Pelo Senhor Presidente foi solicitado um parecer acerca dos efeitos das faltas por doença prolongada no direito a férias dos trabalhadores integrados no regime de proteção social convergente. Cumpre, pois, informar: O artigo 19.º da Lei n.º 59/2008, de 11 de setembro, alterada pelas Lei n.º 3-B/2010, de 28 de abril, Lei n.º 64-B/2011, de 30 de dezembro, Lei n.º 66/2012, de 31 de dezembro e Lei n.º 68/2013, de 29 de agosto, que aprovou o Regime de Contrato de Trabalho em Funções Públicas, (RCTFP) e respetivo Regulamento, determina: Regras especiais de aplicação no tempo relativas à proteção social dos trabalhadores que exercem funções públicas 1 - As normas do Regime e do Regulamento relativas a regimes de segurança social ou proteção social aplicam-se aos trabalhadores que exercem funções públicas que sejam beneficiários do regime geral de segurança social e que estejam inscritos nas respetivas instituições para todas as eventualidades. 2 - Os demais trabalhadores a integrar no regime de proteção social convergente mantêm-se sujeitos às normas que lhes eram aplicáveis à data de entrada em vigor da presente lei em matéria de proteção social ou segurança social, designadamente nas eventualidades de maternidade, paternidade e adoção e de doença. 3 - Até à regulamentação do regime de proteção social convergente, os trabalhadores referidos no número anterior mantêm-se sujeitos às demais normas que lhes eram aplicáveis à data de entrada em vigor da presente lei, designadamente as relativas à manutenção do direito à remuneração, justificação, verificação e efeitos das faltas por doença e por maternidade, paternidade e adoção, sem prejuízo do disposto nos n.ºs 6 e 7. 4 - A aplicação das normas previstas no n.º 1 aos trabalhadores referidos nos n.ºs 2 e 3 é feita nos termos dos diplomas que venham a regulamentar o regime de proteção social convergente, em cumprimento do disposto no artigo 104.º da Lei n.º 4/2007, de 16 de Janeiro, e no n.º 2 do artigo 114.º da Lei n.º 12-A/2008, de 27 de Fevereiro. 5 - Quando a suspensão resultar de doença, o disposto no n.º 1 do artigo 232.º do Regime, aplica-se aos trabalhadores referidos nos n.ºs 2 e 3 a partir da data da entrada em vigor dos diplomas previstos no número anterior, sem prejuízo do disposto nos n.ºs 6 e 7. 6 - Até à regulamentação do regime de proteção social convergente na eventualidade de doença, no caso de faltas por doença, se o impedimento se prolongar efetiva ou previsivelmente para além de um mês, aplica-se aos trabalhadores referidos nos n.ºs 2 e 3 os efeitos no direito a férias estabelecidos no artigo 179.º do Regime para os trabalhadores a que se refere o n.º 1 com contrato suspenso por motivo de doença.
7 - Os trabalhadores abrangidos pelo disposto no número anterior mantêm o direito ao subsídio de férias, nos termos do n.º 2 do artigo 208.º do Regime. 8 - Em caso de faltas para assistência a membros do agregado familiar previstas na lei, o trabalhador integrado no regime de proteção social convergente tem direito a um subsídio nos termos da respetiva legislação. 9 - O disposto nos artigos 29.º a 54.º do Decreto-Lei n.º 100/99, de 31 de março, é aplicável apenas aos trabalhadores integrados no regime de proteção social convergente. O novo regime de emprego nas administrações públicas ao consagrar o contrato de trabalho em funções públicas como regime regra, inspirado no Código de Trabalho e respetivo Regulamento, tornaram mais premente a necessidade de clarificação dos regimes de proteção social numa perspetiva de convergência com o regime geral de segurança social. Assim, o regime de proteção social convergente aparece concretizado na Lei n.º 4/2009, de 29 de janeiro, sendo uma regime fechado que abrange apenas os trabalhadores admitidos na administração pública até 31 de dezembro de 2005, sujeitos ao «regime de proteção social da função pública», inscritos na Caixa Geral de Aposentações. Contudo, este diploma não implementou ex nunc o novo regime de proteção social convergente, antes construiu um quadro legal enquadrador da nova realidade ora criada, que sustenta os diplomas regulamentares que, progressivamente, têm vindo a ser publicados. É neste contexto que a Lei n.º 66/2012, de 31 de Dezembro vem alterar o artigo 19.º da Lei n.º 59/2008, de 11 de setembro, precisamente no que se relaciona com o direito a férias em caso de doença prolongada, questão colocada no presente pedido de esclarecimento. Assim, conforme resulta da disposição citada e atrás reproduzida, os trabalhadores integrados no regime de proteção social convergente, quando doentes por período superior a um mês, ficam sujeitos ao regime dos efeitos da suspensão do contrato 1, no que diz respeito ao direito a férias, previsto no artigo 179.º do RCTFP para os restantes trabalhadores com contrato suspenso. Acrescenta-se ainda, na mesma norma, que estes trabalhadores - integrados no regime de proteção social convergente - mantêm o direito ao subsídio de férias, nos termos do n.º 2 do artigo 208.º do mesmo Regime. 1 Curiosamente não se aplica o instituto da suspensão do contrato mas apenas os efeitos decorrentes da suspensão do mesmo. Na realidade, apesar de se tender a uma significativa aproximação às regras do Código do Trabalho (CT) não é possível instituir a suspensão do contrato neste caso, dado não estar ainda regulamentado o regime de proteção na doença dos trabalhadores abrangidos pelo regime de proteção social convergente.
Conforme refere Monteiro Fernandes in Direito do Trabalho, pág. 408, 2 As férias são interrupções da prestação de trabalho, por vários dias (em regra consecutivos), concedidos ao trabalhador com o objetivo de lhe proporcionar um repouso anual, sem perda de retribuição. Resulta do disposto no RCTFP que, relativamente ao direito a férias, há a registar quatro momentos, a saber: o da aquisição do direito, o seu vencimento, a marcação e o gozo. O direito a férias adquire-se com a celebração do contrato (constituindo um direito de formação sucessiva 3 ) e vence-se, em regra, no dia 1 de Janeiro de cada ano civil - reporta-se, em princípio, ao trabalho prestado no ano anterior - constituindo exceções ao regime consagrado, o direito a férias no ano da contratação, no ano da sua cessação, e na situação de suspensão de contrato por impedimento prolongado, hipótese que interessa analisar para a resolução do caso em apreço. Assim, de acordo com o disposto no artigo 179.º do RCTFP, no ano da suspensão do contrato por impedimento prolongado respeitante ao trabalhador, se se verificar a impossibilidade total ou parcial do gozo de férias já vencido, o trabalhador tem direito à remuneração correspondente ao período de férias não gozado e respetivo subsídio. No ano da cessação do impedimento prolongado conjugados os artigos 179.º e 172.ºdo RCTFP o trabalhador tem direito: - após seis meses completos de execução do contrato, a gozar 2 dias úteis de férias por cada mês de duração do mesmo, até ao máximo de 20 dias úteis; - no caso de sobrevir o termo do ano civil antes de decorrido o referido prazo ou antes de gozado o direito a férias, pode o trabalhador usufruí-lo até 30 de junho do ano civil subsequente. Perguntar-se-á, todavia, qual o direito a férias nos anos que medeiam entre o ano da suspensão do contrato e o ano da cessação do impedimento? Conforme refere Monteiro Fernandes in Direito do Trabalho, 13.ª edição pág 485, a suspensão do contrato de trabalho consiste na manutenção do vínculo apesar da paralisação dos seus principais efeitos: desde logo, a obrigação de trabalho, e, nalgumas modalidades, também o dever de retribuir. As relações factuais de trabalho sofrem, assim, uma descontinuidade mais ou menos importante, que não afeta a vigência do contrato. 2 Nos termos do art.º 81.º da Lei n.º 12-A/2008, de 27 de fevereiro, o CT não é fonte normativa do contrato de trabalho em funções públicas. Contudo, considerando que o RCTFP segue de muito perto o regime fixado no Código do Trabalho, na versão aprovada pela Lei n.º 99/2003, de 27 de agosto, e na sua regulamentação, constante da Lei n.º 35/2004, de 29 de julho, são válidas para a sua compreensão as considerações feitas pelo autor acerca das normas idênticas constantes do CT na referida versão. 3 Conforme se refere no Parecer da Procuradoria-Geral da República no Parecer nºp000702003, de 20-11- 2003 É sabido que o direito a férias adquire-se com a constituição da relação jurídica de emprego público, forma-se progressiva e sucessivamente, vence-se, de forma regular e periódica. ( ) Diz-se, por isso que o direito a férias é um direito de formação sucessiva, "dotado de uma estrutura e fisiologia complexa, cuja compreensão exige uma clara separação dos vários momentos de que se compõe e o animam: aquisição, formação, vencimento e gozo".
Da suspensão do contrato derivam vários efeitos só se mantendo os direitos que não pressuponham a efetiva prestação de trabalho. Conforme refere o mesmo autor em ob cit, quanto ao direito a férias pagas, e muito embora ele não inclua entre os pressupostos da sua constituição a efetividade de serviço, julga-se inegável que a existência de prestação de trabalho (ou, ao mesmo, da possibilidade dela) condiciona diretamente a efetivação de tal direito. O fundamento do direito a férias não se harmoniza com a ficção do gozo de um período de repouso durante uma fase em que o contrato está suspenso e a prestação de trabalho não se realiza. Assim, o direito a férias permanece, durante a suspensão, em estado latente... Nesta conformidade, determinando o artigo 19.º que ao direito a férias do trabalhador integrado no regime de proteção social convergente, caso se encontre doente por período superior a um mês, se aplicam os efeitos que o RCTFP determina no caso da suspensão do contrato, será o regime atrás descrito aplicável à situação sub juris. Contudo, no tocante ao subsídio de férias a abonar nos anos de impedimento temporário da prestação de trabalho dos trabalhadores em regime de proteção social convergente por motivo imputável aos mesmos, haverá que apurar o alcance do disposto no n.º 7 do art.º 19.º da Lei n.º 59/2008, de 11 de setembro segundo a qual estes mantêm o direito ao subsídio de férias, nos termos do n.º 2 do artigo 208.º do Regime. Acresce referir que na Exposição de Motivos da Lei n.º 66/2012, de 31 de dezembro, que deu nova redação a esta norma, se presta o seguinte esclarecimento: No que respeita às situações de faltas por doença dos trabalhadores nomeados e do regime de proteção social convergente, se o impedimento se prolongar efetiva ou previsivelmente para além de um mês, determina-se os efeitos no direito a férias e respetivo subsídio estabelecidos e vigentes para os demais trabalhadores com contrato de trabalho em funções públicas, ou seja, a não aquisição do direito a férias e respetivo subsídio nessas circunstâncias. Com efeito, o art.º 208.º do RCTFP determina o seguinte: 1 - A remuneração do período de férias corresponde à que o trabalhador receberia se estivesse em serviço efetivo, à exceção do subsídio de refeição. 2 - Além da remuneração mencionada no número anterior, o trabalhador tem direito a um subsídio de férias de valor igual a um mês de remuneração base mensal, que deve ser pago por inteiro no mês de junho de cada ano ou em conjunto com a remuneração mensal do mês anterior ao do gozo das férias, quando a aquisição do respetivo direito ocorrer em momento posterior. ( ) Assim, os trabalhadores no regime de proteção social convergente que se encontrem ausentes por doença por período superior a um mês, sendo-lhes aplicável o regime do direito a férias previsto para a suspensão do contrato por impedimento prolongado por motivo imputável ao
trabalhador, na medida em que têm o direito a férias prejudicado pela ausência de prestação efetiva de trabalho, irão adquirir de novo o direito, conforme atrás se verificou, apenas após o regresso ao serviço e, perceber o subsídio de férias de acordo com a segunda parte do n.º 2 do art.º 208.º atrás reproduzido. Nesta conformidade, considerando os dois casos colocados no presente pedido de parecer, de trabalhadores do mapa de pessoal que faltam por doença desde Setembro de 2013: Refere-se nas informações produzidas pela Chefe de Divisão de Recursos Humanos que um dos trabalhadores não gozou em 2013, 23,5 dias de férias vencidas a 1 de janeiro de 2013, e, o segundo não gozou 1 dia de férias vencidas a 1 de janeiro de 2013 e 5,5 dias de férias acumuladas de 2008. Conclui, em conformidade, deverem ser pagos estes dias de férias não gozadas, indicando os respetivos montantes. Resulta do atrás exposto que estes trabalhadores estão abrangidos pelo disposto nos números 6 e 7 do art.º 19.º da Lei n.º 59/2008, de 11 de setembro, consideradas as alterações subsequentes, pelo que, quanto ao direito a férias, será de aplicar o disposto nos artigos 179.º e 172.º do RCTFP. Assim, e em conclusão, estando estes trabalhadores impossibilitados de gozar, em parte, as férias a que tinham direito no ano de 2013, deverão ser-lhes processados ao abrigo das mencionadas normas, os montantes apurados nas mesmas informações. Porém, em virtude de se manterem impossibilitados de prestar serviço até à presente data, não lhes é devido subsídio de férias no corrente ano. A retoma do direito às férias e ao pagamento do subsídio de férias estará condicionado, conforme atrás analisámos, à data de regresso ao exercício efetivo de funções. A técnica superior (Teresa Rosário)