CATEQUESE COMO INICIAÇÃO À EUCARISTIA



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Transcrição:

CATEQUESE COMO INICIAÇÃO À EUCARISTIA PE. GREGÓRIO LUTZ Certamente o título deste artigo não causa estranheza à grande maioria dos leitores da Revista de Liturgia. Mas mesmo assim me parece conveniente esclarecer os termos que nele encontramos para qualificar a catequese sobre a qual queremos refletir. Por isso apresento primeiro uma breve explicação do termo iniciação e a seguir também do conceito de eucaristia, para deixar bem claro que a eucaristia é basicamente aquilo que Jesus fez na última ceia e nos mandou fazer em sua memória. Esclarecer o que é catequese pertence evidentemente ao corpo mesmo deste artigo. 1. Iniciação No âmbito das religiões chama-se iniciação o processo de preparação de adolescentes e jovens para se tornarem plenos adultos na cultura e sobretudo na religião de sua tribo, por meio de doutrinação, experiências vividas e celebrações rituais. Na Igreja falamos em iniciação sobretudo no caso de adultos, também de jovens e crianças em idade de catequese, que se preparam para serem incorporados como membros do corpo de Cristo na Igreja, pela celebração dos sacramentos chamados de iniciação: o batismo, a confirmação e a eucaristia. Este processo de introdução na vida cristã e católica tem três dimensões: doutrina, celebração e vivência; ele culmina na celebração dos sacramentos da iniciação. No caso de adultos que não são batizados, os três sacramentos se realizam numa única celebração, e a preparação para esta celebração e a vida do cristão é um único processo de catequese, que se costuma chamar de catecumenato. No entanto, o costume mais comum em nossas comunidades é que se batizam as crianças ainda pequenas. Na idade de cerca de dez anos elas são admitidas à eucaristia. A iniciação delas na vida da Igreja se completa pela confirmação na adolescência e juventude. O batismo das crianças pequenas não é precedido por um processo de preparação, a não ser que seus pais e padrinhos façam um esforço especial de reavivar a sua fé. Antes da admissão plena à eucaristia com a assim chamada primeira comunhão, e ao sacramento da confirmação, faz-se uma preparação em vista destes sacramentos. Sobretudo a preparação para a primeira comunhão chama-se catequese; mas cresce o costume de falar igualmente em catequese de crisma. Também os assim chamados cursos de noivos e as escolas de fé podem ser considerados como catequese. Ora, iniciação é precisamente tal preparação para os sacramentos. Embora falemos em iniciação sobretudo no caso de adultos, é significativo que o novo Diretório Nacional de Catequese, aprovado pela Assembléia Geral dos Bispos do Brasil em abril de 2005, mas ainda não oficialmente publicado, nos convida a considerar e a realizar também outros tipos de catequese como iniciação, quer dizer, como processo educativo que tem as dimensões de doutrina, celebração e vivência. A proposta mais bem organizada de tal iniciação temos no Rito de Iniciação Cristã de Adultos, que apresenta na sua parte principal os ritos litúrgicos que acompanham o processo de preparação para os sacramentos da iniciação no seu contexto de ensino e da vivência da fé. Apresenta igualmente os ritos mesmos da celebração do batismo e da confirmação, remetendo para a eucaristia ao missal. Para depois da celebração dos sacramentos da iniciação, o ritual propõe ainda o tempo da mistagogia, a fim de que os primeiros passos dos iniciados na vida cristã possam ser seguros, e orienta para uma ajuda a eles com atenção e amizade, que visa a integração completa e feliz dos novos membros da Igreja em suas comunidades. 2. Eucaristia Infelizmente não é raro que por eucaristia se entende ainda hoje sobretudo a hóstia consagrada e a sua adoração. Embora o Concílio Vaticano II, que foi preparado pelo movimento litúrgico, tenha deixado bem claro que também na compreensão da eucaristia devemos voltar às fontes, muitos católicos não têm consciência de que a eucaristia é em primeiro lugar aquilo que Jesus fez na última ceia e que nos mandou fazer em sua memória, quando ele tomou o pão, deu graças, partiu o pão e o deu, dizendo: Tomai e comei..., e quando tomou o cálice e fez o mesmo, acrescentando: Fazei isto em memória de mim! Nem se leva em consideração o que a assembléia diz ou canta em resposta a: Eis o mistério da fé: Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!

Poderia e deveria ser evidente que a eucaristia é em primeiro lugar a Ceia do Senhor, quer dizer, uma refeição, embora ritualizada, estilizada e nos elementos que caracterizam uma refeição, reduzida; uma refeição, no entanto, muito especial. Refeição é a dimensão da eucaristia que salta mais aos nossos sentidos, mas a eucaristia é também, como diz seu próprio nome, ação de graças e louvor; ela é igualmente sacrifício, mais exatamente, memória do sacrifício de Jesus, que ele completou na cruz; ela é celebração da páscoa de Cristo e do seu povo; celebração da aliança de Deus com a humanidade; ela é presença, de várias maneiras, do Senhor ressuscitado, de modo especial no pão e no vinho consagrados. O culto eucarístico é um prolongamento legítimo da celebração eucarística, mas não deveria ser, como de fato é para muitos católicos, simplesmente a eucaristia. 3. Catequese 3.1. A situação São inúmeros os grupos de catequese em nossas comunidades pelo Brasil a fora, embora se atinjam nem de longe todas as crianças batizadas na Igreja católica. São também bastante diferentes os grupos em que de fato se inicia à eucaristia. Já nos grupos de pré-catequese acontece uma familiarização das crianças pequenas com a comunidade eclesial e suas celebrações, particularmente da eucaristia. Os mais numerosos destes grupos são os de preparação para a eucaristia. Os grupos de perseverança, isto é, das crianças que fizeram a primeira comunhão, mais ainda não têm idade necessária para entrar nos grupos de preparação ao sacramento da confirmação, são importantes para uma introdução cada vez mais profunda e consciente na Igreja e na eucaristia. Já que o sacramento da crisma pode ser considerado como confirmação não só do batismo, mas também da eucaristia, e a catequese de preparação para este sacramento é, como a catequese que prepara para a eucaristia, uma iniciação geral à fé, liturgia e vida da Igreja, a catequese de crisma ajuda consideravelmente no amadurecimento da vida eucarística dos adolescentes e jovens. Nos cursos de noivos e na preparação dos pais e padrinhos para o batismo de filhos e afilhados um aprofundamento da fé na eucaristia raramente falta. Em muitas paróquias e comunidades existem também grupos de adultos que se preparam para um ou dois ou todos os sacramentos da iniciação cristã, portanto também para a eucaristia. Menção especial merece a assim chamada catequese familiar. Nela os pais são catequistas de seus filhos. Os pais recebem em grupos de casais a instrução necessária para que eles mesmos possam preparar seus filhos para a eucaristia. Evidentemente, quando assim os pais são os primeiros catequizandos, cria-se nas famílias um clima de fé e vivência cristãs, e toda a família é mais facilmente levada a participar também das celebrações eucarísticas da comunidade. Desta maneira, a catequese das crianças é muito mais eficaz do que quando um catequista prepara um grupo de crianças para a eucaristia. Neste artigo nos preocupam especialmente aqueles grupos que se preparam especificamente para a eucaristia, portanto aqueles nos quais crianças a partir dos 8 anos de idade são iniciados à eucaristia. Quanta alegria nos dão estes grupos, quanta preocupação eles também nos causam. Embora isso possa ser bem diferente de lugar para lugar e de grupo para grupo, em geral o entusiasmo das crianças não vai muito além da primeira comunhão. As causas deste fato são múltiplas. Freqüentemente as crianças não tiveram em suas famílias um clima e vivência de amor e fraternidade como base para uma catequese frutuosa. Durante a catequese muitos pais não acompanham os seus filhos, e muitos dos nossos catequistas que têm muita boa vontade e não possuem a formação necessária para a sua missão. Os subsídios que existem para esta catequese, em sua maioria não visam a eucaristia como aquela celebração que Jesus instituiu na última ceia, e como ponto culminante de toda vida de dedicação e amor, a exemplo de Jesus. Mesmo muitos documentos do magistério da igreja não vêem na eucaristia claramente ou em primeiro lugar a Ceia ou refeição que Jesus celebrou e mandou celebrar na sua última ceia. Por causa destas e muitas outras falhas na catequese não devemos ficar admirados se para a maioria das crianças que fazem a primeira comunhão, a catequese em preparação à eucaristia não tem a força de iniciar real e eficazmente na eucaristia, que deve ser sempre de novo o centro e a coroação de uma vida profundamente cristã. 3.2. A natureza da catequese

Não se pode duvidar de que na catequese a dimensão de doutrina, o ensino da fé, é fundamental. Mas como iniciação à eucaristia, que é cume e fonte de toda a vida cristã, o ensino da fé não é suficiente. A fé deve ser vivida e também celebrada. Vida e ação litúrgica, no entanto, não se aprendem apenas por doutrinação. Viver e celebrar se aprende sobretudo vivendo e celebrando. No aprendizado de qualquer profissão a teoria é muito importante, ela é uma ajuda que não deve ser desprezada, mas é apenas uma ajuda. Parece difícil dar uma definição precisa e sucinta de catequese. Mas podemos indicar elementos essenciais para descreve-la. Para isso se oferece como inspiração o novo Diretório Nacional de Catequese. Embora a edição definitiva não esteja ainda a disposição, podemos nos referir ao instrumento de trabalho na versão que foi apresentada aos bispos do Brasil em sua assembléia geral de 2005. Nela lemos: - A catequese é uma ação eclesial pela qual a Igreja transmite a fé que ela mesma vive. - Ao transmitir a fé, a Igreja gera filhos pela ação do Espírito Santo e os educa maternalmente. - A catequese é um aprendizado dinâmico da vida cristã. Uma iniciação integral que favorece o seguimento de Jesus Cristo na comunidade eclesial, à qual ela introduz. - Ela fornece uma formação de base essencial, centrada naquilo que constitui o núcleo da experiência cristã: a fé, a celebração e a vivência da páscoa de Jesus. - Ela suscita o compromisso missionário para o estabelecimento do Reino de Deus no coração das pessoas, em suas relações interpessoais e na organização da sociedade. - Ela é um processo de educação gradual e progressivo, respeitando os ritmos de crescimento de cada um. A finalidade da catequese o mesmo documento descreve assim: Aprofundar o primeiro anúncio do evangelho: Levar o catequizando ao conhecimento, à acolhida, à celebração e vivência do mistério de Deus, manifestado em Jesus Cristo que nos revela o Pai e o Espírito Santo. Conduz à entrega do coração a Deus, à comunhão com a Igreja, corpo de Cristo, e à participação em sua missão. Penso que na base destes esclarecimentos sobre iniciação, eucaristia e catequese possamos agora entrar de cheio no tema central da presente reflexão que é a catequese como iniciação de crianças à eucaristia. No entanto, como o levantamento que acabamos de fazer vale quase em tudo também para a catequese em outras idades, as reflexões que seguem poderão facilmente ser aplicadas igualmente à iniciação à eucaristia de adolescentes, jovens e adultos. 3. A catequese como iniciação à eucaristia 4.1. Desvios Estamos fazendo a presente reflexão na Revista de Liturgia, que tem como leitores sobretudo pessoas engajadas na pastoral litúrgica, que estão preocupadas com a catequese particularmente em relação aos sacramentos, em nosso caso preciso, a eucaristia. É importante para nós liturgos e liturgistas, não cair em panliturgismo, do qual os catequetas e catequistas às vezes nos acusam. Panliturgismo seria ver a catequese somente em função das celebrações litúrgicas, em nosso caso, da eucaristia. Isto seria, sem dúvida alguma, uma visão unilateral. Devemos ver a relação entre catequese e liturgia com realismo e objetividade. Já as expressões primeira comunhão e primeira eucaristia mostram falta de objetividade. Quem as usa parece ver a catequese exclusivamente como preparação para a primeira comunhão ou eucaristia; nem repara que a missa na qual as crianças comungam pela primeira vez, em geral também não é a primeira celebração eucarística de que participam, embora não o tenham feito ainda plenamente. Quem fala em primeira comunhão, facilmente dá a impressão que eucaristia seja apenas a comunhão eucarística. Falha grave é também que na catequese em preparação à eucaristia se dá pouco ou nenhum valor à aprendizagem do celebrar. Raramente se observa um esforço que os catequizandos sejam incentivados a participar da eucaristia ativamente, prestando pequenos serviços nas ou para as celebrações de suas comunidades. Momento de tal iniciação poderia ser também o ensaio de canto. Importante seriam

pequenas celebrações durante ou no fim dos encontros de catequese, como por exemplo ato penitencial, uma ação de graças ou somente o sinal da cruz ou um acender de uma vela. Espero que estes desvios e unilateralidades na compreensão e realização da catequese em vista da eucaristia se tornem sempre mais raras e fracas; mas infelizmente não se pode negar que existem e que há o perigo que em certas comunidades e situações ainda crescem. 4.2. O ideal Agora impõe-se a necessidade de mostrar qual é a relação verdadeira, objetiva e ideal entre catequese e eucaristia no processo de iniciação cristã. É fácil dar uma resposta a esta pergunta a partir daquilo que acabamos de lembrar sobre a natureza e a finalidade da catequese, aplicando as constatações gerais feitas à catequese de iniciação à eucaristia. Podemos portanto dizer que: - A catequese de iniciação à eucaristia é uma ação de Igreja, realizada por suas porta-vozes, os catequistas, em que se transmite a fé na eucaristia que a Igreja vive e celebra. É claro que os catequistas não devem apenas conhecer esta fé com profundidade, mas também viver e celebra-la. - Os catequistas não são profissionais, embora alguns gostem de ser chamados assim, mas testemunhas, pais e mães de fé para os catequizandos. - A catequese deve ser um aprendizado dinâmico da fé e da vida cristãs e da celebração da eucaristia. Os catequizandos dificilmente aprenderão isso, se não forem durante o processo de iniciação incentivados a um verdadeiro treinamento de crer, celebrar e viver o que se quer transmitir a eles. - A catequese, por ser um processo dinâmico de educação integral, deve levar a uma experiência viva da presença e ação de Cristo na vida das pessoas e na comunidade eclesial, para poder levar a um seguimento firme do Senhor e um compromisso missionário. Ninguém vai dizer que a tarefa dos catequistas, de ajudar os catequizandos a um verdadeiro aprofundamento do evangelho, a conhecer, acolher, celebrar e viver o mistério de Deus em comunhão com a Igreja e a assumir a missão que Jesus deixou para todos os batizados, também já para crianças, seja fácil. Nem haverá quem pense ou diga que é fácil para as paróquias e dioceses formar os catequistas para a sua missão. O próprio Jesus não prometeu que seja fácil segui-lo e assumir a sua missão para tornar sempre mais presente o reino em nós, ao nosso redor e no mundo. Mas ele nos deu o seu Espírito que repousa também sobre todos nós, para assumirmos e realizarmos a nossa missão, que é fazer discípulos e reuni-los na Igreja, que por sua vez é sinal de salvação para o mundo. 4.3. Formação dos catequistas As sugestões que serão dadas a seguir, não são fórmulas mágicas, mas pretendem mostrar passos num caminho que se faz caminhando, sobretudo em vista daqueles catequistas que não estão bem a altura de sua missão. Nenhum catequista cai pronto do céu. Também os apóstolos precisavam de formação, que receberam de fato nos anos de convivência com Jesus. Jesus os convidou: Venham ver! E eles ficaram com ele. Só depois o mestre os enviou. A formação dos catequistas deve visar em primeiro lugar a sua maturidade na fé, que devem viver e celebrar na comunidade eclesial. Eles devem ser verdadeiros discípulos de Cristo que se comprometem a viver e trabalhar pela vinda do Reino de Deus. Tal espiritualidade de identificação com Jesus Cristo deve ser sustentada pela Palavra de Deus e a eucaristia, sobretudo no caso de quem tem a missão de iniciar outros nesta vida com Cristo. Mesmo sendo nossos catequistas pessoas que buscam Deus e que têm consciência de sua missão, os responsáveis pela sua formação não devem se contentar em recomendar que eles se formem e atualizem por si mesmos, mas deve oferecer a eles a formação adequada para o desenvolvimento de sua personalidade cristã. Outra dimensão da formação dos catequistas é aquela que visa sua atividade catequética, com respeito aos conteúdos que devem transmitir, e a metodologia que devem saber usar, para que seus catequizandos possam crescer na fé e que cheguem a viver e celebra-la. A boa vontade dos catequistas não garante a eficácia do seu relacionamento com os catequizandos, a comunicação com eles e uma

pedagogia adequada. Devido à situação própria de cada comunidade e grupo de catequizando não é suficiente usar como subsídio para os encontros de catequese um livro ou caderno que não considera as condições locais. Geralmente deveria se fazer, sem desprezar a utilização de subsídios, uma programação da catequese em cada paróquia ou comunidade. Evidentemente, tal programação deve ser feita com a colaboração dos próprios catequistas. No caso da preparação à eucaristia isso é especialmente importante, porque não existem ou são pelo menos raríssimos subsídios que orientam satisfatoriamente para uma verdadeira iniciação à eucaristia. As sugestões que aqui foram dadas valem em primeiro lugar, mas não somente, para a formação inicial dos catequistas. Não menos importante é a formação permanente, que deve ter as mesmas dimensões. O catequista que adquiriu experiências no exercício do seu ministério aproveitará certamente ainda mais da formação que se oferece. Importante é também que o catequista novo inicie seu ministério como ajudante de um catequista que já tem prática e é comprovado nesta missão. Assim o novato tem uma iniciação também prática no seu novo ministério. 4.4. A responsabilidade dos pais e da comunidade Por mais importante e prometedor que seja o trabalho dos catequistas, ele será tanto mais eficaz, quanto mais e melhor a família das crianças fez uma iniciação básica do seu filho ou filha na vida de fé e acompanha depois a catequese na comunidade. Importância semelhante tem a comunidade eclesial. A criança vive (ou deveria viver) sua primeira experiência de fé e vida cristã no ambiente familiar. Na família o processo de crescimento na fé brota da convivência, do clima familiar e do testemunho dos pais. Na família a criança aprende que tem um pai também no céu, já quando se reza regularmente e em comum. Ela aprende que Deus pode ser encontrado de modo especial na Igreja, se os pais participam da vida e das celebrações da comunidade e levam seus filhos consigo. Na comunidade, se ela é acolhedora e oferece espaço adequado também para os pequenos, particularmente nas suas celebrações, as crianças terão experiências vivas da presença de Deus nos irmãos e especialmente na liturgia. Para as crianças que não tiveram tal ambiente familiar, os catequistas devem ser especialmente sensíveis. Onde isso for possível, recomenda-se a formação de grupos de catequese especiais para estas crianças. Não parece ser necessário salientar que os catequistas devem conhecer e levar em consideração aquilo que se acaba de dizer a respeito do papel da família e da comunidade em relação à iniciação à eucaristia. Importante é também o acompanhamento da catequese pelos próprios pais e, para cada grupo de catequizandos, de um casal competente que, além de garantir a relação dos pais dos catequizandos com o grupo de catequese e o catequista, dá segurança ao catequista, sobretudo quando ainda é jovem, e contribui para que a catequese atinja melhor os seus objetivos. Ainda mais evidente é a importância do acompanhamento da catequese pelos padres e diáconos da paróquia, eventualmente também de religiosos. Eles programam e orientam a catequese, incentivam e garantem a formação inicial e permanente dos catequistas. Dos padres em primeiro lugar depende também se as celebrações eucarísticas de sua paróquia e comunidades são aquilo que Jesus fez na última ceia e nos mandou fazer, ou se eventualmente vigora uma compreensão e celebração da eucaristia que deveria ter sido corrigida com a reforma da missa pelo Concílio Vaticano II. Pois, como será possível e teria sentido iniciar a uma eucaristia que existe somente na bíblia, nos documentos do magistério e no missal, mas não se celebra na comunidade e na paróquia onde se realiza esta catequese? Concluindo podemos dizer: se pais e comunidades, catequistas e clero, todos eles abertos para a luz e as moções do Espírito Santo, refletem e trabalham juntos para e na iniciação das crianças à eucaristia, os seus esforços, particularmente os dos catequistas, não ficarão sem resultado. Texto publicado na Revista de Liturgia, n. 194, março/abrio 2006, p. 4