o preço de 1:000$000 (um conto de reis) lhe pareceu muito compensador. Mas em 1853 o dr. Lund afastou definitivamente a ideia de voltar um dia à Europa, pois se convenceu de que isso poderia agravar perigosamente seu estado de saúde. Durante nove anos, guiado por espertos mateiros, ele se dedicou a explorar a região fazendo incursões frequentes nas grutas, cavando, colecionando fósseis preciosíssimos e escrevendo memórias que muito contribuíram para mudar o conhecimento científico mundial sobre a extinção das espécies e a antiguidade do homem americano. Mas a partir de 1844 Lund resolveu suspender suas pesquisas, segundo ele mesmo por falta de recursos financeiros. Desde então adotou um comportamento excêntrico aos olhos da população do pequeno arraial protegido pela Nossa Senhora da Saúde. Conta-se que ele só recebia visitas com hora e tempo de duração previamente marcados. Não recebia antes da hora combinada e, findo o tempo estipulado para a conversação, simplesmente deixava a visita na sala e se recolhia ao seu gabinete em busca de coisa mais interessante, tipo montar quebras cabeças de ossos fossilizados. Fez valer o rigor da sua agenda inclusive com o conde d Eu que não foi recebido porque não tinha marcado hora. Lund nem levou em consideração o fato de que o conde tinha se abalado desde Ouro Preto somente para cumprimentá-lo. O mesmo aconteceu com Richard Burton que em 1867, descendo de canoa pelo rio das Velhas em busca da foz do rio São Francisco, tentou aproveitar a proximidade para falar com o sábio. Esperou dois dias mas, a despeito do empenho do secretário Behrens casualmente sóbrio -, não conseguiu ser recebido. Burton notou que Lund padecia de um reumatismo que o obrigava a ficar de cama. Atribuiu, contudo, a recusa do sábio em recebê-lo a um certo receio de estrangeiros. 14 Lund 14 Richard Francis Burton Viagem de Canoa de Sabará ao Oceano Atlântico. 15
16 até pode ter tido motivos, pois parece que Burton, atrevido como era, pretendia questioná-lo sobre a influência retardatária das ideias de Cuvier sobre sua obra. 15 Conta-se que Peter Lund não tinha coragem de negar pedidos de empréstimo de dinheiro ao povo de Lagoa Santa. 16 Um dia, porém, cansado de ver que os devedores nunca saldavam suas dívidas, mandou publicar pelo arraial que ninguém precisava quitar seus compromissos com ele mas que, também, a partir daquele dia não mais emprestaria dinheiro a quem quer que fosse. Faleceu em 1880 e antes de morrer deixou instruções precisas sobre o seu funeral, do qual fazia parte uma solenidade com comida, bebida e música alegre. Essa espécie de festa funerária deveria ter lugar em sua casa logo depois que seu corpo descesse à terra. Foi sepultado no cemitério que ele próprio construiu e onde hoje ainda está a sua tumba, ao lado de dois de seus ilustres colaboradores mais queridos. Contam que ele mandou construir o cemitério porque receava que o vigário não permitisse seu sepultamento no cemitério do arraial por ele ser luterano. Fez questão de marcar meticulosamente o local da sua cova para que ela ficasse a maior parte do dia sob a sombra de um pé de pequi que ele mesmo havia plantado. Infelizmente, logo após a morte de Lund, os vestígios da sua longa presença em Lagoa Santa já começaram a ser destroçados. Sabemos que no dia 07 de abril de 1881, ou seja, menos de um ano depois da morte do naturalista, d. Pedro II esteve em Lagoa Santa e visitou a casa e as coleções de Peter Lund. Mas por volta de 1890, quer dizer, nove anos depois da visita do imperador, o dr. Pires de Almeida testemunhou, consternado, que a herança material de Lund já caminhava para total ruína. O cemitério estava abandonado e servia de quintal ao pasto de animas domésticos, a sua casa tinha virado uma taverna, estava em total decadência e o mirante que o sábio tinha mandando construir para contemplar a lagoa nas suas tardes introspectas, ameaçava desabar. 17 O jardim que ele tinha plantado com suas próprias mãos estava tomado pelo mato e só uma majestosa palmeira imperial restava para honrar o zelo jardineiro de Lund. 18 A casa de Lund acabaria nas mãos do cônego Cândido Calazans Correa e ali por volta de Burton pode ter tido razão quando disse que Peter Lund tinha receio de estrangeiros. Isso certamente significa que ele evitava constrangimentos debatendo com pessoas ilustradas que não fossem do seu círculo de colaboradores e admiradores mais íntimos. Nesse caso, com certeza, o insolente capitão Richard Francis Burton seria a última pessoa do mundo que ele gostaria de receber. 16 Lund sempre emprestou dinheiro a grandes e a pequenos, mesmo porque, era de rendas que ele vivia. Volta e meia se aborrecia com os calotes que tomava. Há quem acredite que foi um grande prejuízo, advindo de um desses empréstimos, que levou o sábio a parar com suas pesquisas já que era ele próprio que arcava com a maior parte do custo das mesmas. Mais adiante voltaremos a esse assunto. 17 Consta que ele também tinha mandado erguer uma casinha na margem da lagoa onde gostava de ficar placidamente alimentado os peixes. Há quem diga que essa casa era de Brandt que ali instalou o seu estúdio. 18 Essa palmeira sobreviveu à casa de Lund e ficou durante muitos anos adornando o pátio da escola ali construída, mas acabou também sendo derrubada no final do século XX. 16
17 seria demolida para dar lugar ao grupo escolar que hoje leva o nome do sábio dinamarquês, numa homenagem honesta mas lamentável. No dia 21 de fevereiro de 1897 o barão Homem de Melo publicou uma nota no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro que permite confirmar as observações do dr. Pires de Almeida. Noticiava ele que a casa de Lund, que ficava na rua direita quase em frente a matriz, estava de pé porém tinha sido modificada interna e externamente. Testemunhou ainda que a biblioteca tinha se perdido e que o horto por ele implantado ao lado da casa estava apenas parcialmente preservado. Álvaro da Silveira testemunhou também que a biblioteca de Lund tinha sido vendida em pequenos lotes 19. Comentou, indignado, que havia encontrado páginas ilustradas da obra do mestre Georges Cuvier Le Reigne Animal Distribuié d aprés Son Organisation - que tinha pertencido a Lund, coladas numa parede, adornando o fundo de um singelo presépio. Tinha virado papel velho. Há registros de que, durante os próprios festejos que o sábio tinha encomendado para marcar o seu funeral, o estoque de rojões e foguetes disponíveis acabou e que outros foram manufaturados às pressas usando como buchas as páginas arrancadas dos exemplares da valiosa livraria. Assim, de forma tão selvagem e ignorante, deve ter sido consumida toda a biblioteca de Lund onde até poderiam estar incluídos manuscritos inéditos, quem sabe até com ideias que ele próprio não tinha tido a audácia de revelar ao mundo enquanto vivia pois, como veremos mais adiante, suas descobertas científicas andaram torturando suas convicções teológicas. Parece que o sr. Nereo Cecílio dos Santos o herdeiro legal de Peter Lund - não teve muito apreço pelos valiosíssimos objetos que herdou, dispondo deles rapidamente. Esse descaso lamentável já dura mais de cem anos e caminha para se tornar irreversível pois, ainda hoje, quase não existe patrimônio material histórico em Lagoa Santa, a lastrear a memória de Lund. Colaboradores, amigos e aproveitadores Ao se falar das pessoas que viveram em torno de Lund no Brasil há de se começar com Brandt e acabar com seu filho adotivo Nereo Cecílio dos Santos. No meio encontramos alcoólatras, naturalistas, gente simples das Gerais e trambiqueiros contumazes. Talvez a melhor coisa que tenha acontecido na vida cheia de fracassos do artista norueguês Peter Andréas Brandt, tenha sido conhecer Peter Wilhelm Lund. Notável coincidência que ocorreu a mais de dez mil quilômetros da península onde ambos tinham nascido. Isso aconteceu na fazenda do - também dinamarquês - Peter Claussen, da segunda vez em que o dr. Lund esteve lá, voltando de Ouro Preto. Brandt tinha deixado mulher e três filhos na Noruega e estava no Brasil tentando a sorte, depois de ter fracassado como dono de jornal e comerciante de tecidos na pequena cidade de Kristiania na Noruega. Costumava frequentar o mundo intelectual e 19 Quem sabe com o simples propósito de facilitar o bota-fora daquelas tralhas que ocupavam todo o espaço de um barracão que Lund tinha acrescido à sua casa para acomodar os preciosos volumes. 17
18 boêmio da sua terra e quando veio para a América do Sul aportou primeiro no Chile onde arranjou emprego de ilustrador num jornal de Valparaiso. Mas o jornal faliu e Brandt veio dar no Brasil, depois de uma penosa viagem que incluiu uma travessia da cordilheira dos Andes a pé, com um saco de roupas nas costas. É, a vida não tinha sido fácil para o promissor desenhista, já então beirando os quarenta e quatro anos e já ostentando uma lustrosa calva. Quando conheceu Lund, Brandt ganhava a vida miseravelmente, prestando serviços como uma espécie de secretário de Claussen. Embora fossem radicalmente diferentes em sua visão de mundo, a amizade entre o artista norueguês e o naturalista dinamarquês foi quase instantânea. Um era o típico artista boêmio, mulherengo, alegre e falastrão e o outro um cientista austero, misógino e misantropo. Mas se atraíram um ao outro e combinaram se associar no trabalho de exploração das cavernas, onde Brandt poderia ser muito útil como ilustrador. Saíram da propriedade de Claussen praticamente escondidos. Temiam uma reação irada do truculento fazendeiro àquela inesperada parceria que certamente contrariava os planos que Claussen tinha para um e outro e, não obstante, tinha sido urdida bem debaixo do seu nariz, cheirando a conspiração. Depois de pesquisarem juntos quase vinte grutas localizadas nos atuais municípios de Cordisburgo, Sete Lagoas e Matosinhos, os novos parceiros chegaram a Lagoa Santa. Era a tarde do dia 17 de outubro de Nem imaginavam que ali viveriam até o fim das suas respectivas vidas e que seriam enterrados lado a lado, depois de vinte e sete anos de convivência. Parece que Brandt cuidava de Lund com fraterna abnegação e este correspondia abrindo sua bolsa às necessidades do companheiro que não eram poucas. Parece que até o filho mais velho de Brandt foi beneficiado com uma ajuda do sábio dinamarquês, representada por um empréstimo que provavelmente nunca foi pago e que permitiu que ele se estabelecesse como comerciante e exportador em Nova York. Brandt tinha mandado construir uma palafita no meio da lagoa onde passava as horas vagas pintando e desenhando suas paisagens e gravuras. Certamente o imóvel só pôde ser erguido com recursos brotados da bolsa inesgotável de Lund. Também devia haver muita tolerância de ambas as partes com relação aos hábitos de um e outro: Brandt tolerando as manias e a hipocondria do dr. Lund e este tolerando as escapadas do primeiro à Sabará onde passava revigorantes temporadas em bares e bordéis. Enfim, deviam gostar de suas mútuas dependências, entrelaçadas ainda que muito diversas. Quando Peter Andréas Brandt morreu em 1862, aos 71 anos, Lund fez questão de sepultá-lo no cemitério que vinha preparando para si próprio, gesto que, sem dúvida, representou uma prova eterna de amizade. A obra pictórica de Brandt é praticamente desconhecida no Brasil. Lund enviou vários dos trabalhos de seu companheiro para a Dinamarca junto com os manuscritos de suas memórias, mas eles foram pouco divulgados. Hoje há um movimento de pesquisadores tanto dinamarqueses quanto brasileiros para resgatar essa dívida. Quem viu suas ilustrações nos originais se encantou por elas e saiu convencido de que o velho Brandt tinha luz própria. 18
19 Depois de Brandt há de se voltar a falar de Johannes Eugenius Bulow Warming. Tinha apenas vinte e dois anos quando veio para o Brasil. Aqui se dedicou a estudar o serrado e aceitou respeitoso a ajuda do dr. Lund, embora já devesse achá-lo um tanto ultrapassado, especialmente no campo da zoologia. Gostava muito mais da obra de Lamarck do que da de Cuvier. Mas, com certeza, não deveria polemizar sobre tudo isso com Lund. Ainda mais entendendo o quanto a questão era delicada para o velho. Warming é considerado um naturalista inovador. Entre outras coisas entendia que as plantas deviam ser estudadas em seus habitat naturais e não herborizadas em gavetas cheirando a mofo. Deu o primeiro passo para que a botânica meramente classificatória desse lugar ao estudo da interação das plantas com o ambiente de que fazem parte. Seu livro Comunidade das Plantas (Plantesafund), publicado em 1895, lançou as sementes da moderna fita ecologia. A obra que coligiu suas pesquisas no serrado mineiro foi publicada no Brasil pela primeira vez em 1908 com o título de Lagoa Santa: Contribuição para a Geographia Phytobiológica. A presença das ideias de Lund sobre a formação da vegetação dos campos mineiros é marcante nesta obra. Mas parece que Warming teve dificuldades para publicar seus trabalhos no início da carreira, pelo menos é o que se depreende da correspondência trocada com o próprio Lund em 1877, ou seja, mais de dez anos depois das suas pesquisas em Lagoa Santa. Claro que, num certo aspecto, Lund devia se identificar muito mais com Warming do que se identificava com Brandt. Até porque o jovem naturalista tinha trazido sua sanfona e a música era uma das paixões de Lund. Outra coisa que Warming tinha trazido na sua bagagem era uma câmara fotográfica e, graças a ela, hoje temos alguns registros interessantes da vida de Lund, inclusive o clássico ícone que mostra o sábio dinamarquês, aos sessenta e dois anos, com seu respeitável perfil, seus óculos de sábio, seu chapéu de palha já acaipirado e sua barba branca, rala e respeitosa. Wilhelm Behrens está entre as companhias desafortunadas do dr. Lund. Tinham se conhecido em Sabará e se tornado amigos, provavelmente porque tinham algo em comum: ambos eram credores de um empreendimento falido. Fora isso talvez não tivessem nada que os pudesse unir. Pode até ser que Behrens fizesse Lund se lembrar um pouco de Brandt. É que ambos eram um tanto boêmios, chegados numa boa pinga, daquelas que até hoje ainda se pode encontrar em Lagoa Santa. Era alemão e vivia em Sabará onde conheceu Lund numa das idas do sábio àquela vila para cuidar de negócios. Segundo Henrique Gorceix, Behrens entrou para o serviço do sábio dinamarquês em Portanto, logo que Warming voltou para casa. Mas, ao contrário de Brandt, ele ficou com Lund por pouco tempo. A visita de Richard Burton a Lagoa Santa ocorreu no final de 1867 e, como vimos, ele não conseguiu ser recebido pelo sábio. Mas contou ter sido tratado por Behrens com atenção, inclusive tendo tido o privilégio de conhecer a casa de Lund na margem da lagoa. Burton acabou, assim, sendo uma fonte de referência positiva ao terceiro secretário do dr. Lund, ainda que fugaz. Outra fonte vem do próprio dr. Lund que, numa carta a Reinhardt, informava que o 19
20 tinha despedido mas que ele era um bom homem. Mas, a respeito do caráter de Behrens há uma curiosidade incompreensível envolvendo o filho adotivo de Lund, Nereo Cecílio dos Santos. No esboço biográfico que Nereo publicou a respeito de Lund, ao mencionar os secretários de seu benfeitor, ele omite desdenhosamente o nome de Behrens informando que: Depois da retirada de Warming foi o lugar deste preenchido por um alemão residente em Sabará e relacionado com Lund havia longos anos. O mais surpreendente de tudo é que Nereo dedicou o livro a Reinhardt e... ao próprio Behrens! O secretário alemão foi despedido pelo austero patrão e amigo por causa do excesso de palavrões que o excesso de álcool provocava em seu humor. Mas o sábio gostava dele e quando admitiu o pobre Behrens como secretário já eram amigos há mais de vinte anos. Parece que quando Behrens foi despedido passou a viver numa pensão em Lagoa Santa, provavelmente às expensas de Lund. Quando ele morreu, assim como tinha feito com Brandt, Lund cuidou para que o indigitado amigo também fosse sepultado em seu cemitério particular. E lá ficaram os dois diletos beberrões à espera do amigo e benfeitor, o que tiveram que fazer até 1780 pois, embora estivesse sempre se queixando da saúde, o dr. Lund era muito mais saudável do que imaginava e por pouco não chegou aos oitenta anos de idade. 20 Lund legou a maioria dos seus bens a seu filho adotivo Nereo. Parece que ele não era dos mais escrupulosos e não fazia jus à confiança que o pai voluntário depositava nele. Senão vejamos: o sábio legou sua cruz da Ordem de Donnebrog ao seu sobrinho - o historiador Troels-Lund - encarregando o filho adotivo de enviá-la ao mesmo, após a sua morte. Nereo cumpriu a determinação apenas em parte pois enviou a preciosa cruz faltando um pingente de rubi, sua pedra mais preciosa. O motivo alegado para a falta da joia foi de que ela tinha sido enterrada adornando o peito do cadáver de Lund. 21 Sabe-se também que o filho adotivo, que o sábio tinha educado com todo o carinho, andou violando a correspondência de Lund após a sua morte. A única coisa que foi salva do espólio material de Lund foi sua correspondência que Nereo se encarregou de enviar à Dinamarca, provavelmente intimado por J. T. Reinhardt, o curador da coleção do sábio solitário de Lagoa Santa. Segundo o filho adotivo, as últimas palavras de Lund foram: amor, amor, amor. Como eu não confio no Nereo, tenho dúvidas da veracidade desse final novelesco. 20 Consta que no cemitério de Lund estaria sepultado também um tal de Johann Rudolph Muller. Na lápide alusiva, ainda hoje existente, ele está identificado como sendo um suíço amigo íntimo de Lund. Confesso que não descobri quem vem a ser essa pessoa. Nas minhas pesquisas encontrei vários homônimos de origem suíça, a maioria pregadores. Mas o que morreu mais perto de nós faleceu no Paraguay em O corpo de Lund foi exumado em Anibal Matos fez uma descrição minuciosa da mesma e não menciona que um rubi tenha sido encontrado junto ao corpo. 20
21 É interessante notar que Nereo participou a Reinhardt que Lund tinha falecido no dia 25 de maio e é esta a fonte da data oficial que prevalece hoje. No entanto, quando da exumação do corpo do sábio em 1930, na tampa da urna estava marcado que ele tinha falecido em 05 de maio. Essa é a data de falecimento encontrada na maioria dos relatos sobre a vida de Lund produzidos no final do século XIX, ou seja, antes da publicação da obra de Nereo 22. É também a data registrada por Xavier da Veiga nas suas Efemérides Mineiras. Será que quem gravou a data na urna não sabia que dia era aquele, ou será que Nereo alterou a data por algum motivo? 23 Quanto ao próprio Nereo, não se sabe o dia em que morreu nem o ano em que nasceu. Sabe-se apenas que ele era um mulato esperto com pendões musicais e que foi adotado pelo sábio dinamarquês quando tinha doze anos de idade. Teria morrido no ano de Teve doze filhos. Parece que ele dilapidou rapidamente a fortuna que herdou e que a família de Lund continuou a ajudá-lo. Mesmo depois da sua morte, sua esposa - Maria Cesarina Marques dos Santos - continuou recebendo ajuda, inclusive para manutenção do túmulo do sábio que a família fez questão de manter através de gerações, até por volta de 1930, quando Anibal Matos e seus companheiros redescobriram o velho Lund e passaram a cuidar melhor da sua memória. Houve muita gente mais que privou da amizade do dr. Lund, algumas despretensiosas outras absolutamente oportunistas. Tratamos delas em partes diversas deste trabalho. 22 A Escola de Minas de Ouro Preto, incentivada por d. Pedro II, foi a instituição que mais reverenciou Lund depois da sua morte. Inaugurou um retrato do naturalista, traduziu alguns de seus trabalhos, produziu algumas memórias sobre ele e até cogitou de montar um gabinete em Lagoa Santa para dar sequência às pesquisas de Lund. Ressalte-se que todos os documentos produzidos pela prestigiada instituição registram 05 de maio como data da morte do sábio de Lagoa Santa. 23 Nereo demorou a escrever a Reinhardt participando a morte de Lund e não afasto a hipótese de que ele tenha alterado a data, tentando ocultar esse desdenhoso retardo. 21
22 II - Rumo às cavernas de ossos Formigas vorazes e passarinhos sem papo A carreira de Lund teve três fases. Na primeira, depois de desdenhar dos tecnicismos da medicina, ele se sentiu fielmente enamorado da zoologia e não escondia a atração que sentia pelos mistérios dos insetos, moluscos e passarinhos. A segunda, mais profícua e genial é a das cavernas de ossos, como ele mesmo dizia. A terceira é aquela em que ele praticamente se divorciou da ciência e ficou contemplando à distância os enigmas da natureza sem disposição para deslindá-los. Ele havia se preparado dedicadamente para a primeira fase e só ficou sabendo da segunda quando chegou à vila de Curvelo, em outubro de Mas também estava preparado para ela pois tinha uma sólida formação geológica, zoológica e botânica, além de uma privilegiada capacidade dedutiva e uma autêntica honestidade científica. Toda a história tinha começado verdadeiramente em 1825 quando, aos vinte e quatro anos, desembarcou no Rio de Janeiro pela primeira vez. Naquele ano publicaria a tese com que tinha se graduado em medicina, mas não era essa sua verdadeira área de interesse. Antes mesmo de se graduar ele já tinha decidido se dedicar à zoologia e à botânica. Naquele tempo nenhum naturalista que se prezasse podia dispensar o charme de uma viagem exótica de estudos num país distante. Além disso sua família achava que ele deveria passar uns tempos mais perto do sol revitalizando os pulmões, doentes por conta de uma tuberculose, maldito e perigoso mal que já havia ceifado a vida de dois dos seus irmãos e fazia com que todos o cercassem de merecido desvelo, temendo o perigo persistente das brisas geladas do polo norte, ali tão perto. Tinha todos os motivos, portanto, para empreender uma viagem terapêutica e de estudos ao sul da linha do Equador. Seguindo o exemplo de Saint-Hilaire, Spix e Martius, Langsdorff e muitos outros, escolheu o Brasil. Faria bem à sua saúde e ainda lhe proporcionaria extraordinário material para estudos. Além do mais, contava com o apoio do Museu de História Natural e da Academia de Ciências de Copenhagen. A academia até estava disposta a lhe dar algum suporte financeiro e técnico, condição indispensável para que sua viagem tivesse um respaldo institucional e não fosse vista apenas como uma aventura de filho de família abastada num país distante. E ei-lo desembarcando no Cais dos Mineiros no dia 08 de dezembro de 1825, cheio de entusiasmo com o seu projeto e maravilhado pela paisagem, depois de mais de setenta dias de viagem, riscando o Atlântico de norte a sul numa longa linha inclinada a oeste, pois era ali que estava o Rio de Janeiro, portal principal de entrada do Brasil, imenso e variado. A cidade estava em festa pelo nascimento de Pedro, filho de outro Pedro e da arquiduquesa da Áustria, futuro segundo imperador do Brasil. De sorte que tudo concorreu para que sua primeira impressão fosse muito positiva, pelo menos no quesito alegria. Mas, como o objetivo da viagem era outro, ele preferiu se instalar em Niterói, longe da agitação da capital e de seu porto assaz movimentado, ponto obrigatório de ligação das rotas do Atlântico Sul. Ali, do outro lado da 22
23 baía, passava os dias na meticulosa labuta dos estudiosos da natureza. Ao alvorecer e antes de dormir se ocupava de estudar e escrever suas observações sobre plantas, peixes e insetos e entre essas atividades partia para explorar os arredores, embrenhando-se na mata tropical do beiramar. Nessa sua primeira viagem ao Brasil Lund andou mudando de residência várias vezes, sempre curioso de conhecer as intimidades zoo botânicas do país. Mas nunca se aventurou a ir muito longe, preferindo as cercanias do Rio de Janeiro, incluindo os Campos dos Goitacazes e as alturas da serra do Mar. Nada comparável às extraordinárias jornadas de Spix, Martius e Saint- Hilaire, mas em janeiro de 1828 Lund achou que já tinha reunido muito material interessante e resolveu voltar para casa e dar sequência a sua jornada acadêmica e sua inserção na elite científica europeia, de preferência morando em Paris. O resultado final da auspiciosa viagem, além das coleções de espécies depositadas no Museu de Copenhagen, foram três ensaios típicos da sua primeira fase científica: um sobre os passarinhos sem papo, outro sobre as vorazes saúvas brasileiras e outro sobre o revestimento dos ovos de moluscos da Baía da Guanabara. Essas minudências podem parecer ingênuas hoje em dia, mas eram relevantes na época pois a zoologia de então era um vasto campo de coisas por descobrir, grandes e pequenas. Vai daí que seus trabalhos despertaram algum interesse nos meios científicos do velho mundo, garantindo-lhe a abertura de preciosas portas que davam acesso a gabinetes e salões galantes cheios de nobres e sábios arrogantes, especialmente na maravilhosa Paris do século XIX. O interregno europeu Depois que voltou para a Europa, Lund ficou três anos e meio sem saber o que fazer. Mas não ficou parado, pelo contrário: viajou, visitou museus, coletou objetos para pesquisas, dissecou bichos, escreveu notas científicas e conheceu muita gente boa interessada nas coisas da natureza como ele. Mas antes de tudo isso, deu-se umas curtas e merecidas férias, passando o verão de 1829 com a família, encantando a todos com histórias sobre o Brasil. Até o filósofo Kierkegaard, então com dezesseis anos, irmão das duas cunhadas de Lund, se lembraria daquelas histórias com saudades. Em seguida foi até a Universidade de Kiel buscar seu título de doutor. Parece que ele não teve muita dificuldade em obter o título pois nem chegou a produzir uma tese específica para esse fim, recorrendo a trabalhos já prontos. Certamente porque já era um cientista de prestígio, embora sua carreira estivesse apenas começando. Inicialmente ele havia tentado obter o doutorado oferecendo à banca examinadora uma obra que tinha sido premiada num concurso da faculdade de medicina de Copenhagen, quatro anos antes. Mas a instituição recusou o expediente achando que o trabalho tinha um enfoque muito voltado para a medicina, impróprio para uma tese de natureza filosófica. Aí Lund resolveu arriscar com aquele trabalho que tinha produzido no Brasil sobre os passarinhos sem papo. Retocou aqui e ali, imprimiu um caráter mais filosófico ao tratado sobre aquela anomalia genética das aves e, desta vez, obteve sucesso. 23
24 No dia 04 de novembro de 1829 Lund recebia solenemente seu título de doutor em filosofia natural. Com o canudo assegurado, partiu para um giro pelas cidades cultas e divertidas do continente europeu. Visitou Berlim, Dresden, Praga e Viena. Em Berlim teve a oportunidade de confirmar que os Urubus têm o papo furado. Explico-me melhor: é que, quando esteve no Brasil, ele examinou casualmente um indivíduo daquela classe de aves pretas de maus hábitos alimentares mas magníficas em seus voos altaneiros e verificou que havia uma abertura numa das dobras do papo do bicho. Anotou aquela anomalia em seu caderninho mas não chegou a verificar o caso mais a fundo. Eis senão quando, em plena Berlim, ele encontra no museu de zoologia um exemplar de urubu conservado em álcool. Pediu para examinar o papo do exemplar e não deu outra: também aquele tinha o papo furado. Concluiu ele que aquela estranha particularidade era uma característica da espécie, apressando-se em revelar a novidade ao mundo científico, naquele tempo ávido por esse tipo de notícia. No seu tour europeu Lund foi revezando atividades de caráter científico com alguns merecidos divertimentos no seio empoado da média nobreza do velho mundo, onde o jovem dr. Lund fazia o maior sucesso pela inteligência e fineza do trato. No meio disso veio a notícia da morte da mãe, tirando a graça de tudo. Mas ele não se abalou, seguiu o roteiro traçado e em setembro de 1832 entrava em Paris cheio de cartas de recomendação no bolso, esperançoso de ser recebido no meio da gente de espírito que brilhava nos salões intelectuais da cidade luz. Sua primeira intenção, na capital francesa, foi se encontrar com Auguste de Saint-Hilaire. O grande naturalista tinha passado seis anos viajando pelo Brasil e nessa ocasião já tinha publicado a maioria dos inúmeros livros que escreveu sobre a viagem. Mas infelizmente Saint- Hilaire não estava em Paris, pois andava meio doente repousando na província. Assim o encontro entre os dois não se realizou. Foi uma pena, pois a experiência e os conhecimentos que o sábio francês tinha sobre o nosso país poderiam ter ajudado muito a Lund que, naquela altura, já estava pensando firmemente em voltar ao Brasil e deve ter sido por isso mesmo que Saint- Hilaire tenha sido a primeira pessoa que ele procurou. 24 Na verdade, o naturalista francês jamais recuperaria sua saúde, abalada em consequência das agruras das suas penosas viagens pelos nossos sertões, tomando chuva, comendo feijão com toucinho e dormindo em ranchos, disputando espaço com pulgas e carrapatos ferozes. É provável que o abalo na saúde da Saint- Hilaire até viesse a pesar mais tarde na decisão de Lund de nunca mais voltar à Europa, acreditando que, quem se acostumava ao sol do Brasil, jamais teria condição de enfrentar o clima da Europa novamente. A prioridade seguinte de Lund era conhecer o ilustre barão George Cuvier o pai da paleontologia - e ser admitido no seu notável círculo de sábios, entre os quais se alinhava 24 Mas o sábio francês ficou sabendo da intenção de Lund de viajar novamente ao Brasil e até elogiou essa disposição dizendo que o jovem sábio dinamarquês havia estudado durante vários anos os costumes dos insetos do país e agora estava planejando voltar para aprofundar esses estudos. (Mencionado no livro Viagem pelo Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil, publicado originalmente em Paris em 1833). 24
25 Alexander von Humboldt, que nunca deixava de frequentar o seleto círculo sempre que estava em Paris, brilhando ao lado de Cuvier como se fossem duas estrelas flamejantes. Também frequentou aulas do Colégio de França e estava convencido de que Paris era realmente o centro cultural do planeta e que era ali que um cientista deveria viver e publicar os seus trabalhos. Mas quanto mais ele se deslumbrava com toda aquela grandeza mais se convencia de que sua obra estava inacabada e mais cultivava a ideia de voltar ao Brasil e retomar o estudo de tantas espécies curiosas que abundavam no país das formigas vorazes e dos passarinhos sem papo. No verão de 1831 decidiu voltar à Dinamarca e, pouco mais de um ano depois, embarcava novamente para o Brasil. Mal sabia ele que o resultado mais marcante dessa segunda viagem seria a inexorável conclusão de que as teorias catastrofistas do admirável barão Georges Cuvier estavam grandemente equivocadas. 25 Ele, contudo, evitaria assumir isso com toda a contundência que os achados nas cavernas de ossos lhe mostravam. Nasce o paleontólogo Em 19 de janeiro de 1833 Lund desembarcava no Brasil pela segunda e eterna vez. Assim que chegou conheceu Ludwig Riedel, um botânico alemão já experiente no país pois tinha sido da equipe de Langsdorff. Riedel estava se preparando para fazer uma incursão científica pelo interior e isso vinha de exato encontro aos interesses de Lund que, desta vez, tinha projeto mais contundente e não pretendia ficar apenas bordejando em volta da capital do império bragantino da América. O plano acertado focava um estudo botânico pelas províncias de São Paulo, Goiás e Minas e deveria durar cerca de um ano. No caminho também poderiam aproveitar para coletar e estudar insetos e passarinhos, agregando mais conhecimento aos seus primeiros trabalhos no Brasil. Era o final do inverno e a seca já começava a provocar incêndios espontâneos no cerrado, condição que chamou a atenção do jovem cientista dinamarquês e o levou a produzir um dos poucos trabalhos que escreveria em toda a vida tratando de botânica. A viagem começou no dia 12 de outubro de Do Rio de Janeiro rumaram para a cidade de São Paulo e, na sequência, para as vilas de Campinas, Araraquara e Franca. Entraram em Goiás, desistiram de ir até a capital da província e de Catalão miraram o rio São Francisco, iniciando o roteiro de retorno ao Rio de Janeiro. Passaram em Paracatu e em 10 de outubro de 1834, ou seja, um ano depois do início da viagem, chegaram na vila de Santo Antônio do Curvelo. Aí o jovem Lund conheceria as maravilhosas cavernas do serrado. Sua vida iria mudar radicalmente e ele ia ter todas as chances do mundo de reverter os resultados daquela viagem 25 O catastrofismo de Cuvier e autores coadjuvantes pregava que as espécies de animais extintas tinham desaparecido devido a catástrofes repentinas que, de uma só vez, dizimavam todos os seres viventes de uma região. Portanto, por coerência intrínseca, não podia admitir que, numa mesma região, espécies de animais ainda existentes pudessem ter coexistido no passado com espécies já extintas. 25
26 que até então estavam beirando o ridículo, pois a dupla vivia adoecendo, carecendo de ânimo para trabalhar de verdade. A história toda começou por acaso pois foi assim que Lund e Riedel conheceram Peter Claussen. Ele era meio aventureiro, com algum conhecimento de paleontologia e que vinha colecionando ossos fósseis, encontrados nas cavernas da região a partir de escavações feitas para extração de salitre. Lund se encantou com as coleções de Claussen e passou a nem dormir direito. Sua vocação paleontológica começava a fermentar. Mas aquele primeiro impacto não chegou propriamente a desnorteá-lo. De sorte que ele e Riedel seguiram o roteiro traçado já no rumo de volta ao ponto de partida da viagem. Passou por Lagoa Santa, achou interessante, mas não a ponto de decidir naquela hora viver ali até o fim da vida. Assim, seguiram até Santa Luzia, subiram a serra da Piedade coberta de flores, passaram na mina de Congo Soco e foram dar em Ouro Preto, então imperial cidade e capital da província de Minas Gerais. Ali Riedel adoeceu novamente e desta vez de forma verdadeiramente preocupante, prostrado numa cama sem forças para nada. Enquanto esperava a recuperação do companheiro, Lund se ocupou de escrever aquela memória sobre o serrado, como dito uma das suas poucas obras sobre botânica. Mas também voltou a pensar nos fósseis de Peter Claussen. A coisa foi crescendo a ponto dele procurar umas cavernas para explorar ali mesmo. Encontrou algumas lapinhas perto de Cachoeira do Campo cheias de ossos de pequenos mamíferos. Quanto mais cavava mais se entusiasmava. O resultado foi que, assim que Riedel se recuperou, cada um seguiu o seu caminho: Riedel voltou para o Rio de Janeiro onde continuaria botânico até o fim da vida. Peter Lund foi atrás das cavernas de ossos. O paleontólogo estava nascendo. Infelizmente não duraria até o fim da vida. Mas já então ele se encontrava pronto para começar o trabalho de escavação das cavernas e do exame metódico das rochas e ossos que encontrava nelas. E qual era a base da preparação de Lund para esse novo mistér? Ou por outra, como funcionava sua cabeça paleontológica? Funcionava, claro, como funcionavam as mentes científicas da época: muito escrúpulo dedutivo mas, ao mesmo tempo, pouco material indutivo, atrapalhando o rumo das verdade das descobertas científicas. Isso abria espaço para muitas aventuras especulativas pois havia um universo imenso de coisas ainda por descobrir sobre as regularidades dos mecanismos da natureza, uma vez que elas ainda estavam bem guardadas no bolso dos teólogos e havia também a inexorável lógica de Deus a ser respeitada. Um olho arguto somado à capacidade de raciocínio para fazer aflorar as relações de causas e consequências eram a principal ferramenta racional do pós-iluminismo. E já era um grande avanço, pois, como dito, ainda havia muito da vontade do Senhor confundindo os caminhos. Fora isso a fonte básica de conhecimentos paleontológicos era a obra de Georges Cuvier e as polêmicas geológicas sobre a idade da terra e a mecânica da formação do planeta. Tanto a paleontologia como a geologia ainda estavam nascendo. O trabalho paleontológico de então era simples e tinha muito de um quebra-cabeça. Começava com a montagem dos esqueletos, seguindo o que chamavam de trilha osteológica. Depois partia-se para a comparação do resultado com modelos já catalogados, com base na anatomia comparada inventada por Cuvier. Caso o resultado não 26
27 tivesse ainda sido catalogado o pesquisador requeria a condição da descobridor da espécie e essa era a parte mais gratificante do trabalho. Em linhas gerais Lund navegou suas deduções paleontológicas escorado nesse método e num modelo analítico fortemente influenciado pelas ideias de Cuvier. Era um modelo essencialmente classificatório que parava no Apocalipse sem ter passado pelo Genesis. Esse modelo, inicialmente tão querido e confortável, foi sendo posto à prova à medida que Lund ia descobrindo coisas. Esses questionamentos causaram nele um grande sofrimento e, como acreditamos, acabaram sendo a causa fundamental para a interrupção prematura das suas pesquisas. Mas ele nunca chegou verdadeiramente a reformulá-lo no essencial, nem abandonar os ranços das ideias de Georges Cuvier, mostrando-se receoso de desfechar um golpe sobre teorias que ele próprio já tinha posto de joelhos. Nesse aspecto, um trecho da carta que Lund enviou ao seu mentor Reinhardt na Dinamarca, em 26 de abril de 1844, é muito significativo. Nela ele faz observações sobre critérios de publicações da sua coleção de memórias. Observa que o título da coleção Olhar sobre o mundo animal brasileiro antes da última revolução da Terra o obrigava a ignorar seus próprios escrúpulos, pois, em parte, o título anunciava uma hipótese que no momento podia ser sujeita a contestação e em parte era inadequado ao conteúdo, pois seu trabalho também tratava de animais viventes. Portanto, sugeria muito apropriadamente que ele fosse mudada para Olhar sobre a criação animal viva e extinta brasileira ou Contribuição para o conhecimento sobre a criação animal viva e extinta brasileira, contudo deixava a questão a critério de Reinhardt. Quer dizer, Lund reconhecia que a inspiração cuvieriana do título preliminar da sua obra tinha se tornado inadequado e que ele restringia o horizonte que suas pesquisas havia alcançado. Porém, não tinha nenhuma posição firme em relação a isso, deixando ao seu próprio preceptor resolver. Eis uma posição verdadeiramente desconfortável, eivada de indecisões quando havia tantas boas hipóteses para serem aprofundadas e testadas. Mas deixemos essa questão para mais tarde e voltemos ao modelo de análise paleontológica de Lund. Vamos tentar reconstituí-lo. Ele era constituído de três variáveis dicotômicas. A primeira delas era a condição fóssil das ossadas encontradas. Lund descreveu inúmeras vezes os critérios para se distinguir um osso fóssil de outro não-fóssil, inclusive dar uma bizarra lambida no osso para testar sua aderência. Tudo que era fóssil era antigo ou anterior aos tempos históricos. 26 Tudo que não era fóssil pertencia a era atual. A segunda variável do modelo era a posição geológica das camadas onde os ossos eram encontrados. Num primeiro momento, ao cavar as camadas das cavernas, ele encontrou uma faixa de rocha que identificou como tendo sido formada pelo diluvium. Abaixo da camada estaria a era pré-diluviana e acima a era pós-diluviana. A terceira variável seria a atualidade biológica dos animais. Abaixo da tal faixa do dilúvio estariam os restos dos animais extintos e acima dela estariam os restos dos animais viventes. 26 Nessa época ainda não estava firmado o conceito de pré-história e a presença do homem na terra era estimada em poucos milhares de anos. 27
28 E... voilá. Combinado essas três variáveis seria possível identificar com facilidade e precisão as ossadas das espécies de animais extintos e as ossadas das espécies de animais viventes. Cuvier não teria nada a retocar. Do lado zoológico o modelo fazia crer que todas as espécies já não-viventes tinham sido extintas por conta das tais catástrofes cuvierianas, ou seja, as hecatombes colossais que, volta e meia, realinhavam o perfil dos seres viventes nos diversos cantos do planeta. Alhures, no tempo e no espaço, o impacto não se tinha feito sentir e parte da criação tinha sobrevivido e composto as espécies de animais viventes atuais, casualmente redistribuindo-os pelo mundo. Era a teoria de George Cuvier pura e intocada. Do ponto de vista geológico o modelo propunha que era possível estabelecer uma linha divisória para distinguir o tempo de cada catástrofe universal dos tempos atuais. O grande indicador dessa separação era o estado de antiguidade dos ossos encontrados em cada um deles. O sinal dessa antiguidade era fundamentalmente o estado de fossilização dos ossos. Antigo, enfim, era tudo aquilo que se encontrava fossilizado, homens ou animais. As três variáveis se encaixavam perfeitamente, se completavam e eis a realidade necrológica da classificação paleontológica funcionando em sua plenitude. Munido do seu modelo explicativo, de um par de boas enxadas, da companhia de Brandt e de alguns mateiros e escravos o dr. Peter W. Lund partiu resoluto para campo. No princípio foi só alegria. O modelo funcionava perfeitamente, mesmo porque, era a realidade que se conformava a ele. Mas o dr. Lund, arguto observador, não demorou a perceber que a realidade era muito mais complexa do que sonhava a sua vã e estabelecida filosofia. E aí ele começou a se sentir desconfortável. Era um modelo compatível genericamente com a época e a formação de Lund mas, chegava a ser ingênuo e suas próprias descobertas foram abalando seu arcabouço teórico logo que ele percebeu que era possível encontrar ossos fósseis e não fósseis num mesmo período geológico. Darwin escreveria anos depois, em sua famosa obra sobre o papel da seleção natural na evolução das espécies: (...) a aparição e o desaparecimento das numerosas espécies extintas, escondidas em cada formação (geológica), não foram jamais simultâneas. As espécies pertencentes a diferentes gêneros e a diferentes classes não se transformaram no mesmo grau nem com a mesma rapidez. Nas camadas terciárias mais antigas encontram-se algumas espécies atualmente vivas em meio de um conjunto de formas extintas. Nas suas primeiras memórias Lund acreditava que uma faixa superficial de argila fina encontrada nas cavernas indicava os tempos atuais, depois havia uma fina camada de estalactites delimitando as duas eras e abaixo estava a maravilhosa faixa de argila amarelada indicando os tempos antigos ou o cemitério das espécies extintas. Claro que essa maneira rígida de identificar os períodos geológicos era precária e se constituía no grande problema do modelo. 28
29 Mas ele insistiu e, durante algum tempo, preferiu rejeitar a hipótese de que espécies extintas e viventes tivessem coexistido num mesmo passado. Preferia forçar a crença de que acidentes pontuais como a ação das águas ou de animais tivessem removido ossos para situações artificiais, diferentes naquelas características da época em que os animais tinham efetivamente morrido. Quando isso se tornava insustentável ele se desnorteava e sofria com o zig zag que a história das espécies parecia fazer por sobre a linha do tempo. Em outra carta endereçada a Reinhardt - esta escrita em 16 de novembro de 1843 e bastante confusa - Lund parece admitir que tinha reformulado parte do modelo. Informava que tinha conseguindo dados para formar uma enorme base para suas teorias sobre os fenômenos geológicos a respeito da destruição das cavernas e da terra e a introdução dos ossos dentro delas. Afirmava que tais teorias consolidaram sua convicção e despertaram tranquilidade e satisfação o que contrastava com o descontentamento com as teorias anteriores, sobre esses mesmos pontos, que teve que abandonar. Mas, por outro lado, na mesma carta confessava que outros pontos anteriores que já tinha admitido como comprovados foram abalados por novas dúvidas surgidas, especialmente em relação à linha separadora entre as eras pois tinha observado espécies extintas se movimentarem em direção ao presente e espécies do presente se movimentarem em direção ao passado. Afirmava, candidamente, que resistia à força desses fatos em nome do ser humano. Informava ainda que naquele ano tinha encontrado restos humanos que não deixavam nenhuma dúvida de que eles testemunharam a extinção de pelo menos cinco espécies de mamíferos. Mas evitou maiores comentários quanto às ossadas humanas encontradas, aceitando conviver ainda com as deficiências geológicas do seu modelo teórico. Ao evitar discutir o mecanismo através do qual as espécies são extintas, Lund foi incapaz de reformular o modelo e seguir em frente. Preferiu sofrer, se queixar de isolamento intelectual e falta de recursos para aprofundar suas pesquisas e acabou por abandoná-las. Ou seja, em relação a espinha dorsal do modelo, vale dizer, o sentido da existência de uma linha separadora entre as espécies extintas e não extintas ele se quedava impotente e confuso. Pobre Lund não teve coragem de admitir que essa linha nunca existiu, pois como viria a propor o sr. Charles Darwin, os fenômenos geológicos nada têm a ver com a história das espécies. Mas nada disso era simples. O próprio Darwin levaria mais de quinze anos criando coragem para propagar suas ideias. Nesse período vivia doente, sofrendo crises de fundo nervoso que o impossibilitavam de mergulhar no trabalho com maior entusiasmo, tal qual o próprio Lund. Darwin acabou vencendo seus conflitos íntimos de ordem teológica. Mas o sábio de Lagoa Santa preferiu não chegar ao ponto de conservar uma heresia na gaveta e quando sentiu que seu modelo de investigação estava ficando inconsistente com as deduções que as evidências das suas investigações se lhe impunham, preferiu parar. Ao agir assim, talvez Lund estivesse sendo mais honesto do que o próprio Cuvier pois em 1823 o festejado sábio francês tinha encontrado, perto de Estrasburgo, fragmentos de esqueletos humanos junto a fósseis de animais extintos mas nem se deu ao trabalho de examiná-los com maior cuidado decretando que eles proviam de algum cemitério e tinham indo parar ali por obra 29
30 do acaso. E seguiu em frente preservando as suas glórias sem se incomodar com aquilo que tanto incomodaria Lund vinte anos mais tarde e colocaria um ponto final em sua carreira. Mas aqui seria justo lembrar que só em 1856 seria encontrado o esqueleto humano de Neandertal e só em 1869 é que seria admitida a existência de homens pré-históricos. Lund não quis dar esse passo largo. Mas não foi só ele. 27 Mãos, enxadas e pás A primeira caverna que Lund conheceu foi nas proximidades de Curvelo em outubro de Foi basicamente uma visita recreativa, propiciada por gentileza de Peter Claussen e impulsionada pela curiosidade compulsiva de um naturalista dedicado, sempre excitado pelo desejo permanente de esmiuçar toda a complexidade da natureza. Naquele tempo se acreditava que isso era possível, pois o conhecimento era pouco e as especialidades das ciências naturais ainda não tinham firmado suas fronteiras com maior nitidez. A exploração de cavernas na região, naquela época, tinha interesse meramente comercial, objetivando a extração do salitre, mineral abundante no piso naquelas perfurações naturais que a água tinha feito na rocha calcária. Essa atividade era muito comum ali e, por volta de 1805, o sempre ativo naturalista mineiro José Vieira Couto já alertava o governo da capitania para o potencial da atividade, especialmente na serra do Cabral, próximo a barra do Guaycuí. Mas nunca se estabeleceu uma exploração ordenada e produtiva pois o governo da metrópole tinha muito receio de que o salitre virasse pólvora e viesse municiar movimentos que buscassem uma emancipação prematura do jugo português. Assim preferia comprar o produto mirrado obtido por fazendeiros que tinham na extração do salitre uma atividade extrativista que competia com plantações, chiqueiros, poleiros e instalações rudimentares e imundas onde se produziam laticínios. O próprio Peter Claussen era um empreendedor deste tipo, até que conheceu Lund e descobriu que usando o nome dele poderia dar credibilidade as suas ossadas e vendê-las para museus europeus, granjeando fama e fortuna 28 para desespero do nosso humilde e dedicado naturalista que temia pelos critérios destrutivos com que o fazendeiro se lançava na exploração das cavernas de ossos. Portanto, a primeira temporada de Lund nas cavernas de Curvelo foi de mero aquecimento e o trabalho exploratório só começou de fato nas cercanias de Ouro Preto, no final daquele mesmo ano. A caverna ficava nas proximidades do arraial da Cachoeira do Campo. Não foi uma labuta muito gratificante e nem chegou a ser propriamente uma exploração paleontológica. As escavações produziram não mais do que uma coleção de milhares de 27 Em 1844 um paleontólogo amador francês chamado Boucher de Perthes encontrou artefatos humanos junto a ossadas de animais extintos abrindo espaço para a admissão da existência do homem pré-histórico. Mas ele morreu antes de poder concluir suas pesquisas e sua família, receosa da repercussão das suas ideias, simplesmente resolveu queimar seus manuscritos. 28 Embora Lund abominasse que Claussen usasse o seu nome, ele acabou muito conhecido na Europa graças às coleções que o aventureiro dinamarquês vendeu aos museus do velho mundo. Várias delas foram visitadas por Darwin e citadas em suas obras como as coleções dos srs. Lund e Claussen. 30
31 fragmentos ósseos de espécies viventes de pequenos mamíferos roedores e voadores e é possível que o sábio dinamarquês tenha descartado essas coleções insignificantes para dar espaços para coisas mais preciosas que viriam depois. Lund, em suas cartas, revela ter explorado cerca de oitocentas cavernas. Apenas na Lapa do Sumidouro é que ele encontrou vestígios interessantes de seres humanos. Coletou ossadas de um grupo etário variado, abrangendo desde crianças a velhos decrépitos. Foram encontrados, enfim, em situação geológica que acabou o convencendo de que aqueles seres tinham convivido com animais extintos e, portanto, eram muito antigos. Embora o sábio dinamarquês, invariavelmente, tratasse do mesmo assunto em suas memórias daquela fase, em apenas duas delas ele foca mais diretamente as características das cavernas, suas belezas e particularidades geológicas. A primeira, datada de 1836, relata os trabalhos na Lapa Nova de Maquine. Naquele tempo - começo da carreira paleontológica - ele ainda era cuvieriano fanático e considerava a ocorrência do diluvium suficientemente demonstrada por marcas estampadas nas particularidades geológicas da caverna. A segunda memória está datada do mesmo ano da primeira e trata da Lapa da Cerca Grande. Mas, no geral, todo o trabalho de Lund nas cavernas mirava a formação de coleções para identificação de espécies fósseis e classificação de animais extintos. Portanto, o foco não era propriamente espeleológico e a geologia era focada apenas como balizador cronológico para os ossos. De certa forma, a descoberta de fósseis humanos na Lapa do Sumidouro foi um acidente verdadeiramente incômodo que chegou a desnortear nosso caro sábio. No fim, foram nove anos de escavações despendidos na coleta de milhares de fragmentos reunidos e comparados pacientemente com o propósito principal de classificação de mamíferos. Na média Lund teria explorado cerca de noventa cavernas por ano. Considerando que esse trabalho só era feito no período da seca, ou seja, entre abril e setembro, podemos concluir que, em grande parte das cavernas, as escavações foram muito superficiais e o sítio era abandonado se não mostrasse, de imediato, algum promissor potencial fossilífero. De qualquer forma, aqueles nove anos de trabalho no fundo das lapas, permitiram ao sábio identificar uma variedade enorme de animais que ele classificou ao longo das suas memórias e que resumiu numa comunicação escrita em novembro de 1844 para a Real Sociedade Dinamarquesa de Ciências. Segundo Paula Couto 29, Lund classificou 100 gêneros e 149 espécies fósseis e 73 gêneros e 103 espécies atuais. As respectivas ossadas foram pacientemente embaladas e enviadas à Dinamarca onde, junto com as memórias, compõem o acervo do Museo Lundi, revisado e organizado por Herluf Winger a partir de 1884, ou seja, três anos depois da morte do sábio nos recônditos do planalto brasileiro. 29 Memórias sobre a paleontologia brasileira. 31
32 Paus, pedras e ossos no caminho Quando Lund e Riedel partiram naquela sua viagem, a intenção era coletar dados para a produção de estudos botânicos como já contamos. De fato, seus dois primeiros trabalhos resultantes da segunda viagem ao Brasil tratavam de plantas. O primeiro foi um estudo sobre a vegetação que o sábio dinamarquês observou nas cercanias do Rio de Janeiro intitulado Nota Sobre as Plantas Comuns das Estradas e Ervas Daninhas do Brasil. O segundo foi concluído no dia anterior em que Lund e Riedel se separaram em Ouro Preto. Este trabalho foi o único fruto das observações colhidas na viagem pelos sertões de São Paulo e Minas em O tratado recebeu por título Observação Sobre a Vegetação dos Planaltos Interiores do Brasil, em Especial com Relação à História das Plantas e foi apresentado por Reinhard na Sociedade Científica de Copenhagen em 10 de julho. A partir daí Peter Lund foi assumindo rapidamente sua paixão paleontológica e esquecendo as plantas em favor dos animais, especialmente os mamíferos. Vimos que ele deu ao seu conjunto dorsal de memórias o título genérico de Estudo Sumário do Reino Animal do Brasil Antes da Última Revolução do Globo 30 ou Olhar Sobre a Criação Animal Brasileira Antes da Última Revolução da Terra. 31 Antes porém de produzir essa coletânea, ele escreveu alguns ensaios isolados. No princípio, como dito, seu foco foi mais espeleológico e geológico centrado em minuciosas considerações sobre as características das cavernas calcárias e suas camadas. Logo o foco passou a ser o estudo dos mamíferos encontrados nelas em abundância. A primeira das memórias do sábio dinamarquês, decorrente do trabalho nas cavernas, foi aquela que tratava da exploração da gruta de Maquine. Teve por título: Cavernas Existentes no Calcário do Interior do Brasil, Contendo Algumas Delas Ossadas Fósseis e foi publicada em Copenhagen em A segunda memória trata da Lapa da Cerca Grande e foi divulgada em A terceira memória vem a ser a primeira da coletânea dedicada ao estudo dos mamíferos e foi escrita como uma introdução geral ao assunto. Está datada de 14 de fevereiro de Nos seus parágrafos iniciais o autor, depois de pedir desculpas pelas imperfeições que a obra certamente haveria de conter por falta de recursos ao seu dispor, alerta que se trata de um esboço sobre a classe dos mamíferos. Informa que, àquela altura, já tinha visitado 88 cavernas, que elas tinham características semelhantes, com predominância de argila e presença de cascalho e quartzo e que foram formadas no antigo fundo de um lago ou mar. Lund mostra preocupação criteriosa com a determinação de indicadores de antiguidade dos depósitos de ossos, requisito indispensável do seu modelo para diferenciação dos restos de animais extintos e de espécies ainda viventes. 30 Na tradução do francês por Leônidas Damásio publicada na revista do Arquivo Público Mineiro (primeira à quarta memórias). Segundo Damásio a tradução francesa tinha sido encomendada por d. Pedro II e encaminhada a H. Corceix para ser vertida ao português e publicada nos Anais da Escola de Minas de Ouro Preto. Somente as duas primeiras foram publicadas nos Anais. 31 Na tradução do dinamarquês por Pedro Ernesto Luna Filho. 32
33 Ensina que: (...) uma crosta avermelhada de estalagmites estende-se como um tapete sobre o solo (das cavernas) e assinala o limite entre o tempo passado e o presente. Nenhuma das forças destruidoras da natureza ali atuou e tudo se acha no estado em que se depositou por ocasião do grande cataclismo que determinou a subversão do mundo antigo com todos os seus habitantes. Depois mostra o mesmo escrúpulo em relação a determinação da condição fossilizada dos esqueletos encontrados: Em geral, a aparência dos ossos fósseis é a seguinte: acham-se inteiros e conservaram suas menores saliências, as arestas e as cristas as mais delicadas, na superfície têm uma bela cor vermelhoamarelada de cera e à fratura apresentam o branco o mais puro. São mais leves que os ossos frescos e a tal ponto quebradiços que se esfacelam entre os dedos, por um contato imprudente, aderem fortemente à língua e lançados sobre brasas enegrecem espalhando o cheiro fraco e desagradável de queimado (...) E eis estabelecida a essência da metodologia lundiana de datação de esqueletos, ou seja, a conjugação das condições geológicas dos depósitos onde os ossos se encontravam mais a condição fossilizada dos mesmos. Para a época era tudo de que se podia dispor. Na verdade até hoje, mesmo com as modernas técnicas de datação, esse modelo ainda tem alguma serventia, pelo menos como guia. É aos mamíferos encontrados nessa condição, ou seja, extintos por força da catástrofe diluviana de Cuvier, que Lund pretende dar maior atenção. Mas antes se dedica a algumas considerações sobre restos de mamíferos também encontrados nas cavernas ou no cerrado e pertencentes a espécies não extintas. Destaque para os morcegos pela sua abundância. Depois os roedores: a capivara, a paca e todas essas carnes saborosas que sempre fascinaram o mineiro e não era diferente naquele tempo. Em seguida a cutia, o preá e coisas parecidas já descambando para o lado dos ratos. Finalmente os desdentados, ou seja: tatu, tamanduá e preguiças. E ainda ruminantes, lobos e os temíveis felinos pintados. Eram essas as espécies que viviam abundantes nos tempos de Lund. Hoje elas também estão quase extintas. Não por força de cataclismos, claro, mas antes por força da ação predatória do próprio homem. A segunda memória da coletânea recebeu o título explícito de Mamíferos e está datada de 16 de novembro de Nela Lund aprofunda um pouco mais o que vinha esboçado na memória anterior, mas o foco agora são os mamíferos extintos. Explica que a memória é um estudo geral das espécies de mamíferos que habitavam os planaltos do Brasil tropical antes da última revolução da terra. Ao final apresenta um detalhado inventário dos mamíferos vivos e fósseis que encontrou no cerrado e que abrangiam 47 gêneros de mamíferos ainda vivos e 50 gêneros de mamíferos extintos. É interessante observar que em seu inventário, publicado ao final da segunda memória, Lund organizou uma lista de mamíferos que não existiam mais na região de Lagoa Santa mas que ainda existiam em outras partes do globo, ilustrando a convicção de que certas espécies 33
34 poderiam deixar de habitar determinados pontos do planeta e não outros. Ele não explora muito este ponto mas não há nenhuma incoerência já que, de acordo com Cuvier, a extinção radical de espécies só acontecia mesmo quando as tais catástrofes diluvianas assolavam um habitat de uma espécie a ele circunscrita e os dizimavam de uma vez. Ou então (grande coincidência): catástrofes sucessivas atingissem regiões diversas como se estivessem caçando colônias de indivíduos de uma determinada espécie para extingui-los! A terceira memória está datada de 12 de setembro de 1838 e dá continuação ao tratado dos mamíferos. Lund começa lamentando a destruição da flora brasileira, dos fósseis e das próprias cavernas. Em seguida retoma o tema da segunda memória voltado a considerações sobre os mamíferos atuais e extintos encontrados na região das cavernas lagoassantense. Na verdade a obra é essencialmente uma complementação da memória anterior, complementação essa imposta pelos novos achados de Lund que abundavam a cada nova enxadada. Em 05 de novembro de 1839 apareceria as Observações Sobre as Espécies Extintas de Mamíferos do Brasil. Em 04 de abril de 1839 viria a lume um suplemento à terceira e quarta memórias batizado de Suplemento às Duas Ultimas Memórias Sobre o Reino Animal do Brasil Antes das Revoluções do Globo e em 27 de março do ano seguinte apareceria um Apêndice às Observações Sobre os Animais Fósseis do Brasil. A quarta memória está datada de 30 de janeiro de 1841 e mais tarde viria a lume um suplemento agregando à mesma novas descobertas. Começa como uma dissertação sobre os esqueletos de dois mamíferos extintos: o Platonyx e o Megatherium. Lund também aproveita a oportunidade para reformular sua hipótese de que a hiena pudesse ter vivido antigamente no Brasil, admitindo que não tinha obtido suficientes evidências disso. Ao final do trabalho publica novamente sua classificação modificada dos mamíferos vivos e extintos, sempre buscando agregar os novos conhecimentos que ia acumulando com os montes de ossos que levava para casa e que aproveitava o período chuvoso para esmiuçar. Mas o mais notável dessa memória é que nela pela, primeira vez e de forma bastante discreta, Lund relata a descoberta de fósseis humanos. Não demonstra nenhum entusiasmo com o achado espetacular. Ao contrário, apressa-se a declarar que ainda não tinha elementos aceitáveis para concluir sobre a possível contemporaneidade do homem com animais extintos. Admitia a certeza de que os ossos eram fossilizados mas que as condições em que foram encontrados não permitiam determinar sua idade geológica. E ei-lo comedido quando deveria estar exultante, brandindo sua enxada como se fosse uma espada empunhada na conquista de mundos desconhecidos. Verdadeiramente uma atitude acanhada para um sábio à frente de véus que ameaçavam se desfazer e pôr a nu novos e excitantes conhecimentos. A quinta memória sobre a fauna das cavernas, continuando ainda o tema dos mamíferos, foi escrita em 04 de outubro do ano de 1841 e completaria a série. Recebeu o título de As Espécies de Carnívoros Atuais e Fósseis nos Planaltos Centrais do Brasil Tropical. 34
35 Além de obter material para confeccionar suas listas de mamíferos extintos e viventes, uma outra grande motivação de Peter Lund para explorar as ossadas das cavernas era a possibilidade da descoberta de animais ainda não revelados para o mundo da ciência e proclamar a feliz paternidade aos doutos ouvidos espalhados pelos gabinetes e academias da Europa. Havia muita e justa vaidade embutida no mistér. Esse era um trabalho que fascinava os paleontólogos da época, desde que Cuvier havia descrito o mamute e lançado as bases de identificação e classificação das ossadas de animais extintos. Esse trabalho era essencialmente comparativo. Ou seja, consistia na comparação dos ossos encontrados com outros ossos que serviam de referência. Quando era possível reconstituir o animal e imaginar como ele teria sido, havia ainda a alternativa de comparar a coisa resultante com desenhos estampados em livros e revistas especializadas. Era por isso que os desenhistas tinham tanta importância nas equipes de pesquisadores. A moda era batizar o mostrengo encontrado, usando a raiz latina de identificação da espécie ou característica dominante mais um complemento identificando o lugar onde ele havia sido encontrado ou homenageando alguma personalidade. Tipo: Megatherium americanum (Cuvier) ou Pampatherium humboldti (Lund). Nosso sábio da Lagoa Santa acabava sendo muito prejudicado neste trabalho em função da sua distância da Europa o que o levava muitas vezes, por ignorância das novidades, a julgar ter sido descobridor de alguma espécie que, na verdade, já havia sido revelada. Ele trata disso numa carta endereçada a Reinhardt, datada de 29 de novembro de Nela lamenta que o seu Hoplophorus eupharactus, que ele havia descoberto há quase cinco anos, tinha virado Glyptodont, pois Richard Owen tinha classificado também o mesmo animal e publicado seu trabalho um mês antes dele. Outros casos aconteceram, restando para Peter Lund, porém, a glória incontestável de ter descoberto o Smilodon Populator o tigre de dentes de sabre um dos maiores animais que já viveram nas Américas. É também o descobridor inconteste do Felis Protopanther e muitos outros mamíferos extintos. De qualquer forma o sábio dinamarquês se queixaria mais de uma vez do seu isolamento e isso também pode ter contribuído para o seu desânimo em continuar escavando, como alguns autores acreditam com toda propriedade. Sim pois, há de se lembrar que a paleontologia da época estava fundada essencialmente numa anatomia comparada que dependia muito da consulta a catálogos publicados nas grandes capitais da Europa, distantes alguns milhares de quilômetros do arraial da Lagoa Santa e com um enorme e profundo oceano no meio. Maquiné: obra artística da natureza Como já fizemos referência, uma das primeiras cavernas que Lund explorou, ainda na fase curvelana, ou seja, antes de que viesse fixar o seu peão exploratório em Lagoa Santa; foi a Lapa Nova de Maquiné. Com a ajuda de seu novo companheiro Brandt, o naturalista 35
36 dinamarquês despendeu três meses perscrutando os segredos geológicos e paleontológicos da gruta. O resultado mereceu aquela memória intitulada Cavernas Existentes no Calcário do Interior do Brasil, Contendo Algumas Delas Ossadas Fósseis. Como acontece ainda hoje com quem a visita, o sábio tomou-se de amores pela gruta de Maquiné. Descreveu-a com as mais apaixonadas pinceladas de admiração, tais como: As obras artísticas do mais alto gosto, a mais rica arquitetura são ali reproduzidas, e posso mesmo dizer que a arte humana é excedida por essas formações caprichosas da fantasia da natureza.(...) Os esplêndidos reflexos produzidos pela luz, ferindo as inúmeras facetas desses cristais, deslumbram a vista de modo que o homem se julga transportado a um palácio de fadas. Mas não foi só fina arte da natureza que Lund viu na gruta. Viu também sinais geológicos do diluvium e ossadas de animais extintos no meio deles. Não hesitou em associar os sinais que tinha encontrado à última grande revolução que teria havido no globo terrestre, segundo Cuvier e seus parceiros. Enfim, a força formidável das torrentes diluvianas teria sido a causa da extinção dos animais cujos ossos havia encontrado soterrados na caverna. Naquele tempo, como vimos, suas convicções estavam firmes e serenas e ele pôde transitar confortável pelas maravilhas da gruta firmemente convencido da veracidade dos dogmas catastrofistas e da autoridade inconteste das suas fontes sagradas. Este conforto mental, na verdade, não estava fazendo nada bem a Lund, pois ele estava duplamente errado. Ou seja, não só não havia sinais inequívocos de uma catástrofe diluviana nas entranhas de Maquiné, como também os animais cujos ossos foram encontrados por ele em escavações no interior da gruta não estavam extintos. Tratava-se simplesmente de ossos de veados mateiros, naqueles tempos abundante e apreciada caça que saltitava ágil e arisca no meio da vegetação rala do serrado. Ele próprio se encarregaria de corrigir os equívocos e foi fazendo isso à medida em que novas escavações revelavam novos enigmas cujo modelo explicativo acabado e perfeito que tinha trazido da Europa não era capaz de resolver. Então foi tendo que buscar novas soluções e quanto mais se empenhava nisso mais se sentia desconfortável e inseguro. Isso duraria até 1844 quando ele decidiu chutar o pau da barraca. Infelizmente a barraca caiu sobre ele e ele resolveu ficar quieto em lugar de se levantar e ir em frente. Do ponto de vista paleontológico a Lapa Nova de Maquiné não chegou a significar grande coisa nas pesquisas de Lund e o que acabou por seduzi-lo foi mesmo o lado espeleológico que, naquela princípio de obra, era o que mais o fascinava. De sorte que ele não hesitou em apregoar que aquela gruta ocultava preciosos tesouros. Ele queria dizer tesouros da natureza naturalmente, mas o imaginário popular logo associou a admiração do esperto europeu a outro tipo mais pragmático de preciosidades, tais como ouro e pedras preciosas. Desconfiado das reais intenções do sábio, o proprietário das terras onde a gruta se localizava mandou fechar e ocultar a sua entrada para preservar os tais tesouros, por certo pensando em explorá-los mais tarde. Mas não se empenhou verdadeiramente nisso, o tempo passou, o mato tomou conta de tudo e acabou que ninguém conseguia se lembrar mais onde ficava a entrada da Lapa de Maquiné. Mas o mito persistiu e de repente virou desafio redescobrir 36
37 a entrada da deslumbrante caverna. Foram necessários trinta anos de busca para que ela fosse novamente encontrada e aberta ao mundo que então pôde contemplar novamente os tesouros naturais que haviam deslumbrado o jovem Peter Lund, então um tranquilo admirador da obra organizada e perfeita de Deus. Consta que em 1836, quando explorava a Lapa da Cerca Grande, Lund tinha ouvido da boca de uns mateiros que numa das escavações para retirada de salitre na gruta haviam sido encontrados ossos humanos. Ele desdenhou a informação e explicou que os brasileiros tinham mania de atribuir a seres humanos todos os ossos fósseis que encontravam. E completou, sarcástico que, quando os ossos erram muito grandes, eram atribuídos a gigantes. Naquele tempo, ainda enamorado das teorias cuvierianas, a possibilidade de serem encontrados ossos humanos junto com ossos de animais que tinham sido extintos por força de uma hecatombe mundial parecia ao jovem Lund o mais perfeito dos absurdos. Não tinha sentido perder tempo com isso. Mas em 1842 ele já se mostrava bastante preocupado com essas questões. Foi quando escreveu uma carta ao secretário geral do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro dizendo que tinha encontrado fósseis de ossos humanos nas cavernas de ossos, mas que ainda não se podia afirmar a coexistência do homem com mamíferos extintos. Dizia ele: Achei estes restos humanos em uma caverna que continha misturado com eles ossos de diversos animais de espécies decididamente extintas (...). E arrematava, buscando ainda arremedos de conforto para as dúvidas que começam a incomodá-lo de verdade: Sobre a imensa idade deles não pode haver dúvida nenhuma, porém quanto a questão de saber se os indivíduos dos quais eles derivavam tinham sido coevos com os animais em companhia dos quais eles se encontravam não se pode, infelizmente, tirar conclusão alguma decisiva visto que a caverna que os continha achava-se na margem de uma lagoa cujas águas, anualmente, no tempo das grandes chuvas entravam nela. Em consequência dessa circunstância podia ter havido não só uma introdução sucessiva de restos de animais na caverna como também as introduzidas posteriormente podiam misturar-se com os já depositados. Essa possibilidade mostrou-se efetivamente realizada, pois no meio desses ossos pertencentes a espécies extintas, achava-se outros de espécies ainda existentes. E ei-lo na boca do confronto com os dogmas que tinha trazido na mala de viagem cuidadosamente preparada desde a última estadia na Europa, buscando tímidas justificativas para uma questão crucial, qual seja, a possibilidade não só de que o homem tinha convivido com mamíferos extintos como ainda com a possibilidade de que espécies animais extintas tinham convivido com espécies ainda vivas. Isso significava não só que as teorias catastrofistas não 37
38 valiam um níquel 32 como também e isso era muito mais assustador - que as espécies evoluem num ritmo e numa sequência desordenada, fortemente tangida pelo acaso. Lund estava às portas de ter que admitir enfim, que não havia um plano divino no reino da criação. Abalavam-se, assim, os pilares das portas do gênesis, essência da obra que dava sentido à existência do universo. Aí a carga estava ficando verdadeiramente pesada, pois estava na iminência de ter que questionar não só a Cuvier, mas ao próprio Deus. O espírito científico do jovem sábio, contudo, ainda resistiria, um pouco mais. Afinal era a força dele que tinha feito Lund desistir de seguir Riedel e voltar à fazenda de Claussen atrás das cavernas de salitre e seus ossos. E ele ainda seguiria em frente, pesquisando grutas e matutando à frente da santa lagoa por mais seis anos, superando-se e corrigindo os próprios erros até onde deu. Uma natureza profana III - A vitória de Deus Um belo dia Peter Lund estava passeando pelo bairro de Vesterbro em Copenhagen quando teve uma visão: recorrendo a frases flamejantes inscritas no ar, Deus se manifestou a ele com uma mensagem impressionante que o fez cair de joelhos vergado sob a magnificência do poder do Senhor. Mas ficou transportado nesse estado apenas alguns segundos, pois logo foi dominando por um lampejo de racionalidade que o fez se erguer rapidamente, receoso de que algum passante o tomasse por louco. Nunca revelou o teor da mensagem divina, mas aquela visão o marcaria de forma indelével, tanto que, já perto do fim da vida, fez questão de contar o fato extraordinário ao seu secretário Roepstorff. Já lá se iam quase cinquenta anos, mas Lund não tinha se esquecido daquela visão mística que explodiu diante dos seus olhos, justamente quando ele estava se aprontando para viajar ao Brasil pela segunda e definitiva vez. Essa passagem singular na vida do sábio dinamarquês reforça a suspeita de que ele pode ter vivenciado um angustiante conflito teológico durante grande parte da sua vida e que pode ter sido uma das causas principais dele ter abandonado o labor científico justamente quando ele descortinava um novo e surpreendente horizonte. Falo, enfim, do velho embate entre a fé e a razão. Num segundo ei-lo submisso à gloria troante de Deus, no segundo seguinte ei-lo de pé, catapultado pelo receio do ridículo que ele representava naquele instante, ajoelhado e de mãos postas bem no meio da rua, sem mais nem menos. O episódio de Vesterbro normalmente é apresentado como uma simples curiosidade pinçada da vida de Lund, quando jovem. Mas muito mais do que isso, o ocorrido nos revela um traço marcante da personalidade do sábio, quer dizer, uma forte influência religiosa atrapalhando 32 Justo dizer que Cuvier não era geólogo e sim zoólogo. Assim, sua teoria dos cataclismos visava apenas dar-lhe uma base lógica para explicar o mecanismo de extinção de espécies animais. Convém lembrar ainda que muitas teorias atuais utilizadas para explicar a formação do nosso planeta, especialmente em relação ao relevo, são de base catastrofista. 38
39 sua forma de pensar e uma certa intimidação diante das reações da opinião pública. Em essência, a mesma intimidação que mais tarde viria atrapalhar sua confiança em enfrentar a comunidade científica internacional com ideias excessivamente desconcertantes. Nesse aspecto não haveria propriamente uma raridade. No campo da História Natural, o século XIX foi um século pleno de ideias perigosas que a todo instante ameaçavam a beatitude da convicção de que a natureza agia de acordo com um plano perfeito, urdido pelo próprio Deus em pessoa. Alguns naturalistas foram mais ousados do que outros e o conhecimento avançou na razão direta dessa ousadia. Mas a lista dos malditos, banidos e ridicularizados era enorme e era tremendamente doloroso fazer parte dela. Intimismos teológicos à parte, era muito mais fácil ficar em paz com os pensadores cristãos de todos os formatos, mesmo porque, atrás deles estavam suas poderosas igrejas a tutelar as academias e museus. O próprio Charles Darwin como mencionamos, seguraria a revelação das suas ideias sobre a seleção natural das espécies durante algum tempo, com receio do impacto que elas causariam no mundo científico de então. Assim mesmo, só o fez com receio de que Alfred Russel Wallace pudesse precedê-lo, ofuscando os seus méritos com ideias semelhantes. Darwin publicou seu livro sobre a seleção natural das espécies, quinze anos depois de Lund ter paralisado suas pesquisas nas cavernas do serrado mineiro. Se ele tivesse continuado teria enveredado pela linha darwiana? Claro que essa pergunta não tem resposta, mesmo porque, o próprio Lund não a quis fazer a si mesmo. Mas, para muita gente, Lund teria sido uma boa fonte de inspiração para Darwin. Parece haver aí um notável exagero. Das sete citações que tivemos oportunidade de consultar na obra darwiniana, 33 apenas duas têm certa relevância, ou seja, estão verdadeiramente associadas aos escritos de Lund. Uma é de 1871, posterior, portanto, à publicação do livro principal sobre a seleção natural e a origem das espécies, onde Darwin faz aquele elogio pessoal a Lund chamando-o de um excelente observador (The descent of man). A outra cita a convicção de Lund de que a ocupação do continente americano pelos índios é muito antiga. (Journal of researches 1839). As demais cinco citações apenas ilustram observações do próprio Darwin calcadas nas coleções fósseis que Claussen vendeu aos museus ingleses afirmando que tinham sido coletadas por ele e por Lund nas cavernas do Brasil. Tais citações foram produzidas entre 1838 e 1843 e publicadas no Journal os researches e no The zoology of the voyage of H.M.S. Beagle. É certo que Charles Darwin leu algumas das memórias de Lund mas também é certo que ele não visitou as coleções do Museu de Copenhagen, até porquê, nunca esteve na Dinamarca. Em geral ele cita as coleções como admirável coleção de ossadas fósseis recolhidas nas 33 Identificadas por Pedro Luna Filho e que podem ser consultadas nas obras disponibilizadas em arquivo PDF no site Darwin-on line org.uk. 39
40 cavernas do Brasil pelos senhores Lund e Claussen. Tratava-se, naturalmente, das coleções esparsas expostas nos museus britânicos. 34 De qualquer forma, as citações de Darwin evidenciam que o dr. Peter Lund era uma figura conhecida dos meios científicos europeus naquela época. Infelizmente sua obra escrita não acompanhou a fertilidade das suas pesquisas de campo, nem rompeu as inquietações do seu cérebro privilegiado, contido contudo no anel de ferro das suas convicções teológicas. O inventário incompleto da Arca de Noé Claro que foi no campo das ciências naturais que o tal embate entre a fé e a ciência foi mais acirrado pois ali ambas radicalizavam ao tentar explicar a mesma coisa de forma diferente. A autoridade da bíblia, depois de se recuperar do safanão que os iluministas lhe haviam dado no século XVIII, entrou no século seguinte plena de vitalidade. Aliás, resquícios dessa vitalidade permanecem até hoje, já que ainda existem ilustrados defensores da ideia de que Deus criou o mundo em sete dias como se tivesse um cronograma de obras apertado a cumprir. Na época de Lund muitos ainda acreditavam que o mundo tinha tenros seis mil anos de idade, intolerável erro na casa dos bilhões. Um bispo irlandês, por volta da virada do século XVII para o século XVIII, depois de meticuloso cálculo baseado na genealogia bíblica, teve a singeleza de revelar que o mundo tinha sido criado em outubro de 4004 A.C. Eu próprio, quando criança, baseado na mesma metodologia acabei descobrindo que Matusalém tinha morrido no mesmo ano do dilúvio, quem sabe até afogado no próprio. Mas não tive coragem de revelar minha descoberta ao mundo, mesmo porque, ele não estava nem um pouco interessado nela. Nem eu nem o bispo conseguimos provar nada, pois a bíblia - embora de preciosíssima leitura - não é fonte de verdades científicas. Mas, como dito, ela ainda balizou muito a evolução do pensamento científico, sobretudo até o século XIX. Especialmente a ideia do dilúvio continuou assombrando o pensamento dos naturalistas mais distintos retardando, sucessivamente, o nascimento de uma paleontologia robusta e disposta a trazer o passado do milagre da criação às luzes salutares do sol. À medida que achados geológicos e fósseis de vidas extintas iam sendo reveladas, a admissão de que tinha havido um dilúvio universal perpetrado pelo deus rancoroso do velho testamento ia ficando mais canhestra. Mas o pessoal teimou enquanto pôde. Certas rochas sedimentares, durante muito tempo, eram tidas como inquestionavelmente formadas pela ação das águas do dilúvio. Claro que era um absurdo imaginar que elas tinham sido formadas em quarenta dias. Esse teria sido o tempo de duração das catastróficas precipitações pluviais, sem contar o tempo necessário ao escoamento das águas mas que, na afobação da cronologia divina, 34 As coleções dinamarquesas só foram abertas ao público em 1859 e só foram sistematizadas em
41 deve ter sido contado em meses. Mas esse detalhe temporal era considerado secundário, devidamente pulverizado pela força da fé na palavra bíblica. O dilúvio causava no campo da paleontologia o mesmo incômodo que provocava no campo da geologia, porém de forma muito menos constrangedora, pois ali a coisa parecia fazer algum sentido. E era ali que os catastrofistas faziam sucesso, com Georges Cuvier à frente. Era preciso uma explicação para o fato de que muitas ossadas fósseis, descobertas em diversos cantos do planeta, eram de espécies extintas. Naquela altura até já se admitia que Deus pudesse ter criado o mundo em etapas descontínuas, deixando o homem para a última etapa. Mas no escopo bíblico não havia nada que tratasse de extinção de espécies. Afinal Noé não havia salvo todos as espécies embarcando um casal de cada uma delas na sua providencial arca? A menos que o inventário das espécies a serem embarcadas estivesse incompleto, falha logística inadmissível. Mas esse problema foi resolvido com relativa competência. Surgiu a teoria catastrofista baseada no princípio de que, além do dilúvio, o planeta terra havia passado por diversas revoluções cada uma das quais extinguia as espécies mais azaradas, dando lugar a que outras viessem ocupar o seu lugar geográfico. Era uma bela teoria que conciliava evidências concretas com princípios de fé e fazia Georges Cuvier desfilar pelos salões parisienses com toda a pompa e arrogância. Ele morreu em 1832 e não chegou a ver o declínio das suas ideias. Mas poucos anos depois seu entusiástico admirador Peter Lund (entre outros), afirmaria que animais extintos tinham convivido com espécies ainda vivas numa mesma época e local. Foi aí que a gloria do Barão Cuvier começou a definhar. Pobre Lund, preferia não ter causado isso. A enxada do diabo e a harpa de Deus A questão dos motivos que levaram Lund a interromper suas pesquisas depois de um frenético período produtivo carrega uma fascinante controvérsia. Na verdade, devo dizer que ela é mesmo um dos temas centrais desse trabalho. Claro que não houve apenas um motivo, mas há de haver uma causa predominante e é aí que se aninha o fascínio da questão. Uma laboriosa tese de doutorado produzida por Pedro Ernesto Luna Filho em concluiu que o dr. Lund foi sincero quando apontou a falta de recursos financeiros como sendo a causa da interrupção dos seus trabalhos. O autor chegou a essa conclusão após examinar a correspondência do sábio dinamarquês e constatar que ele tinha se envolvido num imbróglio financeiro em 1839 que acabou lhe provocando um prejuízo de sete contos e oitocentos mil reis (7:800$000), quantia que teria sido suficiente para impedi-lo de continuar financiando seu trabalho. Trata-se de um 35 Luna Filho, Pedro Ernesto Peter Wilhelm Lund: o auge das suas investigações científicas e a razão para o término das suas pesquisas Universidade de São Paulo
42 empréstimo feito pelo sábio e que o devedor não teve condições de honrar. 36 Felizmente Luna Filho disponibilizou suas fontes de consulta, segundo ele até agora inéditas, e pude ter acesso a elas. Mas, ousei chegar a conclusões um pouco diferentes. Quero dizer, não concordo que questões financeiras tenham sido a causa dominante que levou o dr. Lund a suspender seus trabalhos logo quando eles estavam se tornando tão interessantes. Está certo que a quantia emprestada ao mau-pagador não era desprezível mas, antes de mais nada, não me pareceu ter ficado suficientemente caracterizado que o dr. Lund não tenha sido ressarcido do prejuízo pois, apesar dos percalços do processo, há indícios de que isso possa ter acontecido em 1846 quando, segundo notícias do próprio sábio, só faltava a avaliação e execução dos bens dados em garantia ao empréstimo. 37 Há de se considerar ainda, que Lund não vivia diretamente de capital e sim dos rendimentos dele. 38 Ou seja, ele não era um empresário e sim investidor. Assim, o que poderia lhe fazer falta eram os rendimentos do empréstimo que tinha feito e que, muito provavelmente, desde 1840 já não lhe estavam mais sendo pagos, pois a situação financeira do seu devedor já era crítica e o estabelecimento que deveria gerar a renda para pagar os compromissos contraídos estava praticamente paralisado. 39 Não obstante, o sábio sustentou suas pesquisas até 1844 e, dois anos depois, provavelmente teve todo o seu capital de volta. Desta forma, por falta de recursos, na pior das hipóteses, ele teria necessidade de interromper seus trabalhos por apenas dois anos, tempo que muito bem poderia gastar naquele paciente trabalho de classificação de suas coleções. De fato ele fez isso até 1847 quando o último lote das coleções foi despachado para o Museu Real de História Natural de Copenhagen, mas depois se quedou contemplativo e improdutivo. A partir de 1844 Lund suspendeu não só suas pesquisas de campo mas mergulhou numa verdadeira letargia intelectual se limitando quase que exclusivamente a escrever minimalísticas cartas científicas. Creio que a causa dominante dessa paralisia provinha mesmo era da alma, quer dizer, eram muito mais profundas do que a rasura do bolso. Mesmo porque, um sábio de fama mundial como ele teria condições de contornar as vicissitudes menores de natureza financeira jogando seu nome contra o mecenato das reais instituições científicas de toda a Europa. Naquela época os monarcas competiam o tempo todo entre si, cada qual querendo valorizar 36 Falo de Francisco Wiszner de Morgenstern que tomou dinheiro emprestado de Lund com juros de 12% aa. para investir na sua lavra de Papafarinha em Sabará, dando a propriedade em garantia. 37 Henrik Stangerup na sua biografia romanceada de Lund (Lagoa Santa: Vidas e Ossadas), diz que os bens dados em garantia ao empréstimo foram vendidos a um cidadão inglês. 38 Quando da sua morte seu capital montava a coroas dinamarquesas e estava investido na Casa Hamann e Cia do Rio de Janeiro com juros de 6% aa. Essa foi a quantia deixada a seu herdeiro principal. Os juros dessa aplicação deviam lhe render o equivalente a 1,08 contos de reis (1:080$000), quantia suficiente para o sábio viver tranquilamente em Lagoa Santa onde não tinha nem muito com que gastar. 39 Os juros do empréstimo a Morgenstern equivaleriam a cerca de 780 mil reis anuais o que significava 39% das despesas domésticas de Lund que, segundo Gorceix, eram em média de 2 contos de reis anuais (2:000$000) 42
43 mais suas sociedades de sábios, embelezar os jardins botânicos de sua capitais e entulhar de curiosidades os museus naturalistas de suas universidades. Não só os monarcas, mas a nobreza em geral, viviam financiando expedições científicas ao novo mundo. O próprio rei da Dinamarca era um deles e na mesma ocasião tinha patrocinado uma expedição de naturalistas dinamarqueses ao redor do mundo a bordo da fragata Galathea copiando, pouco tempo depois, a aventura do HMS Beagle que faria a fama de Charles Darwin. Também o nosso jovem imperador d. Pedro II, deve ser alinhando entre os monarcas interessados em pesquisas científicas. Aliás era admirador de Lund e, se tivesse sido procurado, com certeza teria tido enorme orgulho de contribuir para que o sábio pudesse continuar suas pesquisas Cabe lembrar ainda que havia a possibilidade de Peter Lund vender suas coleções ao Museu de Copenhagen. Ele, porém, preferiu doá-las e, em carta ao rei datada de 10 de janeiro de 1845, apenas pediu que o dinheiro por ele gasto nas pesquisas fosse incorporado ao patrimônio das coleções e que os juros resultantes fossem aplicados na manutenção das mesmas. Não seria justíssimo que ele reivindicasse o ressarcimento dessa quantia para continuar suas pesquisas? Enfim, quem não teria interesse em financiar Peter Wilhelm Lund, conhecedor dos segredos das cavernas do Brasil? Ademais, o custo das explorações não parece especialmente vultoso. O próprio Lund ao solicitar ao rei da Dinamarca a constituição do fundo para manutenção das suas coleções revelou que as despesas para obtenção das mesmas tinha sido de rigsdalers, equivalentes a coroas ou 10,8 contos de reis (10:800$000) 40 e que do total para constituição do tal fundo deveria ser deduzidos rigsdalers que ele tinha recebido do governo dinamarquês para subsidiar as pesquisas. Portanto, tinha despendido do próprio bolso a quantia de rigsdalers, equivalentes a cerca de coroas ou 7,44 contos de reis (7:440$000) o que não parece suficiente para abalar a sua capacidade financeira mesmo que tenha efetivamente perdido dinheiro naquela agiotagem em que se meteu com Morgenstern. Ademais, se considerarmos que Lund gastou nove anos de pesquisas para formar sua coleção, vamos observar que suas atividades custavam rigsdalers anuais (cerca de coroas ou 1,2 contos de reais). Essa decididamente não era uma quantia significativa e somos forçosamente levados a concluir que as pesquisas de Lund não eram, em absoluto, dispendiosas. Ainda mais se lembrarmos que a casa que ele comprou em Lagoa Santa custou 1 conto de reis e que ele a comprou exatamente por ter achado o preço barato. Se considerarmos ainda que as despesas pessoais anuais de Lund eram de aproximadamente 2 contos de reis anuais podemos 40 Durante a vida de Lund o sistema monetário dinamarquês passaria por duas reformas. A primeira foi em 1813 quando a moeda vigente passou a ser o rigsbankdaler. Em 1854 houve nova mudança e a moeda passou a ser o rigsdaler, denominação que já existia antes da reforma. Em 1873 a Dinamarca e a Suécia resolveram unificar seus sistemas monetários e surgiu a coroa dinamarquesa (Danish Krone) que nasceu valendo a metade do rigsdaler. A relação entre os valores da coroa e do real (1 coroa = 600 reis) foi obtida no artigo de H. Gorceix publicado na coletânea de Carlos Paula Couto. (Vide bibliografia). 43
44 observar que talvez ele gastasse mais com filantropia e empréstimos duvidosos ao povo de Lagoa Santa do que gastaria com a continuidade das suas pesquisas. Outros pontos, especialmente em relação ao tamanho da herança deixada pelo sábio de Lagoa Santa também trabalham fortemente a favor da ideia de que Lund nunca teve incômodos financeiros. Ele tinha também recursos aplicados na Dinamarca de onde devia provir uma parte das rendas de que precisava. Escreveu Ebba Lund, bisneta de um dos irmãos de Lund: Peter Lund nunca ganhou dinheiro algum em sua vida e, mesmo com toda sua devoção ao trabalho e sorte, não poderia ter levado a vida que teve, sem a ajuda que recebeu por toda a vida, de seus irmãos e sem a fortuna de seu pai. Birgitte Holten arrematou: A maior parte da fortuna de Lund ficou investida em títulos na Dinamarca sob a vigilância constante e zelosa do irmão bancário ainda assistido pelo outro irmão, o comerciante Johann Christian Lund. Portanto, não só Lund tinha fontes de renda também da Dinamarca, como também, parece muito provável, que ele tenha conseguido reverter, pelo menos em parte, os prejuízos do temerário empréstimo que fez a Morgenstern. A cronologia das cartas remetidas aos seus advogados e procuradores de Sabará, coligidas e traduzidas por Luna Filho, permite reconstruir a história com razoável grau de certeza. O empréstimo no valor de marcos de banco deve ter sido feito por volta de agosto de 1839 e foi afiançada pela hipoteca da propriedade da Papafarinha. Logo depois do empréstimo, em 22 de fevereiro de 1840, Morgenstern e sua mulher constituíram uma sociedade mineradora com Martiniano Pereira de Castro e seu irmão e, apesar de estar hipotecada, a propriedade foi passada ao patrimônio da sociedade. Pelo contrato, o patrimônio era constituído ainda de um plantel de 20 escravos, sendo responsabilidade dos sócios integrar esse patrimônio em partes iguais. Coube ainda ao sócio Martiniano pagar a Morgenstern 1.000$000 (um conto de reis) e mais dez escravos no valor de 5.000$000 (cinco contos de reis). Portanto Martiniano deu um troco ao seu sócio de 6.000$000 (seis contos de reis) o que nos permite estimar que a propriedade da Papafarinha - que passou ao patrimônio da sociedade com todas as suas benfeitorias - valia $000 (doze contos de reis). Lund afirma em uma de suas cartas que na execução da penhora tinha direito a um ressarcimento de 7.000$000 (sete contos de reis). Portanto, o valor da propriedade devia cobrir seu prejuízo com certa folga, embora Morgenstern tivesse outros credores. Martiniano Pereira de Castro não desconhecia a situação das dívidas do sócio e consta do acordo entre eles que a sociedade faria um empréstimo de 6.000$000 (seis contos de reis) para saudar as dívidas do engenheiro húngaro, 41 naturalmente aquelas que estavam afiançadas na propriedade da Papafarinha. Portanto, tudo indica que, àquela altura, a situação financeira da sociedade estava sob controle, caso contrário um homem de negócios como Martiniano não teria tido interesse 41 Em sua Efemérides Mineiras, Xavier da Veiga diz que Morgenstern era alemão. 44
45 em entrar no empreendimento, assumindo dívidas impagáveis. Nessas circunstâncias o dinheiro de Lund não devia estar propriamente na iminência de virar pó. Está certo que a situação da sociedade foi piorando rapidamente, pois o negócio não caminhou bem e Morgenstern acabou arrendando a propriedade e dando no pé. Na verdade mudou-se para o Paraguai onde, alguns anos depois, se tornaria engenheiro do ditador Solano Lopes a quem prestaria relevantes serviços durante a Guerra do Paraguai. Acabou preso pelo duque de Caxias depois da tomada de Assunção. O curioso é que aquela era a segunda vez que Caxias prendia Morgenstern. A primeira foi em Santa Luzia, quase trinta anos antes, quando ele foi pilhado entre os revoltosos mineiros da revolução liberal de É evidente que o sábio dinamarquês teve dificuldades com o processo de execução da dívida de Morgenstern, mas isso pode ser atribuído, em parte, ao desempenho da sua trinca de advogados que parece não ter sido muito eficiente na condução do seu trabalho. Além disso, Lund perdeu muito tempo negociando os termos da prestação de serviços jurídicos com sua trupe de causídicos que, aliás, mostrava acentuada disposição em extorqui-lo. Mas, assim que o cabeça da equipe Quintiliano José da Silva passou a ser cogitado para assumir o governo da província de Minas Gerais, o negócio teve um desfecho. E ele foi favorável, como demonstraremos a seguir, rastreando a correspondência de Peter Lund. Em 20 de setembro de 1842 o sábio dinamarquês propunha os termos da contratação do dr. Quintiliano para que ele o representasse no processo. Era um acordo de risco, cabendo ao advogado arcar com as despesas e, ao final, receber 10% do valor da causa. O advogado aceitou o que denota que as perspectivas eram boas, justificando as despesas que ele pudesse ter. Em dez de novembro de 1843 Lund escrevia novamente ao seu advogado. Concordava que ele fosse ressarcido do depósito de 2% do valor da causa, expediente necessário para que o juiz pudesse proferir a sentença. Quer dizer, mais uma vez os indícios eram de que a decisão seria favorável, uma vez que o dr. Quintiliano, com certeza, não iria desembolsar cerca de 140$000 (cento e quarenta mil reis) por nada. Em 22 de fevereiro de 1844, em mais uma carta ao seu advogado, o dr. Lund pede informações sobre o dia em que será procedida a penhora ou seja, a sentença já tinha sido proferida e determinava a penhora dos bens da sociedade para pagamento das dívidas de Morgenstern. O sábio dinamarquês escreveria novamente ao dr. Quintiliano em 09 de janeiro de 1845 e, pelo conteúdo da correspondência, ficamos sabendo que também a fábrica de ferro do sócio Martiniano Pereira de Castro tinha sido incluída na penhora. Ou seja, a sentença, como, aliás, seria lógico; determinou que a execução recaísse sobre a sociedade e não sobre Morgenstern isoladamente. O fato mostra que o lastro para pagamento das dívidas era maior do que o valor representado pela propriedade da Papafarinha isoladamente. Na mesma correspondência, o signatário pedia a indicação de um procurador em Sabará para cuidar da execução da penhora. 45
46 Em correspondência de 20 de março de 1845 Lund se queixava da demora do dr. Quintiliano em lhe indicar um procurador. Isso o afligia, pois tinha ficado sabendo que havia em Sabará alguns ingleses procurando lavras para comprar. Na mesma correspondência pedia informações sobre o estado do negócio da fábrica de ferro. Em 31 de março de 1845, Lund manda o seu procurador em Sabará, João Evangelista Amado, executar o leilão da venda de um escravo. Ou, como dito, para se pôr à praça. Nova carta seria enviada ao dr. Quintiliano José da Silva em 10 de junho de Nela o sábio de Lagoa Santa pede novamente informações sobre o negócio da fábrica de ferro do Martiniano e diz que precisa dessa informação para estipular o valor que teria que cobrar na execução da lavra da Papafarinha, na qual estão também outros credores. Um mês depois, outra correspondência, revela que Lund estava aguardando para breve o término dos procedimentos para arrematação dos bens penhorados. Há uma carta, sem data, mas que foi escrita antes de julho de pois nessa data Lund enviou uma outra carta a Manuel Rodrigues de Lima - em que ele faz menção ao conteúdo da carta sem data. Acho importante transcrever o conteúdo desta carta: 42 Venho por esta me entreter com VS sobre um objeto que poderá vir a ser, espero, de mútuo interesse. VS teria algum conhecimento de um negócio que tenho e que vou lhe dar uma breve exposição. Wiszner de Morgenstern e (Martiniano?) hipotecaram as (benfeitoria?) para segurança da quantia de (7.000 marcos de banco?), vindo bem a saber: uma lavra de ouro (na região) denominada Papafarinha, uma fábrica de ferro no (?), e dois escravos por nome Antônio Crioulo e João Congo. A lavra está avaliada em $000 (quinze contos de reis). Avisei aos ditos devedores nos termos do contrato, de pagar a dívida, porém, como não cumpriram, requeri execução e obtive sentença em favor. Resta, por ora, só providenciar a avaliação e execução, como porém estou muito enfadado desse negócio, que tem sido tratado com muito desleixo, até agora por parte dos (responsáveis), porém ativála seria indispensável (?) o que ambas as circunstâncias não me permitem, desejo vender a hipoteca e por isso me dirijo a VS para saber se queria se encarregar desse negócio. A soma total em 05 de outubro de 1845 é de 8 contos, segundo (Quintiliano?), porém, dessa quantia, há de se deduzir (?) pelo que (?) for arrematado. Estou disposto a fazer algum (acordo?) não se obtendo toda a soma, e ofereço 20% do que VS obtiver. Julgo bem (informar?) a VS que uns outros credores de Wiszner que se julgam com direito de (participação?); a saber Broxado, cuja hipoteca, contudo, é inválida por falta de assinatura da mulher de Wiszner e uma casa de comércio do Rio que adquiriu as (hipotecas?). Nota ao pé da carta: 7000 marcos de banco emprestados em dia 05 de (agosto?) de 1839 a 12% ao ano, fazem em 05 de dezembro de 1845 (data em que a carta foi escrita?) marcos, os quais pelo câmbio desse dia 655 réis por cada marco, 7$ (sete contos e oitocentos e oitenta e seis mil e duzentos reis). 42 Esta carta foi compilada por Luna filho e as referências em parênteses estão ilegíveis no original, correndo por minha conta e risco as palavras inseridas. 46
47 Fiz questão de transcrever essa correspondência, pois ela serve como relatório sucinto de todo o caso e da posição em que ele se encontrava em meados de A nota do pé da carta contém informações muito interessantes. Mostra que o empréstimo foi feito em 1839 a juros de 12% ao ano e que, nas contas do ressarcimento a que almejava, Lund não se esqueceu de cobrar os juros do empréstimo. Em 26 de agosto de 1846 Lund encaminhou uma carta a Sebastião da Rocha Brandão cujo conteúdo sugere que o caso estava então encerrado. Na carta ele agradece ao advogado pelo trabalho que teve com os meus negócios e faz um pagamento complementar atendendo a uma reclamação de Brandão que levou Lund a se convencer que VS não ficou pago, como esperara, da quantia que lhe devo. Tudo indica, enfim, que o caso teve um final feliz e que, mesmo estando disposto a negociar a hipoteca, tendo outros credores com que compartilhar os bens penhorados e ainda tendo que pagar participação nos resultados a Quintiliano José da Silva (12%) e Manuel Rodrigues de Lima (20%), o valor dos bens arrematados deve ter garantido o ressarcimento do empréstimo de Lund, com juros e tudo mais. Ele contava receber perto de 8 contos de reis e para isso dispunha, para lançar à praça, de uma lavra de ouro no valor de 12 contos de reis, dois escravos que deviam valer um conto de reis e mais a tal fábrica de ferro, cujo valor não foi revelado. Mesmo tendo que repartir o bolo, é provável que o resultado final não tenha sido propriamente catastrófico a ponto de liquidar sua carreira científica. Decididamente, Peter Lund, não teve que parar de cavar cavernas por falta de recursos financeiros decorrentes desse negócio mal feito. Penso, enfim, que prosaicas questões de dívidas apenas não deveriam obstar aquele homem, exceto se elas tivessem que ser contraídas por ele mesmo com o Todo Poderoso. O ponto final Com certeza, as descobertas de Peter Lund abriram várias fendas no seu conforto moral e o abateram, tornando-o recluso e adoentado. Do lado sagrado fizeram-no sentir remorsos. Do lado da razão, talvez a dor maior tenha sido aquela proveniente do abalo das suas convicções na genialidade de Georges Cuvier. O ilustre sábio francês era alguém que ele admirava desde o princípio e de quem se afligia em ter que duvidar depois que suas pesquisas apontavam um rumo diferente para explicar a extinção das espécies. Justo depois de tê-lo conhecido pessoalmente e ter gozado da sua amável hospitalidade numa noite iluminada de muita sabedoria e prazer, bem no meio de uma Paris transbordante de elegância e inteligência. 47
48 Lund evitou criticar frontalmente a teoria catastrofista de Cuvier. Na verdade, ele procurou ser tão gentil o quanto pôde com o homem de quem tinha escrito: (...) Este grande homem que eu nunca me canso de admirar e cujas extraordinárias habilidades ele desenvolve de um modo surpreendente, ficam aparentes quando se fica próximo a ele. 43 É verdade que Lund fez críticas diretas a Cuvier, porém, elas se circunscreveram a questões metodológicas relacionadas a classificação de espécies, tais como; Uma comparação do sistema dentário de mais de cem indivíduos (de cervídeos) conduziu-me a uma inesperada conclusão de que o característico apontado por Cuvier é completamente inadaptável a este gênero como elemento de discriminação.. Ou, mais adiante: O mais imperfeito de todos os princípios de classificação nas famílias existentes é usado por Cuvier e tirado dos dentes. Em relação à teoria catastrofista, contudo, ele foi bem mais comedido e, como vimos expressamente, apenas se limitou a pedir humildemente a Reinhardt que avaliasse a possibilidade da retirada do título do conjunto das suas memórias a parte que fazia referência a última revolução da terra. Mas isso não seria suficiente para lhe trazer o conforto intelectual de que necessitava, como já veremos. Lund não queria desagradar seus mestres e, não obstante a objetividade das suas inferências, mostrou uma subserviência intelectual espantosa para um cientista talentoso. Isso revela a faceta da sua personalidade que pode ter pesado muita na sua decisão de abandonar os seus trabalhos. Com certeza, um sábio de grande capacidade analítica como Lund devia sofrer muito ao ter que vencer escrúpulos pessoais para conseguir atingir a veracidade científica das evidências objetivas com que se deparava a cada golpe da sua enxada. Mesmo depois de ter, um tanto involuntariamente, catapultado a teoria catastrofista ao museu das teorias equivocadas, Lund seguiu tentando afastar eventual remorso por botar pedrinhas no sapato de Cuvier, entortando a marcha gloriosa do notável sábio francês. Escreveu ele: O exame crítico a que Cuvier submeteu esta questão (da extinção de animais nos tempos históricos) com a sua acostumada penetração e admirável erudição tem mostrado aos olhos de todo homem desprevenido o sem fundamento dessas ideias extravagantes. (...). Pode-se dizer, com certeza, que não existe realmente fato nenhum que prove com evidência o desaparecimento de espécie alguma animal dentro dos tempos históricos Citado por Henriette Lund. (Pedro Luna Filho). 44 Carta ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro datada de 21 de abril de
49 E ei-lo, em pleno início da neurastenia, tentando botar flores no monte de destroços a que ele próprio havia reduzido o catastrofismo cuvieriano, num comentário que buscava dar um sopro de vida na obra do mestre. Mera piedade subconsciente. Lund tergiversava recorrendo à inocuidade do óbvio para nos lembrar discretamente que, como não tinha havido catástrofes nos tempos históricos, 45 também não tinha havido extinção de animais. Mas, na mesma carta que enviou ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 21 de abril de 1844, Lund acabaria por admitir finalmente a associação entre o ser humano e espécies de animais extintos e viventes. Escreveu: De sorte que não foi senão no ano passado que se me apresentou o primeiro exemplo de uma tal associação (ossos humanos e de animais), sendo os ossos humanos na localidade de que falo misturados com grande número de ossos de vários animais, todos exatamente no mesmo estado de conservação e mostrando terem sido depositados aproximadamente na mesma época. Depois de verificada esta parte da questão passei ao exame dos ossos sob o ponto de vista geológico tendo concluído pertencerem alguns a espécies ainda existentes, outros, porém, procedem de animais que já não participam da criação atual. A mente de Lund entrara num torvelinho. Não havia muito mais no que pensar. Ele havia chegado ao portal principal de uma nova dimensão e não havia mais como desviar dele, tinha que ultrapassá-lo ou desistir de continuar. Não havia saída para os lados. Até então, Peter Lund tinha conseguido avançar sobre os incômodos provenientes do dilúvio ou do apocalipse. Mas, em relação ao gênese, esse avanço abriu uma temerária hipótese para ele: a de que as espécies pudessem ser criadas aleatoriamente pela natureza e que não houvesse uma delimitação natural de eras. Isso batia de frente com aquela sua velha fé de que havia um plano divino para a criação. Se ele tinha temores com o que acontecia com o apocalipse, tinha muito mais ainda em relação ao gênese, pois devia muito mais a Deus do que a Cuvier. Será que o receio de encontrar uma espécie humana primitiva meio bestificada - ainda mais que tivesse convivido com as espécies animais atuais - foi o principal fator que o levou a suspender suas pesquisas? Seria terrível para quem, na juventude, tinha tido uma visão divina em que Deus em pessoa lhe dava sinais do que esperava dele, descobrir que nem para com sua suprema criação esse mesmo Deus tivesse uma diretriz definitiva. E foi aí que a fé venceu a ciência no coração servil de Peter Wilhelm Lund. Fato é que, a partir de então, vergado à soma de tantos fatores desencorajadores, o sábio de pouco mais de quarenta anos passou a levar uma vida mais contemplativa e reclusa. Teria ele resolvido ser um novo Niels Steesen? Falo do cientista também dinamarquês que por volta de 1770 se assustou com sua descoberta de que a calota do planeta terra era formada de várias camadas estratificadas, geologicamente distintas. Não ousou contrariar o dogma do dilúvio, jogou seus escritos no lixo e virou padre. 45 Para Lund os tempos históricos cobriam um período de cerca de três mil anos, período de pouquíssima relevância paleontológica. 49
50 Tudo, como vimos, começou a mudar no princípio do ano de Em 1840 Lund já havia encontrado os primeiros fósseis humanos na gruta do sumidouro, mas até final de 1843 ele manteve suas inferências sobre o significado do achado em situação relativamente hibernal. Neste ano, contudo, Lund encontrou uma infinidade de ossadas humanas no interior da mesma caverna onde tinha encontrado o primeiro crânio. Além disso, pôde fazer preciosas e convincentes observações geológicas. Tudo isso permitiu a ele analisar o significado dos achados de forma mais sistemática, inclusive podendo emitir opiniões consistentes sobre as característica e antiguidade do Homem da Lagoa Santa e sua coexistência com a megafauna extinta. Tinha aberto uma porta para um bom caminho mas, ao mesmo tempo, tinha cavado mais fundo do que gostaria. Num primeiro momento ele nem se deu conta disso com clareza e sua reação foi confusa, misturando sentimentos conflitantes de euforia e perplexidade. Assim mostra aquela carta confusa e reveladora que escreveu a Reinhardt em 16 de novembro de 1843, logo que a estação chuvosa começou forçando a interrupção dos trabalhos de campo no profícuo sítio da Lapa do Sumidouro: (...) Quase todas as espécies tiveram esclarecimentos consideráveis, diversos pontos obscuros se iluminaram, dúvidas foram solucionadas, teorias se confirmaram, foram corrigidas ou surgiram (...) Tais teorias surgiram tão completamente a partir de simples generalizações de fatos observados que se pronunciaram dentro de mim num grau de convicção que despertou gratas tranquilidade e satisfação. Isso contrasta muito com o descontentamento instintivo, a partir do qual minhas teorias anteriores relativas a esses pontos foram abandonadas quando não tive sucesso em perceber fenômenos específicos em harmonia. Por outro lado, não posso negar que aspectos de pontos anteriores que eu já acreditava estabelecidos foram cobertos por nova escuridão e aquilo que eu pensava ter sido esclarecido não foi totalmente ultrapassado. Isso se refere, por exemplo, a outra importante questão concernente as circunstâncias relativas à sucessão das eras e à identificação das espécies e a questão não menos importante da linha separadora entre elas. Esta se tornou para mim totalmente obscura. Mas parece não ter levado mais do que quatro meses para Lund começar a reexaminar de forma mais contundente os fragmentos que a enxada do diabo tinha exposto aos seus olhos piedosos. Uma parte daquela carta de 16 de novembro de 1843 percutia sua mente: Eu observo várias espécies extintas, como aquelas que descobri, moverem-se por baixo dessa linha em direção do presente e diversas das espécies do presente, moverem-se em direção do passado. E arrematava dramaticamente: É diante dessa descoberta que eu encaro os fatos, contra os quais resisto em nome do ser humano. Não resistiria mais. Não houve remédio. Não tinha mais como negar que não havia um indicador geológico marcando a linha divisória que separava as espécies já extintas das espécies vivas. Chegava ao ponto final. Não queria ter que admitir que a extinção dos seres vivos decorre de um complexo de variáveis ecológicas e antropogênicas que se movem aleatoriamente e de forma suave ao longo do tempo e não deixam marcas nas rochas. Além disso- e principalmente - parecia claro que Deus não intervinha muito na criação. 50
51 E foi ai que ele escreveu ao mesmo Reinhardt a já mencionada carta de 26 de abril de 1844 onde, além de pedir os tais retoques no título da coletânea das suas memórias, revela um estado de prostração intelectual que parece ser o prenúncio da trágica decisão que se avizinhava: Quatro meses se passaram desde a minha última carta e pergunto a mim mesmo o que se passou nesse período para que eu tenha ficado insatisfeito? Por ouro lado, pergunto a mim mesmo se andei para a frente quando sinto como se cada vez que dei um passo adiante, voltei outro para trás. Um conflito estava claramente estabelecido, Lund continuou administrando-o por mais alguns meses, decerto debaixo de muitas noites insones. Mas jamais conseguiria resolvê-lo, pois não tinha motivação para rever a maior parte da sua obra e, uma mera mudança de título, não ia solucionar o seu problema. A partir de 1845 passa a se preocupar exclusivamente com o destino das suas coleções. Em janeiro escreve a Reinhardt dizendo da sua intenção de parar com as pesquisas e doar seu acervo. Na mesma data escreve ao rei submetendo a ele o destino das coleções. Um ano depois recebe uma resposta de Sua Majestade informando que tinha decidido encaminhá-las ao Museu Real de História Natural. Peter Lund permaneceu trabalhando nas coleções até 1847 quando Reinhardt o filho nomeado curador das coleções pelo rei, de passagem pelo Brasil levou a última parte do acervo para a Dinamarca. A partir daí Lund passou a se ocupar de jardinagem e música e o faz até o fim da vida, conforme carta que enviou a Warming. Claro está que eu devo ter lhe incomodado o suficiente com esses assuntos aos quais me referi a botânica e os assuntos de ordem musical, aqueles com os quais eu mais me ocupo por aqui. Atualmente tenho deixado as pesquisas (...) mais e mais para trás, por causa da minha visão e força minguantes, das quais a última sempre me mantém forçado aos raros passeios até o fundo do jardim, apesar deles serem meu último desejo constante e praticamente meu único divertimento. Poucos dias depois morreria em sua casinha de Lagoa Santa, absolutamente sereno, em paz com Deus e a natureza, deixando uma pequena dívida com a ciência, intrinsecamente compensada, contudo, pela honestidade com que buscou preservar a parte que ficou. 51
52 Cronologia básica 23/09/1769 Nasce Johannes Christopher Hagemann Reinhardt, naturalista dinamarquês, mentor de Lund Nasce o botânico alemão Ludwig Riedel Nasce o desenhista Peter Andreas Brandt Cuvier descreve a preguiça terrícola extinta: Megatherium Americanum. 14/06/1801 Nasce Peter Wilhelm Lund Nasce o aventureiro dinamarquês Peter Claussen Nasce o naturalista britânico Charles Darwin Nasce o naturalista dinamarquês Johannes Theodor, filho do mentor de Lund Lund entra para a Universidade de Copenhagen Ganha dois prêmios em concursos da faculdade de medicina Publica a tese de conclusão do curso de medicina Cuvier publica a sua obra magna Discurso sobre as revoluções na superfície do globo. 08/12/1825 Lund desembarca pela primeira vez do Brasil Ganha uma bolsa de 400 rigsdalers anuais, concedidas pelo rei Frederik VI, válida por dois anos, condicionado a que as coleções brasileiras sejam enviadas ao Museu de História Natural de Copenhagen Faz uma viagem de estudos de um mês em Campos de Goitacazes Envia as primeiras coleções para o Museu de História Natural de Copenhagen (plantas e animais) Escreve um trabalho sobre pássaros sem papo (De genere euphones). 04/11/1829 Doutora-se em filosofia pela Universidade de Kiel Perde a mãe Charles Darwin inicia sua viagem ao redor do mundo a bordo do Beagle. Maio de 1831 Lund é eleito membro da Academia Real de Ciências da Dinamarca. Junho de 1831 Publica o trabalho sobre as formigas cortadeiras brasileiras nos Analles des Sciences Naturelles na França. 15/01/1033 Lund desembarca no Brasil pela segunda e definitiva vez. Setembro de 1833 Envia à Dinamarca um estudo botânico (Notas sobre as plantas comuns nas estradas e ervas daninhas do Brasil) que seria publicado em
53 13/05/1833 Morre Georges Cuvier. 12/10/1833 Lund e Riedel iniciam sua viagem de estudos através de São Paulo, Goiás e Minas Gerais. Fevereiro de 1834 Lund publica um trabalho sobre o invólucro dos ovos dos moluscos gastrópodes nos Analles. 17/09/1834 Vindos de Goiás, Lund e Riedel chegam a Paracatu. 10/10/1834 Chegam a Curvelo onde ficam conhecendo Peter Claussen. 20/10/1834 Deixam Curvelo rumo a Ouro Preto. Novembro de 1834 Passam em Lagoa Santa rumo a Sabará. 06/11/1834 Chegam a Sabará. 24/11/1834 Chegam a Ouro Preto. 06/02/1835 Lund termina o trabalho sobre o serrado (Observações sobre a vegetação dos planaltos interiores do Brasil, em especial com relação à história das plantas). 09/02/1835 Volta sozinho para Curvelo enquanto Riedel segue para o Rio de Janeiro. Agosto de 1835 Escreve seu primeiro trabalho sobre as cavernas, de inspiração Cuvieriana. 02/09/1835 Lund e Brandt deixam Curvelo. 17/10/1835 Chegam a Lagoa Santa depois de visitarem dezenove cavernas desde Curvelo. 07/11/1835 O trabalho sobre as cavernas tem boa repercussão na Europa e a Academia de Ciências aprova uma ajuda financeira para Lund por dois anos (1836 e 1837) no valor de rigsdalers anuais Darwin retorna à Inglaterra depois da viagem ao redor do mundo. 14/02/1837 Lund escreve sua primeira memória sobre a fauna das cavernas. 16/11/1837 Termina a segunda memória sobre a fauna das cavernas. 27/07/1839 Lund e Morgenstern se encontram e nesse dia pode ter sido combinado o empréstimo que causaria tantos aborrecimentos ao sábio dinamarquês Darwin publica sua obra Journal and Remarks / The Voyage of the Beagle Lund compra o imóvel em que morava em Lagoa Santa /02/1840 Lund escreve ao seu advogado Sebastião da Rocha Brandão manifestando preocupação com a segurança do empréstimo que tinha feito a Morgenstern. 25/02/1840 Morgenstern faz sociedade com Martiniano Pereira de Castro incluindo no negócio o bem hipotecado contra o empréstimo contraído com Lund com valor estipulado em 7:000$
54 11/03/1840 Lund escreve e Morgenstern cogitando de manter o capital na propriedade desde que as condições do contrato de empréstimo fossem cumpridas pontualmente. 30/01/1841 Lund termina a quarta memória sobre a fauna das cavernas. 27/03/1841 Escreve novamente a Rocha Brandão perguntando se Morgenstern tinha cumprido a promessa de, até 25/03/1841, entregar seus bens aos seus credores. 04/01/1841 Termina a quinta memória intitulada As espécies de carnívoros atuais e fósseis nos planaltos centrais do Brasil tropical. 17/04/1841 Lund escreve a seu novo advogado Quintiliano José da Silva (futuro presidente da província de Minas Gerais) pedindo a ele providências por Morgenstern não ter cumprido sua promessa de entregar seus bens aos seus credores, deixando a ele decidir por uma execução ou conciliação. 03/11/1841 Nasce Eugenius Warming Darwin produz o primeiro esboço da sua teoria da seleção natural. 17/01/1842 Lund escreve novamente a Rocha Brandão aprovando as medidas tomadas por ele. 18/01/1842 Escreve ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro dizendo ter encontrado vestígios humanos e de animais extintos juntos, mas que não podia concluir que eles conviveram na mesma época. 16/11/1843 Escreve carta a Reinhardt sugerindo ter aceito a tese da coexistência do homem com raças de animais extintos Darwin aprofunda suas notas preliminares sobre a seleção natural, material que daria origem ao seu livro sobre a evolução das espécies. 21/04/1844 Lund envia nova carta ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro apresentando a tese de que o homem atual pode efetivamente ter convivido com animais extintos. 26/04/1844 Escreve a Reinhardt propondo a mudança do título das coletâneas de memórias sobre a fauna das cavernas para Olhar sobre a criação animal vivente e extinta brasileira, mas deixando a critério do seu mentor decidir sobre isso. 10/01/1845 Escreve nova carta a Reinhardt falando da disposição de suspender as pesquisas alegando falta de recursos financeiros. Na mesma data escreve ao rei da Dinamarca colocando suas coleções à disposição para o que ele julgar conveniente. 20/03/1845 Escreve carta a Quintiliano José da Silveira pedindo a indicação de um procurador em Sabará para a venda dos bens penhorados por conta da dívida de Morgenstern Doa suas coleções ao rei da Dinamarca Christian VIII e envia os primeiros lotes. 54
55 1845 Morre Johannes Christopher Hagemann Reinhardt Faltava apenas a avaliação e venda dos bens de Morgenstern Johannes Theodor Reinhardt visita Lund e no retorno leva outro lote das suas coleções para a Dinamarca Seguem os últimos caixotes das coleções de Peter Lund Darwin inicia a elaboração do seu livro sobre a seleção natural e trabalharia nele até Ano provável da morte de Peter Claussen Encontrados os fósseis do Homem de Neaderthal Darwin publica On the origens of especies by mens of natural selection As coleções de Lund são abertas ao público na Dinamarca Morre Ludwig Riedel Morre Peter Andreas Brandt Eugenius Warming assume as funções de secretário de Lund Behrens assume as funções de secretário de Lund com a volta de Warming para a Europa Darwin publica The descent of man and the selection in relation of sex Peter Villum Roespstorff assume as funções de secretário de Lund. 05 ou 25/05/1880 Lund morre em Lagoa Santa Morre Johannes Theodor Reinhardt Morre Charles Darwin Herluf Winge inicia a revisão crítica e organização da coletânea dos trabalhos de Lund disponíveis na Dinamarca. 02/04/1924 Morre Eugenius Warming. 55
56 Referências bibliográficas ALMEIDA, Pires de Dr. Wilhelm Peter Lund (sic): O Solitário de Lagoa Santa. Belo Horizonte: in Revista do Arquivo Público Mineiro vol. 16, AULER, A.S. P.W. Lund e sua Visão das Cavernas. Belo Horizonte: in O Carst janeiro de BARBOSA, Waldemar de Almeida História de Minas Editora Comunicação (sem indicação de local e data). - Dicionário Histórico Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Ltda., BURTON, Richard Viagem de Canoa de Sabará ao Oceano Atlântico. Belo Horizonte: Editora Itatiaia/Editora da Universidade de São Paulo, CASAL, Manuel Aires de Corografia Brasílica. Belo Horizonte: Editora Itatiaia/Editora da Universidade de São Paulo, COSTA, Cláudio Manuel da Costa Fundamento Histórico do Poema Vila Rica. Rio de Janeiro: in A Poesia dos Inconfidentes, Editora Nova Aguilar, COUTO, José Vieira Memória sobre as minas da capitania de Minas Gerais. Belo Horizonte: in Revista do Arquivo Público Mineiro vol. 10, DARWIN, Charles A origem das espécies. São Paulo: Hemus Livraria Editora Ltda., HOLTEN, Birgitte Documentos para a História de uma Vida. Belo Horizonte: in O Carst, janeiro de LENAY, Charles Darwin. São Paulo: Editora Estação Liberdade, LENTIN, Jean-Pierre Penso, logo me engano. São Paulo: Editora Ática, LIMA JR., Augusto de Notícias Históricas - (sem referências editoriais). LUNA FILHO, Pedro Ernesto Peter Wilhelm Lund: O Auge das suas investigações científicas e a razão para o término das suas pesquisas Tese de doutorado São Paulo: Universidade de São Paulo, LUND, Ebba - Peter Lund e sua Família. Belo Horizonte: in O Carst, janeiro de LUND, Peter W. Memórias sobre a Paleontologia Brasileira (Organizada e comentada por Carlos Paula Couto). Rio de Janeiro: INL, MATOS, Anibal Coletânea Peter Wilhelm Lund. Belo Horizonte: Ed. Apolo, SD. 56
57 O Sábio dr. Lund e Estudos sobre a Pré-história Brasileira. Belo Horizonte: Biblioteca Mineira de Cultura Ed. Apolo, SD. MATOS, Raimundo José da Cunha Corografia Histórica da Província de Minas Gerais (1837). Belo Horizonte: Editora Itatiaia, NEVES & PILÓ, Walter Alves e Luís Beethoven O Povo de Luzia. São Paulo: Globo, SAINT-HILAIRE, Auguste de Viagem pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil. Belo Horizonte: Livraria Itatiaia Editora, SANTOS, Nereo Cecílio dos O Naturalista: Biografia do dr. Pedro Guilherme Lund. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, SILVEIRA, Álvaro da Lagoa Santa. Belo Horizonte: in Revista do Arquivo Público Mineiro vol. 11, STANGEROUP, Henrik Lagoa Santa: Vidas e Ossadas. Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, TRINDADE, Cônego Raymundo Diocese de Mariana. São Paulo: Escolas Profissionais do Lyceu Coração de Jesus, WARMING, Eugênio Lagoa Santa: Contribuição para a Geographia Phytobiológica. Belo Horizonte: Imprensa Oficial,
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