REFLEXÃO ÉTICA SOBRE O ABORTO

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Transcrição:

REFLEXÃO ÉTICA SOBRE O ABORTO Francisco das Chagas de Sousa Duarte Resumo: Ao longo do trabalho abordaremos as seguintes questões, a saber, quem são os que mais sofrem com a realidade do aborto? Qual o momento exato que a vida humana começa? Existe perdão para quem aborta? Com isso, desejamos entender um pouco mais daquilo que o aborto está causando no Brasil e no mundo. Palavras-chave: Aborto. Mulher. Vida. Social. Misericórdia. INTRODUÇÃO No Brasil existem muitas marcas que estam presente no desenvolver da história de seu povo, mas aqui nossa atenção será somente em uma dessas marcas, a saber, o aborto. Algo considerado muito comum no mundo inteiro, todas as pessoas, independente da formação cultural e intelectual conseguem apresentar uma opinião acerca do aborto, mas poucas pessoas conhecem os fatos reais que o cercam. Neste trabalho mostraremos que a interrupção da gravidez não é somente da mulher fria ou má, mas também estar presente na trabalhadora que luta para sustentar os filhos. Estar presente na rica e na pobre, na analfabeta e na intelectual. Mas aquelas mulheres de baixa condição financeira são as que mais sofrem. Elas não conseguem pagar procedimentos em clinicas particulares e acabam procurando abortadeiras, e isso, muitas vezes as conduz a prisão ou à morte. Também é importante ressaltar que é nos países de terceiro mundo que mais acontece à realização de abortos. 1 O ABORTO NO BRASIL E NO MUNDO Quando olhamos as normas civis brasileiras a partir de Luiz Antonio iremos perceber que a prática do aborto é proibida por lei, exceto em duas situações: estupro e risco de vida da gestante 1. Esses dois casos de aborto são amparados pela lei civil de nosso país. Em 2012 uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou o aborto em outra situação. Assim, no total é permitido o aborto diante das leis civis em três situações. Bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú UVA. Bacharelando em Teologia na Faculdade Católica de Fortaleza FCF (E-mail: sem.chico@gmail.com). Trabalho realizado na disciplina de Bioética, 2017.1. Orientador: Prof. Dr. Pe. Marcos Mendes de Oliveira. 1 BENTO, Luiz Antonio. Bioética. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 142. 1

Em 1940, o Código Penal oficializou o aborto como crime contra a vida e fixou penas: até três anos de prisão para as mulheres. A interrupção só era autorizada se a gestação oferecesse risco de morte para a mãe ou resultasse de estupro. Apenas em 2012 uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou o aborto em casos em que o feto tivesse malformações graves no cérebro e no crânio, incompatíveis com a vida. 2 É importante dizer que não existe uma estrutura adequada para o atendimento na saúde pública, sendo que os hospitais não proporcionam a mulher que sofreu violência ou que corre o risco de vida, um atendimento digno. Elas sofrem pelas marcas do sofrimento psíquico e emocional, mas também por falta de saúde pública com qualidade. Não precisamos nem dizer que os dados de abortos são enormes em nosso meio. Além disso, nem todos os abortos são catalogados, muitos são feitos de forma clandestina e a rede pública de saúde não consegue ter acesso. Mas quando a mulher realiza o aborto de forma ilegal em clínicas sem fiscalização ou com métodos caseiros, as chances de precisar de cuidados médicos da rede pública são grandes. O aborto ilegal e legal, hoje no Brasil, gera grandes custos para os cofres públicos. Das mulheres que realizam o aborto, em sua maioria, são as que não têm nenhuma condição de criar o filho, com isso, procuram a saída mais rápida. Que saída? As aborteiras, que usam chás, agulhas de crochê etc. Tais procedimentos colocam em risco a vida da mulher. Muitas dessas mulheres são chefes de família. No mundo contemporâneo as famílias estão passando por uma transformação cultural muita rápida na forma de pensar e acreditar. Muitas famílias não são compostas por pai, mãe e filho, (...) 25% das famílias são mantidas por mulheres, ou seja: há muitas mulheres sozinhas, sem companheiro, com os filhos para criar. 3 Tal realidade é muito comum em nossas favelas, vilas e zonas rurais etc. Quando essas mulheres engravidam e não têm nenhuma condição financeira e humana de criar o filho, o aborto é uma saída encontrada. O aborto é só realidade de pobre? Não. O aborto também é uma questão social, 4 que envolve ricos e pobres. Segundo dados do Ministério da Saúde do Brasil publicados pela revista Super interessante, quanto maior a renda e a escolaridade da mulher, maiores são as chances de sua primeira gravidez ser interrompida. A revista publicou ainda: As mulheres que interrompem a gravidez são, em sua maioria, maduras e 2 BUSCATO, Marcela. O Brasil deve descriminalizar o aborto? Época, n 988, pp., 83-85, 2017, p. 83-84. 3 BENTO, Luiz Antonio. Op. cit., p. 142. 4 J. RYAN, Penelope. Católico praticante. São Paulo: Loyola, 1999, p. 126. 2

esclarecidas. Adolescentes que engravidam de forma indesejada não têm autonomia financeira e psicológica para procurar a interrupção. 5 Reiteramos que o aborto não é praticado somente por mulheres pobres. Todavia as mulheres pobres por falta de saúde pública de qualidade são as que mais sofrem. E não nos enganemos, hoje o aborto é proibido pelo Catolicismo, Judaísmo, Espiritismo e algumas correntes do Islamismo, mas no Brasil, muitas mulheres que abortam se declaram religiosas. (...) 88% das mulheres que abortam no Brasil têm religião, 6 que são contrárias ao aborto, mas abortam. O aborto acontece só no Brasil? É evidente que não. Seria muita inocência de nossa parte, pensar o aborto apenas como realidade das mulheres brasileiras. Hoje este mal está presente no mundo. As pesquisas públicas apontam que, no âmbito mundial, cerca de 150 mil mulheres morrem anualmente por prática de abortos clandestinos, incompletos. 7 Um estudo divulgado pela Organização Mundial da Saúde revelou que cerca de 45 milhões de abortos são realizados anualmente em condições inseguras e ilegais, causando a morte de mais de setenta mil mulheres por ano. 8 E por mais triste que pareça ser, é nos países do terceiro mundo que ocorrem 50% dos abortos realizados em todo o mundo. Segundo pesquisa nacional, no Brasil 500 mil mulheres interromperam gestações. Também na mesma pesquisa foi visto que (...) curetagem (a raspagem do útero, feita para remover o que sobra depois de um aborto) foi o terceiro procedimento ginecológico mais realizado pelo SUS entre 2014 e 2016 só perdendo para as cesarianas e cirurgias gerais. 9 É de fundamental importância se questionar, qual o momento exato que a vida humana começa a existir? É no momento da concepção? Por outro lado, sei que é difícil determinar o exato momento da concepção, e que a diferenciação, ou o ponto em que o zigoto pode se separar em gêmeos ou mais, às vezes só acontece por volta do décimo quarto dia. Por isso questiono se a vida humana está presente no momento da concepção a ponto de podermos falar de assassinato quando ocorre o aborto 10. Nós cristãos temos um olhar que reconhece que há um milagre de vida (algo divino), que acontece desde os primeiros dias da fecundação. Agora, isso não significa que 5 HÊLO D ANGELO e KARIN HUECK. Mitos sobre o aborto, Super interessante, n 370, pp. 44-49, 2017, p. 48. 6 Ibidem, p. 47. 7 BENTO, Luiz Antonio. Op. cit., p. 143. 8 Ibidem 9 HÊLO D ANGELO e KARIN HUECK. Op. cit., p. 44. 10 J. RYAN, Penelope. Op. cit., p. 126. 3

somos donos da verdade acerca do aborto. É tanto que a Igreja não aceita o aborto, mas dialoga acerca do mesmo. 2 FILOSOFIA E ABORTO A sociedade contemporânea se define a favor da vida. Se formos perguntar as pessoas nas ruas de Fortaleza se são a favor da vida, todos vão dizer (ou sem dúvida em sua grande maioria) que são a favor da vida. A pergunta que precisa ser feita é, que vida? Quem defende a prática do aborto, afirma que não quer a morte, mas a vida, pois a decisão de fazer ou não fazer um aborto é vista como um problema da mulher e como o pecado da mulher, (...), 11 e ninguém deve escolher por ela. Se a mulher sofreu violência sexual e engravidou, ela pode abortar e nada deve impedir, afinal de contas o corpo é dela. Mas por outro lado existem aqueles que rejeitam totalmente o aborto, com animo batem no peito, somos a favor da vida, não queremos a morte. Defendem a existência de vida naquele que ainda não nasceu e afirmam que o feto tem vida e não pertence nem a mãe e nem ao pai. E agora? No livro de Luis Antonio encontramos a seguinte afirmação: Dentre todos os crimes que o ser humano pode praticar contra a vida, o aborto provocado apresenta características que o tornam particularmente grave e abjurável. 12 Luis afirma que o aborto é um ato contra a vida. Que vida? A vida do feto. É expulsar prematuramente do útero o nascituro. Segundo Luis, uma sociedade que acolhe o aborto como resposta para os seus problemas éticos e morais, sem dúvida nenhuma, as pessoas estão passando por uma crise moral, com a incapacidade de fazer a separação entre o bem e o mau. Quando analisamos a história da Igreja Católica, iremos perceber desde os seus primórdios a existência do debate acerca do aborto, como um ato imoral, como podemos ver no Catecismo, desde o século I, a Igreja afirmou a maldade moral de todo aborto provocado. 13 Desde o século II, alguns pensadores seguidores de Jesus Cristo consideravam o aborto um grave pecado. Durante séculos a Igreja foi buscar na filosofia de Aristóteles uma elaboração para sua doutrina. E ela encontrou na filosofia aristotélica algo chamado de hilomorfismo. A teoria do hilomorfismo rejeita a noção dualista de que a pessoa humana é composta de dois elementos separados, o corpo e o espírito, preferindo dizer que ambos são unidos. 14 Para Aristóteles, no início da concepção existe matéria, mas somente de certo ponto do 11 Ibidem. 12 BENTO, Luiz. Op. cit., p. 143. 13 Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000. n 2271. 14 J. RYAN, Penelope. Op. cit., p. 128. 4

desenvolvimento dessa matéria, é que ela é capaz de receber uma alma humana. (...) Um feto humano só poderia adquirir uma alma humana, ou seja, ser um verdadeiro ser humano, quando tivesse desenvolvido uma forma corpórea humana. 15 Agostinho no período da patrística se apoiou na filosofia de Aristóteles para dizer: (...) a grande questão sobre a alma não pode ser resolvida precipitadamente por julgamentos inconsistentes e temerários; a lei não prova que o ato (aborto) seja um homicídio, pois não se pode dizer ainda que há uma alma viva num corpo que carece de sensação quando não está formado de carne e, portanto, ainda não dotado de sentidos ( Sobre o Êxodo 21, 80, citado em Hurst, The History of Abortion in the Catholic Church, 7). 16 O aborto era visto por Agostinho como pecado sexual grave. Isso porque em sua época era muito frequente o aborto ser usado para ocultar sexo ilícito. Tomás de Aquino, no período da escolástica, também se apoiou na filosofia de Aristóteles da dotação da alma. Mas muitos pensadores da Igreja começaram a dizer que não é possível afirmar o momento exato que acontece a hominização. Mas a reflexão da dotação da alma iremos realizar no ponto seguinte (teologia e aborto). 3 TEOLOGIA E ABORTO Alguns estudiosos cristãos católicos ao analisar a ideia de Aristóteles (que depois foi seguida por Agostinho e Tomas de Aquino) acerca do hilomorfismo não ficaram satisfeitos com o resultado, com isso, começaram a refletir a possibilidade de sua existência ocorrer no momento da concepção. Isso foi visto como razão suficiente para não realizar o aborto, ou seja, precaução. A ideia de mais vale prevenir do que se arrepender começou a emergir, e a tendência rumo à atual posição da Igreja sobre a dotação da alma a partir do momento da concepção tornou-se a doutrina teológica preferida, embora a ideia da hominização protelada ainda tivesse alguma influência, sobretudo em relação a abortos terapêuticos. 17 Alguns pensadores afirmaram que nem o risco de morte por parte de mãe justificaria a existência do aborto. Outros estudiosos diziam que era admissível abortar um feto não formado se a intenção principal fosse salvar a vida da mãe e não matar o feto. O Papa Paulo VI declarou em sua obra Humanae Vitae (1968) que nem os abortos terapêuticos eram permitidos, pois eram ilícitos, mas no inicio do século XX, a Igreja após longa reflexão, retrocedeu, e permitiu o aborto terapêutico, mas com exceção de que o mesmo fosse feito, sem ser considerado homicídio. Duas exceções poderiam ser feitas: no 15 Ibidem. 16 Ibidem. 17 Ibidem, p. 130. 5

caso de uma gravidez ectópica ou no caso de um útero canceroso, mesmo que o de uma mulher grávida. 18 Esses dois tipos de abortos não são considerados como homicídio, pois em ambos os casos o feto morreria de qualquer maneira e a vida da mãe poderia ser salva. Com o passar do tempo os debates sobre quando acontece a datação da alma e sobre as distinções entre feto formado e não-formado deixaram de existir no interior da Igreja. A Sagrada Congregação para a Doutrina na fé, afirmou que o respeito pela vida humana se inicia o processo de geração. Desde o momento em que o óvulo é fertilizado, começa uma nova vida que não é nem a do pai, nem a da mãe; é, antes, a vida de um novo ser humano com seu próprio crescimento. Ele nunca se tornaria humano se já não fosse humano desde o início, 19 de sua concepção. Ao observar a doutrina Católica percebemos que o aborto, com exceção dos abortos terapêuticos mencionados a acima é sempre pecado, em qualquer situação, motivo ou momento, não se admite o aborto. A vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta a partir do momento da concepção. Desde o primeiro momento de sua existência, o ser humano deve ver reconhecidos os seus direitos de pessoa, entre os quais o direito inviolável de todo inocente à vida. 20 É importante que nós os cristãos Católicos, seguidores de Jesus Cristo, tenhamos clareza que não somos a favor do aborto, mas somos a favor da vida. Que vida? A vida da mãe e do filho. Por quê? Simples, por que acreditamos em Jesus Cristo. Lemos nas Escrituras: O ladrão vem só para roubar, matar e destruir, Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância (Jo10, 10). Nós não precisamos ter uma linguagem científica da medicina (vamos deixar a linguagem da medicina para os médicos), mas temos que ter ideias claras e inteligentes ao dizer porque a Igreja não apóia o aborto. Temos que afirmar de forma inteligente que a vida é dom de Deus que não pode ser interrompido. É de direito divino natural o nascer, crescer e envelhecer. Antes mesmo de te formar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei (Jr 1, 5). Meus ossos não te foram escondidos quanto eu era feito, em segredo, tecido na terra mais profunda (Sl 139, 15). É o que nos lembra a Sagrada Escritura. 18 Ibidem. 19 Ibidem, p. 131. 20 Catecismo da Igreja Católica. N_2270. 6

CONSIDERAÇÕES FINAIS Com este trabalho tivemos a intenção de elaborar um discurso agradável. Uma reflexão simples, mas procurando demonstrar um pouco da realidade do aborto, como realidade de pecado grave. Nós os Católicos, temos que ter consciência de que, quem se envolve em aborto se afasta de Deus, de si e da comunidade eclesial. Com todo respeito às pessoas que são favoráveis ao aborto, não podemos negá-lo como uma desgraça no Brasil e no mundo. Um mau presente que gera sofrimento não só na saúde, mas também nas diversas estruturas humanas (emocionais, psíquicas, comunitárias etc). O que fazer com quem aborta? É uma boa pergunta que nem sempre (nós os Católicos) temos uma boa resposta. O Papa Francisco no ano de 2016 convocou os Católicos para o ano da misericórdia. Não qualquer misericórdia, mas aquela que nos educa e nos faz crescer, a saber, a misericórdia de Deus. O Papa pede na Carta Apostólica Misericordia et Misera para os Católicos a não condenarem as mulheres que abortaram, mas acolher a mulher. Misericórdia é acolhida. Cristão que não sabe acolher, não é cristão. Sua Santidade Francisco abre as portas da Igreja de Cristo e permite que todos os sacerdotes absolvam as pessoas que abortaram e as que se envolveram no pecado do aborto. A Igreja não aprova o aborto, mas acolhe aqueles que são marcados pelo pecado e buscam o perdão de Deus. Não existe lei, não existe norma ou cultura que possa impedir a Deus de abraçar novamente o filho ou filha que se volta para Ele. A mulher que abortou, cometeu um grave erro, mas Deus não julga e nem condena. Não existe pecado que afaste a misericórdia de Deus do pecador. Deus sempre está à disposição de coração arrependido. A misericórdia possui também o rosto da consolação. Quantas mulheres e pessoas envolvidas em abortos precisam ser consoladas com a misericórdia infinita de Deus. Diante dessa realidade, nós que estudamos teologia, nos perguntamos, o que fazer? Ter somente uma postura contra ou a favor, acredito que não vai ajudar muito, mas penso que é necessário elaborar um discurso filosófico e teológico que nos ajude a refletir acerca da importância da vida. Um discurso com a presença da misericórdia, não qualquer misericórdia, mas Aquele que nos educa e nos forma para uma verdadeira liberdade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BENTO, Luiz Antonio. Bioética: desafios éticos no debate contemporâneo. São Paulo: Paulinas, 2008. 7

BIBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulinas, 1985. BUSCATO, Marcela. O Brasil deve descriminalizar o aborto? Época, n 988, pp. 83-85, 2017. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA: São Paulo, Loyola, 1994. FRANCISCO. Carta Apostólica Misericordia et Misera. São Paulo: Paulus, 2013. J. RYAN, Penelope. Católico praticante: A busca de um catolicismo para o terceiro milênio. São Paulo: Loyola, 1999. HÊLO D ANGELO e KARIN HUECK. Mitos sobre o aborto, Super interessante, n 370, pp. 44-49, 2017. 8