Qualidade de Serviço em rede móveis: presente e futuro

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Transcrição:

Qualidade de Serviço em rede móveis: presente e futuro Lina Maria Pestana Leão de Brito Rui L. Aguiar Universidade da Madeira, Secção Autónoma de Engenharia Sistemas e Computadores, 9000-390 FUNCHAL, Phone: 291.705280, Fax: 291.705309, lina@uma.pt Universidade de Aveiro/Instituto de Telecomunicações, 3810-193 AVEIRO, Phone: 234.370200, Fax: 234.381128 ruilaa@det.ua.pt Resumo: Este artigo aborda a evolução das redes móveis e a evolução paralela dos conceitos de qualidade de serviços nas mesmas, desde as visões tradicionais das redes actuais até às novas realidades em desenvolvimento nas redes de 3ª e 4ª geração. O artigo também apresenta algumas linhas de orientação para fornecimento de qualidade de serviço em redes móveis All-IP. 1. Introdução A revolução causada nas nossas vidas pelas redes móveis deve-se a uma contínua evolução de normas e de produtos, mantendo sempre um determinado nível de desempenho. As redes móveis evoluíram de orientadas ao circuito (voz) para redes que também permitem serviços em modo pacote (dados), prevendo-se uma evolução futura para redes All-IP (serviços multimédia). A mobilidade está a tornar-se cada vez mais cómoda para os utilizadores, aumentando a exigência de novas aplicações, e obrigando a repensar os conceitos convencionais de Qualidade de Serviço em redes móveis. Este artigo está organizado da seguinte forma. A secção 2 consiste num resumo da evolução das redes móveis. A secção 3, por sua vez, aborda o conceito de qualidade de serviço e a forma como este conceito acompanhou a evolução das redes móveis. 2. Evolução das redes móveis 2.1. Redes de primeira geração A primeira geração (1G) de redes móveis era baseada em tecnologia analógica, tendo sido desenvolvida no início dos anos 80 [1]. Foi o primeiro sistema a permitir, a um utilizador em movimento, manter uma ligação telefónica em qualquer sítio dentro da área de serviço de um operador de redes móveis. Esta possibilidade de cobertura contínua fez com que houvesse necessidade de criar um mecanismo que permitisse transferir uma chamada entre áreas de cobertura (células) pertencentes a estações base diferentes, mecanismo este denominado de handover (ou handoff). Nas redes móveis de 1G o único serviço existente era o de voz. Além disso, dada a inexistência de normalização, cada país criou o seu próprio sistema, levando à existência de sistemas que só funcionavam dentro dos limites de cada país. Estes sistemas foram substituídos pelos sistemas de segunda geração durante os anos 90. 2.2. Redes de segunda geração Os sistemas de 2ª Geração (2G) surgiram devido ao sucesso comercial dos sistemas de 1G e de forma a melhorar aspectos técnicos, comerciais, políticos e de normalização das redes móveis. Tecnicamente, havia a necessidade de tornar o uso do espectro de rádio-frequência mais eficiente (mais

utilizadores por MHz). O recurso à codificação digital da voz e a técnicas de modulação digitais permitiram um aumento da eficiência espectral, que é 3 vezes maior que nas redes analógicas de 1G. Pretendia-se que houvesse possibilidade de roaming internacional (possibilidade de os utilizadores efectuarem e receberem chamadas dentro de diferentes redes, com o mesmo equipamento móvel e o mesmo número) e tornou-se possível a disponibilização de um vasto conjunto de serviços de voz e dados. A evolução tecnológica permitiu a existência de terminais móveis de maior portabilidade e a custos mais atractivos. Actualmente, existem essencialmente 4 sistemas de 2G: GSM, D-AMPS, cdmaone e PDC [1]. GSM (Global System for Mobile (communications).) O processo de normalização dos sistemas de 2G foi liderado pela Europa, pelo CEPT (Conférence Européenne des Administrations des Postes et des Télécommunications), que criou o Groupe Spécial Mobile (GSM Committee), mais tarde transferido para o controlo do ETSI (European Telecommunications Standards Institute). O principal objectivo do GSM foi definir um sistema único de comunicações móveis na Europa. Os trabalhos de normalização tiveram início em Dezembro de 1982 e, em 2000, o ETSI acordou em transferir os trabalhos de normalização em curso para o 3GPP (3G Partnership Project), efectivamente encerrando o desenvolvimento de sistemas de 2G. O serviço GSM teve o seu início comercial em Julho de 1991 (no entanto, os terminais só foram amplamente disponibilizados no decorrer de 1992). O GSM, utilizando a técnica de acesso TDMA, permite que até 8 utilizadores possam utilizar o mesmo canal de 200 khz, atribuindo a cada utilizador um único time slot. O GSM opera em todo o mundo nas bandas dos 900 e 1800 MHz, com a excepção dos Estados Unidos, em que opera na banda dos 1900 MHz. Brevemente, serão utilizadas novas frequências, nas bandas dos 450 e 850 MHz. O serviço principal continua a ser o de voz, no entanto foi introduzido o serviço digital SMS (Short Message Service), baseado na transmissão de pacotes de informação, e para o qual não é necessário estabelecer uma ligação telefónica. Apesar do serviço SMS limitar o tamanho das mensagens enviadas a 160 caracteres, tem tido muito sucesso comercial. A introdução de novos serviços levou ao aparecimento de diferentes evoluções no GSM, geralmente denominadas geração 2.5. A evolução para a geração 2.5 é caracterizada por dois aspectos essenciais: a introdução da transmissão em modo pacote e o aumento das taxas de transmissão, quer devido à utilização de agregação de canais, quer devido a novos esquemas de codificação de canal. O HSCSD (High Speed Circuit Switched Data) é uma versão melhorada do GSM, com o objectivo de alcançar ritmos de transmissão superiores a 9.6 Kbps. O aumento do ritmo de transmissão é conseguido agregando vários canais de tráfego, para uma mesma ligação, permitindo até 57.6 Kbps. Pelo facto de funcionar em modo circuito, não é adequado para tráfego de rajada. O GPRS (General Packet Radio Service) é um serviço de dados que vem acrescentar à rede GSM a funcionalidade de comutação de pacotes, através da introdução de novos elementos de rede. Ao introduzir a comutação de pacotes, vai permitir optimizar a transferência de tráfego de rajada (dados) e vai permitir a transmissão ocasional de grandes quantidades de tráfego. O GPRS mantém a técnica de modulação, a estrutura de trama e as bandas de frequência do GSM, trazendo, no entanto, as seguintes vantagens: Always on: permite receber ou enviar dados a qualquer altura;

Elevados ritmos de transmissão (podem ir de 0.8 Kbps até 171.2 Kbps, dependendo do número de time slots utilizados pelo móvel para transmitir); Utilização eficiente dos recursos rádio, pois os mesmos canais podem ser partilhados por diferentes utilizadores e os canais para as ligações uplink e downlink são atribuídos separadamente; Transferência de voz e dados em simultâneo; Taxação baseada no volume de tráfego e não em função do tempo, sendo bastante proveitoso para aplicações de Internet (aplicações assimétricas, em que a taxa de transmissão é variável no tempo). O EDGE (Enhanced Data rate for Global Evolution) usa a mesma estrutura do GSM (HSCSD e GPRS), mas com um novo esquema de modulação (8-PSK) e novas técnicas de codificação de canal, triplicando a largura de banda oferecida pelo GPRS (permite taxas de transmissão por time slot de 22.8 a 69.2 kbps). O EDGE, apesar de ter sido originalmente aprovado como sistema de 3G, é, na prática, um upgrade da rede GSM que pode interessar particularmente aos operadores que não conseguiram licença para operar em UMTS. CdmaOne A tecnologia de espalhamento espectral foi usada, durante muito tempo, em aplicações militares. Em meados dos anos 80, começou a ser utilizada em sistemas telefónicos celulares [1]. A utilização do CDMA (Code Division Multiple Access) foi aprovado pelo TIA (Telecommunications Industry Association), em 1993, no entanto, as primeiras redes comerciais CDMA só surgiram em 1995. O CDMA é agora denominado cdmaone para diferenciá-lo dos sistemas CDMA de 3G. Com esta tecnologia, vários utilizadores (até 64) podem utilizar o mesmo canal de 1.25 MHz. A atribuição de um código pseudo-aleatório a cada utilizador, permite aos descodificadores separar o tráfego destinado aos diferentes receptores. Todas as estações transmitem utilizando o mesmo código, mas com um certo intervalo de tempo entre si, sendo, por isso, necessário que se mantenham sincronizadas. O CDMA opera nas bandas dos 850 e 1900 MHz. Tal como o GSM, a primeira versão do CDMA (IS-95A) permite atingir apenas os 14.4 kbps. No entanto, em 1997, foi criada uma segunda versão, o IS-95B, que permite atingir ritmos de transmissão até 64 kbps, pelo facto de adicionar 7 códigos suplementares ao código fundamental [1]. D-AMPS Nos sistemas celulares analógicos de primeira geração, como o AMPS (Advanced Mobile Phone Service), é atribuído a cada utilizador um canal de 30 khz. O D-AMPS, que é um sistema TDMA projectado para coexistir com os sistemas AMPS, divide este canal de 30 khz em 3 canais, permitindo que 3 utilizadores partilhem o mesmo canal através da atribuição de time slots diferentes a cada utilizador. A maioria dos sistemas TDMA está a mudar para GSM. Estas novas redes GSM irão evoluir para GPRS e EDGE. A disponibilização do UMTS irá requer espectro adicional e será limitada a operadores de 3G que consigam novas frequências. PDC O PDC (Personal Digital Celular) é a norma japonesa, também denominado de P-PDC (Packet-mode Personal Digital Cellular). É baseado em TDMA e opera nas bandas dos 800 e 1500 MHz. Em 1999, foi

introduzido um serviço denominado imode, que apesar de ser muito semelhante ao WAP, conquistou muitos milhões de utilizadores, pela grande oferta de serviços e pelo excelente modelo de negócios (taxação baseada no volume de tráfego, partilha de receitas entre os fornecedores de conteúdos, etc.) [1]. A saturação deste sistema levou à sua rápida substituição por um sistema de 3G. 2.3. Redes de terceira geração As redes de 3G surgiram dada a necessidade de maior capacidade, de novas frequências e de ritmos de transmissão superiores. A figura seguinte mostra de que forma as redes móveis evoluíram até às redes de 3G: GSM HSCSD 115.2 kbps TDMA (IS-41) 43.2 kbps PDC/ PDC_P 14.4 kbps GPRS 170 kbps EDGE 384 kbps EDGE ph 2 473 kbps VoIP WCDMA FDD WCDMA TDD cdmaone cdmaone cdma (IS-95 A) (IS-95 A) 2000 14.4 kbps 64.4 kbps 307.2 kbps 2 Mbps 1xEV-DO, ph 1 WCDMA HSPA 10 Mbps 1xEV-DO, ph 2 2.4 Mbps 5.4 Mbps 2 G 2.5 G 3 G Figura 1. Evolução das redes móveis As redes 3G devem permitir elevadas taxas de transmissão (144 kbps até 2 Mbps), transmissão simétrica e assimétrica (acesso à Internet), transmissão em modo pacote e em modo circuito, boa qualidade de voz, maior capacidade e eficiência espectral. Os terminais de 3G devem oferecer a possibilidade de oferecer vários serviços em simultâneo (multimédia) e devem poder coexistir com as redes de 2ª geração, uma vez que a transição entre as redes demorará alguns anos. Além disso, os terminais também devem permitir o roaming entre as várias redes (terminais multimodo e multibanda). O objectivo inicial era criar um único standard, mas tal não foi conseguido, resultando em dois sistemas reconhecidos pelo ITU (International Telecommunication Union): UMTS (Universal Mobile Telecommunication System), composto por dois modos diferentes: o CDMA Direct Spread: consiste no Wideband-CDMA, também designado por FDD (Frequency Division Duplex); o CDMA TDD (Time Division Duplex); Cdma 2000, que é a evolução do cdmaone. UMTS O 3GPP está a realizar trabalho de especificação tanto do modo FDD como do modo TDD, no entanto, o modo FDD é considerado como a principal tecnologia para o UMTS. O modo FDD deriva do CDMA, sendo utilizados códigos pseudoaletórios. Os bits de informação do utilizador são espalhados, passando a ocupar uma largura de banda maior. Isto consegue-se multiplicando os dados do utilizador por bits aleatórios (denominados chips), gerados a partir dos códigos de espalhamento CDMA. No modo FDD, são usadas frequências diferentes para uplink e para o downlink, separadas de 5MHz, permitindo um ritmo de

transmissão até 384 kbps. Ao contrário do CDMA IS-95, o FDD permite que não exista sincronismo entre estações base. O modo TDD usa uma técnica de acesso que resulta de uma combinação entre o TDMA e o CDMA (TD/CDMA). Os sinais provenientes de diferentes utilizadores são separados tanto no domínio do tempo como no domínio do código. É usada apenas uma portadora de 5MHz que é partilhada no domínio do tempo pelas ligações de uplink e downlink. Permite ritmos de transmissão até 2 Mbps, em condições óptimas. No Japão, desde Outubro de 2001 que se comercializa a versão japonesa do UMTS (pela NTT DoCoMo). No resto do mundo, a instalação do primeiro sistema UMTS (apenas modo FDD) está prevista para este ano. Cdma2000 O trabalho de especificação da norma cdma2000 está a ser realizado pelo 3GPP2 [1], com as seguintes fases: Cdma2000 1x, que é uma simples evolução do cdmaone e, portanto, não deve ser considerado um sistema 3G. Suporta serviços em modo pacote até 144 kbps. Cdma2000 1xEV-DO, que introduz um novo interface ar e permite ritmos de transmissão superiores na ligação downlink Permite até 2.4 Mbps no downlink, mas apenas até 153 kbps no uplink. É, também, conhecido por HRDP (High Rate Data Packet) e a sua especificação terminou em 2001. Necessita que a separação entre portadoras seja de 1.25 MHz, só podendo ser usado para transmissão de dados. É difícil haver voz sobre cdma2000 1x e dados sobre cdma2000 1xEV-DO em simultâneo, devido à separação entre portadoras. Cdma2000 1xEV-DV, que deve introduzir novas técnicas de rádio e uma arquitectura All-IP para a rede e acesso rádio. Espera-se que a sua especificação termine em 2003. Irá permitir ritmos de transmissão dos 3 aos 5 Mbps. 2.4. Redes All-IP O enorme sucesso da Internet e a necessidade de flexibilidade fizeram aumentar o interesse pelo uso do protocolo IP como base do desenvolvimento das redes celulares futuras. O 3GPP está a desenvolver a normas de redes WCDMA e EDGE baseadas em IP [1]. Estas redes são vulgarmente denominadas All-IP. As grandes razões para a criação de redes All-IP são o custo e a flexibilidade (na criação de serviços e na evolução futura da rede). As redes baseadas em IP proporcionam uma plataforma aberta para a criação de serviços. A flexibilidade é permitida pela separação entre as aplicações e a rede de suporte, possibilitando a criação de serviços independentemente do sistema de acesso rádio. A evolução futura é, por sua vez, permitida por uma arquitectura estruturada em camadas e por interfaces abertos, facilitando a evolução de diferentes protocolos e subsistemas da rede de forma independente. As redes All-IP também oferecem uma plataforma comum para todos os tipos de serviços, unificando as redes de comutação por circuitos (voz) e as redes de comutação por pacotes numa rede de comutação por pacotes que oferece todos os tipos de serviços. O principal problema das diferentes abordagens All-IP prende-se com a gestão de mobilidade. Foram propostas duas abordagens principais: uma em que a gestão da mobilidade é uma evolução da utilizada nas redes móveis actuais (GSM e GPRS) e um protocolo (baseado no IETF) que usa o mobile IP-v6. No entanto, o mobile IP ainda não proporciona algumas das funcionalidades que já são bem dominadas nas redes móveis,

tais como fast handover e actualização da localização após handover. Provavelmente, a solução final passará por uma junção destas duas abordagens. De notar que existem já alguns trabalhos nesta área [2]. 3. Evolução do conceito de qualidade de serviço A Qualidade de Serviço (QoS) tem definições muito variadas, em parte devido à imprecisão das palavras Qualidade e Serviço. As pessoas tendem a definir QoS, adaptando estes conceitos à sua visão dos problemas [3, 4]. Embora os operadores tenham percepções da qualidade de uma rede diferentes das dos utilizadores, neste texto iremos focar-nos no ponto de vista do utilizador. Nas primeiras redes (essencialmente, serviço de voz) o conceito de QoS, na realidade, era fundamentalmente orientado ao utilizador. A única preocupação era manter uma conversação sem que a chamada caísse e garantir que a largura de banda fosse tal que permitisse ao chamado reconhecer o timbre de voz do chamador. Conceitos de QoS telefónica, tais como percentagem de chamadas estabelecidas, ou de chamadas concluídas, era de importância secundária, dado o estado da tecnologia. Com os sistemas de segunda geração, esses conceitos, importados do mundo da telefonia fixa, fizeram a sua entrada junto do utilizador: a capacidade de realizar uma chamada, a percentagem de chamadas que caía, a qualidade do sinal de voz, etc., passaram a ser aspectos que, de uma forma frequentemente intuitiva, o utilizador reconhecia, como cliente de um dado operador. Com a utilização da Internet, o utilizador passou a reconhecer visões diferentes do problema da QoS, nomeadamente associar QoS à capacidade de diferenciar diferentes tipos de serviços ou de tráfego, de forma a que as aplicações possam verificar diferentes comportamentos para diferentes classes de tráfego. Esta visão da QoS nasce já com o GPRS, em que surgem os problemas de garantir que os pacotes transmitidos chegam ao destino. Recentemente, surgiram já questões (cada vez com maior importância) como o controlo do congestionamento da rede e a diferenciação de serviços utilizados na rede. Os requisitos de Qualidade de Serviço (QoS) para aplicações de dados em redes móveis são muito diversos (multimédia em tempo real, acesso à Internet, e-mail, etc.). Desta forma, é importante suportar diversas classes de serviços, específicas para cada sessão individual. O GPRS permite definir diferentes perfis de QoS, usando como parâmetros, prioridade, fiabilidade, atraso e eficiência: Existem três níveis de prioridade de um serviço em relação a outro: alta, normal e baixa; A fiabilidade indica quais as características de transmissão exigidas pela aplicação; O parâmetro atraso define o valor máximo para o atraso médio e o atraso a 95% (atraso máximo garantido em 95 % das transferências); A eficiência está relacionada com questões, como por exemplo, a quantidade de pacotes que chegam ao destino e a velocidade de transmissão que é possível atingir. Os perfis de QoS podem ser negociados entre o utilizador e a rede, para cada sessão, dependendo dos recursos disponíveis e das exigências de QoS. A taxação do serviço é baseada no volume de dados transmitidos, no tipo de serviço e no perfil de QoS escolhido. No entanto, oferecer uma garantia de qualidade de serviço, qualquer que este seja, implica que o desempenho da rede é consistente e previsível. No mundo das redes que fornecem serviços em modo pacote, este é um desafio muito grande. Este é o desafio que se

coloca perante as redes de 3G. A principal característica do UMTS é permitir elevados ritmos de transmissão, podendo atingir 384 Kbps em ligações de comutação por circuito e até 2 Mbps em comutação por pacotes. Esta característica permite a criação de novos serviços, tais como videotelefonia e o rápido download de dados. Uma vez que, na maior parte das vezes, a informação será pesquisada na Internet, será necessário lidar com tráfego TCP/UDP/IP. Embora, no início, a maior parte do tráfego na rede UMTS seja voz, prevê-se que mais tarde o tráfego de dados irá aumentar, vindo a dominar o tráfego de rede [5]. Para que a rede UMTS seja bem sucedida, é necessário suportar uma grande quantidade de aplicações com diferentes requisitos de qualidade de serviço. Por isso, não possível optimizar o UMTS para um determinado conjunto de aplicações. Os serviços de suporte têm de ser genéricos, permitindo a continuidade aos serviços existentes e facilitando a criação de novas aplicações [1]. Em geral, as aplicações e serviços podem ser divididos em diferentes grupos, dependendo da forma como são tratados. No UMTS, foram definidas 4 classes de tráfego: conversational, streaming, interactive e background [6] (ver Tabela 1). A maioria das aplicações tradicionais da Internet, tais como e-mail ou transferência de ficheiros por ftp, são sensíveis à perda de pacotes, mas podem tolerar atrasos. No caso de aplicações multimédia (voz e vídeo), estas toleram a perda de alguns pacotes, mas são sensíveis a atrasos e a variações do atraso (jitter). Portanto, a existência de mecanismos que garantam uma determinada QoS para aplicações em tempo real é cada vez mais importante. Tabela 1. Classes de tráfego na rede UMTS Classe de tráfego Conversational Streaming Interactive Background Características fundamentais Exemplo de aplicação Preserva a relação temporal entre as entidades; Padrão conversacional (atrasos baixos). Voz, videotelefonia, jogos de vídeo. Preserva a relação temporal entre as entidades intervenientes; Multimédia. Padrão perguntaresposta; Preserva a integridade dos dados. Navegação na Web, jogos em rede. O destinatário não espera que os dados cheguem num intervalo de tempo bem definido. Download de e- mails Assim, os factores que fundamentalmente distinguem estas classes de tráfego no UMTS são a sensibilidade do tráfego a atrasos e as perdas de pacotes. A classe conversational é destinada a tráfego muito sensível a atrasos, enquanto que a classe background é a mais insensível a atrasos. Quando comparado com o GSM ou com outras redes de 2ª geração, o UMTS proporciona uma nova e importante característica: permite negociar as propriedades de um determinado serviço suporte, como por exemplo, eficiência, atraso de propagação e taxa mínima de erros. A negociação dos serviços de suporte é iniciada pela aplicação, enquanto que o procedimento de renegociação (alteração das propriedades de um serviço suporte enquanto a chamada está activa; por exemplo handover) pode ser iniciado tanto pela aplicação como pela rede. Presumivelmente, as propriedades de um serviço suporte afectam directamente o preço de serviços ao utilizador. 3.1. Fornecimento de serviço em redes móveis All-IP Existem dois mecanismos distintos para fornecer QoS em redes IP, definidos pelo IETF. São conhecidos por IntServ e Diffserv [1]. O primeiro assume que os recursos da rede são geridos pelas aplicações dos

utilizadores, mas a rede tem de gerir cada fluxo independentemente. Uma vez que cada fluxo é tratado independentemente, a reserva de recursos não é partilhada por outros fluxos e, portanto, existe uma garantia de QoS para cada fluxo. A necessidade de cada nó da rede estar envolvido no processo de reserva e gestão de cada fluxo torna este modelo susceptível a um aumento de carga nos routers e a atrasos elevados. O mecanismo Diffserv é oposto ao anterior pois, de forma a reduzir a carga da rede e a simplificar a gestão dos recursos, este modelo agrega fluxos que tenham padrões de tráfego semelhantes numa classe de serviço. Assim, o número de classes de serviço é reduzido e, portanto, a rede tem de gerir cada classe, ao contrário do que acontece no modelo IntServ, em que a rede tem de gerir cada fluxo independentemente. Será este o modelo de transporte de tráfego em redes All-IP, permitindo o desenvolvimento de serviços baseados nos conceitos de redes Diffserv. No entanto, esta arquitectura terá de ser acrescida de suporte de mobilidade e de capacidades de gestão baseadas em mecanismos de AAAC [2]. 4. Conclusão Os utilizadores de comunicações móveis estão a tornar-se cada vez mais exigentes, acelerando o desenvolvimento dos sistemas no sentido do fornecimento de novos serviços e de ritmos de transmissão cada vez mais elevados. De uma forma paralela, o interesse pelo protocolo IP também cresceu, levando à mutação da visão tradicional de redes móveis, e modificando a noção de qualidade de serviço que se associava a estas redes. No mundo da Internet, a QoS pode ser um mecanismo de competitividade, permitindo distinguir os serviços oferecidos por fornecedores diferentes. Se existirem mecanismos para proporcionar níveis diferentes de Classes de Serviço, de forma a que o tráfego dos utilizadores possa ser tratado de forma diferente, será possível criar novos modelos económicos nos quais basear a oferta destes serviços. Esta mudança de concepção, de QoS associada a chamadas telefónicas, a QoS associada a redes de dados, é um ponto fundamental na actual migração de gerações de redes móveis. De facto, com a chegada dos sistemas de 3G e das redes All-IP, o interesse por novas aplicações (de dados), por novos serviços a disponibilizar nestas plataformas móveis, irá aumentar pois a mudança para ambientes de transporte IP permite a criação de uma plataforma aberta, proporcionando flexibilidade e redução dos custos na criação de novos serviços e na evolução da redes. 5. Referências [1] Ojanperã, T., Prasad, R., Towards IP Pobility and Mobile Internet, Artech House, 2001. [2] H. Einsiedler, R.L. Aguiar, J. Jähnert, K. Jonas, M. Liebsch, R. Schmitz, P. Pacyna, J. Gozdecki, Z. Papir, J.I. Moreno, I. Soto, The Moby Dick Project: a Mobile Heterogeneous All-IP Architecture, Advanced Technologies, Applications and Market Strategies for 3G - ATAMS 2001, ISBN 3-88309-20- X, pp. 164-171, Kraków, 2001. [3] Oodan, A., Ward, K., Mullee, A., Quality of Service in Telecommunications, IEE, 1997. [4] Ferguson, P., Huston, G., Quality of Service, John Wiley & Sons, Ltd, 1998. [5] Valkó, A., Rácz, A., Fodor, G., Voice QoS in Third-Generation Mobile Systems, IEEE journal on selected areas in communications, vol. 17, No. 1, Janeiro 1999. [6] Castro, J., The UMTS Network and Radio Access Technology, John Wiley & Sons, Ltd., 2001