Narrador Era uma vez um livro de contos de fadas que vivia na biblioteca de uma escola. Chamava-se Sésamo e o e o seu maior desejo era conseguir contar todas as suas histórias até ao fim, porque já ninguém o queria ouvir. Precisava de um encantamento mágico, mas não havia fada que lhe valesse e o tornasse interessante aos olhos dos humanos e dos seus outros colegas livros. Sésamo Era uma vez Livro de anedotas Era uma vez o quê? Um príncipe, um gigante, uma fada Baaahh, sempre as mesmas historinhas da Carochinha! Já ninguém acredita nisso, Sésamo! Ouve mas é as minhas anedotas, tenho aqui umas bem giras! Narrador E o Sésamo quase chorava de tristeza porque já ninguém queria saber como perdera a Cinderela o sapatinho ou por que motivo se picara a Bela Adormecida numa roca. Os meninos, e até mesmo os livros, interessavam-se apenas pelos super-heróis vindos do espaço e pelos truques das artes marciais o mundo da fantasia passara de moda.
Narrador Certo dia, aconteceu uma coisa muito estranha na biblioteca. Todos os livros diziam uns aos outros coisas patetas, sem sentido, mentiras sem pés nem cabeça, e repetiam sem parar: Livro 1 Enganei-te, apanhei-te! Livro 2 Com uma pinga de leite! Narrador Só mais tarde o Sésamo percebeu que era dia 1 de Abril, o Dia das Mentiras. A princípio, ele nem queria acreditar que os humanos se lembrassem de celebrar uma coisa tão ruim e gostassem de enganar os outros. Depois, percebeu que eram apenas brincadeiras que tornavam as pessoas bem-dispostas. Reparou também que as mentiras, ao contrário das suas histórias, eram interessantes, porque todos gostavam de as ouvir. Foi então que tomou a decisão mais importante da sua vida. Vou contar tudo ao contrário. Se todos gostam de mentiras, talvez achem mais piada às minhas histórias se elas forem também uma mentira! E, nesse mesmo dia, à noite, tratou de pôr em prática o seu plano.
Sésamo Há muitos poucos anos atrás, numa floresta com muito poucas árvores, num castelo muito pequeno e em ruínas, nasceu uma menina de cabelo desgrenhado e pele negra como o carvão. Por causa deste seu aspecto deram-lhe o nome de Negra de Carvão e celebraram o seu nascimento com uma grande festa, que contou com a presença de todos os habitantes da floresta. Negra de Carvão foi crescendo e tornou-se muito rebelde. Adorava pôr gel no cabelo, pintar os olhos de preto e vestir roupas de cabedal que lhe davam um aspecto feroz. Vaidosa, passava os dias ao espelho e chegava mesmo a falar com ele: Espelho, espelho meu, há alguém mais radical do que eu? Narrador Sésamo interrompeu a sua leitura para olhar o público à sua volta. Todos os livros estavam de folhas abertas, muito atentos, a ouvir a sua história. Pareciam não saber muito bem o que pensar. Sésamo Então, amigos, estão a gostar? BD Mas mas essa história está muito diferente acho que não era bem assim! Dicionário de Inglês É muito cool!
Narrador Sésamo estava muito contente, porque o seu plano estava a resultar e continuou cada vez mais entusiasmado. Nos dias que se seguiram, todas as noites, o Sésamo contou histórias ao contrário. Até que, no terceiro dia do mês, deu-se uma coisa que ninguém esperava...
Narrador Era de manhã bem cedo e a biblioteca tinha um ar estranho e misterioso, ainda um pouco escura e sem ninguém. Foi então que a enorme porta de madeira se abriu, deixando passar a mais bela menina que Sésamo já tinha visto. Circundava-a uma luz cintilante e trazia, na mão, uma varinha mágica. Para Sésamo, só podia ser a sua fada-madrinha... Finalmente, tinha chegado! Ela aproximouse de Sésamo, retirou-o da estante e, olhando o seu título Sésamo, sorriu encantada. Fada-madrinha Abre-te, Sésamo! Narrador Sésamo obedeceu-lhe, revelando-lhe os seus contos-mentiras. Ao ver o que o livro tinha feito, ela percebeu de imediato o que se passava e decidiu dar-lhe uma lição. Trouxe para a biblioteca os seus sete alunos pequeninos, que estavam ansiosos por ouvir histórias de encantar, e começou a ler. Os meninos escutavam muito atentamente a história de Negra de Carvão que a professora começara a contar. Mas logo perderam a sua serenidade e contrariaram toda aquela história, que não era nada do que esperavam ouvir. Aluno 1 Tem de ser Há muitos e muitos anos, não pode ser há poucos anos atrás, como diz esse conto. Aluno 2 E a heroína é uma princesa branca como a neve Isso está tudo ao contrário, professora. Quem inventou essa história tão feia?
Fada-madrinha Calma, calma, vocês têm razão! Os contos de fadas não têm tempo, passaram-se há muitos anos, não sabemos bem quando. E têm lugares e pessoas mágicas, muito diferentes das pessoas de hoje em dia. São eles que nos ensinam o que está certo e que o Bem deve sempre triunfar nas nossas vidas. Aluno 2 Ensinam-nos a ser bons e a saber sonhar, não é professora? Fada-madrinha Sim, é importante ter um pouco de fantasia nas nossas vidas. É por isso que os contos de fadas não devem ser iguais ao mundo real
Narrador Entretanto, todos os livros da biblioteca ouviam o que se estava a passar e arrependiam-se de ter levado Sésamo a inventar contos-mentiras, que nada tinham a ver com o mundo da fantasia. Sésamo estava também pensativo e percebia agora como tinha sido pateta: é verdade que toda a gente já conhecia as suas velhas histórias, mas só assim elas tinham valor; davam grandes lições de moral e, ao mesmo tempo, eram uma viagem até ao mundo do sonho. Então, a fada-madrinha de Sésamo tocou nas suas páginas com a sua varinha mágica, agora dourada, e todos os seus contos voltaram ao que eram. Fada-madrinha A mentira tem pernas curtas, Sésamo. Devemos sempre dizer a verdade e sermos nós próprios. Agora que aprendeste esta lição, ensina-a aos outros. Sésamo Obrigado, madrinha. Só um pedido mais... Queria tanto ser lido até ao fim e que gostassem das minhas histórias... Fada-madrinha Acho que os teus amigos já perceberam que os teus contos são importantes... Narrador E na verdade todos os livros da biblioteca começaram a pedir-lhe que contasse histórias de fadas... e assim viveram felizes para sempre.