Parte 4 - Semântica. Papéis Temáticos

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Transcrição:

Parte 4 - Semântica Papéis Temáticos 1

Baseado em slides do Prof. Nuno Mamede

PAPÉIS TEMÁTICOS (THEMATIC ROLES) Considerem-se os eventos: O João partiu o vidro. A Maria abriu a porta. Ambos os eventos têm actores (AGENTES) que são responsáveis pela execução do evento e objectos (TEMAS) que são o alvo das acções: O João é o AGENTE e o vidro é o TEMA do EVENTO partir A Maria é o AGENTE e a porta é o TEMA do EVENTO abrir AGENTE e TEMA dizem-se papéis temáticos

E...? O que são e para que servem? Providenciam um mecanismo para organizar o processamento semântico, permitindo ultrapassar uma análise semântica superficial e começar uma análise semântica profunda Providenciam uma linguagem semântica para caracterizar os argumentos de alguns verbos, o que retira algum peso ao processamento verbal (e não é verdade que cada verbo seja um caso especial, em que seja necessário especificar como os seus argumentos se comportam)

PAPÉIS TEMÁTICOS RELAÇÕES MAIS USADAS AGENTE Um SN se descreve o protagonista intencional da acção. Um ser animado não é sempre um agente! O João partiu intencionalmente a janela * O João acreditou que estava a chover * O João morreu

PAPÉIS TEMÁTICOS RELAÇÕES MAIS USADAS EXPERIMENTADOR Um agente envolvido numa percepção ou um estado físico ou emocional O João acreditou que estava a chover O João viu um unicórnio CO-AGENTE A segunda pessoa a colaborar numa acção O João levantou o piano com o Pedro

PAPÉIS TEMÁTICOS RELAÇÕES MAIS USADAS TEMA Um SN que representa algo que sofre alteração ou sobre o qual se desenrola a acção. Para verbos transitivos é geralmente o CD. Para verbos intransitivos o sujeito (SN) que não é agente O João partiu a janela A janela partiu-se Eu dei ao João a janela

PAPÉIS TEMÁTICOS RELAÇÕES MAIS USADAS CO-TEMA Segundo tema numa troca O João pagou 100$ ao homem pelo livro O João comprou o livro ao homem por 100$

PAPÉIS TEMÁTICOS RELAÇÕES MAIS USADAS INSTRUMENTO Ferramenta, material, força (eventualmente da natureza) usada na execução de um evento O João partiu a janela com o martelo O telescópio partiu o vidro O sol secou a roupa O João fez o bolo com cacau BENEFICIÁRIO Agente sobre quem é executada a acção Dei o livro para o Pedro Encontra-me os papéis!

RESTRIÇÕES SELECCIONAIS As restrições seleccionais aumentam os papéis temáticos ao permitir colocar algumas restrições aos lexemas e sintagmas que os podem acompanhar em cada frase Eu quero comer qualquer coisa perto do centro O predicado comer tem um AGENTE e um TEMA O AGENTE deve ser capaz de comer => restrição O TEMA deve ser capaz de ser comido => restrição

Ou seja... Cada sentido de um verbo pode ser associado a restrições seleccionais A TAP serve o Funchal. complemento directo (TEMA) é um lugar A TAP serve bifes com batatas fritas. complemento directo (TEMA) é um alimento

E para que servem? Podem-se usar estas restrições seleccionais para desambiguar uma frase Situações de ambiguidade: argumento ambíguo em predicado não ambíguo Observar um prato chinês. Prato de louça (por exemplo), ou prato como frango com ananás? predicados ambíguos com argumento não ambíguo: Servir o embaixador e servir batatas fritas Argumento e predicado ambíguos Servir a vaca. Para comer? Ou vaca como animal sagrado?

E que alterações sofre a análise semântica para suportar estas restrições? Não é dramático: esta abordagem é complementar da abordagem composicional: Com base numa árvore... E nos significados atribuídos aos lexemas das folhas da árvore... Descartam-se hipóteses de análises sempre que se detectam violações nas restrições seleccionais.

Infelizmente... Nem sempre as restrições seleccionais são suficientes para desambiguar uma frase... Que pratos recomenda? Pior: as restrições seleccionais podem bloquear a descoberta do significado (por exemplo em situações metafóricas) A impressora comeu o papel