RECOMENDAÇÃO N 001/2016-CGMP O CORREGEDOR-GERAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ, com fundamento nos artigo 17, inciso IV, da Lei Federal n 8.625/93 e no artigo 36, inciso IV, da Lei Complementar Estadual n 85/99, e considerando que a audiência de custódia, em atendimento ao disposto no art. 9, item 3, do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos das Nações Unidas, e no art. 7, item 5, da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), bem como à decisão havida nos autos da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 347 do Supremo Tribunal Federal, tem por finalidade a apresentação à autoridade judicial de toda pessoa presa em flagrante delito, no menor espaço de tempo possível, oportunizando sua ouvida sobre as circunstâncias em que se realizou a prisão para os fins específicos de se aferir a possibilidade de concessão imediata de liberdade provisória e constatar eventual prática de tortura ou maus tratos; considerando que a Resolução n 213, de 15 de dezembro de 2015, do Conselho Nacional de Justiça, que dispõe sobre a apresentação de toda pessoa presa à autoridade judicial no prazo de
24 horas, em seu art. 8, inciso VIII e seu 1, veda ao magistrado, ao Ministério Público e à defesa técnica, respectivamente, por ocasião da audiência de custódia, formular perguntas com finalidade de produzir prova para a investigação ou ação penal relativas aos fatos objeto do auto de prisão em flagrante, explicitando não ser o momento adequado para o enfrentamento do mérito do caso penal; considerando que a Instrução Normativa n 03/2016 da Corregedoria-Geral da Justiça do Estado do Paraná, preservou o princípio do juiz natural ao reservar a análise do mérito do fato que ensejou a prisão em flagrante ao juiz criminal competente, ao dispor em seu art. 14 que o termo de audiência, instruído com o arquivo de áudio e vídeo, bem como eventual pedido de arquivamento efetuado pelo Ministério Público, nos termos do artigo 6, parágrafo 2, da Resolução n 144/2015 do Órgão Especial, será anexado ao auto de prisão em flagrante e remetido ao Distribuidor para distribuição ao ofício criminal competente ; considerando, do mesmo modo, que a Resolução n 144, de 14 de setembro de 2015, do Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, também preservou o princípio do juiz natural ao limitar a atuação do magistrado atuante na audiência de custódia, tanto em seu art. 1, ao dispor que a Central de Audiências de Custódia tem competência exclusiva e limitada para análise dos autos de prisão em flagrante na forma do art. 310 do Código de Processo
Penal, como em seu art. 6, 3, ao determinar que após a manifestação do Ministério Público e do advogado ou Defensor Público, o juiz decidirá nos termos do art. 310 do Código de Processo Penal, ou seja, apenas quanto à prisão processual e seus desdobramentos, sem enfrentamento do mérito do fato que ensejou a prisão em flagrante; considerando a necessidade de preservação, também, do princípio do Promotor Natural, de maneira que o enfrentamento do mérito do caso penal seja resguardado ao Promotor de Justiça com atribuição perante a Vara Criminal competente; considerando que, tanto o arquivamento do caso penal quanto o oferecimento de denúncia, prematuros e extemporâneos, ferem o princípio do devido processo legal, insculpido no art. 5, inciso LIV, da Constituição Federal e basilar no Estado Democrático de Direito, na medida em que, no caso do arquivamento, viola o direito ao processo e, no caso da denúncia precoce viola o direito à investigação criminal adequada; considerando que por ocasião do oferecimento da denúncia vige o princípio in dubio pro societate; considerando que, apesar da prescindibilidade da existência prévia de inquérito policial, a deflagração da ação penal depende da existência de prova da materialidade, indícios suficientes de
autoria e coleta de informações suficientes sobre as circunstâncias do delito, maturidade esta que não é atingida, tão somente, com a lavratura do auto de prisão em flagrante; considerando que o prematuro oferecimento da denúncia, por ocasião da audiência de custódia, pode interromper a coleta de maiores informações acerca do ilícito penal e suas circunstâncias, tornando precária a acusação em juízo, que poderia ser robustecida por uma investigação plena; considerando que o oferecimento de denúncia prematura, por ocasião da audiência de custódia, estimula a Polícia Civil a se preocupar somente com as formalidades do flagrante, deixando de se aprofundar na investigação sobre as circunstâncias do delito, na contramão da constitucional função ministerial de exercer o controle externo da atividade policial; considerando que uma ação penal eivada de todos os vícios acima apontados a torna passível de anulação a qualquer tempo, a desperdiçar todo o trabalho de prestação jurisdicional em franco prejuízo à sociedade e à segurança pública; RECOMENDA aos Promotores de Justiça que vierem a atuar nas audiências de custódia:
ocasião da audiência de custódia; 1) não promoverem o arquivamento do caso penal por 2) ainda que o fato ensejador da prisão em flagrante tenha contorno de atipicidade, que haja indicativos da presença de excludente de ilicitude ou de culpabilidade, ou que haja sinais da existência de causa de extinção da punibilidade, de escusa absolutória ou outro elemento que seja afeto à análise do mérito, que se limite à análise processual da prisão em flagrante e seus desdobramentos à luz do art. 310 do Código de Processo Penal, bem como à preservação da integridade física e psíquica do autuado, adotando, nestes casos, as providências pertinentes à espécie; 3) não oferecer denúncia no ato da audiência de custódia, devendo aguardar a complementação das investigações e a distribuição do inquérito policial ao Juízo competente, quando então restará definido o Promotor de Justiça Natural com atribuições para o enfrentamento do mérito do fato investigado. Curitiba, 24 de maio de 2016. ARION ROLIM PEREIRA Corregedor-Geral