Direito da Comunicação Social. Alberto Arons de Carvalho António Monteiro Cardoso João Pedro Figueiredo

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1 Direito da Comunicação Social Alberto Arons de Carvalho António Monteiro Cardoso João Pedro Figueiredo

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3 Índice PREFÁCIO LISTA DE ABREVIATURAS Capítulo I Evolução histórica do Direito da Comunicação Social em Portugal Dos primórdios da imprensa ao alvorecer da liberdade Liberdade de imprensa e contra -revolução ( ) Os jornais políticos na turbulência ( ) Início da fase industrial da imprensa Os anos difíceis do final da monarquia A imprensa na I República A supressão da liberdade de imprensa durante o Estado Novo A continuidade marcelista A liberdade de imprensa ainda ameaçada A consolidação da liberdade de imprensa A abertura da comunicação social ao sector privado Os novos desafios da comunicação social Capítulo II As fontes do Direito da Comunicação Social I As fontes do Direito em geral Fontes de Direito e suas relações

4 2. Conflitos de normas II As fontes do Direito da Comunicação Social Secção I A Constituição da República Portuguesa Os princípios constitucionais fundamentais O princípio do Estado de direito O princípio democrático O princípio do Estado de direito democrático Estado de direito democrático e pluralismo O conceito constitucional de pluralismo Pluralismo e comunicação social Os direitos fundamentais A compreensão constitucional dos direitos fundamentais Dimensão subjectiva e objectiva Direitos fundamentais, pluralismo e Estado de direito democrático O regime constitucional dos direitos fundamentais O artigo 18. o da Constituição Colisão de direitos fundamentais Secção II Direito Internacional Convencional O Conselho da Europa A Convenção Europeia dos Direitos do Homem A Convenção Europeia sobre Televisão Transfronteiras Resoluções da Assembleia Parlamentar e do Conselho de Ministros Secção III Direito Comunitário A União Europeia As normas dos Tratados aplicáveis ao audiovisual A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia A Directiva «Serviços de Comunicação Social Audiovisual» Âmbito de aplicação: os serviços de comunicação social audiovisual

5 4.2. Uma abordagem diferenciada: os serviços lineares e os serviços não -lineares de comunicação social audiovisual Normas aplicáveis ao conjunto dos serviços de comunicação social audiovisual Normas apenas aplicáveis às emissões televisivas Publicidade televisiva e televenda Promoção da produção e da distribuição de programas televisivos Direitos exclusivos de transmissão de acontecimentos de grande interesse para o público e curtos extractos noticiosos Protecção de menores Direito de resposta Normas exclusivamente aplicáveis aos serviços audiovi suais a pedido Promoção de obras europeias Protecção de menores Curtos extractos informativos Secção IV Direito interno Capítulo III A liberdade de expressão e informação Capítulo IV A liberdade de comunicação social I Os direitos dos jornalistas Secção I Noção de jornalista e acesso à actividade Origem do conceito e a sua evolução em Portugal O regime vigente do acesso à actividade Secção II A liberdade de criação e o direito de autor dos jornalistas Referência histórica Enquadramento jurídico actual

6 3. Regime geral do direito de autor Âmbito da protecção O conteúdo do direito de autor Faculdades patrimoniais Faculdades pessoais A titularidade do direito de autor Regra geral Casos excepcionais a) Obras por encomenda ou por conta de outrem b) Obras colectivas A protecção de obras jornalísticas Exclusão da protecção Utilizações livres A titularidade do direito de autor dos jornalistas Condições de utilização das obras jornalísticas Direitos pessoais do jornalista autor Arbitragem de conflitos em matéria de direito de autor Secção III O direito de acesso às fontes de informação Os direitos à informação administrativa O regime específico dos jornalistas O acesso aos documentos administrativos Objecto do direito de acesso Entidades obrigadas a facultar o acesso As restrições ao direito de acesso Os documentos nominativos Os segredos de empresa O segredo de Estado O segredo de justiça O acesso a locais públicos Direito à informação e direito ao espectáculo O direito à transmissão de extractos informativos Os limites à aquisição de direitos exclusivos televisivos

7 Secção IV O direito ao sigilo profissional Origem e fundamentos O direito ao sigilo profissional na actual legislação Secção V A garantia da independência Origem e fundamentos A garantia da independência na actual legislação Secção VI O direito de participação Origem e fundamentos O direito de participação na actual legislação II A liberdade de empresa O direito à livre fundação de jornais O direito de acesso às actividades de rádio e de televisão A classificação dos serviços de programas Os requisitos dos operadores As restrições no acesso à actividade As regras sobre transparência da propriedade Concorrência, não concentração e pluralismo As modalidades de acesso Renovação dos títulos e modificação do projecto aprovado A liberdade interna e as suas limitações III Garantias de independência e pluralismo na comunicação social Secção I Os princípios fundamentais O princípio da transparência O princípio da especialidade O princípio da não concentração O princípio da independência e o pluralismo Secção II O regime de incentivos à comunicação social O interesse público da comunicação social e a política de incentivos

8 2. O actual regime de incentivos Secção III O serviço público de rádio e de televisão Origem e evolução do modelo europeu de serviço público O serviço público de rádio e televisão em Portugal: regime constitucional e legal O regime constitucional do serviço público As leis e os contratos de concessão dos serviços públicos de rádio e de televisão Os princípios e as obrigações do serviço público Independência Pluralismo Universalidade Diversidade Qualidade Inovação Valorização da cultura e da identidade nacionais Protecção das minorias Indivisibilidade O modelo de financiamento do serviço público de radiodifusão e de televisão O serviço de interesse público prestado pela Lusa Capítulo V Os limites à liberdade de comunicação social I As infracções cometidas através da comunicação social Secção I A responsabilidade criminal Os crimes contra a honra Difamação Injúria Ofensa à memória de pessoa falecida Ofensa a pessoa colectiva, organismo ou serviço Os crimes contra a reserva da vida privada Devassa da vida privada Violação de correspondência ou de telecomunicações

9 2.3. Violação de segredo Gravações e fotografias ilícitas Violação de segredo de Estado Ofensa à honra do presidente da República Violação do segredo de justiça A autoria nos crimes praticados através de meio de comunicação social Secção II A tutela civil dos direitos de personalidade O direito à reserva sobre a intimidade da vida privada O direito à imagem e o direito à palavra O direito ao crédito e ao bom nome Secção III A responsabilidade contra -ordenacional Secção IV A responsabilidade disciplinar dos jornalistas II O direito de resposta e de rectificação Conceito O regime vigente III Os limites à liberdade de programação Secção I As limitações negativas O respeito pela dignidade humana e pelos direitos fundamentais A proibição do incitamento ao ódio A protecção de crianças e adolescentes A proibição de propaganda política Os limites à publicidade A comunicação comercial audiovisual Publicidade televisiva e televenda O patrocínio A colocação de produto A ajuda à produção As comunicações virtuais A publicidade interactiva

10 5.8. A sujeição aos princípios gerais Restrições ao conteúdo Restrições ao objecto Secção II As limitações positivas Subsecção I Os deveres de divulgação Os direitos de antena, de resposta e de réplica política As mensagens de divulgação obrigatória A divulgação das recomendações e decisões da ERC A divulgação de sentenças judiciais Subsecção II As quotas de programação A defesa da língua e da cultura portuguesas A defesa das produções europeia e independente A defesa da música portuguesa Subsecção III As obrigações de programação própria e conteúdos de índole regional ou local Subsecção IV A acessibilidade por pessoas com necessidades especiais Subsecção V Anúncio da programação televisiva Capítulo VI As instâncias de regulação da comunicação social Objectivos da regulação da comunicação social Origem e principais características das instâncias de hetero- -regulação da comunicação social As instâncias de regulação no direito comparado Estados Unidos: a Federal Communications Comission (FCC) Canadá: o Conselho da Radiodifusão e das Telecomunicações (CRTC) França: o Conseil Supérieur de l Audiovisuel (CSA)

11 3.4. Itália: a Autorità per le Garanzie nelle Comunicazioni (AGCOM) Reino Unido: o OFCOM (Office of Communications) e o Trust da British Broadcasting Corporation (BBC) A regulação da comunicação social em Portugal Antecedentes históricos A ERC Entidade Reguladora para a Comunicação Social Enquadramento constitucional Natureza e estrutura Atribuições, competências e âmbito de intervenção Poderes de supervisão e de sanção A Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ) O ICP Autoridade Nacional das Comunicações (ICP- -ANACOM) BIBLIOGRAFIA

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13 CAPÍTULO I Evolução Histórica do Direito da Comunicação Social em Portugal 1. Dos primórdios da imprensa ao alvorecer da liberdade A invenção da tipografia por Gutenberg, que em 1456 publica o primeiro livro impresso na Europa, veio operar uma notável revolução na difusão das ideias, determinando a adopção de medidas de controlo, tanto pelas auto ri da des civis como pelas eclesiásticas. Em Portugal, onde se imprimiram os primeiros livros em finais do século XV, instituiu -se logo em 1537 um regime de censura prévia eclesiás tica, a cargo do Santo Ofício e do bispo da diocese. Tam bém a Coroa inter vinha, quer através da concessão de privilégios de impressão, quer da censura exercida pelo Desem bargo do Paço 1. Esta primeira actividade censória, nos anos de Quinhentos, levou a que saíssem truncadas numerosas obras, entre as quais a segunda edição de Os Lusíadas de 1584 e uma compila ção de obras de Gil Vicente de Este controlo preventivo, através da cen sura, era complementado pela proibição dos livros, que figuravam nos «Index», publi cados pelo papa e pela Inquisição, o que impediu a circulação em Portugal de obras fundamentais da cultura euro peia. Não obstante a proliferação de folhas noticiosas impressas, a imprensa perió dica aparece tardiamente na Europa, quase dois séculos 1 Cf. o alvará de 20 de Fevereiro de 1537, pelo qual se concedeu a Baltasar Dias o privilégio de impressão das suas obras, que deviam ser previamente examinadas pelo mestre Pedro Margalho.

14 24 DIREITO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL após a introdução da tipografia, apontando -se a Gazette, uma folha semanal, publicada em Paris por Théophraste Renaudot, a partir de 1631, como o primeiro protótipo dos jornais modernos 2. Em Portugal, a imprensa periódica surge logo a seguir à restauração de 1640, com a publicação das chamadas Gazetas da Restauração e do Mercurio Portuguez, que tinham como prin cipal assunto as notícias da guerra com a Espanha 3. Ao longo da primeira metade do século XVIII, à excepção da Gazeta de Lisboa, o primeiro jornal oficial, criado em 1715 e que durará até 1833, publi cam -se somente cinco periódicos, quase todos de pendor recreativo e de duração efémera. Durante o governo de Pombal, instituiu -se em 1769 a Real Mesa Cen sória, que irá manter -se até 1794, após o que a censura volta a caber ao Desem bargo do Paço, ao Santo Ofício e ao bis po da diocese. A partir de finais do século XVIII 4, sob o influxo das ideias iluministas, a liberdade de imprensa começa a impor -se, o que leva à sua consagração legal em alguns países. O primeiro a fazê -lo foi a Suécia, em 1766, seguindo -se a Declaração de Direitos do Estado da Virgínia de 1776 e a primeira emenda da Constituição dos Estados Unidos, introduzida em 1791 e ainda hoje em vigor 5. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, apro vada pelos consti tuintes franceses em 1789, que declara a liberdade de opinião e de publicação como um dos direitos mais preciosos do homem, estabelece um princípio basilar, que não tardará a ser seguido em toda a Europa. 2 Cf. BALLE, Francis (1999), pp A Gazette, denominada Gazette de France a partir de 1762, representou um instrumento de propaganda da política absolutista levada a cabo pelo cardeal Richelieu, seu protector. 3 Apesar de defender a causa da restauração, a Gazeta foi suspensa em Outubro de 1642, reaparecendo meses depois limitada às notícias de fora do reino. A Gazeta foi transcrita por Eurico Dias (2006) e estudada, quanto ao discurso, por Jorge Sousa e outros (2011). O Mercurio Portuguez, publicado entre 1663 e 1666, foi transcrito e comentado por Eurico Dias (2010). Ambas as publicações estão acessíveis na biblioteca nacional digital (http://putl.pt/1294 e respectivamente). 4 Um século antes, em 1644, o poeta inglês John Milton defendera num panfleto chamado Areopagitica a liberdade de imprimir sem licença (liberty of unlicensed printing). No entanto, este direito inscrevia -se nos limites da procura da verdade cristã, apanágio dos puritanos, sem o alcance geral que lhe conferiram as revoluções liberais, cf. BALLE, Francis (2009), pp Quanto a esta questão, a primeira emenda dificilmente poderia ser mais sintética: «O Congresso não fará nenhuma lei restritiva da liberdade de palavra ou de imprensa.»

15 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO DIREITO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL EM PORTUGAL 25 Contudo, o terror causado em Portu gal pela Revolução Francesa provocou um redobrar da vigilância em relação à imprensa, em que se destacou o inten dente -geral da polícia de D. Maria I, Pina Manique. Somente anos mais tarde, no contexto da resistência contra os franceses, se assistiu, em , a um novo surto de fundação de periódicos, datando desta época os primeiros diários 6. Porém, a partir de 1810, prevaleceu uma política repressiva, que acabou por asfixiar a maior parte dos jornais e conduzir ao exílio muitos dos que neles escreviam 7. Assiste -se então a um fenómeno inédito, que se traduz na publicação de numerosos jornais escritos em português no estrangeiro, que logram difundir -se em Portugal e no Brasil, exercendo uma forte influên cia na opinião pública, sobretudo no plano político, mas também na área da divulgação de conhecimentos científicos. A maior parte desses periódicos publicou -se em Londres, num total de nove, destacando -se o Correio Braziliense ( ), O Investigador Portuguez em Inglaterra ( ), O Portuguez ( ) e o Campeão Portuguez ( ). Introduzidos em Portugal e no Brasil, principalmente através de navios de comércio britânicos que não eram vistoriados pelas autoridades, estes jornais, quase todos mensais, lograram subsistir, graças aos seus assinantes e ao apoio dos negociantes portugueses em Londres 8. Divididas entre dois centros de poder, a corte e o governo do Rio de Janeiro e os governadores de Lisboa, as autoridades assumem, de início, uma atitude relativamente permissiva, a que se sucede uma política de proibições, sempre pouco eficazes, acompanhada de ofertas de dinheiro para moderar estes periódicos ou colocá- -los ao seu serviço 9. Os três periódicos em língua portuguesa publicados 6 A Minerva Lusitana, publicada em Coimbra entre 1808 e 1811, e o Diário Lisbonense, saído em Lisboa, entre 1809 e 1813, foram os primeiros jornais diários portugueses. Estão ambos acessíveis na biblioteca nacional digital (http://purl.pt/1212 e purl.pt/14341, respectivamente). Sobre os periódicos publicados durante as invasões francesas, cf. TENGARRINHA, José (1989), pp Foi o caso de João Bernardo da Rocha Loureiro que, vendo proibido o Correio da Peninsula ou Novo Telegrapho (Lisboa, 3 de Julho de 1809 a 2 de Agosto de 1810), que redigira com Pato Moniz, funda em Londres o Espelho Político e Moral (Maio de 1813 a Fevereiro de 1814), seguindo -se o Portuguez ou Mercurio Político. 8 Cf. TENGARRINHA, José (2003) e (2004). 9 Redigido por Hipólito José da Costa, o Correio Braziliense foi proibido de circular por diversas ordens régias, envidando -se esforços infrutíferos para expulsar o seu

16 26 DIREITO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL em Paris empenharam -se acima de tudo na difusão da cultura científica e tecnológica, salientando -se nesse campo os Annaes das Sciencias, das Artes e das Letras (Julho de 1818 a Abril de 1822) Liberdade de imprensa e contra -revolução ( ) A instauração de um sistema constitucional, na sequência do triunfo do movi mento desencadeado no Porto em 24 de Agosto de 1820, abriu o caminho para a instauração, pela primeira vez, de um regime de liberdade de imprensa em Portugal 11. Deste modo, no n.º 8 das Bases da Constituição estabeleceu -se que «a livre comunicação dos pensamentos é um dos mais preciosos direitos do homem», pelo que todo o cidadão podia, «sem dependência de censura prévia», manifestar as suas opi niões, respondendo pelo abuso dessa liberdade nos termos da lei. Porém, no art.º 10.º das Bases, que depois passou para a Constituição de 1822, com o n.º 8, dispunha -se que, quanto ao abuso que se pudesse fazer da liberdade de imprensa em matérias religiosas, ficava salva aos bispos «a censura dos escritos publicados sobre dogma e moral». Uma deficiente interpretação desta norma tem levado alguns autores a concluir erradamente que existiu censura prévia naquelas matérias, sustentando que este regime era mais restritivo do que o estabelecido na Constituição espanhola de redactor de Inglaterra. O Investigador foi fundado em 1811, contando com um apoio da embaixada portuguesa em Londres, no propósito de neutralizar a influência do Correio. Porém, em Fevereiro de 1819, aquele apoio foi retirado, na sequência de posições críticas veiculadas pelo seu redactor José Liberato Freire de Carvalho, que naquele ano fundou o Campeão Portuguez. Também o Correio recebeu em algumas ocasiões apoios da Corte do Rio, no sentido de o moderar. Porém, a partir da conspiração de Gomes Freire e da rebelião de Pernambuco em 1817, prevaleceu uma política de forte repressão de ambos os jornais, extensiva ao Portuguez. 10 O papel dos periódicos portugueses de emigração ( ) na divulgação científica e na transformação do país foi desenvolvidamente estudado por Fernando Egídio Reis (2007). 11 Até à aprovação da Lei de Imprensa funcionou uma comissão de censura, nomeada pelo governo, cuja actividade não logrou impedir a fundação de numerosos jornais, cf. VARGUES, Isabel (1997), pp , e TENGARRINHA, José (1993), pp A Constituição espanhola de 1812 dispunha no seu art.º 371.º que: «Todos os Espanhóis têm liberdade de escrever, imprimir e publicar as suas ideias políticas sem

17 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO DIREITO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL EM PORTUGAL 27 A verdade é que esta censura confiada aos bispos era somente exercida a posteriori, como ficou claro no debate travado na sessão das Cortes de 15 de Fevereiro de 1821, no qual se rejeitou a censura prévia, também em matérias de dogma e de moral, por 46 votos contra 32. Aprovadas as Bases da Constituição, seguiu -se a publicação da lei de 12 de Julho de 1821, a primeira lei sobre a liberdade de imprensa da história portuguesa, que tem como aspecto essen cial a inexistência total de censura prévia. Os abusos de liberdade de imprensa, tipificados na lei, eram apreciados por jurados, chamados juízes de facto, com recurso para um Tribunal Especial de Protecção da Liberdade de Imprensa. A Constituição de 1822, aprovada no ano seguinte, veio reafirmar o disposto nas bases e na Lei de Imprensa. Neste primeiro período de liberdade de imprensa fundaram -se numerosos periódicos, que atingiram os 39, somente em 1821, quase todos publicados em Lisboa, no Porto e em Coimbra, à excepção do Azemel Vimaranense e do Patriota Funchalense. Escritos numa linguagem simples e directa, os jornais desta época desempenham um importante papel político, promovendo a difusão das ideias constitucionais junto da população menos esclarecida 13. Porém, sobretudo a partir de 1822, surgem também em campo periódicos abertamente contra -revolucionários 14, escritos num estilo truculento, que obri gam a medidas repressivas excepcionais 15. Por fim, o triunfo da Vila -Francada, em 3 de Junho de 1823, conduz à queda do necessidade de licença, revisão ou aprovação alguma anterior à publicação, com as restrições e responsabilidades que as leis estabeleçam.» A restrição deste direito às «ideias políticas» permitiu a existência de censura prévia em matérias religiosas, a cargo de juntas diocesanas. Sobre a acção desta censura em Espanha durante o triénio constitucional ( ), cf. GARCIA, Juan (2003) e HIGUERELA, Leandro (1980). 13 O jornal mais lido em Lisboa era o Astro da Lusitânia. No Porto, destacava -se a Borboleta, que se propunha difundir as ideias constitucionais, através de um estilo simples, adequado à compreensão vulgar. 14 Distinguiram -se a Gazeta Universal, o Patriota Sandoval, o Braz Corcunda e um conjunto de periódicos com nomes de instrumentos musicais, como a Trombeta Lusitana, o Rabecão, a Sega -Rega, O Serpentão e a Gaita. 15 O editor ou impressor passou a ser responsável pelos escritos dos autores ausentes, punindo -se também os que divulgassem escritos impressos no estrangeiro em que se atacasse o Estado (Decretos de 29 de Janeiro de 1822 e de 17 de Outubro de 1822), cf. TENGARRINHA, José (1993), pp

18 28 DIREITO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL regime constitucional, o que se traduziu no restabelecimento da censura prévia e na exigência de autorização para a fundação de jornais 16. Deste modo, entre 1823 e 1826, somente se publicam em Portugal periódicos de orientação absolutista 17, enquanto alguns liberais, refugiados em Londres, animam um segundo ciclo de imprensa de emigração, que procuram introduzir clandestinamente em Portugal 18.O segundo período constitucional inicia -se em finais de 1826, com a outorga por D. Pedro da Carta Constitucional, na qual se garante a liberdade de imprensa, «sem dependência de Censura» (art.º 145.º, 3.º). Apesar de a censura se ter mantido em vigor, enquanto não era aprovada a Lei de Imprensa, assistiu -se a uma segunda vaga de fundação de periódicos, quase todos empe nhados na defesa do regime da Carta 19. A partir de meados de 1827, acentua -se a repressão contra os periódicos liberais, que obriga muitos deles a interromperem a publicação 20. A tomada do poder por D. Miguel como rei absoluto, em Maio de 1828, acarretou a aniqui lação total da liberdade de imprensa, levando ao encerramento dos jornais liberais e à prisão dos que neles escreviam, enquanto outros, refugiados em Inglaterra, França e nos Açores, 16 Inicialmente confiada a comissões de censura, a partir de Março de 1824, a censura prévia voltou a competir ao Desembargo do Paço e aos ordinários diocesanos, o que representava o regresso ao regime anterior a 1820, embora sem intervenção do Santo Ofício, extinto pelas Cortes e que não foi restabelecido. 17 Além da oficial Gazeta de Lisboa e do Correio do Porto, que alinhara com o absolutismo, proliferou nesta época uma imprensa atrabiliária de ódio contra os liberais, identificados com os pedreiros -livres, de que constitui exemplo o célebre Punhal dos Corcundas, da autoria de Frei Fortunato de São Boaventura, publicado em 1823 e Publicaram -se então em Londres quatro jornais: O Português, O Popular, O Correio Inter cep tado e o Padre Amaro ou Sovela Política, Histórica ou Literária. 19 No mês de Setembro de 1826, e só na capital, saíram mais de 20 periódicos, enquanto ao longo do ano surgiram 48 novas publicações. Destacaram -se em Lisboa O Português, de Garrett, que teria entre 6000 a 8000 leitores e O Periódico dos Pobres, que atingiria a leitores, graças ao baixo preço de apenas 10 réis. No Porto, destacaram -se O Imparcial e A Borboleta. A censura via -se impossibilitada de examinar um tão grande número de jornais, causando dificuldades, que levaram ao encerramento de alguns periódicos, cf. TENGARRINHA, José (1993), pp Após os tumultos nocturnos ocorridos em fins de Junho de 1827, que ficaram conhecidos como «Archotadas», desencadeou -se uma vaga repressiva, de que resultou o encerramento dos jornais liberais e a prisão de jornalistas, como Almeida Garrett, redactor d O Português, que então cessou a publicação.

19 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO DIREITO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL EM PORTUGAL 29 publicavam periódicos, através dos quais procuravam animar a resistência contra o «usurpador» 21. Por decreto de 16 de Agosto de 1828, a censura voltou a ser exercida pela Mesa do Desembargo do Paço, uma medida que não tinha em vista os jornais liberais, que tinham sido suprimidos, mas sim um conjunto de periódicos miguelistas, dominados por uma facção ultra, que incitava à violência e atacava, por vezes, o próprio governo de D. Miguel, que considerava demasiado moderado 22. A derrota de D. Miguel em 1834, ao fim de quase dois anos de guerra civil, abre finalmente a via para a instituição de um regime liberal e do mais longo período sem censura prévia que Portugal conheceu. 3. Os jornais políticos na turbulência ( ) Com o restabelecimento da Carta Constitucional de 1826 e a publicação da Lei de Imprensa de 22 de Dezembro de instaura -se um regime caracterizado pela inexistência de censura prévia, em que os abusos são puni dos por tribunais com jurados, estabelecendo -se um regime de responsabilidade sucessiva em que o editor só poderia ser punido na falta do autor 24. Este regime incentivou a criação de 21 Refira -se, por exemplo, o Chaveco Liberal, dirigido por José Ferreira Borges, Almeida Garrett e Paulo Midosi, publicado em Londres, entre 9 de Setembro e 30 de Dezembro de 1829, acessível na biblioteca nacional digital (http://purl.pt/12092/3/). A regência estabelecida na ilha Terceira criou como órgão oficial a Crónica da Terceira, a que se seguiram, já no continente, durante a guerra civil, a Crónica Constitucional do Porto e a de Lisboa. 22 Em Agosto de 1828, a Trombeta Final teve de suspender a publicação, tal como o Clarim dos Realistas Portugueses Emigrados em Espanha de Alvito Buela. Em Outubro de 1829 foi suspensa a Besta Esfolada, de José Agostinho de Macedo, restando apenas a Gazeta de Lisboa, órgão oficial e o Correio do Porto, que tinha um carácter oficioso. No entanto, a partir de Setembro de 1830, numa conjuntura de maior influência dos ultras, os periódicos «exaltados» reaparecem em força com a publicação, entre outros, do Desengano de José Agostinho de Macedo, da Contramina de Frei Fortunato de S. Boaventura e da Defesa de Portugal de Alvito Buela. 23 Grande parte das leis de imprensa, publicadas nos períodos da Monarquia Constitucional, I República e Estado Novo, estão acessíveis online no sítio -lisboa.pt/. 24 Esta legislação foi alterada pela lei de 30 de Abril de 1835 e pelas leis de 9 e 16 de Junho de 1837, num sentido mais repressivo, que visava sobretudo os periódicos

20 30 DIREITO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL numerosos perió di cos, que se assumem agora como órgãos dos partidos ou facções em disputa pelo poder. A emergência de uma ala liberal mais radical, que triunfa na revo lução de Setembro de 1836, repondo em vigor a Constituição de , conta com o envolvimento propagandístico de periódicos combativos, como A Vedeta da Liberdade ou O Nacional, a que respondem jornais cartistas, não menos aguerridos, como O Artilheiro e O Periódico dos Pobres no Porto. As sublevações militares dos cartistas contra os setembristas no poder, que culminaram na «Revolta dos Marechais» (Saldanha e Terceira), entre Julho e Setembro de 1837, conduziram à suspensão das garantias, acarretando o silenciamento da imprensa, à excepção do Diário do Governo e do jornal O Nacional, afecto ao governo. No rescaldo destes acontecimentos, através da lei de 10 de Novembro de 1837, foram introduzidas alterações restritivas à Lei de Imprensa, de modo a tornar mais efectiva a responsabilidade dos editores e acelerar o julgamento dos processos 26. A afirmação política da corrente denominada «ordeira» que, a partir do governo, combate os radicais setembristas, origina uma forte ofensiva contra os periódicos da oposição, sobretudo após a publicação da Lei de Imprensa de 19 de Outubro de 1840, que vem sujeitar o editor miguelistas, que sofreram numerosos processos judiciais, os quais, somados a intimidações contra os redactores e assinantes, determinaram o carácter efémero da maior parte deles. Distinguiram -se pela maior duração e influência O Eco ( ) e o Portugal Velho ( ), seguidos mais tarde e já noutro contexto pelo jornal A Nação ( ). 25 A Constituição de 1822 vigorou até à Constituição de 1838, em cujo art.º 13.º se garantia a todo o cidadão o direito de «comunicar os seus pensamentos pela imprensa ou por qualquer outro modo, sem dependência de censura prévia». No 2.º dispunha -se que nos «processos de Liberdade de Imprensa» o conhecimento do facto e a qualificação do crime pertenceriam exclusivamente aos jurados. Esta Constituição, em que pela primeira vez se garantiu o direito de associação e de reunião, vigorou até ao restabelecimento da Carta Constitucional em 10 de Fevereiro de 1842, na sequência do movimento militar de 27 de Janeiro daquele ano, liderado por Costa Cabral. 26 Como o editor era muitas vezes um «testa -de -ferro», insusceptível de responsabilidade, passou a exigir -se que fosse português, maior de 25 anos e que possuísse bens capazes de garantir em juízo 1200$00 réis. Se não reunisse estes requisitos, responsabilizava -se o impressor. Os empregados do Ministério Público que fossem negligentes nestes processos ficavam sujeitos a penas de suspensão até seis meses. Previa -se ainda a apreensão da estampa ou impresso objecto de queixa, logo que o júri indiciasse o réu pela prática do crime.

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