PARECER CONSULTA Nº 8-2012 Solicitante: M.A.G T.C.A.P Conselheiro Parecerista: DR. ALDAIR NOVATO SILVA CRM/GO 3579 Assunto: Reprodução assistida pleiteada por casal homoafetivo EMENTA: Todas as pessoas capazes perante a lei podem solicitar procedimento de reprodução assistida, desde que a indicação não se afaste dos limites determinados pela Resolução CFM 1957/2010, e que os participantes estejam esclarecidos e de acordo com a legislação vigente. Sr. Presidente, Srs(as). Conselheiros(as), Designado que fui para emitir relatório da presente Processo Consulta, o faço da forma que se segue: PARTE EXPOSITIVA No dia 08/06/2011, foi protocolado neste Conselho pedido de parecer consulta sobre o assunto: Reprodução assistida por casal homossexual, o qual transcrevo integralmente: Michelle Almeida Generozo, portadora do RG/CI n 3517334 SSP/GO, inscrito no CPF/MF sob o n 894.024.801-53, gerente de compras da Organização
Social denominada Instituto de Desenvolvimento Tecnológico e Humano (IDTECH) e Thaise Cristiane de Abreu Prudente, portadora do RG/CI n 3671693 SSP/GO, inscrito no CPF/MF sob o n 998.293.801-06, servidora pública federal lotada na Universidade Federal de Goiás (UFG), as quais são residentes e domiciliadas na Rua 1.058, Qd. 123, Lt. 22, Casa 02, Setor Pedro Ludovico, Goiânia/Go, CEP: 74.825-220, e mantêm entre si a Escritura de Declaração de União Estável, conforme Certidão Pública registrada junto ao Cartório Francisco Taveira 4º Registro Civil e Tabelionato de Notas do Estado de Goiás (em anexo), vêm mui respeitosamente, à presença de Vossa Senhoria, solicitar o que se segue, pelo fatos e fundamentos a seguir: DOS FATOS 1. As requerentes supraqualificadas se conheceram na data do dia 06 de junho de 2006, e, a partir daí, nunca mais se separaram, passando a coabitarem juntas desde a data do dia 19 de agosto de 2006. 2. Na data do dia 02 de junho de 2011 promoveram o Registro da União Estável junto ao Cartório Francisco Taveira 4º Registro Civil e Tabelionato de Notas do Estado de Goiás, No Município de Goiânia/Go. 3. Dessa forma, com intuito de construir família e vontade de ter um filho pelo método de inseminação por doação de óvulo da cônjuge e com compra de espermatozóide em bancos devidamente registrados, procuraram o Hospital das Clínicas HC, do Município de Goiânia/GO, onde iniciaram as primeiras consultas médicas. 4. No entanto, tendo, em vista que se trata de um procedimento diverso do comum, a equipe médica responsável pelo procedimento solicitou às requerentes que buscassem a Autorização do Conselho Regional de Medicina do Estado de
Goiás -CREMEGO, para que promovam estudos viabilizadores para a efetivação do procedimento. DOS FUNDAMENTOS 1. Considerando as garantias e fundamentos da Constituição Federal de 1988, trazemos o que preceitua a Carta Magna, in verbis: Art. 3 Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: IV promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (...) 2. Considerando que formam uma família nos termos da Lei Maria da Penha, Lei N 11.340, 7 de agosto de 2006, a qual em seu Art. 5, inciso II, traz a compreensão de família enquanto: comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa ; E ainda, 3. Considerando os precedentes judiciais sobre direitos consagrados aos casais homoafetivos, trazemos principalmente a atual DECISÃO exarada pelo Supremo Tribunal Federal STF, em súmula vinculante, a qual lhes garantiu os mesmos direitos civis da união estável entre os casais heterosexuais. DOS PEDIDOS/REQUERIMENTOS Por todo o exposto, dos fatos e fundamentos, solicitamos a AUTORIZAÇÃO para realização do procedimento junto ao Hospital das Clínicas -HC;
Requeremos que seja expedida a referida autorização, para encaminhamento junto ao Hospital da Clínicas; Pedimos que considerem que as restrições relativas à doação de óvulo existem para, inequivocamente, coibir o que se convencionou chamar de barriga de aluguel, o que não é o caso. Vale levar em consideração também que novas realidades e demandas sociais requerem novos olhares sobre o mesmo objeto; Solicitamos que compreendam que o método de fecundação pretendido, se justifica pelo fato de que tal forma de concepção potencializa o sentimento de integração de ambas as requerentes no processo de desenvolvimento de uma nova vida, a qual surgirá neste novo contexto histórico-cultural pelo qual a contemporaneidade perpassa, contexto este que ressignificou legalmente e culturalmente o conceito de família. Certas de que este Conselho compreende o ensejo da importância histórica da referida autorização para o desenvolvimento dos direitos civis no estado e no Brasil e certas ainda do apreço e compreensão, nestes termos, pedimos o DEFERIMENTO do presente pleito e desde já externamos, a Vossa Senhoria, protesto de estima e elevada consideração. PARTE CONCLUSIVA A folha 07, encontra-se a escritura pública de união estável das consulentes. No caso em tela, duas mulheres requerem deste conselho a autorização para a realização de técnica de reprodução assistida a ser feita no serviço de reprodução assistida no Hospital das Clínicas da UFGO. Como já exposto, a resolução 1957/2010 do CFM garante a elas esse direito. Assim uma delas poderá participar da geração deste novo ser com a fertilização
de seus próprios óvulos a partir de inseminação artificial com sêmen de doador desconhecido, e a transferência dos embriões resultantes se fará para o útero da sua companheira, em acordo com a mesma Resolução. Caso nenhuma delas disponha de óvulos viáveis, o que deve ser avaliado pelo laboratório de reprodução assistida poderá ser lançado mão de técnica de fertilização em vitro com óvulo e sêmen de doadores desconhecidos, e os embriões resultantes transferidos para o útero de uma ou ambas consulentes. Numa ultima hipótese, caso nenhuma das consulentes disponha de óvulos ou útero em condições de gestar, ou alguma doença clínica que as impeçam de desenvolver gravidez sem risco de vida, poderão ainda lançar mão de técnica de reprodução assistida em útero de substituição, respeitadas as orientações da Resolução CFM, salvaguardada a condição de não modificação de características biológicas das pretendentes. Assim sou favorável a autorização para que as consulentes sejam atendidas naquele serviço de reprodução assistida para que sejam satisfeitos os seus desejos de ter filhos, e que este parecer sirva para casos futuros de pretensões semelhantes. Esse é o meu parecer s.m.j. Goiânia, 26 de setembro de 2011. DR. ALDAIR NOVATO SILVA Conselheiro Parecerista