Brás Cubas: reflexão em ironia e comicidade

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Brás Cubas: reflexão em ironia e comicidade Marciana Alves dos Santos 1 Pós-graduação/UFS Resumo: O presente trabalho analisa os procedimentos cômicos a partir da ironia do personagem de Machado de Assis, Brás Cubas. Aspectos de Memórias Póstumas de Brás Cubas são analisados à luz das obras O riso, de Henri Bergson, e Os chistes e sua relação com o inconsciente, de Sigmund Freud. A crítica irônica dos problemas sociais da época e da falta de sensibilidade entre as pessoas bem como uma estratégia de encarar a realidade são fortes mecanismos a que o autor consegue atribuir comicidade. Ao narrar sua vida após a própria morte, o personagem-defunto tornou-se um marco na literatura brasileira e as reflexões feitas por Brás Cubas possuem fortes doses de ironia com grande poder crítico sobre questões filosóficas que estavam sempre em pauta. Toda a narrativa traz em si uma carga de crítica com a leveza que a comicidade pode proporcionar. Palavras, gestos repetições, inversões e o chiste são procedimentos que produzem o cômico a fim de aliviar tensões, produzir críticas em caráter mais ameno ou tão somente garantir algo tão essencial ao ser humano: o riso. Introdução O presente texto tem como intuito analisar os procedimentos cômicos através de algumas narrações apresentadas na obra Memórias Póstumas de Brás Cubas (2011), que faz parte da prosa realista brasileira, tendo como autor Machado de Assis, que faz nela o uso da linguagem ambígua, mostrando através do personagem defunto-autor toda a indiferença e cinismo da sociedade, visto que este não tinha nada a temer, pois já estava morto. Houve uma grande repercussão na publicação dessa obra, pois provocou uma revolução ideológica e formal, se distanciando das ideologias românticas e ferindo o meio social da época com o defunto-narrador que tudo vê e tudo julga, revelando a consciência interior de um individuo fraco e incoerente, que possui memórias e máscaras como qualquer outra pessoa. 1 Marciana Alves dos Santos possui graduação em Letras Português/Francês pela Universidade Federal de Sergipe, pós-graduanda em Filosofia e Literatura pela Universidade Federal de Sergipe. 250

Segundo Roberto Schwarz (2000), Machado de Assis utilizou-se de numerosos artifícios para chamar a atenção do leitor, a começar pelo título irônico da obra Memórias póstumas de Brás Cubas (2011), ressaltando que os mortos não escrevem e logo em seguida dedica as suas narrações ao verme que primeiro roeu as frias carnes de meu cadáver, tudo isso demonstram as gracinhas e provocações direcionadas aos leitores. A percepção do cômico e da ironia se dá pelas situações ocorridas na obra como, por exemplo, no momento em que o narrador se refere a um amor da juventude, quando ele tinha 17 anos apaixonou-se por uma jovem chamada Marcela e diz que ela o amou durante 15 meses e 11 contos de réis (ASSIS, 2011, p. 53), na frase citada percebemos uma das ironias presentes no texto de Machado, deixando as claras o interesse da moça em estar com o personagem Brás apenas pela questão do dinheiro. Através de algumas narrações, nas quais são perceptíveis a ironia do personagem central, analisaremos os procedimentos cômicos presentes em O riso: ensaio sobre a significação do cômico (2007), de Henri Bergson, e em Os chistes e sua relação com o inconsciente (1977), de Sigmund Freud, utilizando os dois primeiros capítulos da obra de Machado de Assis (2011): I- Óbito do autor e II- O emplasto. 1. Embasamento teórico 1.1. Henri bergson A obra de Henri Bergson, O Riso: Ensaio sobre a significação da comicidade, publicada em 1900, se propõe a apresentar a significação da comicidade. Sem dúvida, através do cômico podemos observar os procedimentos da criatividade e da imaginação do homem ao observar os hábitos sociais que interfere no comportamento humano. Segundo o teórico, não há comicidade fora do comportamento humano, pois o cômico nos traz exemplos da realidade. Só conseguimos visualizar algo de engraçado em determinado momento, objeto ou coisa se estes estiverem relacionadas ao ser humano. O autor exemplifica com o caso de alguns animais que apresentam atitudes semelhantes as dos seres humanos, então rimos quando percebemos essa semelhança. Em sequência, Bergson fala a respeito do riso versus a sensibilidade, ressaltando que para ri de algo ou alguém é necessário deixar a piedade de lado, pois diante de situações comoventes, não há espaço para o riso, como o próprio autor afirma o riso não tem maior inimigo que a emoção. (BERGSON, 2007, p. 03). O riso serve para aliviar as tensões depois de passados os momentos ruins, como diria no ditado popular: Quando tudo isso acabar, ainda daremos boas risadas dessa 251

situação, ou seja, a comicidade exige enfim algo como uma anestesia momentânea do coração. (BERGSON, 2007, p. 04). O teórico argumenta que o cômico necessita do eco (risadas em grupo) e ele ainda esconde uma segunda intenção de entendimento, que podemos chamar do riso irônico. O riso ainda deve corresponder a certas exigências da vida em sociedade, em comum, trazendo assim uma significação social. O autor afirma que o cômico é inconsciente, ou seja, uma espécie de automatismo presente no personagem que nos faz rir. Esse inconsciente se torna invisível para si mesmo (aquele que está sendo ridicularizado ou humilhado) e visível para as outras pessoas (aquelas que riem do outro). O riso tem a função de castigar os costumes da sociedade, para que o indivíduo possa parecer com aquilo que ele deveria ser, pois o meio social exige do ser humano uma atenção constante, a fim dele discernir as diversas situações que surgem, uma forma de se adaptar as regras impostas pela a sociedade. Essa adaptação gera uma certa tensão e elasticidade do corpo e espírito, que tratam de duas forças que se completam entre si, visto que para a sociedade não basta apenas o indivíduo viver, é necessário que este viva bem consigo mesmo e com as outras pessoas, sendo este os hábitos adquiridos no meio social. É válido ressaltar, que o homem serve de atração ao próprio homem, pois rimos quando observamos alguém com a expressão cômica no rosto, podendo ser uma fisionomia que nos faz rir, devido ao automatismo que o cômico nos causa. Bergson trabalha a questão da comicidade da caricatura, que utiliza o exagero, mas não como objetivo, e sim, como um simples meio utilizado por ele, para manifestar as transformações aos olhos humanos. Estas possíveis transformações acontecem quando o cômico salta aos nossos olhos e passamos a associar uma pessoa a um objeto. Segundo o autor, as atitudes, os gestos e os movimentos do corpo humano são risíveis na medida exata em que esse corpo nos faz pensar numa simples mecânica. Certos gestos, dos quais não pensamos em rir, tornam-se risíveis quando alguém os imita. Ele ainda enfatiza que o cômico é todo incidente que chame nossa atenção para o físico de uma pessoa quando o que está em questão é o moral (no sentido de ânimo), e que rimos sempre de uma pessoa, quando esta nos dá a impressão de coisa (Exemplo: O personagem Sancho Pança da obra Dom Quixote quando o associa com uma bola). Bergson compara a comédia como uma brincadeira, brincadeira esta que imita a vida. De acordo com Bergson, em relação à repetição cômica de palavras, geralmente há dois termos presentes: primeiro, um sentimento comprimido que se estira como uma mola; segundo, uma ideia que se diverte a comprimir de novo o sentimento. Essa repetição torna-se automática e inconsciente, devido à ideia fixa montado no consciente do indivíduo. 252

Portanto, a comicidade é definida pelo autor, como uma semelhança entre uma pessoa e uma coisa, se referindo ao aspecto dos acontecimentos humanos que, em virtude de sua rigidez de um tipo particular, que imita o mecanismo puro e simples, ou seja, o movimento sem a vida, exprimindo assim, uma imperfeição individual ou coletiva que exige correção. Logo, o riso é essa correção, o riso é certo gesto social que ressalta e reprime certa distração especial dos homens e dos acontecimentos. (BERGSON, 2007, p. 65). A obra apresenta três procedimentos presentes na comédia: Repetição (uma palavra ou uma frase repetida por uma personagem, uma combinação de circunstâncias que se repetem várias vezes, contrastando assim com o curso mutável da vida); Inversão (é exemplificada como uma personagem que organiza o enredo, no qual ela mesma acaba encenando um ladrão roubado, um trapaceiro que se dá mal ou seja, a personagem cai na armadilha que ela mesmo elaborou) e por fim a Inferência das séries (determinada situação que é sempre cômica, quando pertence ao mesmo tempo a duas séries de acontecimentos absolutamente independentes, que pode ser interpretada ao mesmo tempo em diversos sentidos). Bergson expõe ainda, sobre as oposições entre a ironia (de natureza oratória) e o humor (científico), mas ressaltando que ambos são classificados como sátira. A ironia consiste naquilo em que se pode anunciar o que deveria ser, fingindo assim acreditar que isso é precisamente o que é, ou seja, a ironia trata-se de descrever minuciosamente o que é, fingindo acreditar que assim as coisas deveriam ser. Cabe enfatizar que o cômico exprime uma inadaptação particular da pessoa, em relação à sociedade, tendo em vista ainda, que não há comicidade fora do homem e a necessidade de cada indivíduo se atentar em se adaptar, de acordo com o meio social, a fim de não se enclausurar em seu próprio caráter (o eu). A rigidez dos hábitos da sociedade pode causar um certo temor, pois esta provoca uma certa humilhação (uma espécie de trote social) para aquele que é ridicularizado e objeto do riso, contudo essa humilhação tem a intenção de corrigir o homem exteriormente. É por este fato que o cômico se aproxima mais da vida real, do que o drama. O autor classifica os elementos do caráter cômico como a rigidez, o automatismo, a distração e a insociabilidade. Em suma, pudemos observar que o cômico não tem apenas a intenção de nos provocar o riso, e sim de nos trazer uma significação social. De que e de quem a sociedade ri, e as várias formas de despertar o riso. Através da comicidade profissional, o cômico tem a função de reprimir as tendências que excluem o individuo da sociedade, corrigindo dessa forma a rigidez, tornando-a flexível para que todos possam se adaptar ao meio social. 253

1. 2. Sigmund Freud Partindo então, para a obra de Sigmund Freud, publicada em 1905 Os chistes e Sua Relação com o Inconsciente o autor analisa os chistes, os definidos como gracejos, trocadilhos, piadas, dentre outros, e nos mostra a sua importante contribuição para o desempenho da nossa vida mental, tendo como objetivo principal investigar a comicidade. Freud ressalta a respeito do efeito cômico e do chiste, o primeiro é produzido pela solução do desconcerto através da compreensão da palavra, já o segundo, se manifesta no desconcerto, sendo este sucedido pelo esclarecimento. Falando ainda a respeito das definições do chiste, ressaltamos que ele deve ser atribuído à formação e as características da palavra, sendo a brevidade a sua essência e lembrando que um novo chiste age parcialmente como um acontecimento de interesse universal. De acordo com o autor, há diferentes técnicas do chiste que consiste numa considerável abreviação, com o intuito de expressar completamente o pensamento contido no chiste. Essa técnica contribui para a formação de trocadilhos, que provocará o riso nas pessoas. As técnicas são: Condensação com formação de palavra composta por modificação; Múltiplo uso do mesmo material como em um todo e suas partes, em ordem diferente com leve modificação e com sentido pleno/sentido esvaziado; Duplo sentido jogo de palavras. Para exemplificar a técnica do duplo sentido que constrói o chiste, Freud utiliza-se da palavra inocência. O significado usual dessa palavra consiste no antônimo de culpa ou crime, mas que possui também em outro contexto, um significado sexual, cujo antônimo é experiência sexual. Em sequência, o autor descreve dois tipos de finalidades dos chistes, sendo o primeiro classificado como tendencioso aquele que possui uma intenção, uma tendência. Segundo o não tendencioso (chistes inocentes) é o provoca o riso improvisado, sem intenções. Para Freud, o processo cômico utiliza-se do eu e da pessoa, que trata do objeto; uma terceira pessoa pode intervir, mas esta não é a parte essencial, enquanto o jogo com as palavras e pensamentos prescindem de uma pessoa como objeto. Ressaltando que o prazer do riso é mais perceptível no terceiro individuo, do que no próprio autor do chiste. Freud analisa em sua obra os chistes e as espécies do cômico, para ele o tipo cômico que mais se aproxima dos chistes é o ingênuo, porém como o cômico em geral, o (cômico) ingênuo é constatado e não produzido como o chiste. O autor afirma ainda, que há possibilidades de tornar cômico a si mesmo, assim como tornam as outras pessoas, isso é possível utilizando os métodos do disfarce, do desmascaramento, da caricatura, ou seja, colocando-se em uma situação cômica. 254

Sendo assim, percebemos através do teórico a diferença entre o cômico e o chiste, vejamos: se alguém acha alguma situação cômica, este pode se divertir sozinho, consigo mesmo. Já com o chiste é diferente, a experiência que faz parte dele é geralmente reconhecida de que ninguém se contenta em fazê-lo sozinho, ou seja, a situação cômica deve ser contada a alguém mais, para se obter o riso. Vimos na obra que aquilo que nos faz rir possui o caráter do chiste e que através dele, o riso é provocado proporcionando prazer e uma descarga psicológica. 2. Análise Escrito por Machado de Assis e publicado em 1881, o romance Memórias póstumas de Brás Cubas (2011) é um grande marco na literatura brasileira, que tem como personagem central Brás Cubas, um defunto que passou a narrar a sua vida após a morte. No início do enredo o protagonista descreve detalhes do seu enterro e no decorrer da história ele narra sua vida, sua infância, marcada por luxo, caprichos atendidos pelos seus pais. O personagem quando criança fazia de um pequeno escravo, chamado Prudêncio, um brinquedo montava em suas costas, maltratando-o. Seu primeiro beijo foi aos 17 anos com a bela Marcela, por quem Brás morria de amores, porém ela só tinha olhos para outro: Xavier. O protagonista começa a gastar fortunas para presentear a amada, o pai dele ao saber da situação, decide enviar o filho para a Europa, com o intuito de Brás Cubas estudar na Universidade de Coimbra e esquecer Marcela. O tempo passa e o jovem retorna para o Rio de Janeiro, local onde decorre toda a história. Tempos depois ele se apaixona novamente, agora por Virgília, que se torna sua noiva, mas acaba casando-se com outro. No final do enredo, Brás Cubas faz sua última narração contando que não teve filhos, nem esposa, não se tornou ministro e nem alcançou a celebridade do emplasto (se referindo ao antídoto que curaria os males da humanidade ). 2. 1. Capitulo I Óbito do autor Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco. Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos 255

e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. (...) (ASSIS, 2011, p. 19, grifo meu). Na frase: eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor há presença da comicidade através da inversão de palavras, que segundo Bergson ao tomar séries de acontecimentos e repeti-las em novo tom ou em novo meio, ou invertê-las conservando ainda um dos sentidos, ou misturá-las de tal maneira que seus significados respectivos interfiram uns nos outros, tudo isso é cômico (BERGSON, 2007, p. 88). Além disso, constatamos o duplo sentido na fala do defunto-autor, que de acordo com Freud trata-se do caráter dos chistes (piadas), que é uma espécie de jogo de palavras, de uso múltiplo e duplo sentido. (FREUD, 1977, p. 51). No trecho (...) fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, (...), Brás cubas demonstra sua vaidade, ao justificar a presença de poucas pessoas no seu velório, alegando que foi por falta de divulgação da sua morte, mas na realidade percebemos a ausência de popularidade do personagem. Acresce que chovia peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa ideia no discurso que proferiu à beira de minha cova: Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à Natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado. Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego como quem se retira tarde do espetáculo. Tarde e aborrecido. (ASSIS, 2011, p. 19; grifo meu). Nos trechos citados, podemos observar mais expressões da vaidade de Brás Cubas, que para Bergson a vaidade é o defeito mais superficial e mais profundo. Ela (a vaidade) mal é um vício, e apesar disso todos os vícios gravitam em torno dela e, refinando-se, tendem a não ser mais que meios de satisfazê-la. Oriunda da vida social, pois é uma autoadmiração fundada na admiração que cremos inspirar nos outros, ela é mais natural, mais universalmente inata que o egoísmo, pois do egoísmo a natureza frequentemente triunfa, ai passo que é só pela reflexão que nos impomos à vaidade. (BERGSON, 2007, p. 129). Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei (...), o personagem com ironia, revela a falsa amizade do amigo que fez o belo discurso em troca de dinheiro. 256

Pode-se enunciar o que deveria ser, fingindo acreditar que isso é: nisso consiste a ironia. (BER- GSON, 2007 p. 95). de chistes. A expressão Bom e fiel amigo remete também um duplo sentido que trata de uma técnica Se penetrarmos na variedade de formas de uso múltiplo da mesma palavra, notamos repentinamente que temos diante de nós exemplos de duplo sentido ou jogos de palavras formas há muito conhecidas e reconhecidas como técnica de chistes (FREUD, 1977, p. 51). Percebemos na expressão acima, que o autor utilizou a frase de uma forma positiva, mas que na realidade possui um sentido negativo, daí então temos um exemplo de duplo sentido de palavras. 2. 2. Capitulo II O Emplasto Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. (...) Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. (...) (ASSIS, 2011, p. 21, grifo meu). Podemos constatar novamente a presença da vaidade, a superioridade e o exagero do personagem, através da invenção do suposto remédio que curaria todos os males da humanidade. No extraordinário capítulo II, que trata da invenção do Emplasto Brás Cubas, este último é apresentado sucessivamente como ideia grandiosa e útil ; como ideia fixa, que se pendura por conta própria no trapézio cerebral; como panaceia anti-hipocondríaca, destinada a aliviar a nossa melancólica humanidade ; como objeto de uma petição de privilégio dirigida ao governo, com alegações caridosas e propósitos lucrativos; e como oportunidade de ver impressos nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. (SCHWARZ, 2000, p. 32). De acordo com Bergson, o exagero é cômico quando prolongado e, sobretudo, quando sistemático: é então que aparece como procedimento de transposição. (BERGSON, 2007, p. 93) Segundo Schwarz, no romance machadiano praticamente não há frase que não tenha segunda intenção, exemplo disto é quando ele fala no primeiro capítulo que no seu velório só havia onze amigos, para amenizar sua frustração ou alimentar o ego, Brás disse que as demais pessoas não compareceram ao local, devido à falta de divulgação entre elas a respeito de sua morte. 257

Já no segundo capítulo, o personagem central apresenta a ideia de um medicamento que aliviaria a melancolia da humanidade, uma grande e útil invenção segundo ele para toda sociedade, sua intenção era ver impresso nas caixas do remédio, nos jornais e folhetos o seu nome: Emplasto de Brás Cubas. A narrativa é risível, engraçada e o narrador é um esnobe, vaidoso e piadista, que nos provoca riso através de sua superioridade, mas o que seria então o ato do riso? O riso é um movimento, feito de espírito espalhado e desigual agitação do coração, que alarga a boca e os lábios, sacudindo o diafragma e as partes pectorais, com impetuosidade e som entrecortado, pelo qual é expressa uma afecção de coisa torpe, indigna de piedade. (ALBERTI, 2002, p. 101). Bergson define o riso como um efeito de mecanismo criado em nós naturalmente, que faz parte da vida em sociedade, e possui a função de castigar certos hábitos sociais. Conclusão Sendo assim, Bergson nos mostrou em sua obra que o cômico não tem apenas a intenção de nos provocar o riso, mas também tem o intuito de nos trazer uma correção social (ou seja, castigar alguns costumes impostos pela sociedade), bem como as várias formas de despertar o riso, e de que situação e de qual individuo a sociedade rir. No âmbito da comicidade profissional, o cômico tem a função de reprimir as tendências que excluem o ser humano da sociedade, corrigindo dessa forma a rigidez, tornando-a flexível para que todos possam se adaptar ao meio social. Em Freud, pudemos perceber a diferença que há no conceito do chiste (definidos como gracejos, piadas e trocadilhos) em relação ao conceito do cômico. Sendo que o primeiro se manifesta no desconcerto, sucedido pelo esclarecimento. Já o efeito cômico é produzido pela solução do desconcerto através da compreensão da palavra. Por exemplo: se um indíviduo acha alguma situação ou alguém cômico, este pode se divertir sozinho. Já com o chiste não é dessa forma, ele deve ser contado para outras pessoas, a fim de se obter o riso. Constatamos assim, nos dois capítulos analisados na obra de Machado de Assis, a presença dos procedimentos da comicidade explorados por Bergson e Freud como, por exemplo: a inversão de palavras, a ironia, a vaidade, o exagero, a superioridade do personagem e o chiste, procedimentos estes que produzem o cômico, aliviando as tensões do leitor, as críticas irônicas e a provocação de algo tão essencial ao ser humano: o riso. 258

Referências bibliográficas ALBERTI, Verena. O riso e o risível: na história do pensamento. - 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2002. ASSIS, Machado. Memórias póstumas de Brás Cubas. - Ed. Especial. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. - (Coleção Saraiva de Bolso) BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre o significado da comicidade. Tradução Ivone Castilho Benedetti. - 2ª ed. - São Paulo: Martins Fontes. 2007. - (Coleção Tópicos). BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. - 35ª ed. - São Paulo: Cultrix 1994. FREUD, Sigmund. O chiste e sua relação com o inconsciente. Rio de Janeiro: Imago, 1977. SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. - 34ª ed. - São Paulo: Duas cidades, 2000. 259