Autoria: Maurício Reinert do Nascimento, Evelyn Seligmann Feitosa, Rosilene Marcon, Fabiane Cortez Verdu, Rodrigo Bandeira-de-Mello



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Transcrição:

Ensaios Teóricos: De onde Vêm e para Onde Vão? Autoria: Maurício Reinert do Nascimento, Evelyn Seligmann Feitosa, Rosilene Marcon, Fabiane Cortez Verdu, Rodrigo Bandeira-de-Mello Resumo Este artigo teve por objetivo incentivar a discussão sobre a importância e aplicação dos artigos teóricos na área de administração no Brasil, mais especificamente na área de estratégia. Realizou-se uma pesquisa quantitativa-descritiva sobre os artigos apresentados na área de estratégia em dois eventos relacionados à ANPAD: ENANPAD e 3Es. A pesquisa foi dividida em duas partes: inicialmente, foram classificados os trabalhos apresentados nestes dois eventos da ANPAD e em seguida foi observada a continuidade destes artigos considerados teóricos, seja por meio de continuação do debate teórico, seja por meio de pesquisa empírica, analisando-se todos os trabalhos apresentados nos eventos do mesmo tipo, nos anos subseqüentes. Constatou-se uma baixa utilização dos artigos teóricos em trabalhos futuros dos mesmos autores nas publicações analisadas e os resultados apontaram que o número de artigos apresentados exclusivamente por mestres e graduados foi quase igual ao que foi apresentado exclusivamente por doutores. 1

Introdução A pesquisa acadêmica na área de administração tem crescido no país, acompanhando o aumento no número de cursos de mestrado e doutorado. Os números crescentes de cursos de mestrado e doutorado, de eventos científicos ligados à ANPAD e de periódicos acadêmicos demonstram isso. Muito mais tem sido escrito e publicado, e mais do que nunca as questões sobre qualidade, relevância e importância das pesquisas passam a ser centrais, como pode ser visto no recente editorial da RAC Eletrônica em que Quintella (2007), Bertero (2007) e Guimarães (2007) discutem o assunto. Uma das questões mais interessantes, e também das mais polêmicas, é a afirmação do professor Bertero (2007) de que é preciso inovar a arriscar, e que uma boa teoria precisa trazer frescor para o meio acadêmico. Nessa mesma linha, Davis (1971) argumenta que o que torna um artigo teórico interessante é o fato de desconfirmar alguns dos pressupostos de seus leitores, mas não todos, por que então o artigo pareceria absurdo. Bartunek, Rynes e Irland (2006) encontram respostas que parecem corroborar a afirmação de Bertero (2007) e Davis (1971), visto que desafiar as teorias já existentes é o item mais citado na pesquisa realizada sobre o que torna um artigo interessante. Todavia, as pesquisadoras afirmam que, em pesquisas empíricas, questões de validade e qualidade não podem ser deixadas de lado na busca por ser interessante. Se na pesquisa empírica a questão de validade e qualidade do artigo está fortemente associada a questões de metodologia, como é possível avaliar um artigo teórico? Essa questão se torna mais importante quando o crescimento de artigos teóricos nos congressos acadêmicos se associa ao aumento das pressões por publicação. Se para os artigos de base empírica, há a exigência de rigor metodológico (quaisquer que sejam os critérios de rigor que se leve em consideração), de coleta e tratamento dos dados, e, depois, necessidade de relacionar tudo isso à teoria, de acordo com o estado-da-arte da respectiva área de interesse, processo que toma tempo e que pode vir a ser facilmente avaliado, por que não escrever ensaios teóricos, aos quais esses critérios não se aplicam? Davis (1971) argumenta que para um artigo teórico ser considerado interessante precisa trazer uma teoria que seja julgada muito melhor que (stand out) as outras teorias que busca superar. O ser melhor está relacionado à capacidade de argumentação lógica apresentada pelo autor. A estrutura da argumentação lógica talvez requeira tanto tempo e dedicação quanto o rigor metodológico, mas não é tão claramente identificável. O professor Renato Mezan (2005) escreveu um artigo intitulado Sociedade dos Bacharéis, em que aponta a tendência, em nosso país, de evitar o árduo caminho da demonstração, saltando diretamente para o garboso território das conclusões. Será que esse não é o caminho escolhido pelos autores dos nossos ensaios teóricos? No intuito de levantar a discussão sobre a importância e conseqüências dos artigos teóricos na área de administração no Brasil, os quais deveriam ter sempre a função de trazer um pensamento inovador à área de conhecimento, gerando, após sua apresentação, discussões e pesquisas na área, para confirmação ou refutação das idéias lançadas, optou-se por realizar uma pesquisa quantitativa-descritiva sobre os artigos apresentados na área de estratégia em eventos relacionados à ANPAD. A pesquisa foi dividida em duas partes. Inicialmente, foram classificados os trabalhos apresentados em dois eventos da ANPAD: o ENANPAD-2003 (somente a área de estratégia) e o 3 Es - 2003 e identificados, por evento, os artigos teóricos, aqui considerados aqueles que não trazem expressa referência ao uso de metodologias empíricas; ou seja, a mesma classificação adotada na avaliação dos artigos. A partir deste conjunto, a seguir foi pesquisado se os autores desses artigos deram continuidade aos respectivos trabalhos, seja por meio de continuação do debate teórico, seja por meio de pesquisa empírica, analisando-se todos os trabalhos apresentados nos eventos do mesmo tipo, dos anos subseqüentes ENANPAD 2004, 2005 e 2006; 3Es 2005 e 2007. Na segunda parte 2

da pesquisa, foram identificados todos os artigos teóricos apresentados no evento 3E s de 2007 e feita a caracterização dos seus autores, onde as variáveis adotadas para análise foram: o número de autores, a filiação acadêmica e a formação dos autores dos artigos. A partir destes dois levantamentos, a discussão sobre a relevância, utilização e qualidade dos artigos considerados teóricos na área de administração, aqui limitada à área de estratégia, é travada. O que se pode observar com a pesquisa é que os artigos considerados teóricos foram utilizados de forma restrita em pesquisas posteriores, a maioria foram revisões de literatura que alunos dos programas de pós-graduação realizaram para seus trabalhos de dissertações e teses, sem a devida utilização e publicação, posteriormente, nos eventos da área. Considerando que os artigos publicados nos Anais destes dois eventos refletem a produção acadêmica da área de estratégia no Brasil, constatou-se, após a análise, que os trabalhos que deveriam ser utilizados como base teórica para futuros trabalhos empíricos ou para aprofundar determinada discussão não apresentam a continuidade esperada. Espera-se, com o presente trabalho, contribuir para a análise dos efeitos dos ensaios teóricos na área de estratégia no Brasil, representados por aqueles discutidos nos eventos promovidos pela ANPAD, sobre o desenvolvimento de novas pesquisas, de debates e para promover avanços teóricos no campo da ciência administração, bem como para o repensar dos critérios de caracterização deste tipo de trabalho científico. Referencial Teórico Com o crescimento das publicações acadêmicas no Brasil, os debates sobre a importância e a relevância das pesquisas têm crescido. O debate no editorial de lançamento da RAC-Eletrônica ilustra essa tendência. Mas essa discussão não é apenas nacional. No meio acadêmico internacional, o debate é intenso já há muito tempo. Em artigos recentes, Bartunek, Rynes e Irland (2006) discutem o que torna um artigo interessante. Em pesquisa com o corpo editorial do Academy of Management Journal AMJ para saber o que tornava um artigo interessante, a qualidade apareceu como fator muito importante. O mesmo artigo apresenta resultado de pesquisa realizada no Brasil, com avaliadores da Revista de Administração de Empresas da EAESP-FGV, que também indica a qualidade como fator essencial para tornar um artigo interessante. Todavia, essa pesquisa buscava artigos interessantes entre trabalhos empíricos, o que certamente facilita a definição de qualidade, visto que os pesquisados destacaram alguns indicadores de qualidade, tais como um bom trabalho técnico e metodológico, metodologia sofisticada, bom casamento entre dados e teoria, uma ótima amostra, entre outros. As autoras ainda afirmam que as questões de validade não podem ser deixadas de lado na tentativa de ser interessante. Barley (2006), autor citado entre os que possuem mais artigos interessantes na opinião dos editores do AMJ, também destaca o método entre os itens importantes em um artigo interessante. Mas se nos trabalhos empíricos, o método e a validade são pontos de destaque em relação à qualidade de um artigo e a possibilidade dele ser interessante, o que torna um ensaio teórico interessante, importante ou relevante? Esse debate sobre os artigos teórico é tema candente especialmente na Academy of Management Review AMR, periódico especializado na publicação de artigos teóricos. O debate será estabelecido em duas partes nesse trabalho, a primeira fazendo uma breve discussão sobre o que significa uma contribuição teórica e o que faz uma teoria ser interessante, e a segunda sobre o que significa escrever um bom ensaio teórico. Uma contribuição teórica para Whetten (1989) precisa ser composta dos elementos O Que (What), Como (How), Por Que (Why), sendo que os dois primeiros descrevem e o último explica. Além desses três elementos, os elementos Quem (Who), Onde (Where) e Quando (When) complementam os três primeiros, impondo limitações ao modelo teórico proposto. Uma contribuição teórica pode vir dos três primeiros elementos, em especial do 3

Por Que, todavia alterações nos elementos Quem, Onde e Quando isoladamente são insuficientes para uma contribuição teórica. Mas, de modo geral, uma contribuição teórica ganha consistência se sua crítica é endereçada a múltiplos elementos da teoria existente. Assim, uma contribuição teórica deveria, segundo o autor, ajudar na construção de uma nova teoria a partir do questionamento dos elementos essenciais da teoria existente. Essa perspectiva sobre a contribuição teórica vai ao encontro da afirmação de Davis (1971) de que uma teoria é interessante se desafia os pressupostos da sua audiência, ou seja, questiona elementos aceitos dentro de outra teoria ou da percepção da vida cotidiana dessa audiência. Por outro lado, o autor afirma que se o desafio ao que já existe for muito surpreendente ou chocante, essa nova teoria tem grande possibilidade de não ser levada a sério, ou considerada absurda. Para ele, é tênue a linha entre o interessante e o absurdo (DAVIS, 1971). Não preocupados apenas com ensaios teóricos, Sutton e Staw (1995) destacam cinco coisas usualmente tratadas como teorias, mas que não o são. A primeira é a utilização de referências como se fossem teorias. Apenas referenciar teorias anteriores, sem esclarecer a lógica como os conceitos foram utilizados e as suas ligações com o que está sendo testado não pode ser considerado teoria. A segunda é que dados não são teorias. Padrões encontrados nos dados não podem ser considerados teorias, pois carecem da explicação da razão pela qual isso acontece. A terceira é que uma lista de variáveis e construtos não é teoria. Sem uma explicação do porquê estas variáveis surgiram e qual a ligação entre elas, fazem pouco sentido, mesmo quando bem definidas. A quarta é que a apresentação de diagramas sem o fundamento que está subjacente a eles. Os diagramas podem ser úteis na construção de teorias, mas não é uma em si. Por fim, hipóteses não são teorias. Falta na hipótese o componente explicativo do porquê as coisas acontecem, o qual é fundamental para uma teoria. Os autores terminam enfatizando que é preciso valorizar mais trabalhos com boas teorias, isto é, teorias que são importantes ou interessantes e que podem contribuir para o desenvolvimento do conhecimento. Em resposta a Sutton e Staw (1995), Weick (1995) faz várias considerações sobre os cinco pontos apresentados pelos autores sobre o que não é teoria. Ele argumenta, em resumo, que o problema é que Sutton e Staw (1995) afirmam que uma boa teoria seria exclusivamente uma teoria pronta, e que os cinco pontos levantados seriam meios para construção dessa teoria e por isso seriam importantes, visto que os periódicos não têm por objetivo apenas teorias prontas. O destaque aqui é para o conhecimento sendo construído e a valorização também do processo de construção e não apenas do fim, pronto e acabado. DiMaggio (1995), também em resposta a Sutton e Staw (1995), enfatiza esta construção do conhecimento, destacando-a como uma empreitada cooperativa entre autor e leitor. De maneira geral, parece haver uma concordância entre todos eles de que é difícil definir o que é uma boa teoria, mas que a construção de uma teoria é um processo importante na construção de conhecimento e depende muito de uma interação entre autor e crítica, para seu refinamento. Apesar da dificuldade de definição do que é uma boa teoria, alguns editores da AMR tentaram sintetizar o que um ensaio teórico precisa ter para contribuir para a construção de conhecimento. De acordo com Kilduf (2006), não são regras a serem seguidas, mas direções que podem melhorar o desenvolvimento de ensaios teóricos. O primeiro destaque, seguindo muito claramente o ponto central do que é uma boa contribuição teórica já discutida anteriormente, é que ensaios teóricos precisam oferecer idéias originais e importantes. Para esse autor, é preciso encontrar a sua grande idéia e, para tanto, é preciso conhecer sua própria especialidade, refletir sobre a sua própria experiência e trabalhar a partir a suas próprias motivações no contexto da teoria atual do campo (KILDUF, 2006, p.252). Um ensaio teórico, portanto, deve abrir as portas para novas oportunidades de pesquisa, além do que as pesquisas atuais fazem. Em outro editorial (KILDUF, 2007), o autor alerta que revisão de 4

literatura não é ensaio teórico, nem quando o resumo dessa literatura é apresentado em forma de proposições testáveis, justamente por falharem em apresentar contribuições que vão além do que já foi escrito. O autor é claro em sugerir que não se deve enviar a revisão de literatura da dissertação ou tese como ensaio teórico (KILDUF, 2006). Outra sugestão que o editor faz é que uma coleção de pensamentos colocados elegantemente juntos não consiste em um ensaio teórico. Sem que sejam apresentadas quais são as suas contribuições para a teoria atual ou futura da área de conhecimento, eles não trazem nenhuma contribuição. Para finalizar, Whetten (1989) oferece uma série de questões que precisam ser feitas na avaliação de ensaios teóricos que talvez possam servir como um direcionador para o que significa ser um trabalho válido e relevante para a área. O que tem de novo? (What s new?) é a primeira questão. Não precisa ser uma teoria totalmente nova, mas é necessário fazer alguma contribuição relevante, seja modificando ou acrescentando. Sobretudo é preciso ter algum impacto no campo de conhecimento ao qual essa teoria se refere. E daí? (So what?) é a segunda questão. Ela se refere ao impacto que o ensaio vai ter na prática da pesquisa, pois ele deve não apenas criticar a teoria atual, mas propor soluções ou saídas para os problemas apontados. Por que assim? (Why so?) é a terceira pergunta. A fundamentação lógica precisa ser convincente, os pressupostos precisam ser claramente apresentados, convencendo os leitores de que a argumentação é plausível. É bem feito? (Well done?) refere-se à estrutura da proposta feita. Inclui todos os elementos necessários para uma teoria: o que, como, por que, quando, onde e quem. Foi aprofundado e discutido com os pares, recebendo contribuições para seu refinamento? Essa pergunta está associada ao desenvolvimento do ensaio, o seu processo de confecção. É bem acabado? (Done well?) é a quinta pergunta. Com ela, se quer saber se foi bem escrito, de fácil entendimento, tem equilíbrio entre profundidade ao cobrir o assunto e curto para manter o interesse do leitor. A sexta pergunta é Por que agora? (Why now?). Ela procura verificar se a discussão é atual. A última pergunta é Quem se importa? (Who cares?). Refere-se ao interesse da comunidade acadêmica pelo assunto. Para o autor essas perguntas podem ajudar na construção de ensaios teóricos mais consistentes e que contribuam mais para a pesquisa na área. A partir dessa discussão sobre o que constitui uma boa teoria e sobre o que é um bom ensaio teórico é possível identificar quatros aspectos importantes de um ensaio teórico que parecem ser de consenso entre os autores. O primeiro está associado à necessidade de que ele traga alguma idéia nova para contribuir para a geração de conhecimento na área. Essa idéia nova, seja ela mais controversa, o que a torna mais interessante (DAVIS, 1971), seja ela apenas um acréscimo ao que já existe, é fundamental para a avaliação de um ensaio teórico. Sem nenhuma idéia nova, qualquer ensaio teórico falha em cumprir seu papel de abrir um espaço de discussão no que já existe. É por isso que revisão de literatura não deve ser considerado um ensaio teórico. O segundo aspecto refere-se à necessidade de uma certa experiência dos autores desses ensaios. Essa experiência pode estar associada à descoberta da sua grande idéia (KILDUF, 2006), ao conhecimento da sua audiência para tornar a teoria mais interessante (DAVIS, 1971), ou ao conhecimento dos elementos das teorias atuais para questioná-los (WHETTEN, 1989). O terceiro aspecto é a sua contribuição para as pesquisas empíricas. Abrir as portas para novas oportunidades de pesquisas e contribuir para as soluções de dificuldades das pesquisas empíricas são apontados como pontos fundamentais dos ensaios teóricos (KILDUF, 2007; WHETTEN, 1989). O quarto aspecto, e provavelmente o mais importante e interessante deles, é que o ensaio teórico deve ser parte do processo de construção de teoria e conhecimento (WEICK, 1995). Nesse sentido, há a necessidade de que o ensaio seja discutido e receba contribuição da comunidade acadêmica (KILDUF, 2006; 2007; WHETTEN, 1989). É essa discussão que faz com que um ensaio responda a questão de ser bem feito (Well done?). Como enfatiza Kilduf (2007), essa discussão deve ser feita antes do envio para a publicação em um periódico. 5

É a partir da identificação desses quatro aspectos que se optou por fazer uma descrição da apresentação de ensaios teóricos nos eventos da ANPAD na área de estratégia, apresentando de onde vêem esses artigos e para onde vão. Com isso, é possível fazer uma análise da sua importância para a geração de conhecimento da área. Procedimentos Metodológicos Essa pesquisa teve como objetivo discutir a importância e aplicação dos artigos teóricos na área de administração no Brasil, mais especificamente na área de estratégia. Para tanto, optou-se por realizar uma pesquisa quantitativa-descritiva sobre os artigos apresentados na área de estratégia em dois eventos relacionados à ANPAD. Duas perguntas orientaram a pesquisa. A primeira foi: de onde vieram os artigos teóricos apresentados nos eventos? A segunda pergunta foi: para onde foram esses artigos? Para respondê-las, foram coletados dados dos ensaios teóricos em dois eventos relacionados à ANPAD em dois momentos no tempo: o Encontro de Estudos em Estratégia 3E s e o Encontro da ANPAD ENANPAD. A escolha por estes dois eventos foi em função da importância e tamanho dos mesmos na área de administração. O 3Es já está no seu terceiro ano, é o segundo evento de área mais antigo da ANPAD e a área tem crescido consideravelmente nos últimos anos. A avaliação iniciou em 2003, pois foi o primeiro do 3E s, o que possibilitou a avaliação de um maior número de artigos teóricos específicos dessa área. Além disso, acreditou-se que os quatro anos que separam o início do 3E s e o momento atual seriam suficientes para se fazer uma avaliação da continuidade dos trabalhos nos artigos. Optou-se por coletar os dados sobre os artigos teóricos do 3E s em 2007 para se ter uma base de comparação com 2003. Para responder à primeira pergunta, foram coletados dados sobre a quantidade de autores de cada ensaio, as instituições a que os autores pertenciam, as suas titulações, e se entre os autores existiam orientadores e orientados. Esses dados possibilitam uma descrição aproximada da experiência dos autores com pesquisa. Os dados foram coletados nos próprios artigos e no currículo Lattes dos autores. Para responder à segunda questão, foram coletados dados sobre a publicação dos autores dos ensaios teóricos de 2003 em todos os eventos relacionados à ANPAD até 2007, procurando-se identificar as publicação subseqüentes desses autores nestes congressos, a área de publicação, os temas dos artigos e se eles utilizaram seus próprios artigos nas referências dos artigos subseqüentes. Esses dados possibilitam uma descrição da continuidade das pesquisas dos autores em relação ao ensaio teórico. Para a definição de quais os artigos seriam classificados pela denominação de ensaios teóricos utilizou-se a definição apresentada pela ANPAD de que são considerados ensaios teóricos aqueles trabalhos que não utilizam métodos empíricos na sua realização. Também não foram incluídos como ensaios teóricos artigos que realizaram pesquisa bibliométrica ou a simulação de modelos matemáticos. Resultados Seguindo a lógica do artigo que procurou identificar de onde vêm e para onde vão os ensaios teóricos na área de estratégia, inicialmente fez-se a descrição dos artigos dos congressos pesquisados. Em seguida foi apresentado de onde vêem os artigos acadêmicos, com a descrição dos autores desses artigos. Finalmente apresentou-se para onde foram esses artigos, com a descrição dos artigos subseqüentes dos autores dos artigos apresentados em 2003. Foram pesquisados dois congressos em dois diferentes momentos no tempo. Foram analisados os seguintes eventos de 2003: o ENANPAD área temática Estratégia em Organizações e o 3E s. No primeiro, de 49 artigos, 10 eram teóricos, ou seja, 20,4%. No segundo, de 71 artigos, 21 eram teóricos, ou seja, 29,6%. Na soma dos dois congressos foram identificados 31 artigos teóricos, 25.8% do total de artigos. Em 2007, foi 6

analisado o 3E s, na área temática de Estratégia em Organizações, de 78 artigos, 13 eram teóricos, ou seja, 16,7%. A pesquisa dos ensaios teóricos de 2003 mostrou que autores de 27 instituições escreveram esses artigos, sendo que dessas, 20 participaram de apenas um artigo. O destaque fica para a EAESP-FGV, cujos autores participaram de 5 dos 31 artigos, seguida pela UFSC e UFRGS, com participação em três artigos cada, e na seqüência a UNIVALI, UFMG, UFRJ, PUC-PR, com dois cada. Isso demonstra uma diversificação na origem das instituições de onde vêm esses ensaios. Dos artigos encontrados na pesquisa realizada ENANPAD de 2003, 14 foram escritos por apenas um autor, 9 por dois autores e 8 por três autores. Na análise do 3E s de 2007, dos 13 artigos encontrados, 5 foram escritos por apenas um autor, 4 por dois autores, 3 por três autores e um por quatro autores. Na tabela 1 apresentam-se os números de artigos encontrados conforme a titulação do autor, considerando somente os trabalhos publicados por um único autor. Tabela 1 Número de artigos por titulação - Artigos de um único autor Titulação do autor Número de Artigos ENANPAD Número de Artigos 3Es Graduação 2 1 Mestrado 5 2 Doutorado 6 2 Sem currículo Lattes 1 1 Total 14 5 Fonte: Dados da pesquisa No ENANPAD 2003, dentre os artigos escritos por apenas um autor, seis foram escritos por doutores, cinco por mestres, dois por graduados, e um o autor não possuía currículo na plataforma Lattes, como indicado na tabela 1. Mestres e graduados são responsáveis por 50% dos ensaios teóricos escritos por apenas um autor. No 3Es, dos artigos escritos por apenas um autor, um foi escrito por doutor, dois por mestre, um por graduado e um por autor sem currículo na plataforma Lattes. Mestres, graduados e autor sem currículo Lattes são responsáveis por 60% desses artigos. A tabela 2 mostra os resultados encontrados quando analisado os artigos com mais de um autor. Tabela 2 Número de artigos por titulação - Artigos com mais de um autor Titulação dos autores Número de Artigos ENANPAD Número de Artigos 3Es Mestrado 1 1 Doutorado 4 1 Graduação e Doutorado 1 - Mestrado e Doutorado 9 3 Graduação, Mestrado e Doutorado 1 Mestrado e sem currículo Lattes 1 3 Total 17 8 Fonte: dados da Pesquisa Dos ensaios escritos por mais de um autor, quatro foram escritos exclusivamente por doutores, um exclusivamente por mestres, um escrito por doutor e graduado, um por doutor, mestre e graduado, e nove por doutor e mestre, e um por mestre, graduado e um autor que não possui currículo na plataforma Lattes, conforme tabela 2. Entre esse 17 artigos, em 10 deles orientando e orientador estavam entre os autores. Analisando todos os artigos, 10 artigos foram escritos exclusivamente por doutores, enquanto 6 artigos foram escritos exclusivamente por mestres, 2 por graduados, e 1 por autor 7

que não possui currículo na plataforma Lattes. Fazendo a análise por autores e não por artigos, 50% eram doutores na época em que o artigo foi apresentado, 37% mestres, 9,3% graduados e 3,7% não possuíam currículo na plataforma Lattes. No 3Es, os ensaios escritos por mais de um autor, um foi escrito por doutores, um por mestres, três por doutor e mestre, e três por mestre e autores sem currículo na plataforma Lattes; orientando e orientado aparecem em dois desses artigos. De todos os artigos em conjunto, três foram escritos exclusivamente por doutores, três por mestres, um por graduado e um por autor sem currículo na plataforma Lattes. Analisando por autores e não por artigos, 38,5% são doutores, 42,3% mestres, 3,8% graduados e 15,4% não possuem currículo na plataforma Lattes. Com relação aos doutores que participaram dos artigos apresentados em 2007, apenas dois tem mais de 10 anos de tempo de titulação, os demais têm no máximo 5 anos de titulação o que contraria o aspecto da experiência dos autores desses ensaios (KILDUF, 2006; DAVIS, 1971;WHETTEN, 1989). É interessante constatar também que dos 14 autores indicados na pesquisa como os mais profícuos na área de estratégia, apenas três aparecem na lista dos 54 que escreveram ensaios teóricos em 2003. Em 2007, apenas dois aparecem da lista como autores de ensaios teóricos. Apresentou-se de onde vêem os ensaios teóricos agora é preciso dizer para onde foram eles, após 2003. Para fazer essa descrição, centrou-se no caminho percorrido pelos seus autores nos eventos da ANPAD subseqüentes em três itens, publicação geral nos eventos, publicação em eventos de estratégia, e temas dos artigos apresentados nesses eventos. Os autores analisados estiveram envolvidos na autoria de 141 artigos apresentados em artigos posteriores a 2003. Destes, 54 trabalhos relacionaram-se diretamente à área de estratégia em organizaçoes, sendo apresentados na área temática ESO-A dos EnAnpads posteriores, representando 38% da produção científica destes autores; 61 trabalhos foram apresentados nestes eventos, porém em outras áreas temáticas, significando 43% da produção científica analisada; e 26 artigos (18%) foram publicados em outros eventos da ANPAD. Em relação ainda à produção científica posterior dos autores de ensaios teóricos dos eventos de 2003, notou-se, conforme tabela 3, se muitos autores nada publicaram em eventos posteriores, houve também aqueles que se destacaram com uma publicação média de até três artigos por ano, sendo que os 09 autores de maior produção foram responsáveis por 71 artigos. Em 07 destes casos, o ensaio teórico de 2003 foi divulgado através do 3Es. Já entre os 25 autores de menor produção científica no período analisado, que foram responsáveis por 70 artigos, 16 haviam publicado no mesmo evento (3Es) em 2003. Tabela 3 - Autores Analisados: Evento de Origem e Produção Produção pós 2003 \ Evento em 3E's - 2003 2003 EnANPAD- 2003-ESO Total de Autores N de Artigos após 2003 Sem Produção 22 autores 16 6 22 0 4 2 6 1 Menor produção de 3 2 5 2 25 autores (3 artigos científicos (total Es = 16) 4 2 6 3 = 70 artigos) 2 2 4 4 3 1 4 5 Maior produção de 9 autores 1 0 1 6 artigos científicos (total (3Es = 7) = 71 artigos) 3 1 4 7 2 0 2 8 0 1 1 9 8

1 0 1 12 TOTAIS 39 17 56 141 OBS: Dois autores que participaram nos 2 eventos em 2003, dos quais um não teve artigos posteriores nos eventos da Anpad e outro escreveu 03 artigos A análise indicou também que em 9 ensaios teóricos datados de 2003, todos os autores não apresentaram mais nenhum trabalho em evento posterior da ANPAD. Além disso, em outros 8 artigos teóricos de 2003, pelo menos um dos autores não apresentou mais nenhum trabalho. Se a análise for feita pelos autores, dos 54 autores, 22 ( aproximadamente 40%) não apresentaram mais nenhum trabalho nos eventos da ANPAD subseqüentes. Dos 32 autores que apresentaram trabalhos em anos seguintes, 10 deles o fizeram exclusivamente em outras áreas diferentes da estratégia, indicando um distanciamento dessa área. Apenas 22 autores voltaram a apresentar trabalhos na área de estratégia, totalizando 54 artigos publicados em eventos da ANPAD entre Janeiro de 2004 e Junho de 2007. Além de identificar a área de publicação do artigo, fez-se uma comparação entre o tema do ensaio teórico e os temas dos artigos posteriores de cada autor. Dos 141 artigos em que os 54 autores que apresentaram ensaios teóricos em estratégia em 2003 tomaram parte em outros eventos posteriores da ANPAD, em apenas 30 o tema era relacionado com o tema do ensaio, e em apenas dois artigos posteriores de um mesmo autor o ensaio teórico de 2003 foi citado. Em todos os demais, o ensaio teórico de 2003 não apareceu como referência. Se for levado em consideração o ensaio e não os autores, em 11 pelo menos um dos autores continuou publicando sobre o tema, e apenas 1 foi citado em artigos posteriores. Os pontos fundamentais dos ensaios teóricos (KILDUF, 2007; WHETTEN, 1989) de abrir as portas para novas oportunidades de pesquisas e contribuir para as soluções de dificuldades das pesquisas empíricas parece ainda não ser a realidade da nossa produção científica, mais especificamente na área de estratégia. Considerações Finais Os autores que discutem a relevância e importância dos ensaios teóricos apontam como fator importante para o seu desenvolvimento a experiência dos autores na sua área acadêmica e em pesquisa de maneira geral. Os resultados apontam que o número de artigos apresentados exclusivamente por mestres e graduados foi quase igual ao que foi apresentado exclusivamente por doutores. Isso indica que ou não estamos avaliando os artigos considerando critérios que valorizem a experiência, tal como, idéias novas que contribuam para a geração do conhecimento, ou nossos mestres e graduados já estão em um nível diferenciado de formação no qual podem dar contribuições teóricas importantes. Não que não seja desejável e bem vinda a sua contribuição à discussão teórica, mas ela não pode ser a regra se a experiência é considerada fundamental para a contribuição teórica mais geral. Outro indicador importante é que poucos dos pesquisadores mais profícuos na área de estratégia contribuíram com ensaios teóricos. A contribuição teórica esta sendo deixada sob responsabilidades dos neófitos ou essa contribuição não esta existindo? O fato de que cerca de 40% dos autores pesquisados, responsáveis pela autoria de ensaios teóricos em 2003, não mais publicaram em eventos da ANPAD parece indicar que os trabalhos revelaram-se infrutíferos, não contribuindo para o avanço da ciência da estratégia, uma vez que se pode considerar que os artigos falharam em cumprir seu papel essencial de qualquer ensaio teórico: apresentar idéias novas e abrir um espaço de discussão no que já existe. Somando-se este indício ao representado pelo quantitativo de autores que passaram a publicar em outras áreas temáticas ou mesmo em outros eventos, tem-se cerca de 60% dos autores, indicando um preocupante distanciamento da área de origem. 9

A pesquisa apresenta limitações: a primeira refere-se à não possibilidade de generalização dos resultados, visto que a pesquisa abrangeu apenas ensaios teóricos apresentados em eventos em uma área específica de conhecimento, qual seja, estratégia; a segunda limitação é que por não ter sido realizada pesquisa em periódicos, não foi possível identificar a continuação dos trabalhos em publicação permanente. Todavia, visto que conforme apontado pelo referencial teórico o desenvolvimento e refinamento de um ensaio teórico requer discussão com a comunidade acadêmica, e os congressos são o principal espaço para essa discussão, esperava-se que um ensaio teórico pudesse ser amadurecido nesse meio, e portanto, pudesse aparecer, já incorporado com as críticas anteriores em mais de um evento para o aprofundamento e continuidade da discussão. Além disso, devido à necessidade de trazer benefícios para a pesquisa empírica, que ele pudesse aparecer na continuidade do trabalho dos autores no teste da contribuição teórica proposta. Em trabalhos futuros, sugere-se verificar a continuidade não somente verificando a publicação dos autores dos ensaios, mas verificar a citação destes por outros pesquisadores, somente assim poderá ser confirmado a utilização dos ensaios em discussões futuras. Referências BARTUNEK, J.; RYNES, S.; IRELAND, R.D. Academy of Management Journal Editor s Forum: what makes management research interesting and why does it matter? Academy of Management Journal, v.49, n.1, 2006. BERTERO, C. A relevância de trabalhos científicos. Revista de Administração Contemporânea Eletrônica. v. 1, n.1, disponível em http://anpad.org.br/periodicos/content/frame_base.php?revista=3, acessado em 14 de julho de 2007, 2007. DAVIS, M. That's Interesting! Towards a phenomenology of sociology and a sociology of phenomenology. Philosophy of the Social Sciences. v.1, 1971. DiMAGGIO, P. Comments on What theory is not. Administrative Science Quarterly. v. 40, 1995. GUIMARÃES, T. Quem julga e como julgar a relevância de artigo científico. Revista de Administração Contemporânea Eletrônica. v. 1, n.1, disponível em http://anpad.org.br/periodicos/content/frame_base.php?revista=3, acessado em 14 de julho de 2007, 2007. KILDUFF, M. Editor s comments: publishing theory. Academy of Management Review, v.31, n.2, 2006. KILDUFF, M. Editor s comments: the top ten reasons why your paper might not be sent out for review. Academy of Management Review, v.32, n.3, 2007. MEZAN, R. Sociedade dos Bacharéis. Folha de São Paulo. 23 jan. 2005. Folha Opinião. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2301200504.htm, acessado em 23 de janeiro de 2005. QUINTELA, R. O que torna relevante um artigo e por que isso interessa? Revista de Administração Contemporânea Eletrônica. v. 1, n.1, disponível em http://anpad.org.br/periodicos/content/frame_base.php?revista=3, acessado em 14 de julho de 2007, 2007. SUTTON, R.; STAW, B. What theory is not. Administrative Science Quarterly. v. 40, 1995. WEICK, K. What theory is not, theorizing is. Administrative Science Quarterly. v. 40, 1995. WHETTEN, D. What constitutes a theoretical contribution? Academy of Management Review. v.14, n.4, 1989. 10