ESTUDO SOBRE CÉLULAS-TRONCO



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Transcrição:

ESTUDO ESTUDO ESTUDO SOBRE CÉLULAS-TRONCO Dr. Hugo Fernandes Junior Consultor Legislativo da Área XVI Saúde Pública e Sanitarismo ESTUDO MARÇO/2004 Câmara dos Deputados Praça 3 Poderes Consultoria Legislativa Anexo III - Térreo Brasília - DF

ÍNDICE I O QUE SÃO CÉLULAS-TRONCO E POR QUE ELAS SÃO IMPORTANTES?...3 II QUAIS AS PROPRIEDADES EXCLUSIVAS DE TODAS AS CÉLULAS-TRONCO?...4 III CARACTERÍSTICAS DAS CÉLULAS-TRONCO...5 IV QUAIS OS USOS POTENCIAIS DAS CÉLULAS-TRONCO HUMANAS E OS OBSTÁCULOS QUE PRECISAM SER SUPERADOS PARA TAL UTILIZAÇÃO?...6 V LEGISLAÇÃO INTERNACIONAL...6 VI LEGISLAÇÃO NACIONAL...7 VII PROPOSTAS EM TRAMITAÇÃO...7 VIII NECESSIDADE DE PROJETO DE LEI SOBRE O TEMA...8 2004 Câmara dos Deputados. Todos os direitos reservados. Este trabalho poderá ser reproduzido ou transmitido na íntegra, desde que citado o autor e a Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. São vedadas a venda, a reprodução parcial e a tradução, sem autorização prévia por escrito da Câmara dos Deputados. 2

ESTUDO SOBRE CÉLULAS-TRONCO Dr. Hugo Fernandes Junior BUscamos no presente Estudo, proporcionar uma visão panorâmica da questão das células-tronco, seu uso, disponibililidade, avanços científicos e reflexos sobre a medicina e legislação nacional e de outros países. Avaliamos, também, a pertinência de apresentação, no âmbito da Câmara dos Deputados, de Projeto de Lei para regulamentar a Lei. Tendo em vista a disponibilidade de material de excelente qualidade elaborado pelo National Institute of Health agência governamental norte-americana para a pesquisa científica na área médica e de saúde, optamos pela sua tradução e adaptação parciais (itens I a IV). Propositadamente, na medida do possível, evitamos o emprego de termos científicos que dificultariam sua compreensão por pessoas não familiarizadas com o tema. I O QUE SÃO CÉLULAS-TRONCO E POR QUE ELAS SÃO IMPORTANTES? As células-tronco têm duas características importantes que as distinguem de outros tipos de células. Primeiro, elas são células não especializadas que se renovam por períodos longos por meio de divisão celular. O segundo é que sob certas condições, fisiológicas ou experimentais, elas podem ser induzidas a se tornarem células com funções especiais, como as células do músculo cardíaco ou as células insulino-produtoras do pâncreas. Cientistas trabalham principalmente com dois tipos de células-tronco de animais e humanos: células-tronco embrionárias e células-tronco adultas que têm funções e características diferentes, explicadas mais abaixo. Os pesquisadores descobriram, há mais de 20 anos, formas para obter células-tronco de embriões jovens de rato. Após anos de estudos detalhados da biologia de células-tronco daqueles animais, em 1998, chegou-se a técnicas que permitiram isolar células-tronco de embriões humanos e cultivá-las em laboratório. Estas são chamadas de células-tronco embrionárias humanas. Os embriões usados nesses estudos foram criados para tratamento de infertilidade, por intermédio das técnicas de fertilização in vitro e que, por não serem mais necessários para esse propósito, foram doados para pesquisas com o consentimento informado do doador. 3

As células-tronco são fundamentais para os organismos vivos por várias razões. No embrião entre o 3º e 5º dia de desenvolvimento, chamado de blastocisto, ainda não implantado na parede uterina, um pequeno grupo de aproximadamente 30 células, chamado de massa celular interna (ou embrioblasto), dá origem a centenas de células altamente especializadas, necessárias à formação de um organismo adulto. No embrião em desenvolvimento, as célulastronco dão origem aos múltiplos tipos de células especializadas que irão conformar o coração, pulmões, pele e outros tecidos. Em alguns tecidos adultos, tais como medula óssea, músculo e cérebro, uma população limitada de células-tronco gera as peças de reposição para as células que se perderam a partir do funcionamento normal do organismo, de lesões ou de doenças. Tais conhecimentos levaram os pesquisadores a formular a hipótese de que essas células-tronco poderiam, no futuro, tornar-se a base para o tratamento de doenças como a Doença de Parkinson, diabetes e doenças cardíacas. Os cientistas desejam estudar as células-tronco em laboratório de modo a compreender suas propriedades essenciais e o que as faz diferentes das células especializadas. Adicionalmente, poderá ser possível usá-las não apenas em terapias celulares, mas também para o estudo de novas drogas e toxinas e para a compreensão de muitas doenças congênitas e genéticas. Entretanto, como mencionado anteriormente, as células-tronco embrionárias humanas só foram estudadas a partir de 1998. Desse modo, para o desenvolvimento de tais tratamentos, os cientistas estão estudando intensivamente as propriedades fundamentais das células-tronco, entre as quais: 1) determinação precisa de como as células-tronco permanecem não especializadas e autorenováveis por tantos anos; e 2) identificação dos sinais que levam uma célula-tronco a se tornar uma célula especializada. II QUAIS AS PROPRIEDADES EXCLUSIVAS DE TODAS AS CÉLULAS- TRONCO? As células-tronco diferem de todas as demais células de um organismo. Todas as células-tronco indiferentemente de qual seja a sua fonte apresentam três propriedades gerais: são capazes de se dividir e de se renovar por longos períodos; são não especializadas; e podem dar origem a células especializadas. Os pesquisadores tentam entender duas propriedades fundamentais desse tipo de células que se relacionam à sua capacidade de renovação por longos períodos: 1) porque as células-tronco embrionárias podem proliferar em laboratório por um ano ou mais sem se diferenciarem, enquanto a maioria das células-tronco adultas não; e 2) quais são os fatores no organismo vivo que normalmente regulam a proliferação e a auto-renovação de tais células. A descoberta das respostas a essas questões poderia tornar possível a compreensão de como a proliferação celular é regulada durante o desenvolvimento embrionário normal ou durante a divisão celular anormal que conduz ao câncer. Ademais, tais informações poderiam habilitar os pesquisadores a cultivar de forma mais eficiente células-tronco embrionárias e adultas em laboratório. 4

III CARACTERÍSTICAS DAS CÉLULAS-TRONCO. As células-tronco são não-especializadas. Uma das propriedades fundamentais de uma célula-tronco é que ela não tem nenhuma estrutura específica de tecido que lhe permita desempenhar funções especializadas. Ela não pode trabalhar com células adjacentes para bombear o sangue através do corpo (como uma célula de músculo cardíaco), também não pode conduzir moléculas de oxigênio através da corrente sangüínea (como uma hemácia), nem disparar sinais eletroquímicos para outras células de forma a possibilitar a movimentação ou a fala (como um neurônio). Entretanto, células-tronco não-especializadas podem dar origem a células especializadas, incluindo as de músculo cardíaco, as hemácias e os neurônios. As células-tronco são capazes de se dividir e de se auto-renovar por longos períodos. Ao contrário das células musculares, hemácias ou neurônios as quais normalmente não se replicam as células-tronco podem replicar-se muitas vezes. Quando células se replicam a si próprias por muitas vezes isso é denominado proliferação. Uma população inicial de células-tronco que proliferam por meses em laboratórios pode produzir milhões de células. Se a população resultante permanece não-especializada, como a que lhe deu origem, tais células são consideradas capazes de auto-renovação por longos períodos. As células-tronco podem originar células especializadas. Quando célulastronco indiferenciadas dão origem a células especializadas, o processo é chamado de diferenciação celular. A ciência está engatinhando na compreensão dos sinais internos e externos às células que ativam a diferenciação das células-tronco. Os sinais internos são controlados por gens que se localizam intercalados por entre longas cadeias de ADN e contêm instruções codificadas para todas as estruturas e funções da célula. Os sinais externos para a diferenciação celular incluem substâncias secretadas por outras células, contato com células vizinhas e certas moléculas, existentes no micro-ambiente celular. Além disso, muitas questões relativas à diferenciação das células-tronco permanecem incompreendidas. Por exemplo, os sinais internos e externos para a diferenciação celular seriam similares para todos os tipos de células-tronco? Poderia haver determinados conjuntos de sinais que promoveriam a diferenciação das células-tronco em um tipo específico de célula? Tais questões se tornam críticas uma vez que as respostas a elas poderiam conduzir as pesquisas no sentido da descoberta de formas de controlar o processo de diferenciação em laboratório e, assim, permitir o cultivo de células e tecidos a serem usados com propósitos específicos, incluindo terapias baseadas em células-tronco. As células-tronco adultas geram, de uma forma geral, os tipos celulares do tecido em que residem. Uma célula-tronco adulta da medula óssea, por exemplo, normalmente dá origem aos vários tipos de células sangüíneas, tais como: hemácias, leucócitos e plaquetas. Até recentemente, acreditava-se que uma célula dessa natureza, isto é, sangüínea, não poderia originar células de tipo diferente, tal como uma célula nervosa cerebral. Nos últimos anos, entretanto, algumas experiências levantaram a possibilidade de que células-tronco de um tecido poderiam originar células de tecidos completamente distintos, um fenômeno conhecido como plasticidade. Exemplos de plasticidade incluem células sangüíneas tornando-se neurônios, hepatócitos que 5

poderiam produzir insulina, e células-tronco hematopoiéticas que poderiam desenvolver músculo cardíaco. Desse modo, explorar as possibilidades de uso de células-tronco adultas para terapias baseadas em células dessa natureza tornou-se uma área bastante promissora para pesquisas. IV QUAIS OS USOS POTENCIAIS DAS CÉLULAS-TRONCO HUMANAS E OS OBSTÁCULOS QUE PRECISAM SER SUPERADOS PARA TAL UTILIZAÇÃO? Os conhecimentos até agora disponíveis apontam para uma ampla utilização das células-tronco tanto em pesquisas básicas, como em pesquisas clínicas. Há que se considerar, entretanto, que existem numerosos obstáculos a serem superados pelo conhecimento científico entre essas promessas e a efetiva utilização dessas células. O estudo das células-tronco embrionárias pode aumentar a compreensão sobre os complexos eventos que ocorrem durante o desenvolvimento humano. Algumas das condições mais sérias, tais como o câncer e os defeitos genéticos e congênitos, poderiam ser tratados a partir de uma maior compreensão sobre os processos genéticos e moleculares que conduzem à diferenciação celular. Do mesmo modo, as células-tronco poderiam ser de grande utilidade para testes de novas drogas. Para tanto, as pesquisas deveriam evoluir para que o controle sobre o processo de diferenciação fosse mais preciso e permitisse aos cientistas obter células diferenciadas idênticas para cada tipo de droga a ser testada. A aplicação potencial mais importante das células-tronco, entretanto, é a geração de células e tecidos que poderiam ser utilizadas em terapias celulares. A capacidade que essas células apresentam de se diferenciar em tipos celulares específicos abre a perspectiva de uma fonte renovável de tecidos e células para o tratamento de doenças como: Parkinson, Alzheimer, lesões da medula espinhal, AVCs, queimaduras, cardiopatias, diabetes, osteoartrite e artrite reumatóide. Nesse caso, também, seria necessário um conhecimento maior sobre processos ainda não bem esclarecidos, tais como: proliferação e geração de quantidades suficientes de tecidos; diferenciação no tipo celular desejado; aceitação pelo receptor após o transplante; integração com os tecidos adjacentes após o transplante; funcionamento adequado do tecido transplantado por toda a vida do receptor; e prevenir qualquer dano ao receptor, como por exemplo a rejeição. V LEGISLAÇÃO INTERNACIONAL. A legislação dos diversos países sobre a pesquisa com células-tronco embrionárias varia enormemente, em consonância com fatores culturais, religiosos, estrutura jurídica, formas de governo etc. 6

Nos Estados Unidos da América, o Governo Bush proibiu recentemente a pesquisa com embriões humanos congelados e, conseqüentemente, com células-tronco embrionárias humanas. Já na Comunidade Européia, documento de 2001 apontava o seguinte quadro nos diversos países: Finlândia permitida a pesquisa, mas é proibida a criação de embriões exclusivamente para essa finalidade; França proibida; Alemanha proibida; Grécia permitida, mas proíbe clonagem; Irlanda proibida; Itália proibida; Holanda permitida, mediante aprovação por Comitês de Pesquisas; Portugal proibida; Espanha permitida apenas em embriões não viáveis; Suécia permitida, mas proíbe a modificação genética dos embriões; Reino Unido permitida. VI LEGISLAÇÃO NACIONAL. No Brasil, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança proibiu a utilização de células-tronco embrionárias humanas em atividades de manipulação genética, por intermédio da Instrução Normativa nº 8, de 1997. Destaque-se que a competência do aludido colegiado resume-se a atividades de manipulação genética, conforme prevista na Lei nº 8.974, de 1995. Assim, apenas estariam proibidas as atividades em que fosse utilizada técnica de engenharia genética, entendida como aquela em que há manipulação de moléculas ADN/ARN recombinante. Desse modo, em tese, pesquisas com células-tronco embrionárias humanas em que não houvesse utilização de técnica de ADN recombinante não estariam proibidas. VII PROPOSTAS EM TRAMITAÇÃO. O exame do Banco de Dados de proposições em tramitação na Casa revela a existência de matérias que tratam indiretamente da questão das pesquisas com células- 7

tronco. A proposição principal, a qual encontram-se apensadas 13 outras, é o PL 2811/97, de autoria do ilustre Deputado SALVADOR ZIMBALDI, e que proíbe experiências e clonagem de animais e seres humanos. Essa proposição não se pronuncia sobre células-tronco, mas algumas das apensadas o fazem, bem como os Substitutivos das Comissões de mérito e CCJR. Cumpre destacar, outrossim, que o Projeto de Lei nº 2401, de 2003, que estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização de atividades que envolvam organismos geneticamente modificados - OGM e seus derivados, cria o Conselho Nacional de Biossegurança - CNBS, reestrutura a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança - CTNBio, dispõe sobre a Política Nacional de Biossegurança e dá outras providências, recém aprovado pelo Plenário da Casa e encaminhado ao Senado Federal, propõe a proibição de pesquisas com células-tronco embrionárias. A rigor, por tratar-se de proposição destinada a suceder à nº Lei 8.974, de 1995, já citada, não deveria pronunciar-se sobre essa questão, admitindo-se tão-somente que tratasse de pesquisas quando fosse utilizada a aludida técnica do ADN/ARN recombinante. VIII NECESSIDADE DE PROJETO DE LEI SOBRE O TEMA. Nosso entendimento técnico é que as matérias em tramitação atualmente tratam da questão de forma parcial e equivocada. O Projeto de Lei de Biossegurança referido, em nosso entender, deveria limitar-se a tratar de pesquisas (utilização confinada) sobre organismos geneticamente modificados OGM, deixando para uma outra legislação a questão da liberação comercial (disseminação voluntária). Isso para os casos de produtos derivados de OGM, isso é, produzidos a partir de modificações genéticas em vegetais, animais e microorganismos. Para a questão do genoma humano, assim como para as pesquisas com células-tronco, embrionárias ou não, clonagem, regras para utilização de técnicas de reprodução assistida, destinação de embriões humanos congelados etc. seria recomendável norma - ou normas - jurídica específica que viesse a instituir fóruns não apenas técnicos, mas também éticos que se pronunciassem sobre a matéria. Cremos que as proposições ora em tramitação sobre a questão da clonagem e da reprodução assistida, por representarem uma confluência sobre o tema, deveriam ser objeto de apreciação por Comissão Especial, com vistas à elaboração de uma norma mais condizente com a complexidade do tema. 2003_7228 8