Rosário Alçada Araújo

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Transcrição:

Rosário Alçada Araújo Ilustrações de Catarina França

A CAIXA DE SAUDADES Rosário Alçada Araújo Ilustrações e design de Catarina França 2007, Gailivro, uma chancela do grupo LeYa. Rua Cidade de Córdova, n.º 2 2610-038 Alfragide Portugal Tel.: + 351214272200 Fax.: + 351214272201 E-mail: gailivro@gailivro.pt www.gailivro.pt ISBN 9789895579563 3.ª Edição, fevereiro de 2012

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I Todos os anos, quando chegavam as férias, o Dinis mal podia esperar para ir visitar o avô Ernesto, que vivia longe, numa cidade pequena com cheirinhos de aldeia. A casa do avô Ernesto era muito importante para todos os netos. Ao entrar nela, o Dinis sentia que estava a chegar a um palácio e pensava sempre que ali existiam coisas que ele nunca tinha visto noutro lado: móveis escuros que quase chegavam ao telhado, tetos tão altos que mais pareciam estar no céu, salas que não serviam para nada e umas longas escadas, onde tantas vezes ele e os primos brincavam, só pelo prazer de subir e descer dezenas de degraus 9

forrados com uma passadeira antiga, presa por varões dourados, que se aninhavam nas esquinas. O avô Ernesto era ourives. Por isso, o Dinis não se admirava quando ouvia dizer que ele tinha um coração de ouro e até pensava se essa seria a razão por que gostava tanto da sua companhia. Era como se, da convivência com os metais preciosos, um brilho especial o acompanhasse a toda a hora. A ourivesaria do avô Ernesto ficava no rés do chão da casa, e ao fim do dia, quando fechava, o Dinis e os primos gostavam de ir para aquela loja e pedir ao avô para ver e tocar em alguns objetos. Depois, imaginavam que eram mágicos ou que tinham descoberto um lugar encantado, onde cada objeto brilhava, como se tivesse vida e pudesse falar. Diga lá, avô! Foi um pirata que passou por aqui e lhe ofereceu um tesouro? perguntava o Dinis. Não, já sei, foi um rei que existiu há muitos anos que lhe deu a varinha com que transformava tudo em ouro! O avô ria e pensava que a verdadeira magia era ter trabalhado tantos anos, desde muito novo, todos os dias, de sol a sol. Só assim fora possível criar tantos filhos. E enquanto fazia contas e mexia em papéis, o Dinis e os primos admiravam o pequeno mundo daquela loja que não era de brinquedos, mas que os deixava fascinados. 10

II Na casa do avô Ernesto havia sempre sumo, chá, pão fofinho e bolachas de chocolate. E, melhor do que isso, o Dinis tinha todas essas coisas até se fartar, porque quem servia o lanche era a Ana das Panelas, que dizia sempre que os meninos se tornavam crianças mais doces se saboreassem tudo o que gostavam. E como era tempo de férias, os pais fechavam os olhos e faziam a vontade à velha senhora e às crianças. A Ana das Panelas andava sempre de volta dos petiscos e sabia muitas histórias. Quando o Dinis a visitava na cozinha, os dois cantavam canções populares ao ritmo de colheres de pau a bater nas tampas dos tachos e das panelas, como se estivessem a dar um concerto. Certo dia, depois de muito cantarem, a Ana das Panelas pôs-se, como de costume, a contar uma história, enquanto o Dinis a escutava, ao mesmo tempo que comia um pão-de-ló delicioso, acompanhado de chá de morango. Dizia ela que há muitos, muitos anos, mais de quarenta, lhe tinha acontecido uma peripécia: Estava eu na ourivesaria a limpar os ouros e as pratas, já a loja tinha fechado, quando encontrei um anão a dormir, deitado numa grande taça. Fiquei um pouco admirada, mas a verdade é que há sempre coisas por descobrir 12

neste mundo. Respirei fundo, toquei-lhe no ombro com o meu dedo mindinho e perguntei-lhe que fazia ele ali, na loja do avô Ernesto. Um anão? E não teve medo? perguntou o Dinis, de olhos esbugalhados. A Ana das Panelas riu: Ele cabia na palma da minha mão... Era o anão mais pequeno que alguém pudesse imaginar. Mesmo assim, o Dinis achou que podia ter medo. E depois, que aconteceu? O anão estendeu os seus dois bracinhos para trás, abriu a boca, depois esfregou os olhos e pediu-me que o deixasse descansar, antes de iniciar o seu trabalho. E a Ana, que fez? Deixei-o dormir, coitadinho... O Dinis ficou a pensar se devia acreditar na Ana das Panelas... Mas decidiu que sim. Gostava daquela amiga e não tinha razões para desconfiar dela; e, na verdade, a ourivesaria do avô sempre lhe cheirara um pouco a mistério, com tantos objetos antigos e valiosos, que pareciam ter corrido mundo antes de encontrarem abrigo naquela loja. Agradeceu a companhia, o pão-de-ló e o chá, e saiu da cozinha decidido a encontrar esse anão que um dia fora visto pela Ana das Panelas. 14