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Transcrição:

Šƒ ƒ Ž ƒž ƒ Ž ƒ ƒ Conto tradicional: [Soldados e Estudantes] Classificação do Conto: Conto realista (novelesco). Classificado segundo o sistema internacional de Aarne-Thompson: ATU 860 Nozes de "Ai, Ai, Ai! Classificação: Paulo Correia (CEAO/ Universidade do Algarve) em Junho de 2007. Assunto: O rei e a rainha fazem uma aposta: o rei diz que os seus soldados são mais inteligentes que os estudantes que a rainha visitou numa universidade Qual deles vencerá a aposta? Palavras-chave: água, Alentejo, cortiça, cuba, estudante, palácio, pedra, rainha, rei, rosa, soldado, taberna, vila ruiva Região: Distrito: Beja Concelho: Cuba Localidade: Vila Ruiva Contador: Nome: António Caeiro Data de nascimento: 30/12/1933 Residência: Vila Ruiva Vídeo: Entrevista: Marta do Ó Data de Recolha: Fevereiro 2006 Filmagem: José Barbieri Duração: 0: 08: 13 minutos Transcrição: Transcritor: Maria de Lurdes Sousa Data de Transcrição: Maio de 2007 Palavras: 1516 Versão literária: Execução: Maria de Lurdes Sousa Data de execução: Fevereiro 2010 Palavras: 1490 œ

[Soldados e estudantes] «Que é o seguinte, por exemplo, o meu pai queria demonstrar que a vida prática é mais é mais é melhor do que a teoria, n é? E depois juntando as duas coisas é o ideal, n é? Mas então ele contava o seguinte: O rei foi fazer uma visita às tropas (isto mais ou menos em Lisboa) e a rainha foi fazer uma visita à universidade. E ao regressarem ao palácio, depois do jantar, puseram-se a conversar [sobre] o que é que tinham visto, o que é que não tinham visto. E a rainha vinha maravilhada! Di[sse] a rainha: [Rainha:] Ah! Venho encantada com os estudantes! Tu não queres saber os conhecimentos, o que eles sabem, o que eles E diz o rei: Oh! Isso comparado com os meus soldados na é nada! Os meus soldados resolvem todos os problemas! São muito mais espertos que os teus estudantes. [Rainha:] Na digas! Atão eles Parte deles nem ler sabem! [Rei:] Queres, queres tirar a prova? Vamos fazer uma aposta! [Rainha:] Vamos. [Rei:] Tu mandas vir o estudante mais inteligente que houver além na universidade e eu mando vir um soldado qualquer de cavalaria (1) sete. E tu vais ver! E assim foi. A rainha mandou o seu oficial às ordens ir lá à universidade dizer para o estudante [o reitor] mandar-lhe o estudante mais inteligente que ele lá tivesse. E assim foi. Mandou-lhe um que já tava até a pensar em ser ministro ministro nem que fosse da Defesa, n é? De maneira que, de maneira que mandou-lhe um muito inteligente. E o rei disse assim lá ao oficial (deu [as] determinadas ordens): [Rei:] Tu vais daqui à cavalaria 7 e dizes ao, ao comandante que mande um soldado qualquer. Mande cá um soldado! Assim foi. Bom, veio o estudante que o reitor pensou que era o mais inteligente. Mandou cá o estudante. E veio o soldado, que por sinal era *condutor hipo* (2). (Vocês na sabem o que é condutor hipo antigamente, na tropa, não havia os carros de combate. Os carros eram puxados por cavalos e por moarja e os homens que guiavam esses animais eram chamados

condutores hipo. E quem ia para condutor hipo eram sempre aquelas pessoas mais, mais, mais, mais rudes de compreender a, de aprender a instrução eram sempre Condutor[es] hipos e cozinheiros. (Eu fui pa cozinheiro! Mas é que fui me mo pa cozinheiro!). Os mais rudes iam sempre ou pa condutores hipos ou pa cozinheiro[s]). De maneira que, assim, mandou-lhe um condutor hipo (que por sinal era aqui do Alentejo (3) ). E então a rainha diz assim pò estudante: [Rainha:] Olha, toma lá estes vinte mil réis (nesse tempo era[m] réis (4), n é?). Toma lá estes vinte mil réis e vais me comprar: dez mil réis de nada e dez m é réis (5) de não nada! O estudante ficou muito encavacado(6) não podia dizer que não à rainha. Lá recebeu vinte mil réis. *Abalou pela cidade* (7) fora [e] perguntava em todo o lado: [Estudante1:] Vocês têm aqui nada?! Nada, têm? [Comerciante:] Isso é Tás maluco ou quê?! [Estudante1:] Atão é uma encomenda que a rainha fez: quer que eu lhe compre dez m é réis de nada e dez m é réis de não nada Corria tudo, não conseguia encontrar. Voltou para trás muito esmorecido (8), disse: [Estudante1:] Sua alteza, sua real majestade desculpe, mas eu não consegui a encomenda que na consegui! Não! [Rainha:] Bom, ficas aí nessa sala. Depois levou [a mesma quantia] ao soldado. A rainha disse: [Rainha:] Toma lá! Olha tu usa soldado Toma lá estes vinte mil réis e vai-me tu comprar: dez m é réis de nada e dez m é réis de não nada! Ele olhou assim [admirado] pa rainha e disse assim: [Soldado1:] Ai, queres gozo, heim?! Já te dou! De maneira que arrancou de lá, veio-se embora. A primeira taberna que viu, logo ali na calçada da Ajuda, entrou. Mandou vir um copo, um macinho de tabaco, uma sandes Estourou (9) Foi logo os vinte mil réis. E agora, comeu e bebeu, fumou uma cigarrada Começou assim a pensar: [Soldado1:] Atão e agora? Como é que é qu eu me vou desenrascar?

E o que é que ele viu? Viu em cima da, da, duma das talhas (10) do vinho, um bocado de cortiça. E diz assim para o taberneiro: [Soldado1:] Ó amigo! Você é capaz de me dar ali um bocado de cortiça? Aquele bocado de cortiça que tá ali em cima da talha? Diz o [taberneiro:] [Taberneiro:] Atão pra quê que você quer isso? [Soldado1:] Ah! Preciso disso. Se você me desse, eu agradecia! [Taberneiro:] Atão na Tome lá! Atão, não dou! Dou, à vontade, eu tenho aí mais. Tome lá. Deu-lhe um bocado de cortiça. Pronto, ia-se embora: meteu o bocado de cortiça no bolso e veio-se embora. Vinha andando, pensando O que é que pensou (quando ele vinha já a chegar ao pé do palácio, vinha, vinha tão, tão pensativo que nem olhava para o chão catrapuz tropeçou numa pedra): [Soldado1:] Oh! És mesmo tu que vais! Apanhou e meteu-a no bolso. Foi-se embora. [e] diz: Chegou ao palácio a rainha veio logo muito coisa (convencida que ele também falhado) [Rainha:] Atão? Conseguiste? [Soldado1:] Consegui. Mas preciso que me traga uma bacia grande, cheia de água. Lá se chegou para a cozinha, para as aias, lá veio a aia com uma bacia grande cheia de água. Pegou na cortiça, pôs em cima da água e disse [olhando para a rainha:] [Soldado1:] Olhe Nada! Nada! Pegou na pedra e a pedra foi ao fundo: [Soldado1:] Não nada! Não nada! [Soldado1:] Tá aviada (11)! A rainha ficou muita furiosa! Disse: [Rainha:] Ah! Este estudante era parvo, homem! Esse é que é o mais esperto? Vem um borra-botas (12) destes consegue resolver, aquele não consegue! [Rei:] Atão mande vir outro!

Mandaram vir outro estudante que fosse mais inteligente que aquele. E atão veio outro. E outro soldado, veio outro soldado (por acaso era de Trás-os-Montes (13), veio. Diz a rainha: Toma lá estes vinte m é réis: vais-me comprar dez m é réis de ais e dez m é réis de uis! Dez mil réis de uis! O estudante ficou muito encavacado, sem saber [o que pensar:] [Estudante 2:] Onde é que eu vou comprar ais e uis? Bom, lá andou pa cidade fora perguntando em drogarias, em todo o lado não encontrava os ais nem os uis em lado nenhum! Pronto, teve de voltar lá pa trás pò palácio, pò palácio. Vai aborrecido, lá diz: [Estudante 2:] Sua real majestade saberá, sua alteza, não, não consegui encontrar Ninguém Dizem que, dizem que sua alteza tá, tá a brincar comigo. [Rainha:] Não tou a brincar Chamou: [Rainha:] Anda cá tu, soldado! Lá veio o [soldado] 31. Ela lá lhe deu os vinte m é réis e disse: [Rainha:] Vais me arranjar dez m é réis de ais e dez mil réis de uis! Assim foi. O transmontano(14) [disse:] [Soldado2:] Shim shenhora. [Vai] por aí fora. O transmontano como na fumava, o que é que fez? Bebeu um copo na taberna, comeu uma sandes e comprou um postal pa mandar à namorada. E foi-se embora pa vida dele. Entretanto, foi-se embora, foi dar uma voltinha ao jardim a ver se via as sopeiras (15). (Sabe o que é uma sopeira? Na sabe. Atão eu explico o que é uma sopeira. No tempo, os namoros dos soldados era[m] com as criadas de servir. As criadas de servir chamavam-se sopeiras usavam um avental branco e iam atrás das senhoras (uma senhora muito importante à frente e a desgraçada com a sesta atrás, com o avental branco) era[m] chamada[s] a[s] sopeira[s]. Normalmente os soldados namoravam eu por acaso namorei uma lá, em Évora, a senhora [a esposa] sabe, não vale a pena estar a esconder que ela sabe). De maneira que Assim foi: tava a ver passar as sopeiras no jardim e a pensar:

[Soldado2:] Como é que eu agora vou-me desenrascar? Desenrascar com esta brincadeira?! E atão olhou assim e viu assim um canteiro de rosas: Oh! [pensou]. Tinha uma navalhinha foi lá, colheu um bocado de rosas meteu no bolso; colheu outro bocado de rosas meteu no outro bolso. E lá veio embora a caminho do palácio. Chega lá, diz-lhe a rainha: [Rainha:] Atão? Conseguiste?! [Soldado2:] Consegui! Mas vossa real majestade, sua alteza, é que tem que tirar aqui do bolso. A rainha foi afeita a saber, a ver o que é. Meteu a mão, picou-se: [Rainha:] Ai! Foi aqui do outro lado [meteu a mão no bolso do soldado e exclamou:] [Rainha:] Ui! Dizia o outro: Tá aviada! E assim acabou! Assim provou o rei, conseguiu provar à rainha (que os estudantes que eram mais espertos) que os soldados, que apesar de não saberem ler, que eram mais práticos, mais espertos que os estudantes que sabiam ler. Esta história contava o meu pai também.» Glossário: António Caeiro, 73 anos, Vila Ruiva (conc. Cuba), Fevereiro 2006. (1) Cavalaria: Corpo militar que se movia a cavalo e que hoje usa veículos blindados e motorizados. (2) Condutor hipo: condutor de carros puxados por cavalos e muares. (3) Alentejo: região do sul de Portugal. (4) Réis: plural de real, moeda usada em Portugal no tempo da monarquia. (5) M é réis: Expressão oral de abreviatura de mil réis. (6) Encavacado: embaraçado, atrapalhado. (7) Abalou pela cidade: neste caso, percorreu a cidade. (8) Esmorecido: desanimado. (9) Estourou: gastou. (10) Talhas: Vasilha (geralmente de barro) de boca estreita e de grande bojo, em que se guarda azeite, vinho, etc. (11) Aviada: servida, atendida. (12) Borra-botas: indivíduo sem qualquer sem importância. (13) Trás-os-Montes: região do norte de Portugal. (14) Transmontano: Natural de Trás-os-Montes. (15) Sopeira: empregada doméstica, geralmente para serviço de cozinha. (16) Afeita: afoita, apressada, ansiosa.

Para a execução deste glossário consultaram-se os websites: http://www.priberam.pt, http://www.ciberduvidas.com, http://acll.home.sapo.pt/portugues.html e http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/cavalaria