Dom Casmurro e a temática do adultério feminino

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Dom Casmurro e a temática do adultério feminino Cem anos depois da morte de Machado de Assis (1839-1908), sua obra ainda tem um efeito inquietante junto aos leitores e críticos. Sua escrita visionária, capaz de revelar nuances da alma e do comportamento humanos, desafia a análise e a interpretação. A maior prova da genialidade e da vitalidade da obra do autor é o interesse e as reviravoltas que a crítica literária tem dado para apresentar estudos convincentes e aprofundados das invenções literárias presentes na obra de Machado. Romances como Dom Casmurro ou Memórias Póstumas de Brás Cubas guardam um frescor novo a cada leitura. O travo amargo e irônico desses narradores que reconhecem a própria miséria coloca o leitor diante de si mesmo e de seus embates pessoais e existenciais. O desafio de leitura e estudo de romances como esses oferece ao leitor a suma recompensa de poder retornar ao livro sempre e a cada vez ser surpreendido com elementos novos e instigantes. A temática do adultério feminino no Realismo O Realismo europeu enfatizou um tema bastante instigante na literatura: o adultério feminino. Desde a Ilíada, de Homero, a traição feminina é referida como causa de grandes conflitos. No poema épico Ilíada, composto 800 anos a.c., é narrada a história da Guerra de Troia, provocada pelos amores da esposa de Menelau, Rei de Esparta, pelo jovem troiano Páris. O rapto de Helena por Páris teria sido a causa da Guerra de Troia, segundo os registros de Homero. Shakespeare também tematizou as consequências da traição feminina, ou pretensa traição, como é o caso da famosa peça Otelo, composta no século XVII e encenada muitas vezes desde então. Nessa peça, Shakespeare mostra o avanço dos ciúmes de Otelo, desconfiado de que sua esposa Desdêmona o está traindo com um de seus soldados. Otelo enlouquece de ciúmes e, instigado por Iago, acaba por assassinar a esposa inocente em um acesso de fúria.

Realismo na Literatura Brasileira No Romantismo alemão, temos também um famoso caso de amor, temperado com a possibilidade do adultério. Trata-se do romance Werther, de Goethe, publicado em 1774, e que conta, por meio das cartas que Werther escreve a um amigo, as desventuras de seus amores por uma mulher casada. Embora a traição não se consume, a tensão narrativa está toda concentrada no fato de haver um triângulo amoroso entre Werther, Charlotte e seu esposo Albert. Na França do século XIX, já no Realismo, Gustave Flaubert publicou o famoso romance Madame Bovary, em que uma mulher casada trai o marido em busca de uma satisfação existencial que o casamento e a família não lhe ofereciam. Eça de Queirós, no Realismo português, também tematizou o adultério feminino em vários de seus romances, como O Primo Basílio e Alves & Cia., entre outros. No Brasil, o grande mestre do tema é Machado de Assis. O casamento e seus melindres aparecem nos vários romances e contos de Machado, de modo a revelar o olhar aguçado do autor para essa instituição tão problemática quanto detentora das esperanças de homens e mulheres. Vejamos alguns momentos em que o adultério feminino é sugerido em alguns dos contos e romances de Machado de Assis. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas A mulher quando ama a outro homem, parece-lhe que mente a um dever, e portanto tem de dissimular como arte maior, tem de refinar a aleivosia (MA- CHADO DE ASSIS, 1978, p. 56). No conto Primas de Sapucaia, de Histórias sem Data Adriana é casada; o marido conta 52 anos, ela 30 imperfeitos. Não amou nunca, não amou mesmo o marido, com quem casou por obedecer à família. Eu ensinei-lhe ao mesmo tempo o amor e a traição; é o que ela me diz nessa casinha que aluguei fora da cidade, de propósito para nós (MACHADO DE ASSIS, 2001, p. 39). No conto A causa secreta, em Várias Histórias A comunhão dos interesses apertou os laços da intimidade. Garcia tornouse familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o agita- 120

Dom Casmurro e a temática do adultério feminino va, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso, entroulhe o amor no coração. Quando deu por ele, quis expeli-lo, para que entre ele e Fortunato não houvesse outro laço que o da amizade; mas não pôde. Pôde apenas trancá-lo; Maria Luísa compreendeu ambas as coisas, a afeição e o silêncio, mas não se deu por achada (MACHADO DE ASSIS, 1999, p. 45). Esses são alguns exemplos dessa temática tão recorrente na obra do autor. No entanto, foi com o romance Dom Casmurro (1899) que Machado de Assis sedimentou o tema do adultério feminino em um tratamento original que vem desafiando a crítica desde então. O narrador em Dom Casmurro Juntamente com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1891), Dom Casmurro forma a tríade dos romances mais famosos de Machado de Assis. Porém, diferentemente dos outros dois, Dom Casmurro não foi publicado primeiramente em folhetim: quando apareceu em livro, era obra inédita. Em prefácio a uma edição relativamente recente de Dom Casmurro, Fábio Lucas comenta o romance nos seguintes termos: Talvez esse aspecto de peça acabada, que guarda desde o início, tenha feito recair sobre ela o mais alto entusiasmo da crítica, ao mesmo tempo em que o público tem acolhido com interesse o famoso relato de um amor desenganado (LUCAS, 1997, p. 3). A crítica realmente vem dedicando muitas palavras a este livro de Machado. O foco recorrente da análise é quase sempre o narrador. Já em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador se apresentava como um elemento de desconcerto e novidade, tanto pelo fato de tratar-se de um narrador-autor defunto como pelo cinismo e a auto-análise de que esse narrador é capaz nessa obra. Em Dom Casmurro, esse recurso se problematiza ainda mais, pois também aqui o narrador se apresenta em primeira pessoa, dedicado a escrever suas memórias para atar as pontas da vida. A temática do adultério feminino, muito presente na obra de Machado como vimos, aparece aqui não mais como o registro pela voz daqueles que traem ou pela voz em terceira pessoa que atesta de fato a traição: em Dom Casmurro é o marido supostamente traído que empreende o registro de suas memórias para comprovar para si mesmo e ao leitor a veracidade do adultério da mulher. O que ocorre, portanto, é a rememoração e a análise dessas memórias sob o ponto de vista daquele que se julga traído. Essas lembranças estão, como é de se 121

Realismo na Literatura Brasileira esperar, contaminadas pelo tempo e pelo sentimento de ciúme que constrange o narrador ao longo de todo o seu relato. O narrador-autor Assim como Brás Cubas em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Bento Santiago, o narrador de Dom Casmurro, empreende a escrita de um livro de memórias, mas enquanto as Memórias Póstumas de Brás Cubas envolvem todo o curso de uma vida, poderíamos considerar que em Dom Casmurro há apenas memórias amorosas. Bento Santiago encontra-se na idade dos 55 anos, vivendo sozinho em uma casa no bairro do Engenho Novo, Rio de Janeiro. Nesta fase de sua vida é que lhe ocorre a ideia de escrever um livro. O narrador explica já no primeiro capítulo que o título do livro que escreve, Dom Casmurro, é decorrência do apelido que lhe deu um mau poeta ofendido com o desinteresse de Bento por seus versos como o apelido pegou, Bento resolveu usá-lo também no livro. Trata-se, claro, de uma auto-ironia, pois casmurro significa alguém calado, de pouca conversa, teimoso, obstinado. Vejamos agora como o narrador explica o interesse por escrever um livro: Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão. Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos blocos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Matacavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa. O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. (MACHADO DE ASSIS, 1997, p. 13-14) A solidão do narrador é algo que marca o discurso, mas sua linguagem é contida, não há auto-piedade em nenhum momento, ele não se lamenta abertamente, apenas constata a própria solidão, como se fizesse isso com um certo distanciamento emocional. O fato de ter reproduzido na casa em que mora na 122

Dom Casmurro e a temática do adultério feminino velhice a mesma casa em que morou na rua de Matacavalos revela o desejo de retorno ao período da infância e da adolescência. A escrita do livro, como ele mesmo diz, é também uma tentativa de atar as duas pontas da vida : a adolescência e a velhice. Apresentado o projeto do livro, Bento empreende a escrita. Sua memória retorna a uma tarde de novembro em que se descobriu apaixonado pela vizinha Capitu, uma moça que mora em uma casa agregada à sua, por amizade e proteção da mãe de Bento, D. Glória. Os amores e os desenganos de Bento e Capitu são toda a história de Dom Casmurro. A concentração do enredo é grande e toda a ação pode ser resumida de modo muito rápido. Vejamos. A ação: amor e ciúme Ainda adolescente, Bentinho apaixona-se por Capitu, sua vizinha. Crê que é correspondido, mas há um obstáculo externo para o namoro: a mãe de Bentinho prometera mandá-lo para o seminário e julga que deve isso a Deus. O jovem casal sofre com a perspectiva da separação, mas por alguns arranjos próprios consegue dissuadir a mãe de fazê-lo padre. Enquanto esteve no seminário, Bento tornou-se muito amigo de Escobar. Já adulto e formado em Direito, Bento se casa com Capitu, e seu amigo Escobar também se casa com Sancha, uma amiga de Capitu. Capitu e Bento vivem bem, embora os ciúmes dele se manifestem aqui e ali, principalmente quando a beleza de Capitu desperta a atenção em torno. A única pequena frustração do casal é a demora pela chegada de um filho: esperam dois anos, até que Capitu finalmente engravida e dá à luz ao menino Ezequiel. A essa altura, o casal Sancha e Escobar já tem uma filha, familiarmente chamada de Capituzinha, para diferenciar, já que ela tem o mesmo nome da esposa de Bento. A relação entre os dois casais é estreita, são grandes amigos. Até o dia em que Escobar morre afogado, nadando no mar em frente ao bairro do Flamengo. No famoso capítulo 123, intitulado Olhos de ressaca, os ciúmes de Bento rompem a barreira da racionalidade e invadem sua vida. Nesse momento, Bento observa Capitu olhando para o caixão de Escobar e acredita que a mulher mantinha um caso amoroso com seu melhor amigo: 123

Realismo na Literatura Brasileira Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida. Sancha quis despedir-se do marido, e o desespero daquele lance consternou a todos. Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-la dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas... As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga, e quis levá-la; mas o cadáver parece que a retinha também. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã. (MACHADO DE ASSIS, 1997, p. 160-161) Bento surpreende o olhar de Capitu para o cadáver de Escobar e isso é o suficiente para toda a vida de ambos ser colocada em revista tendo em mente esse novo elemento. A partir daí, os ciúmes só crescem e a conclusão acerca de uma semelhança entre Ezequiel e Escobar é de que o menino só pode ser filho do amigo. Diante disso, há alguns movimentos dramáticos do narrador, que tenciona matarse, depois pensa em matar o filho, mas por fim, manda a mulher e o filho para Paris, como para salvar as aparências, e assim fica sozinho. Capitu falece no exterior. O filho cresce, viaja para o Egito, contrai uma doença e também falece. Bento Santiago está sozinho e assim o encontramos no momento em que decide escrever o livro. Esse é o mote, ou seja, o elemento que desencadeia a ação do romance. O que interessa, claramente, é o modo como tudo isso é narrado. Bento Santiago, o narrador-autor, vai ao passado para tentar compreender os fatos de sua vida. Tudo é lembrado e questionado, e em vários momentos ele coloca dúvidas sobre a veracidade da traição. Em nenhum momento Capitu confirma que teve alguma coisa com Escobar. Como todos os outros morreram, Bento não pode mais passados tantos anos deles extrair confissões, em qualquer sentido. Essa é a essência de sua solidão: ele está sozinho com as decisões que tomou, não há como voltar atrás ou pedir perdão. Disso resulta sua teimosia, sua contenção. O texto sempre nos dá a impressão de uma emoção contida: Bento não revela claramente o que sente. Podemos intuir seu sofrimento, mas não há um lamento explícito e isso torna o relato ainda mais amargo. Vejamos o trecho em que ele, já tomado pelo ciúme, decide comprar veneno para suicidar-se: A ideia saiu finalmente do cérebro. Era noite, e não pude dormir, por mais que a sacudisse de mim. Também nenhuma noite me passou tão curta. Amanheceu, quando cuidava não ser mais que uma ou duas horas. Saí, supondo deixar a ideia em casa; ela veio comigo. Cá fora tinha a mesma cor escura, as mesmas asas trépidas, e posto avoasse com elas, era como se fosse fixa; eu a levava na retina, não que me encobrisse as cousas externas, mas via-as através dela, com a cor mais pálida que de costume, e sem se demorarem nada. 124

Dom Casmurro e a temática do adultério feminino Não me lembra bem o resto do dia. Sei que escrevi algumas cartas, comprei uma substância, que não digo, para não espertar o desejo de prová-la. A farmácia faliu, é verdade; o dono fez-se banqueiro, e o banco prospera. Quando me achei com a morte no bolso senti tamanha alegria como se acabasse de tirar a sorte grande, ou ainda maior, porque o prêmio da loteria gasta-se, e a morte não se gasta. Fui à casa de minha mãe, com o fim de despedir-me, a título de visita. Ou de verdade ou por ilusão, tudo ali me pareceu melhor nesse dia. Minha mãe menos triste, tio Cosme esquecido do coração, prima Justina da língua. Passei uma hora em paz. Cheguei a abrir mão do projeto. Que era preciso para viver? Nunca mais deixar aquela casa ou prender aquela hora a mim mesmo... (MACHADO DE ASSIS, 1997, p. 170, grifo nosso) Ao lembrar que naquela tarde comprara uma substância o veneno para se matar, Bento comenta que não lhe diz o nome para não espertar o desejo de prová-la. Isso revela muito do estado de espírito do narrador nesse momento de registro de suas memórias: também agora o desejo de morte está nele, alojado em algum canto de sua alma, disfarçado pelas palavras contidas. A representação da mulher em Dom Casmurro Capitu não tem voz em Dom Casmurro a não ser nos diálogos transcritos pela memória do narrador. Não sabemos o que ela pensa ou o que sente, podemos apenas tirar conclusões por meio do que nos diz Bento, o narrador e marido supostamente traído. Mas também esse marido vê em Capitu um mistério. Muitas das falas dessa esposa são incompreendidas pelo narrador e em algumas circunstâncias ele adota uma percepção alheia para compreendê-la e só então ousa definir o que vê conforme os próprios sentimentos. É o caso do capítulo 32, em que utiliza pela primeira vez a expressão olhos de ressaca : Juro. Deixe ver os olhos, Capitu. Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que... Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. (MACHADO DE ASSIS, 1997, p. 55) 125

Realismo na Literatura Brasileira Ao observar os olhos de Capitu, chamados por José Dias, de olhos de cigana oblíqua e dissimulada, Bento sente o efeito daquele olhar e os denomina olhos de ressaca. Essa definição é com certeza uma definição amorosa: um olhar capaz de engolir o outro como as ondas do mar em movimento de ressaca, só pode ser associado à ideia de um olhar apaixonado. Disso podemos concluir que Capitu era apaixonada por Bento? Mas depois, quando Escobar morre, Bento diz surpreender esse mesmo olhar de Capitu dirigido ao cadáver do amigo. Seriam delírios de marido ciumento e inseguro ou de fato Capitu se apaixonou por Escobar? O embate interpretativo não resolve essa questão e não poderia querer fazêlo, pois Machado de Assis mantém Capitu como uma imagem diluída entre o amor esmerado de Bento e os ciúmes destruidores que ele experimenta. Assim, a genialidade desse romance de Machado está em atualizar constantemente o mistério de Capitu, fazendo com que suas ações e sentimentos sejam todo o tempo especulados pelo narrador e pelo leitor. E é importante compreender que a solução do impasse sobre se Capitu traiu ou não traiu não é o mais importante na leitura de Dom Casmurro: o que interessa é perceber o funcionamento de uma personalidade Bento Santiago, o narrador solitário que, lançando mão dos recursos da memória, tempera-os com a solidão e o sofrimento, e enfrenta as memórias do seu amor desenganado. É uma história de amor, uma triste história de amor, e por isso mesmo tem um apelo universal que se renova o tempo todo. Texto complementar Disponibilizamos uma crônica de Machado de Assis para que você se familiarize ainda mais com o estilo irônico e crítico do autor. Trata-se de uma crônica que, com leveza e ironia, aborda a Abolição da Escravatura. Bons dias! (MACHADO DE ASSIS, 2008) 1 Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e 126 1 Crônica publicada originalmente na Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888.

Dom Casmurro e a temática do adultério feminino juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus 18 anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por 1.000, perdido por 1.500, e dei um jantar. Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem 33 (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico. No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as ideias pregadas por Cristo, há 18 séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado. Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo. No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza: - Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que... - Oh! meu senhô! fico. -...Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos... - Artura não qué dizê nada, não, senhô... - Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha. 127

Realismo na Literatura Brasileira - Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete. Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos. Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre. O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu. Boas noites. Estudos literários 1. Em Dom Casmurro, temos um narrador a) em terceira pessoa onisciente. b) em terceira pessoa neutro. c) testemunha em terceira pessoa. d) personagem em primeira pessoa. 2. Dom Casmurro foi lançado em a) 1900. 128 b) 1960.

Dom Casmurro e a temática do adultério feminino c) 1899. d) 1901. 3. Explique com suas próprias palavras as razões de Bento Santiago para escrever um livro de memórias a que ele deu o nome de Dom Casmurro. 129

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