O corte, o contínuo e o simultâneo Carlos Vogt... 9

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Transcrição:

sumário O corte, o contínuo e o simultâneo Carlos Vogt.... 9 vestígios O gosto áspero na boca... 17 Não é mais madrugada... 19 E se ele se depara... 21 O corte no braço... 23 A mulher lhe veio aos braços... 25 Ao beijar-lhe a boca.................................. 27 Na televisão massacres................................ 29 Ao escrever aquele romance... 31 Sua primeira história... 33 As luzes da cidade... 35 O espesso sentimento da morte... 37 Seu rosto lhe chegou... 39 Queria lhe dar um presente............................ 41 O inesperado do espelho.............................. 43 Ao nascer não aprendeu... 45 corte Aprender........................................... 49 7

O corte é o que faz................................... 51 A cicatriz........................................... 53 O fino... 55 A poesia............................................ 57 Libélula............................................ 59 A natureza.......................................... 61 O ser... 63 A mansidão.... 65 Se o corpo.......................................... 67 Coagula............................................ 69 O ser é.... 71 A felicidade.... 73 A beleza............................................ 75 Dor... 77 O nada é.... 79 Sofrimento.... 81 O que se sabe... 83 O chip.... 85 Não há.... 87 O fim.............................................. 89 Amar.............................................. 91 w ou v Um pássaro canta.................................... 95 Sobre o Autor.... 99 8

o corte, o contínuo e o simultâneo Carlos Vogt Cicatriz é o quarto livro de poemas de Eduardo Guimarães. Antes havia publicado Trama no Tapete (1984), Cidade (1990) e Corpo (1995), além de uma novela O Homem que Tinha Dentes Demais (2007). O livro Cicatriz, segundo depoimento do autor, reúne poemas escritos desde 1995 e é feito dos poemas que, presentes, nele estão reunidos, e de outros tantos que formam ausências, sentidas, contudo, no corte e na cicatriz de seus descartes. Assim, encarte e descarte formam uma das tensões poéticas do livro de Eduardo Guimarães, ao lado da remissão e do corte entre os poemas e mesmo no interior de cada poema. No arranjo final do livro, essas tensões aparecem como que numa narrativa, cuja sintaxe, pelo estranhamento das combinações, mais do que representar a dúvida, o caminho entrecortado que a produziu, apresenta o próprio poema W ou V como o modo da dúvida estampado na forma de sua anunciação. Tudo é parcimonioso na opressão dos sentimentos que guiam o viajante da palavra no reino disfórico da projeção do acontecido na tela dos sentidos, em especial do tato: 9

O gosto áspero na boca a indefinida memória o ser hoje o que amanhã se desfaz pelo tato longínquo que se esquece de si e de si (p. 17) O tato, o contato, produzem o mesmo e o outro do mesmo, que vem a ser o outro mesmo. As coisas se repetem, mas são diversas, na repetição, por isso iguais na indiferença de ocorrerem como ocorrem na sua percepção: Não é mais madrugada e o corpo se converte em luz em som em tato matéria é também incognoscível como o ato o fato o gato (p. 19) Na tv as imagens de benevolência de heróis da mídia produzem um estado misto de beneviolência com o qual nos comprazemos, tristes, mas com o prazer da curiosidade congelado na forma de pergunta: Na televisão massacres Roubos e assassinatos ríspida benevolência dos heróis da mídia o olho estarrecido a lâmina que corta 10

a criança ao lado e uma pergunta (p. 29) Cicatriz é a pergunta que corre coagulada como a cena para sempre impressionante do filme Um Cão Andaluz, de Luis Buñel: A cicatriz no fundo do olho é lágrima é sangue que corre coagulado (p. 53) A simultaneidade de partes do corpo sobrepostas no espelho a orelha sobre o olho esquerdo é também um desenho feito na infância e uma lembrança desarticuladora da memória, mas também um registro cubista da impossibilidade de reter o fato e do fato impossível de não sofrer por sua perda: olhou pra si e ao ver o duplo da sua infância esqueceu-se de ontem abriu a porta pra sair (p. 43) A morte à espreita é um aprendizado de vida: devagar, aos poucos, na experiência alheia, mas vizinha da dor, que mesmo ela se desfaz junto com a felicidade, na névoa seca do tempo. A morte, nos poemas deste livro, está presente, mas não se precipita. Apenas acontece, sem o aviso da despedida: 11

a morte na espreita encontro distante que não se precipita jamais (p. 46) Por isso, o corte, que é descarte, dá sentido ao que escapa, na palavra, atinge as entranhas e faz do artifício da cesura do verso a expressão profunda da cisão do ser do poema: A poesia é a cesura (p. 57) assim como O ser é o que não é o não-em-si a cicatriz que veio do choque (p. 71) Mas a própria disforia, que pauta a viagem do poeta pelo presente das lembranças entrecortadas pelas revoltas da memória e da própria realidade que com ela se funde para cindi-la em dúvidas e perguntas, tem um contraponto, ela também, na forma única e enigmática do poema Amar (p. 91) que se insinua como título solitário entre todos os poemas, mas que é, ele próprio, um poema de si mesmo. Por isso, se O corte é o que faz o sentido que escapa (p. 51) 12

em contrapartida, O amor é O ponto preciso A que nada escapa. (p. 96) 13