Cooperativas de Crédito

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Transcrição:

Cooperativas de Crédito INTRODUÇÃO 1. As cooperativas de crédito são instituições financeiras cujas características jurídicas e socioeconômicas, decorrentes do cooperativismo, as diferenciam das demais, tanto pelos seus objetivos (as cooperativas visam prestar serviços e não têm fins lucrativos) quanto pelo fato de ser-lhes permitido operar exclusivamente com seus associados. Tais características são descritas no início do capítulo, por meio da apresentação dos principais dispositivos legais e normativos que regem a constituição e o funcionamento dessas instituições, nas seções 5.1.20 Considerações preliminares e 5.1.30 Disposições específicas. 2. Os assuntos expostos nas citadas seções propiciam ao leitor pouco familiarizado com a matéria adquirir conhecimentos básicos sobre os principais aspectos legais e regulamentares relativos às cooperativas de crédito, não obstante o fato de que alguns deles não estão diretamente ligados ao assunto principal do capítulo, que é a constituição. Já o usuário conhecedor do tema terá nele uma fonte de referência. 3. A legislação básica a ser observada pelas cooperativas de crédito inclui: a Lei Complementar nº 130, de 2009, que dispõe sobre o Sistema Nacional de Crédito Cooperativo; a Lei nº 5.764, de 1971, que institui o regime jurídico das sociedades cooperativas; a Lei nº 4.595, de 1964, no que concerne à sua condição de integrantes do Sistema Financeiro Nacional; e os atos normativos baixados pelo Conselho Monetário Nacional e pelo Banco Central do Brasil, em especial a Resolução nº 3.859, de 2010, que dispõe sobre a constituição e o funcionamento de cooperativas de crédito, e a Circular nº 3.502, de 2010, que trata dos procedimentos a serem por elas observados para instrução de processos de autorização no Banco Central do Brasil. 4. As cooperativas de crédito são regidas também pelo seu Estatuto Social, que constitui a lei interna da sociedade. 5. Os procedimentos constantes neste capítulo referem-se à primeira fase do processo de constituição da cooperativa de crédito, fase em que não há ato societário a ser analisado, mas sim o projeto de constituição. A observância dos procedimentos aqui elencados é essencial para se obter a posterior autorização para funcionamento, cujos requisitos estão descritos no Sisorf 5.2, e que constituem a segunda fase do processo, na qual o ato de constituição da sociedade, quase sempre assembleia geral de fundadores, é submetido ao Banco Central do Brasil para aprovação.

Características básicas 1. As cooperativas de crédito são instituições financeiras, constituídas como sociedades de pessoas, com forma e natureza jurídica próprias, de natureza civil, sem fins lucrativos, com o objetivo de propiciar crédito e prestar serviços aos seus associados, distinguindo-se das demais sociedades pelas seguintes características (Lei 5.764/1971, art. 4º; Lei Complementar 130/2009, art. 11): a) adesão voluntária, com número ilimitado de associados, salvo impossibilidade técnica de prestação de serviços; b) variabilidade do capital social, representado por quotas-partes; c) limitação do número de quotas-partes do capital para cada associado, facultado, porém, o estabelecimento de critérios de proporcionalidade, se assim for mais adequado para o cumprimento dos objetivos sociais; d) inacessibilidade das quotas-partes do capital a terceiros, estranhos à sociedade; e) singularidade de voto, podendo as cooperativas centrais e confederações de cooperativas optar pelo critério da proporcionalidade em relação ao número de associados indiretamente representados na assembleia geral; f) quorum para o funcionamento e deliberação da assembleia geral baseado no número de associados e não no capital; g) retorno das sobras líquidas do exercício proporcionalmente às operações realizadas pelo associado; h) indivisibilidade dos fundos sociais obrigatórios: Fundo de Reserva e Fundo de Assistência Técnica, Educacional e Social (Fates); i) neutralidade política e indiscriminação religiosa, racial e social; j) prestação de assistência aos associados, e, quando previsto nos estatutos, aos empregados da cooperativa; k) área de admissão de associados limitada às possibilidades de reunião, controle, operações e prestação de serviços. 2. Ao se associarem a uma cooperativa, as pessoas obrigam-se reciprocamente a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício das atividades da sociedade, que são de proveito comum, sem objetivo de lucro (Lei 5.764/1971, art. 3º). 3. As sociedades cooperativas serão de responsabilidade limitada, quando a responsabilidade do associado pelos compromissos da sociedade limitar-se ao valor do capital por ele subscrito, ou de responsabilidade ilimitada, quando for pessoal, solidária e sem limite. A responsabilidade do associado para com terceiros, como membro da sociedade, somente poderá ser invocada depois de judicialmente exigida da cooperativa (Lei 5.764/1971, arts. 11, 12 e 13).

Classificação 4. As cooperativas de crédito classificam-se em (Lei 5.764/1971, art. 6º; Res. 3.859/2010, art. 12, 2º): a) singulares: as constituídas por no mínimo vinte pessoas físicas, sendo que a admissão de pessoas jurídicas deve restringir-se, exceto nas cooperativas de livre admissão de associados, às sem fins lucrativos, às que tenham por objeto as mesmas ou correlatas atividades econômicas dos associados pessoas físicas e às controladas por esses associados. Cabe aqui uma observação: conforme o artigo 1.094, II, da Lei nº 10.406 (Código Civil), de 2002, o número mínimo de associados da cooperativa é aquele necessário para compor a administração da sociedade. Todavia, a Organização das Cooperativas Brasileiras OCB, órgão regido pelo disposto no artigo 105 da Lei nº 5.764, de 1971, em sua Resolução nº 11, de 2003, apresenta interpretação no sentido de que permanece exigível o número mínimo de vinte associados; b) cooperativas centrais: as constituídas de, no mínimo, três cooperativas singulares; c) confederações de cooperativas: as constituídas de pelo menos três cooperativas centrais. 5. As cooperativas singulares caracterizam-se pela prestação direta de serviços aos associados (Lei 5.764/1971, art. 7º). 6. As cooperativas centrais objetivam organizar, em comum e em maior escala, os serviços econômicos e assistenciais de interesse das filiadas, integrando e orientando suas atividades, bem como facilitando a utilização recíproca dos serviços. Para prestação de serviços de interesse comum, é permitida a associação de cooperativas de naturezas diversas (Lei 5.764/1971, art. 8º). 7. As confederações de cooperativas têm por objetivo orientar e coordenar as atividades das filiadas, nos casos em que o vulto dos empreendimentos transcender o âmbito de capacidade ou conveniência de atuação das centrais e das federações (Lei 5.764/1971, art. 9º). 8. As cooperativas classificam-se ainda de acordo com o objeto ou a natureza das atividades desenvolvidas por elas ou por seus associados (Lei 5.764/1971, art. 10, caput). Características específicas 9. As cooperativas de crédito destinam-se, precipuamente, a prover, por meio da mutualidade, a prestação de serviços financeiros a seus associados, sendo-lhes assegurado o acesso aos instrumentos do mercado financeiro (Lei Complementar 130/2009, art. 2º, caput). 10. As competências legais do Conselho Monetário Nacional CMN e do Banco Central do Brasil em relação às instituições financeiras aplicam-se às cooperativas de crédito (Lei Complementar 130/2009, art. 1º, 1º).

11. O Conselho Monetário Nacional, no exercício das competências que lhe são atribuídas pela legislação que rege o Sistema Financeiro Nacional, poderá dispor, inclusive, sobre as seguintes matérias (Lei Complementar 130/2009, art. 12, caput e incisos I a VIII): a) requisitos a serem atendidos previamente à constituição ou transformação das cooperativas de crédito, com vistas ao respectivo processo de autorização a cargo do Banco Central do Brasil; b) condições a serem observadas na formação do quadro de associados e na celebração de contratos com outras instituições; c) tipos de atividades a serem desenvolvidas e de instrumentos financeiros passíveis de utilização; d) fundos garantidores, inclusive a vinculação de cooperativas de crédito a tais fundos; e) atividades realizadas por entidades de qualquer natureza, que tenham por objeto exercer, com relação a um grupo de cooperativas de crédito, supervisão, controle, auditoria, gestão ou execução em maior escala de suas funções operacionais; f) vinculação a entidades que exerçam, na forma da regulamentação, atividades de supervisão, controle e auditoria de cooperativas de crédito; g) condições de participação societária em outras entidades, inclusive de natureza não cooperativa, com vistas ao atendimento de propósitos complementares, no interesse do quadro social; h) requisitos adicionais para que exerçam a faculdade de compensação de perdas de um exercício por meio de sobras dos exercícios seguintes. 12. O exercício das atividades a que se refere a alínea e do item anterior, regulamentadas pelo Conselho Monetário Nacional CMN, está sujeito à fiscalização do Banco Central do Brasil, sendo aplicáveis às respectivas entidades e a seus administradores as mesmas sanções previstas na legislação em relação às instituições financeiras (Lei Complementar 130/2009, art. 12, 1º). 13. A captação de recursos e a concessão de créditos e garantias devem ser restritas aos associados, ressalvadas as operações realizadas com outras instituições financeiras e os recursos obtidos de pessoas jurídicas, em caráter eventual, a taxas favorecidas ou isentos de remuneração (Lei Complementar 130/2009, art. 2º, 1º). 14. Ressalvado o descrito no item anterior, é permitida a prestação de outros serviços de natureza financeira e afins a associados e a não associados (Lei Complementar 130/2009, art. 2º, 2º). 15. As cooperativas de crédito, nos termos da legislação específica, poderão ter acesso a recursos oficiais para o financiamento das atividades de seus associados (Lei Complementar 130/2009, art. 2º, 5º). 16. As cooperativas de crédito podem atuar em nome e por conta de outras instituições, com vistas à prestação de serviços financeiros e afins a associados e a não associados (Lei Complementar 130/2009, art. 3º).

Condições para constituição 17. A sociedade cooperativa constitui-se por deliberação da assembleia geral dos fundadores, constante na respectiva ata, ou por instrumento público (Lei 5.764/1971, art. 14). 18. A constituição de cooperativa de crédito subordina-se às condições estabelecidas na Resolução nº 3.859, de 2010, cujo atendimento é verificado pelo Banco Central do Brasil (Res. 3.859/2010, art. 2º). 19. O Banco Central do Brasil, com o objetivo de adequar a análise dos pedidos de constituição de cooperativa de crédito à abrangência e complexidade do pleito, pode adotar, nos termos da legislação em vigor, medidas complementares julgadas pertinentes, inclusive exigir da respectiva central, como também da confederação, no caso de pedidos de cooperativas integrantes de sistemas cooperativos (Res. 3.859/2010, art. 9º, 1º, I): a) cumprimento da legislação e da regulamentação em vigor, inclusive quanto a limites operacionais e obrigações perante o Banco Central do Brasil; b) ausência de irregularidade e de restrição em sistemas públicos ou privados de cadastro e informações que contenham dados pertinentes à autorização pretendida, inclusive por parte de seus administradores; c) aderência às diretrizes de atuação sistêmica estabelecidas pela respectiva confederação, quando for o caso; d) cumprimento das atribuições específicas estabelecidas no Capítulo V da Resolução nº 3.859, de 2010; e) apresentação de relatório de conformidade com o pleito em análise. 20. A constituição de cooperativa central de crédito subordina-se ao cumprimento, por parte das singulares fundadoras, das condições estabelecidas nas alíneas a, b e c do item anterior, bem como à apresentação de relatório de conformidade da confederação, quando se tratar de pleito vinculado a sistema organizado em três níveis (Res. 3.859/2010, art. 9º, caput e 1º, I). 21. O Banco Central do Brasil pode considerar, para fins de análise do cumprimento dos limites operacionais, eventual plano de regularização apresentado na forma da regulamentação em vigor (Res. 3.859/2010, art. 9º, 1º, II). 22. O Banco Central do Brasil poderá dar continuidade ao exame do pedido nos casos em que se verifique desatendimento não considerado grave das condições descritas no item 19 (Res. 3.859/2010, art. 9º, 1º, III). 23. O Banco Central do Brasil indeferirá os pedidos em relação aos quais for apurada falsidade nas declarações ou nos documentos apresentados na instrução do processo (Res. 3.859/2010, art. 9º, 2º). 24. É vedada a constituição de cooperativa mista com seção de crédito (Lei Complementar 130/2009, art. 1º, 2º).