INQUÉRITO CIVIL N. 70/2014/SIMP 000453-002/2014 NOTIFICAÇÃO RECOMENDATÓRIA Nº 15/2015 NOTIFICADO: MUNICÍPIO DE CUIABÁ E SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DESTINATÁRIO: SR. PREFEITO: MAURO MENDES FERREIRA E ILUSTRÍSSIMO SR. SECRETÁRIO MUNICIPAL DE SAÚDE: ARY SOARES JUNIOR. NOTIFICAÇÃO RECOMENDATÓRIA A Constituição da República Federativa do Brasil, em seu artigo 127 define o Ministério Público como instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. O mandamento constitucional referido foi reproduzido na Lei Complementar n. 75/93, que dispõe sobre a organização e atribuições do Ministério Público da União e, adotada subsidiariamente a prerrogativa inserida em seu artigo 6º, inciso XX pela LONMP, o Ministério Público Estadual é autorizado a: Expedir recomendações, visando a melhoria dos serviços públicos e de relevância pública, bem como o respeito aos interesses, direitos e bens cuja defesa lhe cabe promover, fixando prazo para adoção das providências cabíveis. 1
MOTIVOS DA NOTIFICAÇÃO O Ministério Público do Estado de Mato Grosso, por meio da 7ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania da Capital, instaurou o Inquérito Civil n. 70/2014 objetivando apurar as irregularidades estruturais apontadas no Relatório de Vistoria realizado pelo Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso, na Policlínica Anísio Sávio Mendes, do bairro Pedra 90, em Cuiabá-MT. Essa investigação teve como fundamento Ofícios CRM-MT N 993/2012 e CRM-MT N 2977/2013, encaminhados pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de Mato Grosso, acompanhado de relatório técnico indicando as irregularidades presentes naquela Unidade de Saúde do Pedra 90, bem como o Termo de Notificação N 118/2013, concedendo prazo de trinta dias para o saneamento das inconformidades apontadas, como falta de responsável técnico na farmácia, mobiliário em desuso, falta de Alvará da VISA, entre outros. Foi enviado, também, Relatório de Visita Preventiva n 043/2011-A realizadas em seis Policlínicas da capital, dentre elas a Unidade em voga, demonstrando com isso que o problema a que o ofício se referia não era atual, mas que já se estendia desde 2011. Entre os integrantes da equipe participante estavam o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Mato Grosso (CREA-MT); Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Mato Grosso (CBM-MT); Conselho Regional de Enfermagem (COREN) e Conselho Regional de Farmácia (CRF). 2
Dentre os apontamentos feitos foi detectado a falta de estrutura interna e externa da Policlínica para o acesso de pessoas com deficiência física; falta de drenagem do ar condicionado; contêiner de lixo hospitalar sem abrigo a intempéries; números insuficientes de assentos; banheiros entupidos; falta de manutenção nos condicionadores de ar; ventilador e torneiras do bebedor quebrados; falta de equipamento no Box de emergência; setor de esterilização sem sistema de refrigeração adequada; paredes com rachaduras; goteiras em várias salas; ausência de Alvará de Prevenção Contra Incêndio e Pânico e extintores. O Conselho Regional de Enfermagem destacou, ainda, a necessidade de implantar a Sistematização de Enfermagem; a existência de escalas de trabalho incompletas; identificação incorreta nos registros de enfermagem e medicação preparada; pessoas no exercício ilegal da profissão; pessoal de enfermagem insuficiente para a taxa de ocupação da Unidade (seria necessário, na época dos fatos, a contratação de 03 enfermeiros e 10 técnicos de enfermagem); ausência de manual de normas e rotinas, entre outros. Por fim, o Conselho Regional de Farmácia mencionou que os espaços destinados ao armazenamento e dispensação dos medicamentos apresentavam espaços físicos insuficientes; ventilação precária; armazenamento de medicamentos de forma inadequada e medicamentos de controle especial guardados em armários sem chaves. Ressaltou, ainda, que os funcionários responsáveis pelas farmácias não seriam habilitados para exercer o cargo, caracterizando desvio de função. Com a finalidade de prosseguir com a instrução do Inquérito, expediu-se ordem de serviço à Assistente Social vinculada a esta Promotoria Justiça para que realizasse visita ao local, a partir do qual, foi confeccionado Relatório de Visita Institucional, no dia 02 de março de 2015, constatando que vários equipamentos do Box de Emergência encontravamse com defeito, como o monitor cardíaco e o Respirador Mecânico, além de ter sido encontrado materiais vencidos, como sonda uretral e tudo de entubação. 3
de quatro meses. Foi ressaltado pelo funcionário do local que tais problemas persistem a cerca Observou-se que a Policlínica do Pedra 90 não possui ambulatório apesar de ser referencia nos atendimentos de urgência e emergência na especialidade médico adulto e pediatra. Sendo assim, resta patente que tais deficiências comprometem sobremaneira o atendimento de pacientes graves que chegam até a aludida Unidade. Verificou-se ainda que a farmácia local para a dispensação de medicamentos permanecia sem responsável técnico no setor e que quanto à Infraestrutura física do local foi destacada a existência de paredes com infiltração e goteiras, arquivos e prontuários armazenados de forma imprópria e móveis deteriorados. A fim de melhor averiguar os fatos, foi solicitado ao Centro de Apoio Operacional do Ministério Público - CAOP a realização de Relatório Técnico proveniente de perícia no estabelecimento em questão. Como resultado da aludida visita, ocorrida no dia 09/07/2015, realizada por profissional engenheiro eletricista e arquiteto, foi confeccionado o incluso Relatório Técnico n. 338/2015, onde foi constatado diversas irregularidades, como: desatualização nos quesitos referentes a normatização brasileira de segurança contra incêndio e pânico, falta de extintores, hidrantes, sinalizadores e saídas de emergência; problemas elétricos do imóvel, como quadro de distribuição sem identificação e sem o dispositivo diferencial residual nos locais molhados e nas áreas externas, onde seu uso é obrigatório; fiação exposta gerando alto risco de curto circuito e choques elétricos; tomadas, interruptores e caixa de passagem sem tampa cega e espelho. 4
Foi verificado, ainda, a necessidade de reforma geral na cobertura, isto porque ela esta com várias telhas fora do lugar ou deslocadas; paredes e tetos com infiltração; postas metálicas oxidadas e as de madeira em sua maioria quebradas, bem como fechaduras com defeito ou mesmo sem quaisquer trancas ou maçanetas; balcão de atendimento em desacordo com a NBR 9050 e, ainda, falta de acessibilidade e ausência de climatização no almoxarifado de remédios, contrariando a normatização da ANVISA. O lixo oriundo da Policlínica não recebe tratamento adequado e as lixeiras estão posicionados em local ermo e sem abrigo, contrariando a instrução 50 ANVISA. Quanto as instalações hidrossanitárias, contatou-se que os banheiros utilizados para atender pessoas com necessidades especiais estão em desacordo com a NBR 9050 Acessibilidades. Foi observado também, a falta de lampadas em alguns pontos da Unidade; ausência de Programa de Gerenciamento de Resíduos Sólidos; do Alvará Sanitário e do Alvará de Prevenção contra Incêndio e Pânico. Sabe-se que a Policlínica é uma Unidade de Saúde para prestação de atendimento ambulatorial em várias especialidades, incluindo ou não as especialidades básicas, podendo ainda ofertar outras especialidades não médica No entanto, restou demonstrado, por tudo o que foi dito acima, que a saúde dos pacientes que buscam a referida Unidade, vem sendo prejudicada, em patente afronta ao artigo 196 e 197 da Constituição da República, in verbis: Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. 5
Art. 197. São de relevância pública as ações e serviços de saúde, cabendo ao Poder Público dispor, nos termos da lei, sobre sua regulamentação, fiscalização e controle, devendo sua execução ser feita diretamente ou através de terceiros e, também, por pessoa física ou jurídica de direito privado. Isto porque todo paciente tem direito a obtenção de assistência médica em um local salubre e que cumpra as normas de segurança, garantindo com isso uma eficiente prestação de serviço médico, não podendo estes ficarem a mercê da ineficiência Pública, como resta demonstrada nas inúmeras irregularidades acima narradas. A demora na resolução da questão em tela já se mostra demasiada, uma vez que a situação em discussão vem se arrastando já há bastante tempo, sendo que os problemas em sua grande maioria, como pode ser visto nos relatórios, notificações e FPI continuam, sem que nenhuma solução fosse adotada Com assim, verifica-se a necessidade dessa medida, ante a ausência do Poder Público em buscar melhorias para o atendimento adequado à população. Pois bem, a utilização de instrumento extrajudicial na tentativa de se obter a adequação do serviço público em questão mostra-se totalmente pertinente, uma vez que a eficiência de tal atividade é interesse que o próprio gestor deve buscar, pois a Administração Pública deve obedecer, dentre outros, o princípio da eficiência (artigo 37, caput, da Constituição Federal), o qual impõe ao administrador a persecução do bem comum, por meio do exercício de suas competências, de forma eficaz e sempre em busca da qualidade. Sendo assim, faz-se necessário que cesse todas as irregularidades estruturais, a fim de que a Policlínica Anísio Sávio Mendes, do bairro Pedra 90, cumpra as exigências legais. 6
Em razão de todo o exposto, o Promotor de Justiça titular da 7ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania NOTIFICA O PREFEITO MUNICIPAL DE CUIABÁ, EXMO. SR. MAURO MENDES FERREIRA, E O SECRETÁRIO MUNICIPAL DE SAÚDE, LLMO. SR ARY SOARES JUNIOR, RECOMENDANDO QUE NO PRAZO DE 180 (CENTO E OITENTA) DIAS realize as providências administrativas necessárias ao saneamento das irregularidades apontadas no Relatório Técnico n. 338/2015, em anexo. Ultimado tal prazo, deve ser remetido, a esta Promotoria de Justiça, documento que evidencie o cumprimento da presente notificação. Alerta-se, por fim, para o fato de que a ausência de resposta a esta Recomendação será interpretada como recusa de atendimento à medida nela contida, o que será determinante para a propositura da ação judicial cabível à espécie. Cuiabá, 18 de agosto de 2015. ALEXANDRE DE MATOS GUEDES Promotor de Justiça 7