a) A multidimensionalidade da pobreza b) A interacção multidimensional

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Transcrição:

a) A multidimensionalidade da pobreza b) A interacção multidimensional a) A multidimensionalidade da pobreza A Cáritas sabe que as pessoas pobres não só são vítimas, mas também actores; acredita na dignidade de todos e de cada um. Estas perspectivas de abordagem do pobre e da opção preferencial pelos mais pobres, conduzem-nos a uma descrição da realidade através das ciências humanas e a uma decidida rejeição desta realidade. A Cáritas encara a pobreza como uma ausência de bem-estar, que inclui um conjunto de circunstâncias precárias, caracterizado pela constante carência de recursos financeiros. A pobreza origina outras restrições e limitações graves: as pessoas pobres são muitas vezes pouco saudáveis, estão frequentemente desempregadas e, vivem por vezes em habitações degradadas. Caracterizam-se por baixos níveis de escolaridade e formação profissional, ocupam os postos de trabalho mais precários, dispõem de uma rede social pouco viável. Para identificar a realidade da pobreza e da exclusão social, têm que se abordar todas as suas dimensões. Destacam-se oito dessas dimensões: recursos financeiros, o bem-estar e a saúde, a situação habitacional, o nível educacional, a integração profissional, a integração social, a integração relativa ao estatuto de residência. Há ainda dimensões adicionais: a dimensão psicológica, cultural, ética e espiritual. Quanto mais pobre for uma pessoa numa das oito dimensões e quanto mais dimensões apresentarem limitações, mais precárias são as suas circunstâncias. O aumento dessa precariedade é um movimento em direcção à marginalização e a pobreza é uma situação vivida á margem da sociedade. A pobreza leva à exclusão social e a exclusão social leva à pobreza, mas não são a mesma coisa. Numa sociedade poderá haver pessoas pobres, mas bem integradas na sociedade. Da 1 / 5

mesma maneira, podemos imaginar pessoas ricas que estão excluídas. Que eventos podem acelerar esse movimento em direcção à marginalização e, por consequência, uma derrocada social? Que factores contribuem para uma elevação, ou seja, um movimento em direcção à centralidade social? A pobreza e a exclusão não são somente a ausência de bens materiais e bem-estar social. Ligado a esses factores, está também o factor da solidão e do apoio da rede de que cada pessoa faz parte. - Recursos financeiros: os que frequentemente levam à pobreza são o desemprego prolongado, os salários baixos, o baixo rendimento do agregado, as elevadas despesas familiares e o peso esmagador das dívidas. Os acontecimentos específicos de cada pessoa ou família podem fazê-la cair na pobreza: o nascimento de uma criança, um divórcio, a morte do pai ou da mãe, podem desestabilizar uma família. Da mesma maneira, um novo emprego, uma mudança no emprego, um aumento da carga de trabalho ou novas tarefas, podem resultar num aumento do rendimento do agregado familiar e numa melhoria de recursos financeiros. Aprender a gerir melhor os recursos financeiros também pode contribuir para melhorar a situação financeira. - Saúde: o bem-estar relacionado com a saúde ainda depende do estatuto socioeconómico década um, ou seja, do seu nível de escolaridade, estatuto profissional e rendimentos. Não é só a pobreza que torna as pessoas doentes, mas a doença ou acidente também podem causar pobreza. Um hábito viciante também pode restringir os limites da capacidade da pessoa e despoletar uma situação de precariedade. Ao contrário, se uma pessoa vencer um viciou se recuperar após uma doença ou acidente, beneficia de um aumento de bem-estar relacionado com a saúde. A melhoria económica também contribui para uma melhoria da saúde. - Habitação: o direito à habitação (habitação adequada) inclui o viver num lugar seguro, em paz e com dignidade. Os indicadores de circunstâncias precárias relativamente à habitação: sem abrigo, tamanho do espaço habitacional, qualidade das instalações. Os agregados de baixo 2 / 5

rendimento vivem, frequentemente, em habitações delapidadas e precárias, muita insegurança e serviços públicos mal organizados. A possível mudança de famílias afectadas pela pobreza, para habitação de mais qualidade, a sua vida melhora. - Educação: a educação foi descrita no Pacto Internacional dos direitos económicos, sociais e culturais como sendo orientada para o desenvolvimento completo da personalidade humana e o sentido da sua dignidade. A baixa escolaridade tem consequências materiais pesadas. As pessoas com baixos níveis de escolaridade e poucas qualificações profissionais correm um maior risco de empobrecer. Isto deve-se ao facto de estarem desempregadas com mais frequência e por períodos mais longos, ou fazerem parte do número de pessoas empregadas e que continuam pobres. Uma melhoria no nível e qualidade educacional pode conseguir-se através da melhoria do nível de escolaridade ou formação, do reconhecimento de certificados e diplomas dos migrantes ou pela formação contínua. Em muitos casos, no e pelo trabalho. - Integração ocupacional: O desemprego de longa duração conduz a um alto risco de empobrecimento. Até pessoas que trabalham estão sujeitas ao risco da pobreza: se tiverem de trabalhar em condições precárias ou atípicas, com falta de protecção jurídica ou rendimento irregular e incerto. Se a pessoa passar a ter empregos mais normalizados, regista-se um aumento na dimensão de integração ocupacional. - Integração social: O desenvolvimento pessoal consegue-se numa vida em comunidade, baseada na dignidade e direitos humanos. Integra-se numa rede primária ( por exemplo a rede familiar), e secundária (circulo de amigos, associações, etc ) Os indicadores de uma situação precária em relação à integração social pode ser o conjunto de problemas na família, poucos contactos sociais e um afastamento de actividades sociais e 3 / 5

outras. As pessoas em situação precária, não têm familiares, amigos ou conhecidos com quem possam contar. Tornam-se muito vulneráveis caso tenham que lidar com situações críticas que ameacem desestabilizar a sua vida. Mas se a pessoa encontra saída para o seu isolamento social e começa a estabelecer contactos com a família, vizinhos, entra numa associação ou num clube, pode melhorar a dimensão de integração social. - Estatuto de residente: Os migrantes com autorização temporária, sem autorização ou sem documentos, estão numa situação jurídica precária que afecta negativamente as suas possibilidades no mercado de trabalho e perante a segurança social. Isto sem ter em conta o constrangimento psicológico. Se a autorização de residência for conseguida, a integração torna-se possível e a pessoa pode continuar a planear a sua vida a longo prazo. - Família de origem: Esta dimensão resume o que a pessoa levou consigo da casa dos pais, na forma de herança social, à medida que avançou pelas dimensões de inclusão acima mencionadas. Se os pais têm um elevado nível de escolaridade, se estão social e profissionalmente integrados, se são saudáveis ( ). Quanto mais baixa for a herança social, cultural e económica dos pais, maior é o risco de empobrecimento das crianças. Contudo, os filhos podem encontrar formas de ultrapassar e vencer esse risco. Quanto melhor for a situação inicial da perspectiva da família de origem, maiores são as possibilidades de uma vida plena. b) A interacção multidimensional As dimensões individuais da pobreza são interactivas: as condições de trabalho podem afectar a saúde, os baixos rendimentos podem afectar as condições de alojamento, e um baixo nível 4 / 5

de escolaridade pode aumentar o risco de desemprego. Muitas vezes, uma situação crítica na vida de alguém, pode desencadear um movimento que conduz à margem da sociedade. Esta situação terá um impacto negativo noutras dimensões, o que leva, em última instância á manifestação de várias carências. Um exemplo: quando a perda de um emprego leva à perda de identidade e tenta-se a superação recorrendo ao elevado consumo de álcool. Isto afecta a relação conjugal e pode levar ao divórcio, com o decorrente isolamento social. Por outro lado, o desenvolvimento positivo numa dimensão, impulsiona as outras no mesmo sentido. A descrição das dimensões de empobrecimento, também permite descobrir alternativas de mudança. Muito se pode fazer a nível individual, no contexto das potencialidades e competências de cada pessoa, desde que os recursos para esse fim estejam disponíveis. Esse é o desafio que os políticos enfrentam. Esta descrição de multidimensionalidade deixa claro que as políticas de combate à pobreza são iniciativas cruzadas que devem interligar-se e podem ter lugar em diferentes áreas sócio-políticas. 5 / 5