O aborto e seus aspectos legais 1 Elso Duarte da Silva 2 Abortar significa dar a luz antes do término da gestação, expulsar o feto sem que ele tenha condições de vitalidade. O aborto pode ser provocado voluntariamente ou involuntariamente, mas segundo a legislação brasileira o aborto é considerado crime, tanto para a pessoa que o pratica- o médico- como para a pessoa que o pede- a paciente. Mas, segundo o artigo 128 do Código Penal, admite- se o aborto: quando a mãe está em perigo; em caso de estupro e admitem crianças com deformações. Crime, porque deste o instante da fecundação do óvulo pelo espermatozóide, nós já temo um novo ser. A primeira Conferência Internacional do Aborto, realizada em Washington em outubro de 1967, chegou a seguinte conclusão: nosso grupo, em sua maioria, não foi capaz de determinar nenhum espaço de tempo entre a união do espermatozóide e o óvulo, ou pelo menos entre o estágio de blástula e o surgimento de uma criança, um ponto no qual pudéssemos dizer que ali não estava uma vida humana. Antropologicamente, toda a vida é convocada a desabrochar. Assim, retirar ou abreviar uma vida nascente é um ato contra a natureza em relação ao ser humano. O ideal é dar todas as condições sociais, políticas, econômicas e psíquicas para o seu desenvolvimento. Infelizmente vivemos numa sociedade que está longe de atingir esse ideal. Aí nos defrontamos com o problema do aborto, que é o fim de um processo. O abortamento é sempre um processo doloroso a ser enfrentado pela mulher ou pelo casal. Tipos de aborto Os principais tipos de aborto são: 1º ABORTO TERAPÊUTICO: ocorre quando a gravidez coloca em risco a vida da gestante. Essa situação esta praticamente superada em conseqüência do avanço da medicina. Restam algumas situações excepcionais além da inviabilidade do feto como é o caso da gravidez ectópica, em que a implantação do embrião não é feita no útero, mas, por exemplo, mas trompas. 1 Trabalho elaborado para a disciplina de Bioética, curso de Filosofia, 2 semestre 2006, URI-FW. 2 Acadêmico do Curso de Filosofia, 2006/II, Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, Campus de Frederico Westphalen RS. 59
2º ABORTO ÉTICO OU HUMANITÁRIO: costuma se falar de aborto ético ou humanitário - a nosso ver, seria melhor falar de aborto criminológico - quando gravidez resulta de uma ação delituosa, fundamentalmente estupro ou relações incestuosas. Nesses casos, estima- se que o risco de gravidez gire em torno de 1% a 2% de todas as violações. 3º ABORTO PSICOSSOCIAL: deve- se a razões pessoais, familiares, econômicas e sociais da mulher. É indiscutível que nessa hipótese se enquadra a maioria dos abortos praticados no mundo. 4º ABORTO EUGÊNICO: cogita- se o aborto eugênico - que preferiríamos classificar como de indicação fetalquando a risco de que o nascituro seja portador de anomalias ou mal formações congênitas. Convém que nos detenhamos um pouco mais nesse tipo de aborto (Dez palavras-chave em Bioética, de Javier Gafo Fernández, São Paulo : Paulinas, 2000, pg.42) Principais Causas do Aborto Muitas são as causas que a mulher pode a vir a fazer o aborto - pressão social ou indicação social: ocorre quando a mãe se sente pressionada pela sociedade a praticar o aborto e interrompe a gravidez para não arcar com a carga social e econômica que comporta; - aborto eugênico: ocorre quando os pais têm medo de gerarem uma criança deformada, onde segundo ele, daria muito trabalho cuidá-los; - situação econômica: acontece quando os pais não têm condições financeiras para ter filhos, ou em alguns casos, mais filhos. Podemos relatar também que o egoísmo, a liberdade sexual e a emancipação da mulher, são as causas que hoje em dia mais provocam o aborto. Do egoísmo podemos dizer que num mundo tão modernizado em que vivemos, um filho, nessas circunstâncias exigiria dos pais um mundo de sacrifícios, de muita doação, pois querendo eles ou não, o filho é alguém que se instala na família com suas exigências. Quanto à liberdade sexual há muita coisa que poderíamos discutir. O sexo, na atualidade, é a coisa mais natural do mundo enquanto prática liberalizada. Não existem mais os tabus que existiam antigamente. A virgindade é ridicularizada e para ajudar, os meios de comunicação transmitem sexo a toda hora. Mesmo com todos os meios de anticoncepcionais existentes no mercado, os futuros pais preferem dizer que não estão preparados ou cujas conseqüências, não querem aceitar, apelando, assim, para o aborto. Já, sobre a emancipação da mulher, pode-se dizer que hoje, a mulher quer ter, muitas vezes, e em alguns casos, a mesma liberdade que os homens, os mesmos direitos. Mas a liberdade a prende, a limita. Ela diz que o corpo é seu e faz o que quer. O aborto aparece então como ato de libertação. 60
Ultimamente cresce o número de abortos provocados anualmente no mundo. Segundo estimativa da organização Mundial da Saúde, seriam provocados 1,5 a 3 milhões de abortos por ano no Brasil. Mesmo esclarecendo as principais causas do aborto, podemos ainda, nos perguntar: Porque o aborto deve ser liberado? Primeiramente podemos dizer que o aborto sendo legalizado poderia e faria retroceder o aborto clandestino que ceifou e ceifa tantas vidas, o que seria, portanto uma medida profundamente humanizadora. Também, quando o feto teria algum defeito, aborto eugênico, pois colocaria- se no mundo ser infeliz e uma cruz insuportável para os pais. Para os ais, pois os mesmo, em alguns casos não teriam condições psicológicas para educarem essas crianças e nem para dar amor necessário a elas. Mas há, em todo o caso, o lado das crianças que mesmo com todos os problemas ainda encontram forças e vontade para viver e acima de tudo, para superara todos os problemas que nenhuma delas pediu para ter. Onde começa a vida? Falando em feto, podemos ainda nos questionar: O feto é uma pessoa? A partir de quando? Segundo a escola genética que define como humano todo o ser que tem um código genético, quando o fenótipo está presente no momento da fertilização, isso significa que o ser em desenvolvimento é humano desde o momento da concepção. Mas já a escola desenvolvimentista, defende que, enquanto a fertilização estabelece as bases genéticas de um ser humano, um certo grau de desenvolvimento é necessário para que um indivíduo seja considerado um ser humano. Mas quando é que a vida se inicia? Do ponto de vista biológico, a vida humanizada nunca começa, ela ocorre, pela transmissão das características do homem: razão, responsabilidade, liberdade, condições sócio- político- econômico. Do ponto de vista filosófico, a vida humanizada começaria no momento da convocação à palavra: relacionamento humano e amor. Mas acima de todos essa colocações, podemos ainda ressaltar que a mulher é dona de seu corpo mas que mesmo assim, não pode fazer dele o que simplesmente quer, não pode suicida- se. O feto já é um outro ser, e não é simplesmente o corpo dela. Também podemos dizer que ninguém tem a liberdade de fazer o que quiser com sua vida ou com seu corpo porque nossa liberdade vai até onde começa a liberdade do outro. 61
O aborto do ponto de vista religioso Ano II, nº 03 Dezembro de 2006 - ISSN 1809-4589 Página 59 a 63 Podemos ainda estabelecer como as religiões vêem o problema do aborto hoje no mundo bem como suas principais conseqüências. A igreja só aceita o aborto em caso de ato duplo efeito. É o caso de gravidez nas trompas e de câncer no útero de uma mulher grávida. Opera- se a mãe para salvar a sua vida, como conseqüência não intencionada, em geral, acontece a morte da criança. Nesses casos de aborto não intencionado para salvar a vida da mãe, essa operação é permitida. Isso é o que relata o cristianismo. Já para os Judeus Ortodoxos, eles se opõem a lei permissível do aborto. Para a igreja Mórmon é a destruição da vida mesmo em se tratando de um feto, é contrária a todo conceito de vida cristão O Islamismo, o Budismo e o Hinduísmo afirmam de forma inequívoca sua posição ao aborto, assim também como o Espiritismo é contra o aborto, porque segundo eles é um delito que se comete contra uma criança que é incapaz de se defender. Mas, mesmo assim, tem religiões que aceitaram um prazo bastante notável após a fecundação e antes de falar em crime contra o ser humano. Mas também tem religiões, que é o caso das orientais, que são defensoras de qualquer forma de vida e não se importam com o aborto. O aborto e suas conseqüências Das conseqüências do aborto, podemos relatar que ele jamais é inofensivo, inclusive o feito pelo médico. Assim as conseqüências podem ser: frustração, hostilidade e culpa. Hoje em dia muitas mulheres engravidam sem querer e quando vão compartilhar isso com o seu parceiro muitas vezes são abandonadas por eles, onde os mesmos alegam que não querem o filho ou que não é seu. Com isso, muitas mulheres ficam completamente perdidas, sem saber o que fazer. Ai acontece o aborto por causa da frustração: elas acreditam que não vão conseguir criar o filho sozinhas. Há também casos em que o aborto ocorre porque algumas mulheres engravidam apenas para segurar o namorado e quando o resultado não acontece como elas esperavam e após a descoberta da gravidez, a abandonam e a tratam com hostilidade. E após ser abandonada a mulher acha que a solução é abortar. Muitas vezes também, o aborto acontece com casais já casados que pensam uma criança vai chegar na hora errada ou que não é o momento certo ainda. Também pode acontecer quando os casais estão se desentendendo: a mulher descobre que está grávida e por sua relação matrimonial já andar meio complicada, decide abortar apenas por ter medo de perder seu marido e ser a única culpada. Mas depois de ter abortado a mulher fica com o sentimento de culpa de não ter dado à luz ao filho. 62
Conclusão Para finalizar, o tema aborto é bastante polêmico e hoje é importante refletir também com a razão. Acreditamos que não existe uma solução fácil para esse assunto e que ao menos, o aborto deveria ser permitido no caso de uma violência sexual, ou incesto, pois o filho nascido seria sempre uma lembrança da experiência trágica. A igreja defende a vida e quando é que ela ouviu as mulheres sobre o aborto? Porque os homens devem discutir sobre o aborto se são as mulheres que sofrem as conseqüências? Se pararmos para pensar, todas as decisões são tomadas pelos homens e as mulheres estão pouco presentes. Segundo o Código de Hammurabi, se alguém bate em uma mulher nascida livre, de maneira que ela perde o seu feto, devera pagar seis ciclos de prata pelo feto. Se ela morrer, a ele devera ser morta a filha. Se uma mulher não livre, em conseqüência de agressões, perder o feto, aquele que a agrediu devera pagar cinco cecos de prata. Se a mulher morreu, pagara meia mina. Se aquele bate numa escrava e esta perde o próprio feto, pagara dois cecos de prata. Se a escrava morre, devera pagar um terço de mina. Podemos compreender que alguém numa hora dramática chegue a realizar o aborto e até implore por ele, mas não podemos bater palmas para essa atitude. Após pesquisar sobre esse tema, entendi porque as pessoas ficam em cima do muro a respeito de suas decisões sobre o aborto, pois por mais que muitas pessoas sejam contra o aborto nenhuma delas está livre de passar por isso dentro de sua família. Também dá para obter a conclusão de que esse assunto é muito difícil de ser tratado na nossa sociedade a qual nenhuma das pessoas tem uma posição definida. Mas ainda hoje, como nos tempos medievais ainda são os homens que discutem sobre o aborto, onde as mulheres é que sofrem com as conseqüências. Todas as decisões são tomadas por homens e as mulheres estão pouco presentes. A mulher ainda não conseguiu ter uma definição nem uma opinião sobre o aborto. A mulher é descriminada pelo aborto mas sendo que ela muitas vezes é conduzida por decisões que os homens tomam tanto na igreja, na comunidade e até mesmo em casa Outras Fontes Bibliográficas - Alves, Ivanildo Ferreira: Crimes contra a vida. Belém : UNAMA, 1999. - Pedroso, Fernando de A. Homicídio, participação em suicídio, infanticídio e aborto. Rio de Janeiro : Aide, 1995. 63