FORMAS DE EXCLUSÃO DA SUCESSÃO: INDIGNIDADE E DESERDAÇÃO

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Transcrição:

FORMAS DE EXCLUSÃO DA SUCESSÃO: INDIGNIDADE E DESERDAÇÃO Michelle Salatiel de Oliveira Silverio 1 Natália Vieites Silva 2 RESUMO O presente artigo visa abordar um dos temas nevrálgicos dentro do Direito das Sucessões, os institutos da indignidade e deserdação, que são as formas de exclusão da sucessão, pois a transmissão dos bens do de cujus por causa mortis poderá mitigar o direito à herança ou legado dos sucessores, acarretando a perda da sucessão. Para que seja possível o estudo desses institutos, apresenta-se no trabalho as hipóteses legais em que a indignidade e a deserdação poderão ocorrer, com suas particularidades, bem como os efeitos que podem ser gerados por cada uma delas. O ponto principal a ser discorrido é a diferenciação entre os institutos, pois ambos acarretam a exclusão da sucessão, porém seguindo regras distintas previstas no Código Civil brasileiro. Palavras chave: Direito das Sucessões. Herança. Legado. Formas de Exclusão da Sucessão. Deserdação. Indignidade. EXCLUSÃO DA SUCESSÃO Dando início ao tema, é importante destacar que, conforme dispõe o artigo 6.º do Código Civil, a existência da pessoa natural termina com a morte real (natural ou presumida), e no mesmo instante em que esta acontece abre-se a sucessão, transmitindo-se automaticamente a herança aos herdeiros legítimos e testamentários do de cujus. Com a morte, transmite-se a herança aos herdeiros, de acordo com a ordem de vocação hereditária estabelecida no artigo 1.829 do Código Civil. Na falta destes, a herança será recolhida pelo Município, pelo Distrito Federal ou pela União, conforme dispõe o artigo 1.844 do referido diploma legal. 1 Acadêmica do 8.º período de Direito no Centro Universitário de Itajubá (FEPI) email para contato: michellesalatiel@oi.com.br 2 Acadêmica do 8.º período de Direito no Centro Universitário de Itajubá (FEPI) email para contato: natalia.vieites@hotmail.com

Com relação à capacidade sucessória, faz-se necessária a diferenciação entre a capacidade de suceder com a capacidade civil. Esta diz respeito à aptidão que o indivíduo tem de exercer, por si só, todos os atos da vida civil, enquanto aquela se refere à aptidão que o indivíduo tem de receber os bens deixados pelo de cujus. Nas palavras da doutrinadora Maria Helena Diniz, citando a obra de Caio Mario da Silva Pereira: Uma pessoa pode ser incapaz para praticar atos da vida civil e ter capacidade para suceder; igualmente, alguém pode ser incapaz de suceder, apesar de gozar de plena capacidade civil, como ocorre com o indigno de suceder, que não sofre nenhuma diminuição na sua capacidade para os atos da vida civil. No direito sucessório brasileiro, contido no Código Civil, há previsão de que o herdeiro ou legatário seja excluído da sucessão na qual teria direitos, ou seja, teria capacidade sucessória mas a perde, quando este se mostra não merecedor da herança ou legado, uma vez que a sucessão hereditária se baseia na afeição real ou presumida do de cujus ao herdeiro ou legatário, mantendo neste os sentimentos de gratidão e respeito. Tal exclusão se dá pela indignidade e deserdação, que são sanções civis aplicáveis aquelesquequebramo vínculo afetivo com o de cujus, mediante a prática de atos de desapreço ou menosprezo, e até mesmo de atos reprováveis ou delituosos contra o autor da herança. Nas palavras de Carlos Roberto Gonçalves: A sucessão hereditária assenta em uma razão de ordem ética: a afeição real ou presumida do defunto ao herdeiro ou legatário. Tal afeição deve despertar e manter neste o sentimento da gratidão ou, pelo menos, do acatamento e respeito à pessoa do de cujus e às suas vontades e disposições.a quebra dessa afetividade, mediante a prática de atos inequívocos de desapreço e menosprezo para com o autor da herança, e mesmo de atos reprováveis ou delituosos contra a sua pessoa, torna o herdeiro ou legatário indignos de recolher os bens hereditários. A indignidade está prevista nos artigos 1.814 ao 1.818 do Código Civil, enquanto que a deserdação nos artigos 1.961 ao 1.965do mesmo diploma civil. CAUSAS DE EXCLUSÃO POR INDIGNIDADE

O herdeiro ou legatário pode ser privado do direito sucessório se praticar contra o de cujus atos de indignidade, considerados lesivos ao autor da herança, estando estes taxativamente previstos no artigo 1.814 do Código Civil, ou seja, a indignidade de qualquer sucessor não decorre da vontade expressa do falecido, mas sim de uma determinação da lei. Dispõe o referido artigo: Art. 1.814. São excluídos da sucessão os herdeiros ou legatários: I - que houverem sido autores, coautores ou partícipes de homicídio doloso, ou tentativa deste, contra a pessoa de cuja sucessão se tratar, seu cônjuge, companheiro, ascendente ou descendente; II - que houverem acusado caluniosamente em juízo o autor da herança ou incorrerem em crime contra a sua honra, ou de seu cônjuge ou companheiro; III - que, por violência ou meios fraudulentos, inibirem ou obstarem o autor da herança de dispor livremente de seus bens por ato de última vontade. Observando o artigo em tela, vê-se que o herdeiro a ser excluído da sucessão tenha praticado atos contra a vida, contra a honra e contra a liberdade de testar do de cujus. No que tange aos crimes contra a vida (inciso I), o homicídio doloso, tentado ou consumado contra o de cujus também abrange como vítimas seu cônjuge, companheiro, ascendente ou descendente, e quem pratica o ato pode atuar como autor, coautor ou partícipe. No caso acima exposto, tratando-se de homicídio doloso (não há que se falar em homicídio culposo, pois aqui inexiste a voluntariedade), a doutrina e a jurisprudência encontram-se divididas em relação à necessidade de sentença penal condenatória transitada em julgado para a declaração de indignidade. Parte sustenta a independência das esferas civil e penal, não exigindo tal condenação penal, bastando apenas as provas da ação cível.neste sentido, caso o sucessor seja absolvido na esfera penal por falta de provas, pode no caso de declaratória de indignidade ocorrer essa prova na esfera cível e assim ele ser declarado indigno. Outrossim, havendo sentença penal que o declare inocente, baseada em excludente de criminalidade legítima defesa, estado de necessidade ou exercício regular do direito, ou em razão do expresso reconhecimento da inexistência do fato ou da autoria, essa sentença também fará coisa julgada na esfera cível (artigo 935 do CC Princípio da Independência da Responsabilidade Civil em Relação à Penal: A responsabilidade civil é independente da criminal, não se podendo questionar mais sobre a existência do fato, ou sobre quem seja o seu autor, quando estas questões se acharem decididas no juízo criminal ).

Lado outro, parte da doutrina e da jurisprudência majoritária defendem a necessidade desentença penal condenatória transitada em julgado para proceder à declaração de indignidade, com embasamento na competência exclusiva da esfera penal para julgar crimes. Desta forma, faz-se necessário aguardar o encerramento do processo penal, para declarar ou não o sucessor como indigno na esfera cível. Vale ressaltar que é indiscutível, em ambas as correntes, que a sentença penal condenatória transitada em julgado sempre faz coisa julgada na esfera cível. Mesmo não havendo previsão legal taxativa no rol do artigo 1.814 do Código Civil, a instigação ao suicídio deve equipara-se ao homicídio, para efeito de indignidade. Tratando-se dos crimes contra a honra (inciso II), têm-se como vítimas, além do de cujus, seu cônjuge ou companheiro. No que tange à denunciação caluniosa contra o de cujus em juízo, ou seja, havendo o sucessor imputado crime contra o autor da herança de que o sabe inocente, parte majoritária da jurisprudência entende que tal crime deva ter sido cometido em juízo criminal, devendo, desta forma, tal acusação ser apresentada em juízo criminal pelo sucessor, não sendo reconhecido tal crime se suscitado somente em ação cível. Já no que se refere aos crimes cometidos pelo sucessor contra a honra do de cujus, de seu cônjuge ou companheiro (crimes de calúnia, injúria ou difamação), ocorre também a divisão da doutrina e jurisprudência quanto à necessidade de condenação penal transitada em julgado para proceder à declaração de indignidade, como no caso do homicídio doloso tentado ou consumado (inciso I). Vale ressaltar que cabe calúnia contra os mortos, em consonância ao artigo 138, 2.º do Código Penal. Já em referência ao atentado contra a liberdade de testar (inciso III), a vítima é exclusivamente o de cujus, que é inibido ou impedido de dispor livremente de seus bens, mediante violência (ação física) ou fraude (ação psicológica). Sabido que a fraude e a violência são vícios de consentimento, podem ensejar a decretação da nulidade relativa do testamento. Tal dispositivo tem por objetivo preservar a última vontade do de cujus, ou seja, sua liberdade de testar.

Conforme dispõe o artigo 1.815 do Código Civil, a indignidade, em qualquer dos casos previstos, deverá ser declarada por sentença, mediante ação cível própria denominada Ação Declaratória de Indignidade, cuja interposição deve ser feita por qualquer herdeiro, legatário ou terceiro interessado, como o Município, o Distrito Federal ou a União, na falta de sucessores legítimos e testamentários, no prazo decadencial de 04 (quatro) anos a contar da abertura da sucessão. Vale salientar que a indignidade é reconhecida por ato praticado antes ou depois da abertura da sucessão, mas somente pode ser proposta após a morte do hereditando. Assim, o indigno adquire a herança e a conserva até que transite em julgado a sentença que o exclui da sucessão. Havendo a sentença declaratória de indignidade, produz-se diversos efeitos, sendo estes: I- Os efeitos da exclusão são pessoais, afetando exclusivamente o herdeiro excluído pela indignidade, sendo este considerado como se morto fosse antes da abertura da sucessão (art. 1.816 CC). Desta forma, seus descendentes o sucedem por representação, e os sendo incapazes, o declarado indigno não poderá ser usufrutuário ou administrador dos bens que a estes couberem da herança, nem sucedê-los eventualmente. Na falta de descendentes do indigno, o seu quinhão será redistribuído aos demais herdeiros do de cujus. II- Os efeitos da sentença declaratória de indignidade retroagem à data da abertura da sucessão, ficando o excluído obrigado a restituir os frutos e rendimentos que dos bens da herança houver percebido, tendo, contudo, direito a ser indenizado pelas benfeitorias realizadas para a conservação destes (artigo 1.817, único do CC). III Os efeitos da exclusão protegem os terceiros de boa-fé, em conformidade com o artigo 1.817 do CC, que dispõe sobre a validade das alienações onerosas a estes, bem como dos atos de administração legalmente praticados pelo herdeiro declarado indigno, antes da sentença de exclusão. Outrossim, subsiste aos herdeiros que o substituírem na aquisição da herança o direito de requerer perdas e danos sempre que constatarem prejuízo. O artigo 1.818 do Código Civil ainda traz a previsão de reabilitação do indigno, sendo o ato solene pelo qual o autor da herança perdoa o indigno, de forma expressa, dentro do testamento

ou em outro ato autêntico (declaração por instrumento público ou particular, autenticada pelo escrivão). Uma vez concedido o perdão, este torna-se irretratável, mesmo que revogado o testamento que o contém.outrossim, sendo nulo o testamento que contém o perdão, este não terá efeito, salvo se sua forma for a pública, podendo assim ser tido como ato autêntico. Já o testamento cerrado (particular) não admite tal prática. O perdão tácito, previsto no parágrafo único do artigo 1.818 do CC, se dá quando oindigno é contemplado em testamento do ofendido, quando este, ao testar, já conhecia a causa da indignidade. Neste caso, o herdeiro reabilitado pode suceder no limite da disposição testamentária, tendo assim seus direitos circunscritos aos limites da deixa. CAUSAS DE EXCLUSÃO POR DESERDAÇÃO A deserdação constitui manifestação de vontade do testador. Neste sentido, o testador poderá tanto beneficiar alguém em testamento como privar um herdeiro necessário da herança que lhe seria destinada, de acordo com o que prevê o art. 1.961 do Código Civil. A deserdação poderá ocorrer no caso dos herdeiros necessários, tendo em vista que para afastar a sucessão dos demais herdeiros é necessário apenas que não os contemplem em testamento (art. 1.850 do CC). Quanto aos herdeiros necessários faz-se indispensável a previsão em testamento para serem excluídos da sucessão, pois lhes é garantida uma quota hereditária, assim, conforme traz Maria Helena Diniz em sua obra: A deserdação constitui exceção à regra geral que assegura ao herdeiro necessário a reserva legitimaria, que corresponde à metade da herança do de cujus, uma vez que da outra metade pode o testador dispor como bem lhe aprouver. Diante do exposto, para que seja efetiva a deserdação é necessário que haja um testamento válido, com declaração expressa do fato determinante da deserdação, conforme o art. 1.964 do Código Civil, bem como fundamentação da causa expressa em lei; existência de herdeiros necessários e comprovação da veracidade do motivo alegado pelo testador para que se decrete a deserdação, nos termos do art. 1.965 do CC.

Quanto às causas de deserdação, essas englobam todas as que autorizam a indignidade, presentes no art. 1.814 do Código Civil e já discorridas no presente artigo. Além das causas de indignidade, o artigo 1.962 do mesmo diploma prevê as causas que autorizam a deserdação dos descendentes por seus ascendentes, sendo elas: I ofensa física: poderá ser leve ou grave, pois independente da gravidade, demonstra a falta de afeto existente entre o descendente e seu ascendente. Segundo doutrinadores, não há necessidade da decisão prévia na justiça criminal para que ocorra a deserdação no âmbito civil. II injúria grave: ocorrerá quando, pelas crenças sociais e hábitos, o juiz entender ferida a honra do ascendente, de pessoas de sua família ou de seu consorte. Washington de Barros Monteiro citado por Maria Helena Diniz indica os atos que a jurisprudência não entende ser injúria grave: pedido de interdição do testador, formulado pelo herdeiro; uso regular de ação em que o autor venha a exceder-se, magoando o testador, ao articular fatos qualificativos do pedido; a circunstância de o herdeiro ter-se insurgido contra doação efetuada pelo testador, propondo ação contra ele; se o herdeiro ofensor foi muito idoso, cego ou portador de alienação mental; o fato de o herdeiro haver requerido destituição do testador do cargo de inventariante. III relações ilícitas com a madrasta ou padrasto: conforme menciona o art. 1.595 e 2º, as relações entre madrasta ou padrasto e enteado ou enteada não se extinguem com a resolução do casamento que lhe deu origem, o que faz com que haja um parentesco afim, na linha reta, o que gera, também, causa impeditiva de casamento (art. 1.521, II do CC). Nesse sentido, relações ilícitas seriam incestuosas e adúlteras, o que seria causa para a deserdação. IV desamparo do ascendente em alienação mental ou grave enfermidade: demonstraria falta de preocupação e afeto do herdeiro pelo autor da herança. Já o art. 1.963 do Código Civil menciona as causas que autorizam a deserdação dos ascendentes pelos descendentes, quais sejam: ofensas físicas, injúria grave, relações ilícitas com a mulher ou companheira do filho ou a do neto, ou com o marido ou companheiro da

filha ou o da neta, e desamparo do filho ou neto com deficiência mental ou grave enfermidade. Verifica-se desnecessária a abordagem minuciosa de cada uma das causas, tendo em vista que a elas se aplicam a mesma ideologia das causas presentes no art. 1.962 do Código Civil, já abordadas. Quanto aos efeitos da deserdação, podem ser mencionados: I o deserdado adquirirá o domínio e a posse dos bens da herança com a abertura da sucessão, conforme art. 1.784 do Código Civil, entretanto, quando for publicado o testamento, surgirá uma condição resolutiva da propriedade, pois, sendo comprovada a causa de deserdação, este será considerado como se fosse morto, ou seja, como se nunca tivesse tido o domínio do bem. II o efeito da deserdação será restrito ao deserdado, ou seja, por seu efeito personalíssimo, os descendentes do deserdado sucedem como se aquele fosse falecido. III é necessário que parte do acervo hereditário seja reservada ao deserdado caso ele vença a ação ajuizada pelo beneficiário da herança, sendo nomeado depositário judicial que cuidará da herança até que transite em julgado a ação. IV quando não for provada a causa de deserdação ela não se efetivará e, neste sentido, o testamento será considerado em tudo que não contrariar a legítima do herdeiro necessário, sendo reajustado o que for necessário para inteirar a legítima daquele que não foi deserdado de modo eficaz. Por fim, para que a deserdação seja revogada será necessária revogação testamentária, sendo manifestada a vontade de perdoar o deserdado. DIFERENÇAS ENTRE INDIGNIDADE E DESERDAÇÃO Diante do tema abordado e dos tópicos discorridos, mesmo havendo semelhança entre os institutos da indignidade e da deserdação, tendo em vista que ambos acarretam a exclusão de herdeiros e/ou legatários da sucessão, ficam latentes as diferenças, sendo as principais:

I A indignidade não decorre da vontade expressa do falecido, mas sim de uma determinação legal, contida nos casos taxativamente expressos no artigo 1.814 do CC. Desta forma, presume-se a vontade do de cujus. Já na deserdação têm-se a vontade expressa manifestada pelo autor da herança em testamento, sendo ato personalíssimo do testador, nos casos previstos no referido artigo, bem como nos artigos 1.962 e 1.963 do CC. II A indignidade abrange qualquer sucessor, seja herdeiro ou legatário, tanto na sucessão legítima quanto na testamentária, sendo obtida por ação cível própria mediante sentença judicial. Já a deserdação abrange somente os herdeiros necessários, e se dá exclusivamente por testamento, com expressa declaração de causa. III A indignidade é reconhecida por ato praticado antes ou depois da abertura da sucessão, enquanto a deserdação se dá por ato praticado antes da abertura da sucessão. Neste sentido, ainda que apresentem objetivos similares e natureza punitiva, foi possível verificar que deserdação e indignidade regem-se por questões distintas. O que se pode concluir como diferença primordial é que a primeira procura proteger a harmonia entre ascendentes e descendentes, estabelecendo a possibilidade de que a vontade de um deles seja levada em consideração, enquanto que a segunda possui caráter de estabelecimento de ordem social, pois, sendo trazida pela lei, demonstra a preocupação com a punição daqueles que praticam comportamentos criminosos. CONCLUSÃO O presente artigo abordou os institutos da indignidade e deserdação, conceituando, analisando pontualmente e diferenciando tais temas do direito sucessório brasileiro. Verificou-se que a indignidade decorre de uma determinação legal e não da vontade expressa do autor da herança, e, poderá privar o direito sucessório do herdeiro ou legatário quando este incorrer em uma das condutas previstas no art. 1.814 do Código Civil. Foi demonstrada ainda a discussão frente à necessidade de condenação penal nas hipóteses abordadas no artigo acima mencionado, bem como apresentadas as particularidades de cada uma delas.

De igual modo, o presente artigo apresentou o instituto da deserdação, sendo aquele em que a exclusão dos direitos à sucessão será gerada por manifestação da vontade do testador. Nesse instituto é possível a exclusão apenas de herdeiros necessários. Foram verificadas, ainda, as hipóteses em que a deserdação poderá ocorrer, as quais englobam as também previstas para indignidade e acrescentam as dos artigos 1.962 e 1.963 do mesmo diploma legal. Foram apresentados efeitos resultantes de cada um dos institutos e os modos para que tanto o indigno como o deserdado fossem novamente incluídos em procedimento sucessório. Diante de toda análise exposta, foi possível apresentar as principais diferenças existentes entre indignidade e sucessão, as quais, ainda que apresentem objetivos semelhantes, são aplicadas a sucessões distintas, com fontes e momentos diversos. Assim, o presente artigo apresentou os conceitos, aplicações, efeitos e diferenças entre a indignidade e a deserdação dentro do direito das sucessões, de ampla e importante aplicação na vida dos civis. REFERÊNCIAS ANGHER, Anne Joyce (Org.). Vademecum acadêmico de direito Rideel. 12. ed. São Paulo: Rideel, 2011. ISBN 978-85-339-1679-1. BRASIL. Lei n.º 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil. Legislação Federal. Sítio eletrônico internet - planalto.gov.br. DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro: Direito das Sucessões. 24.ª edição - São Paulo: Saraiva, 2010., Maria Helena. Curdo de Direito Civil Brasileiro.Volume 6. Direito das Sucessões.25.ª edição - São Paulo: Saraiva, 2011. GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro.Volume 7.Direito das Sucessões.7.ª edição - São Paulo: Saraiva, 2013.

JÚNIOR, Ricardo T. Furtado. Exclusão da sucessão: diferenças entre indignidade e deserdação. Revista Jus Navigandi, Teresina, ano 20, n. 4337, 17 maio 2015. Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/32846>. Acesso em: 7 out. 2015 POLETTO, Carlos Eduardo Minozzo. Indignidade Sucessória e Deserdação, 2013. Disponível em:< http://www.cartaforense.com.br/conteudo/entrevistas/indignidadesucessoria-e-deserdacao/11251/>. Acesso em: 22 de out. 2015.