Conhecendo a doutrina da Trindade

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Transcrição:

P á g i n a 1 Conhecendo a doutrina da Trindade Por: Rev. Francisco Macena da Costa. Neste módulo de estudos, vamos avançar no estudo da doutrina bíblica da Trindade a fim de conhecermos a revelação de Deus. Não temos a ousadia de afirmar a compreensão essencial do ser de Deus, pois tal ato é impossível a nós meros seres finitos. Contudo, com base naquilo que foi revelado nas Sagradas Escrituras afirmamos que ela nos chama a crer no único Deus, sendo que na unidade divina há três pessoas na mesma natureza. Tópicos I. A Igreja e a Trindade. A Escritura faz uso de muitas ilustrações para descrever a Igreja, porém uns dos conceitos mais enfáticos mostram que a Igreja é chamada de povo de Deus (Pai), corpo de Cristo (Filho) e Templo do Espírito Santo. "Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia. " (1 Pedro 2:9-10, RA) "Ora, vós sois corpo de Cristo; e, individualmente, membros desse corpo." (1 Coríntios 12:27, RA) "Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?" (1 Coríntios 6:19, RA) Trindade não é um termo da bíblia, foi Tertuliano, o grande teólogo latino quem introduziu o conceito trinitatis ou trinitas (Trindade) na teologia. Em sua busca por termos paralelos no grego para o latim, ele criou, mas de quinhentos termos teológicos. Um exemplo disso é o termo persona que encontrou seu equivalente no termo grego hipóstase. II. O contexto dos debates em torno da doutrina da Trindade. Desde cedo, a igreja confessou a divindade de Cristo. (Mateus 16.18). É certo dizer que o interesse primitivo na doutrina de Cristo ocorreu devido às heresias gnósticas do século I. Isso levou

P á g i n a 2 a igreja a preservar os conceitos acerca de Deus a partir da pessoa de Cristo. Para os cristãos primitivos Jesus é plenamente Deus e homem. Negar a cristologia era desprezar o Pai e o Espírito, já que no plano da redenção é o Pai que envia o Filho e ambos enviam o Espírito. Os debates trinitários certamente foram fomentados por pelo menos fatores. O primeiro diz respeito à herança hebraica que defende o monoteísmo ético (Dt 6.4-6). Por essa razão a proclamação do Evangelho, que anuncia a plena divindade de Cristo, gerou uma celeuma entre os judeus. (Jo 8.58). Outro fator importante foi à influência cultural helênica. Os gregos tinham uma compreensão lógica e racional da realidade. Fílon de alenxandria é conhecido com aquele que fez a ponte entre helenismo e judaísmo. Assim como os gregos buscaram conciliar a mitologia e a razão através da alegoria, Fílon alegorizou várias passagens do Antigo Testamento. Ao que tudo indica muitos cristãos no primeiro século herdaram a razão dos gregos e buscaram uma compreensão racional e lógica da fé. Vejamos algumas lógicas que influenciaram alguns pensadores: ESTOICISMO HERÁCLITO ÉFESO ARISTÓTELES DE Zenão é conhecido como o pai de estoicismo. Sua compreensão extática sobre divindade foi muito influente. Heráclito afirmava que o mundo estava em constante movimento, e o que preservava a harmonia no mundo para que não virasse um caos era o logos ou razão universal. Aristóteles trouxe o conceito de ato e potência. Toda a realidade acabada, completa é o ato. Já potência é o vir- a- ser, aquilo que carrega a idéia de movimento. Podemos citar como exemplo a semente: ela é um ato enquanto semente, mas é potência, pois a semente um dia vai ser uma árvore. Esse eterno movimento da realidade mostra fragilidade e transitoriedade. Para Aristóteles quem iniciou o movimento de ato e potência foi a força propulsora que não muda, o ato perfeito ou ato puro que ele classificou como motor imóvel.

P á g i n a 3 Vários pensadores entenderam que o conceito grego de imutabilidade de Deus (concepção estática de Deus) era relevante. A realidade em movimento é vista como transitória e frágil (conceito de acidente). Deus é motor imóvel que esta acima de toda transitoriedade (conceito de substância). III. Tentativas de explicar a doutrina de Deus. Monarquianismo. A expressão monarquianismo significa governo de um. Essa posição procura preservar o monoteísmo, sem negar a pessoa de Cristo. Monarquianismo Dinamista. Acreditava que um poder pousou sobre Jesus quando ele foi batizado, ele era até então um homem comum. Seu poder era temporário pois quando morreu na cruz o poder o deixou. Paulo de Samosata era o maior expoente dessa doutrina que foi rejeitada pelo sínodo de Antioquia. O monarquianismo modalista (sabelianismo). Foi outra forma racional de preservar a imutabilidade, a unicidade de Deus sem desprezar a fé em Cristo. Para o modalismo, Deus é um ator que assume máscaras (personas) ou papeis diferentes. Primeiro ele assumiu o papel de Pai, depois e Filho e em seguida de Espírito. O modalismo também comprometia a Cristologia, via movimento de encarnação como uma fragilidade. O arianismo. Ário foi um monge muito influenciado pela idéias monarquianistas que procurou fazer uma nova interpretação da cristologia. Para ele Cristo era um ser intermediário entre Deus e os homens. Jesus foi criado no tempo, ou antes, do tempo, mas houve um tempo em que ele não existiu. Foi gerado do Pai, mas é apenas semelhante a Deus. Sua divindade é de semelhança e não de igualdade. Ário sacrificou a trindade. Para ele a pessoa do Espírito era uma mera força. IV. O concílio de Nicéia em 325 d.c. Apesar da conversão de Constantino o império atravessou uma grande crise política. Roma estava dividida. O lado ocidental desenvolveu a cultura latina, enquanto o lado oriental influenciado pela escola alexandrina desenvolveu a cultura greco-judaica. Os debates cristológicos agravaram a crise. Orientado por Eusébio de Nicomédia o imperador convocou o concílio de Nicéia no ano 325. Com a ajuda do quadro abaixo podemos compreender melhor os personagens e os argumentos que estavam em debate no concílio:

P á g i n a 4 Eusébio de Nicomédia Eusébio de Cesaréria Atanásio Defendia o arianismo Defendia uma posição intermediária entre Atanásio e Ário Defendia que Cristo é a chave hermenêutica das Escrituras. Cristo é plenamente Deus. Atanásio saiu vitorioso do concílio. Ele argumentava que se a cristologia de Ário estivesse correta e Cristo fosse uma criatura ele não podia ser nosso salvador. Se Cristo não é Deus ele não poderia ter vencido a morte. Se Cristo não for Deus todos nós somos idólatras, pois só podemos adorar a Deus, e Jesus aceitou adoração. Criação e redenção para Atanásio são dois temas que não podem ser separados. Deus é o Criador e o Redentor. Deus cria para salvar e em Cristo ele faz surgir uma nova criação. Jesus é igual ao Pai do contrário não seria nosso salvador. A obra de Cristo refaz a imagem de Deus no homem (deificação). Só Cristo pode salvar o ser humano do pecado. Com a vitória de Atanásio foi consolidada a base da doutrina trinitária, através de um credo a favor da Palavra e contra o entendimento de Ário. V. Base bíblica da trindade. Antigo Testamento As formas que se referem a Deus no plural. Gn 1.26 Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Gn 3.22 Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente. Gn 11.7 Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro. Is 6.8//Jo 12.41; At 28.26 Isaías 6:8 Depois disto, ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Disse eu: eis-me aqui, envia-me a mim.

P á g i n a 5 Novo Testamento Batismo de Jesus. Mt 3.15-17 Mas Jesus lhe respondeu: Deixa por enquanto, porque, assim, nos convém cumprir toda a justiça. Então, ele o admitiu. 16 Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. 17 E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. A grande comissão. Mt 28.19 Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Divindade e atributos de cada uma das pessoas Deus Jo 17.3 Ef 4.6 As três pessoas da Trindade na Bíblia. Pai Filho Espírito Jo 1. Hb 1.8,9 Sl 78.18,19 comp. At 5.3-4; 7.51 Onipotente Is 14.27 Mt 28.18 Fl 3.21 Ap 1.8 Eterno Sl 90.2 Jo 8.58; 17.5,54 Onipresente Am 9.2,3 Mt 18.20; Jo 3.13 Zc 4.6 Lc 1.35 Rm 15.13,19 Hb 9.14 Jo 14.17 Onisciente Sl 139.1-6 Cl 2.2 Ico 2.10,11 Criador Jr 27.5 Cl 1.16-18 Sl 33.4 Bom Sl 86.5 Lc 10.1 Sl 143.10 Santo Is 6.3 At 3.14 I Jo 2.20 Verdadeiro Dt 32.4 I Jo 5.20 Jo 15.26 Sábio Dn 2.20 Cl 2.3 Ef 1.17

P á g i n a 6 Conclusão Segundo o testemunho das Escrituras, Deus só existe UM, contudo na natureza divina existem três pessoas. Essa é a nossa fé e por isso Confessamos: Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo, seu Filho unigênito, nosso Senhor; concebido pelo Espírito Santo e nascido da Virgem Maria; que padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos; que subiu ao céu e assentou-se à direita do Pai Todo- Poderoso, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, na santa igreja católica, na comunhão dos santos, na remissão de pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém.