PARTE I FOTOGRAFIA GERAL 23 O processo de captura da imagem pela fotografia surgiu no século XIX, quando Joseph Nicéphore Nièpce conseguiu capturar imagens utilizando uma caixa vedada à luz, com um orifício em uma extremidade e uma chapa metálica com substância sensível à luz na outra. No início, a imagem não teve boa qualidade devido ao longo tempo necessário para sua formação, mas estava dado o primeiro passo. Mais tarde, pouco antes de falecer, Nièpce uniu-se a Louis Daguerre, que, após tentativas frustradas, conseguiu melhorar a qualidade das imagens capturadas. A possibilidade de imortalizar momentos e flagrantes de forma simples pelo processo da fotografia despertou grande interesse, o que propiciou muitas inovações. Se, por um lado, técnicas e equipamentos fotográficos evoluem com uma velocidade espantosa, por outro, os componentes básicos continuam sendo os mesmos que proporcionaram a primeira fotografia: a luz, o objeto (ou assunto da fotografia), a câmara à prova de luz (câmara escura) e um material fotossensível em seu interior. A luz é a espinha dorsal da fotografia. Ao se analisar a origem da palavra fotografia (do grego, escrever com luz), tem-se a idéia de sua importância nesse processo. Tudo que emite ou reflete luz planetas, estrelas, animais, flores, dentes, células pode transformar-se em assunto da fotografia. A câmara escura é a estrutura básica da câmera fotográfica. Sua função é permitir a entrada de luz por apenas um orifício (lente), em um momento específico, e estimular o material fotossensível. Por mais evoluído que esteja o processo da fotografia, materiais fotossensíveis ainda são indispensáveis ao processo de captura e reprodução de imagens, e hoje nos deparamos com padrões distintos para essa captura: o analógico, que utiliza filme, e o digital, com sensores fotossensíveis. Por ser o processo da fotografia bem semelhante ao da radiografia intraoral, os conceitos daquela não devem ser tão desconhecidos do cirurgião-dentista! Fazendo uma comparação entre os dois processos, podemos verificar algumas semelhanças: em ambos a obtenção da imagem se dá por intermédio de uma energia radiante (raios X ou luz visível), o objeto principal da imagem geralmente são os dentes e tecidos circunvizinhos, e a imagem é capturada por materiais fotossensíveis (películas e filmes para radiografia e fotografia analógica, ou sensores digitais para as radiografias e fotografias digitais). Além disso, assim como na radiografia, ter conhecimento e seguir determinados protocolos é necessário para alcançar a excelência no processo fotográfico. Embora as imagens possam perder qualidade quando processadas ou editadas, a maioria dos erros em fotografia ocorre no ato da captura, muitas vezes por desconhecimento de princípios básicos, como planejamento, composição, focalização e iluminação. Por esse motivo, tais princípios, e outros mais, serão aprofundados ao longo desta obra. Entendê-los tornará ainda mais preciso e prazeroso o ato de fotografar. Com eles, o leitor sentir-se-á bem-equipado, literal e conceitualmente, para dar início a ou continuar suas atividades relativas à fotografia odontológica.
24 CLASSIFICAÇÃO DAS CÂMERAS FOTOGRÁFICAS
CAPÍTULO 1 25 CLASSIFICAÇÃO DAS CÂMERAS FOTOGRÁFICAS
26 Existe uma infinidade de tipos de câmeras fotográficas no mercado: câmeras simples, amadoras, submarinas, automáticas, de objetivas gêmeas, mono-reflex cambiáveis e não cambiáveis, entre outras. Montar a classificação completa, além de ser uma missão difícil, está fora do propósito desta obra, motivo pelo qual estão classificadas apenas em profissionais e compactas. A classificação proposta aqui tem objetivo didático e abarcará apenas as câmeras que podem ser utilizadas em fotografia odontológica, dando ênfase às câmeras digitais, já que a captura digital é o futuro da fotografia. A câmera fotográfica digital é um híbrido de câmera analógica e computador de uso específico. Guarda princípios e componentes das antecessoras analógicas como lentes, disparadores, obturadores, etc., porém agrega componentes digitais como sensor de captura, conversor analógico digital, memória, software, entre outros (Figura 1.1). O conjunto desses componentes irá definir a qualidade da câmera fotográfica digital. A diversidade de modelos das câmeras digitais é espantosa. Existem modelos semelhantes às câmeras analógicas, algumas têm aparência de filmadoras ou de celulares, ou aparência própria e revolucionária. A versatilidade desses equipamentos aumenta a cada dia, e hoje é possível ter um único equipamento que captura imagens, sons, vídeos, que faz ligações e que transmite imagens por e-mail. As câmeras digitais funcionam de forma semelhante às convencionais. A imagem (luz) penetra na câmera através da objetiva e é convergida para um material fotossensível, que altera seu estado elétrico em pontos individuais, em função da quantidade e qualidade de luz que recebe. Esse impulso é convertido para um sinal digital e armazenado em local específico, que pode ser a memória externa ou interna do equipamento. De modo geral, quanto mais simples o equipamento, menor o preço e maior a facilidade de operação. Em contrapartida, maior será a dificuldade de se obter excelência nas imagens. As câmeras compactas costumam apresentar custo reduzido e possibilitam tomadas fotográficas sem a preocupação com regulagens, mas dificultam a padronização e a obtenção de imagens perfeitas. Já as câmeras profissionais, quando bem-equipadas e manuseadas, proporcionam excelente qualidade e padronização das imagens. A desvantagem das profissionais é o custo relativamente alto e a necessidade de entendimento do equipamento e da técnica fotográfica. Tem-se, então, a seguinte escala: quanto melhor a qualidade que se quer A qualidade das imagens obtidas com as câmeras fotográficas digitais também tem melhorado rapidamente, e esses equipamentos continuam em franca evolução. Como consequência do desenvolvimento tecnológico, surgem novidades a todo momento, e as câmeras digitais logo ficam obsoletas, o que faz com que seus preços caiam vertiginosamente. Por isso, só se deve investir nelas se o uso for imediato. Figura 1.1 Câmera digital, um híbrido de câmera fotográfica e computador.
da imagem, maior o custo do equipamento e a necessidade de treinamento. No decorrer do presente livro, será mostrado como escolher e utilizar corretamente cada tipo de câmera, suas vantagens e desvantagens, bem como a forma de tirar proveito dos diferentes tipos de equipamento. CÂMERAS PROFISSIONAIS as câmeras que, quando bem-equipadas, proporcionam os melhores resultados, sendo compatíveis com o cotidiano do consultório. Assim, ao longo do livro, serão chamadas de profissionais as single-lens reflex (SLR) intercambiáveis de pequeno formato que, quando analógicas, utilizam filme 35 mm e as similares digitais (SLR ou DSLR). As câmeras monoreflex digitais tentam imitar o funcionamento das reflex analógicas no que tange ao seu funcionamento, tendo basicamente substituído o filme pelo sensor (Figura 1.2A-C). 27 No universo da fotografia profissional, existem equipamentos para diferentes aplicações e com variação de preços que acompanha cada necessidade. Com vistas à fotografia odontológica, são classificadas como profissionais As câmeras digitais SLR (single-lens reflex) são conhecidas também como DSLR (digital single-lens reflex). A B C Figura 1.2 A-C) Câmeras profissionais digitais com diferentes possibilidades.
28 As câmeras SLR têm como característica principal apresentar um único caminho para a imagem visualizada no momento da composição da fotografia e a imagem que será capturada. Isso faz com que a imagem visualizada seja idêntica à capturada (Figura 1.3A e B). A denominação intercambiável define a possibilidade de troca das objetivas (lentes) de acordo com a necessidade de cada modalidade fotográfica (Figura 1.4). São câmeras relativamente pequenas, leves e fáceis de manusear. Para essas câmeras, além das objetivas, pode-se escolher uma infinidade de acessórios e recursos, podendo ser operadas no modo manual, automático ou semiautomático. As características citadas fazem com que essas câmeras possam oferecer padronização de cor, iluminação, focalização e proporção das imagens. Com esses equipamentos, é possível obter fotos de excelente qualidade nas diversas modalidades fotográficas, independentemente de o método de captura ser analógico ou digital. Pode-se conseguir excelência em fotografias clínicas, de gravuras, de objetos, de slides preexistentes ou imagens microscópicas. Como desvantagens das câmeras profissionais, estão a necessidade de conhecimento prévio dos equipamentos, seu peso e custo (quando equipadas para fotografia clínica, em geral têm um custo final maior que o das compactas, além de serem relativamente mais pesadas). 6 6 A B Figura 1.3 1 Imagem luminosa; 2 Espelho; 3 Obturador; 4 Material fotossensível; 5 Prisma; 6 Olho do fotógrafo. A) Câmera SLR em repouso. A imagem é refletida por um espelho para um prisma que encaminha a imagem para os olhos do observador. B) Câmera SLR no momento da fotografia. O espelho sobe, o obturador se abre e a imagem que passa pela objetiva é capturada pelo material fotossensível.
Câmeras compactas simples ( aponte e dispare ) 29 Elementares e com recursos limitados, a maioria das câmeras aponte e dispare são leves, pequenas e versáteis, embora tenham limitações que impedem sua utilização em determinadas situações (Figura 1.5). Atraentes por suas dimensões cada vez menores, cabem na palma da mão ou no bolso e são empregadas com praticidade para fotografias em viagens e festas. Esses modelos não são uma boa escolha para fotografia clínica, pois não possuem controle manual da abertura do diafragma, do obturador, ISO, nem possibilidade de acoplamento de lentes e flashes acessórios. Ou seja, apresentam um resultado inferior em comparação com as máquinas profissionais ou compactas avançadas, principalmente para fotografias clínicas. Figura 1.4 Câmera com as diversas possibilidades de objetivas. A objetiva será escolhida de acordo com a finalidade de cada tomada fotográfica. CÂMERAS COMPACTAS Também por motivo didático, são classificadas como compactas as câmeras que têm seu corpo e objetiva (lente) unidos, formando uma estrutura única, não sendo possível substituir somente um dos dois, caso necessário. Pode-se adicionar outras lentes a algumas câmeras aqui classificadas, porém sem remover a lente original. Existe uma grande variedade dessas câmeras, e a cada dia surgem novos modelos, com atrativos diferentes que podem proporcionar boas fotos, praticidade e custo relativamente baixo. Figura 1.5 Câmeras compactas simples.
30 Câmeras compactas avançadas As câmeras avançadas são assim denominadas porque apresentam inúmeros recursos que lhes permitem fazer fotografias de boa qualidade, embora o intercâmbio de objetivas não seja possível. De forma geral, estas máquinas possuem objetivas zoom e visor de boa qualidade, admitem regulagem manual e automática e permitem o acoplamento de filtros, lentes, flash externo, entre outros (Figura 1.6). Trata-se de câmeras intermediárias entre as profissionais e as compactas simples. Embora interessantes pela infinidade de recursos que oferecem, nem todos os modelos têm a versatilidade necessária para utilização em fotografia intraoral. Dessa forma, antes de escolher uma câmera, é importante definir a finalidade principal de seu uso, para que a relação custo-benefício seja boa. Figura 1.6 Câmeras compactas avançadas.